O tema das viagens no tempo habita as mentes dos escritores de ficção científica há décadas, mas ainda divide os grandes físicos quanto a sua possibilidade real e conseqüências. O velho paradoxo: e se eu voltasse no tempo e impedisse que meus avós se conhecessem? Apesar de não ser esse o tema central de Continuum (falaremos deste mais adiante) uma viagem no tempo é essencial para seu enredo – oriunda da Vancouver de 2077, a Protetora Kiera volta para 2012 durante a tentativa de fuga de um grupo de terroristas condenados à morte. Mesmo com toda a frieza incutida nela pelo treinamento de Protetora, Kiera logo entra em desespero ao perceber o que aconteceu: ela é a única ali com conhecimento sobre o grupo terrorista e sanguinário Liber8, além de ter deixado para trás marido e um filho. O Liber8 quer acabar com as corporações que acreditam são a origem de uma grande parte dos problemas da sociedade e de quase todos os problemas do povo. E se em 2012 já tivemos o que reclamar com os estilhaços da crise, em 2077 eles parecem ter mais ainda: tudo é dominado por uma empresa chamada SadTech, que cria um sistema opressivo para quem vive nele e massacrante para os que ficam de fora. Os inimigos de Kiera, responsáveis pela morte de milhares de pessoas, são sagazes e bem coordenados, sob o comando de Kagame, um brilhante senhor de idade, e tendo como membros Sonya, uma médica que trabalha com alterações genéticas; Lucas Ingram, um gênio da Engenharia; Kellog cuja função todos desconhecem e finalmente Garza e Travis, dois soldados “perfeitos” com alterações genéticas que os fazem rir de metade dos batalhões “de elite” atuais. O único contato de Kiera é Alec Sadler, criador do sistema de chip que todos os Protetores têm e figura importante em 2077 – mas em 2012, ele malmente passa de um adolescente. Alec consegue colocar Kiera dentro do departamento de polícia e ela começa a trabalhar com o detetive Carlos Fonnegra contra a Liber8, tarefa muito mais complicada do que eles poderiam imaginar. Série canadense, Continuum não deixa nada a dever em termos de produção aos seus pares americanos – não é uma loucura de efeitos especiais estilo Terra Nova, mas não dá vontade de rir do fogo falso como em Jogos Voraezes. A série é, na verdade, muito bem sucedida em utilizar os famosos arquétipos, conseguindo construir em Kiera e nas mulheres da Liber8 personagens femininas bem longe dos estereótipos. A evolução das coisas é um pouco lenta: Continuum se torna quase um peridural (aqueles seriados estilo CSI ou House – um caso por episódio) quando vemos cada capítulo da série ser focado em um problema causado pela Liber8, sem perder o grande conflito de vista. Não vi muito problema nisso, porém – como uma trilha de migalhas de pão, cada um desses pequenos conflitos é necessário para que Kiera encontre seu caminho de volta para casa. Os personagens vão sendo mais e mais construídos com o passar dos episódios, graças a flashbacks coerentes e bem distribuídos – nada daquelas sessões gigantescas de informação, ou o truque do “membro novo”. Cada temporada (são duas até agora) possui dez episódios – uma quantidade razoável e adequada e assisti quase todos em menos de uma semana. Mas a melhor coisa sobre Continuum não são os personagens, o enredo ou os efeitos especiais: é o fato de que eu não soube por quem torcer. Ao mesmo tempo que ficava felicíssima quando Kiera (que apesar de meio fria consegue criar empatia no espectador) conseguia impedir algumas mortes pelas mãos Liber8, sei que a causa deles está correta e é justa. É a velha questão: os fins justificam os meios? Matar agora em atentados terroristas para evitar mortes e vidas oprimidas graças as corporações no futuro vale a pena? E a grande pergunta mesmo entre os membros da Liber8: dá para fazer uma revolução sem violência? A questão é complexa demais, e apesar de não ser apresentada de forma direta, é através das ações do grupo e seus resultados. Um grande monte de interrogações, que até mesmo aqueles com sede de mudança não conseguiram apagar. Com elementos tão interessantes e sem enrolação, o resultado não podia ser outro: Continuum é viciante. Ai das minhas unhas... Ei, gostou da resenha? Então passa lá no meu blog: distopicamente.blogspot.com
Por algum tempo, séries de época para mim se resumiam naquelas que mostravam a ociosa (mas não entediante) vida das elites da época vitoriana. Ainda bem que o novelão Downton Abbey desmistificou isso na minha cabecinha, abrindo meus horizontes para produções que retratam épocas mais recentes e a classe operária – mas que não perdem a magia e sotaque bonito. Confesso que as adaptações de Jane Austen (com sua leve e quase imperceptível ironia) ainda ocupam o lugar número um no coração, mas o charme também é presente naquelas que retratam não as relações sociais da elite inglesa, e sim as mudanças – protagonizadas por gente de todo tipo e origem. As lojas de departamento fizeram parte da consolidação da cultura de consumo em praticamente todo o lugar, alterando a tradição e minando muitos pequenos comerciantes e seus exclusivos (mas de qualidade) produtos. Eu já havia começado a assistir Mr.Selfridge’s, que conta a história da abertura da primeira loja de departamentos em Londres (que existe até hoje) mas o andamento da série e seus personagens não me agradaram muito para passar do terceiro episódio. Aí achei The Paradise que, apesar de alguns defeitos, superou minhas expectativas. Denise Lovett é uma garota do interior da Inglaterra que cansa do tédio de sua cidade natal e vai para a cidade grande esperando trabalhar com seu tio, um talentoso alfaiate. O Sr.Lovett, porém, não pode acolhe-la: graças a loja de departamentos vizinha, The Paradise, os negócios vão mal – os preços e variedade do estabelecimento do selfmade man John Moray parecem atender mais a demanda dos clientes do que sua exclusividade e tradição. Não querendo voltar para casa, Denise vai atrás de emprego justamente na loja do “inimigo”, decisão que deixa seu tio triste por um período, mas não por muito tempo: ele percebe que a sua cidade de origem era, de fato, pequena demais para sua sobrinha. Denise logo se mostra uma vendedora habilidosa e cheia de idéias, com uma criatividade tão viva que atraí inveja de Clara, sua moderna e cheia de segredos colega de trabalho e até mesmo da Srta.Audrey, sua chefe de departamento organizada e dedicada, mas sem muita imaginação. Ela obviamente também não passa despercebida ao Sr.Moray, que logo percebe o seu potencial e inteligência. Um romance entre os dois é o óbvio e vai se desenvolvendo ao curso da série, mas fiquei bastante feliz em constatar que o assunto não toma, em nenhum momento, a cena do que acontece em The Paradise. Porque, obviamente, um romance patrão-empregada é muito pequeno se comparado a inovação louca e os problemas que aquele novo modelo de consumo traz: a elite resistente a mudanças é representada por Katherine Glendenning, a grande dama local, cortejada (e enrolada) por Moray há meses. Em uma atitude superior típica, Katherine se recusa a “apadrinhar” a loja (algo essencial para a conquista de clientes nas altas rodas) temerosa de que comprar ao lado da filha do açougueiro estrague sua imagem. Mas não só isso. Logo a órfã de mãe da alta sociedade percebe que pode usar a sua presença em The Paradise como um ardil para conquistar Moray de uma vez. E mais: com um imóvel alugado e quase sem possibilidade de expansão, Moray depende do banco do Sr.Glendenning para tornar The Paradise a grande loja para a qual tem potencial. Cada episódio apresenta um pequeno conflito a ser resolvido em The Paradise, além de seguir a linha comum da história. Os personagens secundários, outros funcionários da loja, são maneirissimos, bem construídos e com personalidade própria. Alguns seguem os arquétipos básicos, como Pauline, a moça engraçadinha e Sam, um rapaz charmoso que vive flertando com Denise, mas isso não chega a incomodar. Destaco aqui o Sr.Jonas, um funcionário da administração, que começa somente como uma figura macabra para os vendedores mas acaba crescendo em importância. Os mistérios de sua origem e dos seus métodos (ele defende The Paradise a todo custo) vão crescendo, um ótimo gancho que me faz querer assistir a segunda temporada. a luz de tais personagens secundários ofuscou, até mais ou menos o episódio cinco, o que eu não conseguia detectar como defeito da série: a falta de defeitos do casal principal, Denise e Moray. Sim, os dois pisam na bola com freqüência – afinal, assim não haveria nenhum tipo de conflito decente na série, certo? – mas sim por errinhos de percurso, não falhas de personalidade. Isso fez bastante falta quando o meu sentimento por Katherine Glendenning passou da pena à raiva, pois eu não conseguia equilibrar ela e seu vítima-algoz, Moray. É estranho, já que The Paradise é baseada em um romance de um famoso escritor que nunca li (mas com certeza acreditava nos tais tons de cinza ao invés de no preto-e-branco), Émile Zola. De qualquer maneira, fica aí a sinalização no meu calendário para a segunda temporada: quem diria que liquidações, fornecedores e preços poderiam render boas histórias? Gostou da resenha? Então faça uma blogueira feliz dando uma passadinha no meu blog distopicamente.blogspot.com :D
Quando se fala de filmes, livros, música, seriados, a linha que separa o “adorei!” da adoração é mais tênue do que se possa pensar. Black Mirror a cruzou. Fazer algo bom não é fácil, mas existem sete bilhões de pessoas no mundo com talento e suor suficientes para mais coisas maravilhosas do que jamais poderemos usufruir de. Já algo que desperte adoração deve ser milimetricamente calculado e ao mesmo tempo espontâneo. Algo genuíno, belo, maravilhoso. Black Mirror é tudo isso, e arrisco a dizer que a série curtinha de três episódios por temporada (cada um representando uma história isolada) não sai da minha cabeça desde que a assisti pela primeira vez. Geralmente quando se fala do poder exercido pela mídia sob nós não se sai muito do “a mídia aliena”. Particularmente detesto o termo “alienação” e todos os seus derivados – mesmo que eu esqueça momentaneamente (o que não ocorre) o seu uso em geral elitista, é complicado não aplicá-lo de forma arrogante. Ora, então você realmente sabe qual é a verdade e agora quer iluminar a todos nós? Black Mirror não teria ganho a minha adoração se não fosse muito mais fundo no tema – seus três episódios são três nuances da nossa relação com o quarto poder, e qualquer um que o assistir com atenção o suficiente verá seu comportamento representado, hora ou outra, nos personagens. No piloto, The National Anthem, o primeiro ministro britânico Michael Callow é acordado por seus assessores graças a uma vídeo ameaça. A vítima não poderia ser (politicamente para Callow, ao menos) pior: a princesa Susanne, popular com seus súditos por ter uma forte presença no Facebook. Raramente a segurança de nações poderosas deixa tais brechas, mas de qualquer maneira, uma princesa seqüestrada por um terrorista não é nada de extraordinário, certo? Espere até ouvir a barganha: em troca da vida de Susanne, o primeiro ministro deverá fazer sexo com um porco, transmitindo o ato em rede nacional. Rapidamente o vídeo da ameaça ganha a internet, e especulações são feitas. A dúvida se o ato ocorrerá ou não permeia o episódio, mas não é isso o mais fascinante, e sim a espetacularização de uma situação completamente absurda, coroada com um final pouquíssimo previsível e fantasticamente real. O universo do segundo episódio me deu uma invejinha criativa: como eu queria ter sido seu criador! Nele, a única ocupação para jovens fisicamente aptos é pedalar em bicicletas para a geração de energia, o dia inteiro acompanhados por programas e joguinhos – que são, aliás, a única forma de entretenimento deste planeta. Cada pedalada gera um determinado nível de créditos, utilizável para as coisas comuns, como comida, até outras como o direito de secar as mãos no banheiro. Mesmo com mais de quinze milhões de créditos em sua conta, Bing não liga muito para isso – as distrações que o sistema oferece não são muito interessantes para ele. Até que ele arruma um jeito de gastar essa bolada: ao ouvir a voz de anjo de Abi, uma menina bastante doce que acaba de começar a trabalhar, Bing se oferece para pagar a participação da garota no O popular, cruel show de talentos que é a única forma de ascensão social. 15 milhões de méritos critica a nossa sede insaciável por entretenimento, perpassando pela idiotização do mesmo – os jovens que engordam ou desenvolvem problemas de coração, por exemplo, viram faxineiros, ridicularizados por programas de TV e humilhados por seus pares. Além disso, o episódio mostra de forma quase cruel o ciclo vicioso em que nossa sociedade está fadada a viver, com trabalho incansável para comprar as mesmas porcarias que nos darão um prazer raso e passageiro, constantemente renovado para que não haja um só momento de reflexão. Melhor do que muito livro de filosofia. Todo mundo que já discutiu pelo MSN ou Facebook sabe: não é boa coisa ter registros desse tipo de situação. Como desculpas seriam válidas se as palavras estão escritas em algo quase tão duradouro como pedra? No terceiro episódio de Black Mirror, The Entire Story of you, esse probleminha ocasional da geração Z é elevado a um nível extremo. Liam é um advogado desempregado, com histórico de ciúmes, portador (como quase todos de seu mundo) do Grão, dispositivo que guarda todas as memórias do indivíduo em vídeo, em uma inteligente linha do tempo. Útil para resolução de crimes, um desastre para as relações interpessoais. Isso fica claro quando a esposa de Liam, Fion, se reencontra com um velho caso de verão. Aí a espiral de ciúmes começa, em um círculo doentio alimentado por velhas memórias e a sagacidade de advogado de Liam. Nada diferente do que ocorre desde que o mundo é mundo, mas aqui as certezas são absolutas, não há relativização e as mentiras doem mais. Tão bom quanto o segundo episódio, este critica o nosso hábito de viver no passado, tão presos há lembranças antigas que não há nenhum esforço em produzir novas. Esquecer é péssimo, mas lembrar demais também. O epitáfio de Matadouro cinco seria bastante útil aqui: “tudo era belo e nada doía”. Gosto de terminar posts com frases legais (que nem sempre soam legais fora da minha cabeça, mas enfim) só que nenhuma que me ocorre é boa o suficiente para Black Mirror. Minha última consideração: largue o que você estiver fazendo com sua vida e vá assistir essa fantástica série. AGORA. Publiquei essa resenha originalmente em distopicamente.blogspot.com , meu blog sobre filmes, séries e livros. Caso tenha gostado, não esqueça de visitar e nos seguir na página do Facebook (facebook.com/blogdistopicamente)!
Você pode até não gostar de novela, mas dizer que os populares dramas globais são mal-feitos é um pouquinho demais. Acompanho alguns seriados americanos e sou viciada em mini-séries de época britânicas, e posso dizer que os nossos equivalentes raramente deixam algo a dever em termos de produção – geralmente é ao contrário. Quando se fala de inovação da trama e qualidade do enredo, porém, novelas freqüentemente pecam – o que não é difícil, considerando que elas vão ao ar seis vezes por semana durante meses. Pelo risco de ver mais do mesmo, não me incomodo em acompanhar uma há alguns anos, mas os elogios freqüentes a produções nacionais mais curtas despertaram minha curiosidade. Resolvi começar por Sessão de terapia: franquia israelense de sucesso no mundo todo, veio ao Brasil com as devidas adaptações culturais e direção de Selton Mello, seguindo Theo, um terapeuta, na sua semana carregada de dores alheias. Rainer Maria Rilke dizia que o jovem poeta que não consegue encontrar poesia em seu cotidiano deve culpar a si, e não à rotina. Essa premissa é bastante seguida em Sessão de terapia: embora alguns dos pacientes possuam problemas que não se encontra em qualquer esquina, a maioria sofre de males pouco extraordinários, que encantam exatamente por sua falta de ineditismo. As segundas-feiras, Theo atende Júlia, uma médica bonita e com várias questões em seu relacionamento – casar ou não casar com seu namorado de longa data, eis a questão? Por isso ela acaba desenvolvendo um caso do que Theo se refere como “transferência” – é óbvia desde os primeiros minutos de sua consulta a sua atração por seu terapeuta. Na terça, conhecemos Breno, um atirador de elite talentoso e arrogante que, ao assassinar um traficante, atinge por acaso uma criança. O que já seria problemático por si só revela muito para Breno sobre seu próprio caráter – dúvidas sobre sua sexualidade e a falta de autonomia sobre suas próprias decisões vem à tona rapidamente logo na primeira sessão. Breno é o personagem mais detestável – ninguém gosta de um dono da verdade – mas me pareceu o mais complexo e, até agora, o meu favorito. Quarta-feira é o dia de Nina, uma ginasta de quinze anos que sofreu um acidente de bicicleta e agora necessita de um laudo para atestar sua sanidade mental – a companhia de seguro do carro que a atropelou está convencida de que a menina tem tendências suicidas, não querendo assim pagar a indenização que custearia seu tratamento – algo essencial para sua rápida convalesça e sua volta à ginástica. Nina apresenta uma postura birrenta e infantil, decidida a somente pegar o laudo e nunca mais voltar à terapia, escudo que vai se esvaindo a medida que seus problemas familiares vão se revelando. Quinta-feira é o dia de uma terapia de casal: Ana, uma gerente publicitária bem sucedida, e João, um ator desempregado. Depois do primeiro filho, foram cinco anos exaustivos e mal-sucedidos de tratamento de fertilidade, abandonado por conselho médico. Um ano depois, quando Ana está terminando de se recuperar de não ter conseguido, o filho vem – mas não é mais tão desejado assim. Para Ana, abortar é óbvio, para João, não só um crime, como um assassinato. E finalmente na sexta temos a terapia do próprio terapeuta, com sua conhecida de longa data Dora. O que parecia no princípio uma conversa civilizada vai revelando aos poucos um rancor por muito tempo destilado, só superado pela necessidade crescente de Theo de ajuda – lidar com seus pacientes (quase sempre esquivos ou hostis – é difícil revelar-se a outrem, mesmo que essa pessoa seja um profissional contratado e preparado para lhe ajudar) fica cada vez mais difícil. Em Sessão de terapia, vemos que até mesmo os problemas mais complexos têm raízes simples, e a magia na série vem desse elemento cotidiano muitas vezes ausente na ficção. Cada episódio é uma aula de como estruturar um bom dialogo, com elementos que dão uma profundidade e aproximam os personagens do espectador de tal maneira que é difícil convencer-se de que eles não são reais. Praticamente não existem cenas externas ao consultório de Theo, mas é difícil ficar entediado. Publicada originalmente em distopicamente.blogspot.com
Emily Owens MD mexeu com dois aspectos que há muito me intrigavam na ficção. O primeiro deles é o nível de segurança que os chamados “adultos” parecem ter. Como assim não existem dúvidas e crises sobre si depois dos vinte e cinco? Emily, uma médica no seu primeiro ano de internato (feito lá na terra do tio Sam somente após quatro anos de universidade e três de pós-graduação) sabe muito bem disso. Uma típica “nerd” durante a escola e a faculdade, ela agora ingressa no Denver Hospital, com uma pontinha de orgulho por ter conseguido ser uma das poucas a ingressar no programa com a Dra. Gina Bandari, uma cirurgiã de ponta. Eis que a tal “vida adulta” não é tão diferente da escola como Emily esperava: há a garota má (Cassandra, sua ex-colega de classe), a quedinha (Will, um de seus melhores amigos) e até a professora assustadora (a própria Dra.Bandari). Além disso, a própria Emily mudou muito pouco, com a mesma insegurança, lealdade e gentileza que, de vez em quando, a colocam em situações hilárias. Falando em gentileza, é esse o segundo aspecto que há muito me intrigava: Emily é a primeira médica da televisão que realmente se importa com os pacientes. É claro que, a sua maneira, House também o fazia, mas não se envolvia de uma maneira tão direta e emocional como a Dra.Owens. Ela os ama, genuinamente, com reações de partir o coração para cada decisão mal tomada. Isso é um problema para quem tem que lidar com a morte diariamente? Sim. É fascinante? Também. Mais realista do que muitas séries (como a supracitada House) Emily e seus colegas trabalham com vários casos por episódio, o que não os tornam menos interessantes. Não são exceções da medicina ou coisas do tipo, mas os doentes tem panos de fundo (familiares e pessoais) tão inteligentemente montados que não dá para não se envolver. É aquela coisa: muitos ficcionistas não dão atenção o suficiente para os personagens secundários, perdendo a complexidade imensa que eles poderiam apresentar. Falando em complexidade: apesar de parecerem bem clichêzinhos, os colegas e amigos de Emily são, na verdade, muito bons. Sim, de vez em quando os roteiristas caem naquele hábito de contar em conversas super emocionais e inoportunas, e não realmente mostrá-los agindo, mas não é tão freqüente assim, então relevemos. Aqui, o princípio de Walt Disney (para cada lágrima, uma risada) é seguido a risca, e enquanto me emocionei com os pacientes de Emily, ri com sua falta de jeito na vida pessoal. Emily Owens MD, na real, só tem um defeito: foi cancelada. No décimo terceiro episódio, com um final que não foi exatamente, bem, um final. Meio estranho – como séries péssimas duram temporadas e temporadas e uma tão legal não? Mesmo com parcos 13 episódios, a série não deixa de valer a pena. Publicada originalmente em distopicamente.blogspot.com . Acesse para mais resenhas!
Hesito um pouco ao escrever sobre The Borgias. Não que este drama seja uma série ruim, mas porque os requintes da crueldade dos personagens é tamanho que é impossível não se chocar um pouco. Assim como qualquer pessoa que está no poder (e quer se manter nele) os Bórgias mentem, roubam e matam pessoas como quem mata formigas ao pisar no chão – e tudo isso tendo o Vaticano como pano de fundo. Sim, é meio desagradável – mas continua sendo uma série fantástica. Em 1492, o cardeal Rodrigo Bórgia é escolhido como papa. Mas é óbvio que toda a audiência de The Borgias não se deve as infinitas demonstrações de amor do santo padre em questão, e sim justamente pelo contrário – sua eleição, completamente forjada no primeiro, dá uma ideia bem clara do que vem por aí. Um espanhol mal-falado, cheio de filhos e que publicamente admite manter uma “cocunbina” (que nos tempos modernos seria considerada esposa) Rodrigo Bórgia obviamente não foi eleito por amor de seus irmãos cardeais. Na complicada tarefa de introduzir tentativas de suborno para os membros do conclave ele tem ajuda de seu primogênito, Cesare – um bispo de índole tão duvidosa que foi a inspiração de Maquiavel no seu famoso livro O príncipe. Maquiavel que, aliás, se faz presente no seriado em um dos seus melhores aspectos: o retrato de personalidades históricas. É bem comum em produções que retratam a História com h maiúsculo a admissão de que os espectadores já a conhecem. Aqui, isso não é feito, apresentando o panorama do Vaticano e do mundo na época de uma maneira tão didática que você dificilmente diria que está aprendendo.E esse tal panorama é bastante importante: o agora papa Alexander Sixtus (não, não é spoiler – acontece no primeiro episódio) percebe que seu cargo é muito mais político do que religioso, envolvendo-se em um emaranhado de guerras, reis e príncipes. Problemas internos também representam uma pedra no seu sapato – a maior delas é o honroso cardeal Della Rovere, que crê ser Bórgia um homem vil demais para o papado. Usando como justificativa os seus inúmeros filhos, mulher e uma amante bem nascida, o cardeal prova ser um dos personagens mais corajosos que já vi ao sair pela Europa buscando apoio à derrubada de Alexander Sixtus, arriscando-se cair nas perigosas mãos de Cesare. Embora este último tenha sido imortalizado por Maquiavel, é Lucrezia Bórgia que mais desperta a atenção de cineastas e escritores. No início me perguntei por quê: a garota de catorze anos não passava de uma princesa em uma torre, a ser resgatada por seu muito afetivo irmão e sem grandes atrativos além de sua beleza. Depois de ser continuamente maltratada por seu marido (um nobre com quem casou por necessidade de mais homens no exército papal), é operada em Lucrezia uma mudança ímpar, que a torna tão sagaz quanto Cesare e sedutora como seu pai. Porque, como é insinuado, não é o Vaticano, e sim a família Bórgia que ocupa um papel central no enredo. Embora Rodrigo Bórgia tenha tido vários filhos, além dos supracitados, só acrescemos Juan, um rapaz desmiolado destinado pelo pai à guerra assim como seu irmão foi destinado à igreja. Para a carreira eclesiástica nenhum dos dois apresentava talento, mas para a militar fica logo claro que Cesare tinha de estar no seu lugar – e, mais do que isso, queria. Coloque na mistura a mãe, uma mulher com orgulho ferido ao ver o homem por quem tudo abandonou (inclusive os princípios religiosos que, por incrível que pareça, se fazem presentes de vez em quando) exibindo-se publicamente com a amante: voilá, temos The Borgias. A produção é impecável, com uma preocupação enorme e riqueza de detalhes com caracterização e cenários. Embora o papa Alexander Sixtus dos livros de História tenha me soado diferente, não reclamo, ao contrário de muitos, da atuação de seu interprete – e nem de nenhum dos outros. É impressionante a lista de obras ficcionais nas quais a família Bórgia figura – e não é para menos: a “primeira família criminosa” tinha bastante o que contar. Acesse o meu blog para mais resenhas: distopicamente.blogspot.com
É difícil falar sobre as coisas que você gosta muito. Por maior que seja o seu vocabulário, a única coisa que se consegue pensar é: “porra, isso é muito bom!”. OK, mas eu vou tentar. Assisti a primeira temporada (composta de seis episódios de 45 minutos) de My mad fat diary em dois dias. Não sou muito de fazer maratonas de seriados, mas eu queria saber o que iria acontecer com Rae – a protagonista apaixonada por música e (de uma maneira meio estranha) pela vida me encantou, alçando aquele patamar de que me preocupei com seu futuro não como um personagem ficcional, mas como uma pessoa de verdade, uma amiga. É cômico, mas é verdade – e um dos maiores elogios que se pode fazer a ficção. Em meados dos anos 90, Rae, de dezesseis anos, acaba de levar alta do hospital psiquiátrico onde passou quatro meses graças a uma tentativa de suicídio. Como o título da série diz, Rae é gorda – as cinco letras, sem eufemismos nem inhas – e seus problemas com sua auto-imagem levaram-na ao extremo. Agora acompanhada de um diário, onde escreve cada um de seus desejos, planos e pensamentos, Rae tem a dificílima missão de começar de novo. É uma mania bem grande das séries mainstream americanas “enfeitar” um pouquinho as coisas – sejam os relacionamentos, seja o que se põe na tela. Meu primeiro elogio vai aí: além de ser gorda “de verdade” (e não uma magrela de ossos grandes ou usuária de tamanho 40 com enchimentos) Rae não tem papas na língua, como geralmente se é em um diário. Há algum tempo eu havia me posto a comparar meus próprios com aqueles de ficção, e mesmo que eu não guarde grandes segredos ou tenha aquela vergonha mortificante de alguma coisa, nunca ponho nada tão bonitinho quanto Mia Thermopolis. É algo íntimo, com as conseqüências de tal. Nele, Rae oscila entre a esperança de uma felicidade plena e o risco de cair de novo nos abismos da depressão, com um bom humor louvável no primeiro caso e uma tristeza profunda e genuína no segundo. Esses “enfeites” não só são da linguagem e do corpo dos atores, mas também das relações interpessoais. A mãe de Rae (que a criou sozinha) é amorosa e preocupada, mas não tem a resposta para tudo, frases de efeito em momentos difíceis e comete erros homéricos as vezes. Antes de ir para o hospital, Rae tinha basicamente uma amiga – a lindíssima Chloe – e a relação delas não é aquele estilo conte-comigo-para-sempre bonitinho: povoada de inveja ocasional e acusações mútuas, se aproxima bastante da realidade. Afinal, qual de nós está isento de ouvir ou falar “você é um amigo de merda de vez em quando”? Acreditando que a ausência dos últimos meses se deveu a uma viagem à França, Chloe apresenta Rae a seus novos amigos: Archie, obcecado por música e bonitinho; Finn, o calado; Izzie, uma garota fofissima e Chop, o palhaço. Levando uma vida dupla com a nova turma, a terapia e as visitas ao hospital, Rae tenta ao máximo se encaixar, ser “normal” – mas sobretudo, descobrir o que “normal” significa. Nas minhas andanças no Facebook, me deparei com um artigo d’O globo sobre a chamada sick-lit – a literatura que tem como protagonistas adolescentes com problemas como depressão, transtornos alimentares, câncer etc. Sob uma ótica completamente desfavorável, a reportagem era tendenciosa quanto a dizer que a “sick-lit” é ruim, influenciando jovens a desenvolver os tais problemas. Compreendo a desconfiança: Os sofrimentos do jovem Werther, por exemplo, foi gatilho para o suicídio de muitos na época de seu lançamento, sendo proibida a sua impressão em vários países por tal. Mas acho completamente ingênuo acreditar que alguém desenvolverá algum tipo de doença somente por causa de um livro, sem possuir algum problema anterior. Falando agora pela “sick-lit” (ponho em aspas porque não gosto muito do termo) contemporânea, acredito piamente que ela pode inclusive ser um auxílio, não só para aqueles com problemas sérios, mas para os que têm problemas cotidianos. Rae não se define só por sua depressão, mas também por seus problemas banais e cotidianos. Se ela consegue superá-los, porque o espectador não conseguiria? My mad fat diary é como um doce: comi rápido demais, e agora me arrependo de não ter guardado mais para depois – até 2014, Rae. Acesse meu blog, o distopicamente.blogspot.com para mais resenhas!
O filme As melhores coisas do mundo foi o estopim que modificou meu conceito de filme para adolescentes. Primeiro porque é nacional, algo raríssimo no gênero. Segundo porque foge bastante aos clichês, tanto no enredo quanto no elenco – é bom ver personagens adolescentes sendo feitos por atores adolescentes, e não por aqueles que há muito passaram desta fase. Conversando com uma amiga sobre isso, porém, ela apontou algo estranho: o tanto de coisas que acontecem a Mano, o protagonista, ao mesmo tempo. Isso chamou minha atenção para uma tendência nessas obras que retratam o crescer de forma sensível. Sim, um de nós pode eventualmente descobrir que o pai é gay, que o irmão tem depressão, a irmã está grávida, a namorada tem câncer, perder um amigo tragicamente – e provavelmente uma dessas coisas vai acontecer, além de milhares de outras variantes não tão adequadas ou artisticamente interessantes – mas vários desses itens ao mesmo tempo? É mais do que um ser humano pode agüentar. Isso sem falar daqueles que são mais irreais ainda – a maior parte de nós não é rico feito a Gossip girl e seus temas de fofoca, desregrado feito os personagens de Skins muito menos possui poderes sobrenaturais. Não é que eu não goste dessas histórias, mas de vez em quando é bom uma dose cavalar de realidade, um trabalho de ficção que não se baseie em um ou mais eventos ruins, e sim aquelas situações cotidianas de quem cresce. Aí eu achei The inbetweeners. Depois de uma vida inteira em escolas particulares, Will vai a uma das temidas Comprehensive Schools – uma escola pública inglesa. Enquanto a vida do garoto pode ter ficado difícil em termos acadêmicos, a mudança de início não parece ser grande em termos sociais: vítima de chacota a vida inteira, ser perseguido pelo valentão não é grande coisa. Com o tempo e um pouco de insistência, ele acha seu grupo – nem os “nerds”, nem os “populares”, os “inbetweeners”, pessoas sem nada em especial que os caracterize como uma panelinha. Dos três novos amigos de Will, Simon é o mais sensato – apaixonado por Carli, filha de amigos do pai, desde a infância, são incontáveis as suas gafes tentando impressionar a garota. A paixonite é bem engraçadinha, e nada exagerada: Simon tem vida, personalidade e anseios além de Carli, tirando a série da perigosa zona “você é o ar que eu respiro, fulana/o”. Essa tendência das obras Young Adult é compreensível, mas cansa. Sim, uma parcela considerável dos adolescentes vai chegar aos dezoito com um histórico de pelo menos um relacionamento estilo Bella/Edward, mas aqueles um pouco mais sensatos precisam ser representados também. Neil fica “fora de órbita” o tempo quase inteiro, sendo, dos quatro, o que menos se importa com “ser legal” – e acaba se dando bem freqüentemente por isso. Na primeira temporada, vemos bem pouco dele (provavelmente por esse aspecto desligado) mas espero que sua personalidade se desenvolva no futuro. Já Jay é o imbecil do grupo, e confesso que muitas vezes pensei em parar de assistir a série por causa dele. É muita imbecilidade para um personagem só! No quinto episódio da primeira temporada, porém, Freud explica, e Jay foi (quase) perdoado. A narração de Will é bastante inteligente e despretensiosa, me lembrando um pouco Oliver Tate de Submarino. A série é leve e engraçada, sem eventos irreais demais e com o fator vergonha alheia no alto. Como a maior parte dos seriados britânicos, tem poucos episódios – cerca de seis por temporada (são três) com vinte e cinco minutos de duração – o que, pela primeira vez, me fez não gostar desse traço nacional das séries da terra da rainha: eu bem que poderia lidar com um pouquinho mais de The inbetweeners. Acesse distopicamente.blogspot.com para mais resenhas!
O que The Following fez para conquistar tantos fãs? Bom, para mim foi amor a primeira vista graças ao enredo. (...) Não consegui, em nenhum momento, gostar de Ryan Hardy. Mas não desgostei também: um mocinho trágico, tem a sua história escrita com sangue de entes queridos. Nada foi sua culpa, claro, mas o tormento continua sendo o mesmo. Simplesmente chato – não chato o suficiente para estragar a série, felizmente. Mas poderia reduzir bastante a sua qualidade se não fosse pelos personagens secundários. Começando pelo lado dos bonzinhos, temos o agente Weston e a agente Parks, encarregados do caso ao lado de Ryan. O primeiro é o típico sidekick adorável, bastante inteligente e sempre preocupado em fazer a coisa certa – mas que quebra a monotonia em se mostrar bastante humano diante de situações extremas. É na agente Parks que acho que residiu um dos maiores erros da série: ela merecia mais atenção. Mais algumas toneladas. Especialista em cultos, o seu objeto de estudo se relaciona com seu passado, e mais alguns flashbacks do mesmo cairiam bem. Foi o suficiente para entender de onde ela tira tamanho conhecimento de causa e determinação, mas não para satisfazer a minha curiosidade. Com o passar dos episódios, o culto de Caroll se mostra maior e mais organizado do que as estimativas mais pessimistas, e alguns dos seus seguidores ganham destaque. Paul e Jacob, introduzidos logo no começo, dedicaram anos de sua vida a Caroll, aflorando os piores lados das respectivas personalidades (a coisa do serial killer adormecido) e guardando segredos só muito secretos na perspectiva distorcida de seus colegas de culto. Ao contrário de boa parte do fandom, não sou lá muito chegada em Emma, parceira mais próxima dos dois: é uma personagem bastante complexa e com certeza uma das seguidoras mais apaixonadas, mas não passa muito disso. Conforme os episódios vão passando, aumenta a tensão: o reinado de mortes e ataques do culto não pode continuar. Mas como capturar algo tão ineditamente organizado, com membros tão dedicados que o culto já faz parte de suas vidas? Reclamações são várias a falta de verossimilhança – o FBI de verdade nunca demoraria tanto tempo assim para acabar com isso – mas a complexidade da situação e do culto em si é, para mim, uma boa justificativa. Os criadores de The Following arrumaram para si um grande problema – grande estilo Lost – ao colocar um final enigmático, difícil de ser continuado com lógica. Pensei um pouco depois da season finale (o episódio de número quinze – relativamente curto para séries americanas, outro ponto positivo) e resolvi depositar minha confiança: o seriado que me estarreceu semana após semana, me fazendo ansiar pelo próximo especulando a continuação com certeza pode me dar uma ótima segunda temporada. Leia essa e outras resenhas na íntegra em distopicamente.blogspot.com
(...) A primeira série que realmente assisti foi Lost – minha mãe costumava comprar os DVDs (entulhados no armário da sala até hoje) e fazíamos maratonas no final de semana. Gostei do formato de uma história contada em vários episódios de quarenta minutos ao invés de somente em duas horinhas, e realmente me apaixonei por todo aquele mistério, os personagens, a ilha. Mas mesmo para alguém com pouquíssima experiência em seriados era óbvia a enorme confusão em que os produtores estavam metidos: como explicar todos aqueles fenômenos loucos sem uma desculpinha estúpida? Temi quanto a isso com Les Revenants, mas o caráter eminentemente sobrenatural da série a salvou. Mas não foi só isso: ao contrário de Lost (que perdeu um pouco da qualidade lá pela quarta temporada) Les Revenants é impecável do início ao fim. Não há um só ator ruim no elenco, com destaques para a intérprete de Lena – que encarna perfeitamente uma adolescente obviamente confusa pela volta da irmã – e de Adéle. Duas jóias vindas da França que eu nunca havia ouvido falar, mas que prestarei mais atenção no futuro. Até porque para cumprir o proposto pelo enredo era obviamente necessário uma dose forte de emoção. Embora o mistério cative e prenda de uma forma que me fez assistir os oito episódios em cerca de um final de semana, não é esse o sustentáculo de Les Revenants, e sim as reações dos personagens. Se lidar com a morte de um ente querido é difícil, imagine com a sua volta? Os personagens religiosos da série aceitam isso de forma melhor, como era de se esperar, mas só a reação dos renascidos já seria o suficiente – a solidão e deslocamento são quase palpáveis. Não é terror, é um suspense psicológico dos bons. Pouco a pouco, outros personagens são introduzidos – renascidos ou não – e outros mistérios também. Não há explicação racional (ou até mesmo dentro do universo paranormal da série) para nenhum dos fenômenos, mas isso não fez muita falta – ao menos não para mim. Les Revenants foi renovado para mais uma temporada, e será importado para os Estados Unidos com uma versão que provavelmente se chamará Rebound. Ambas as coisas (segunda temporada e versão americana) são daquele tipo que podem dar maravilhosamente certo ou epicamente errado – afinal, não é exatamente fácil se equilibrar na corda bamba entre mistério sobrenatural e historinhas de zumbis. Leia esta resenha na íntegra e outras em distopicamente.blogspot.com
Este site usa cookies para oferecer a melhor experiência possível. Ao navegar em nosso site, você concorda com o uso de cookies.
Se você precisar de mais informações e / ou não quiser que os cookies sejam colocados ao usar o site, visite a página da Política de Privacidade
Continuum (1ª Temporada)
4.0 94 Assista AgoraO tema das viagens no tempo habita as mentes dos escritores de ficção científica há décadas, mas ainda divide os grandes físicos quanto a sua possibilidade real e conseqüências. O velho paradoxo: e se eu voltasse no tempo e impedisse que meus avós se conhecessem?
Apesar de não ser esse o tema central de Continuum (falaremos deste mais adiante) uma viagem no tempo é essencial para seu enredo – oriunda da Vancouver de 2077, a Protetora Kiera volta para 2012 durante a tentativa de fuga de um grupo de terroristas condenados à morte. Mesmo com toda a frieza incutida nela pelo treinamento de Protetora, Kiera logo entra em desespero ao perceber o que aconteceu: ela é a única ali com conhecimento sobre o grupo terrorista e sanguinário Liber8, além de ter deixado para trás marido e um filho.
O Liber8 quer acabar com as corporações que acreditam são a origem de uma grande parte dos problemas da sociedade e de quase todos os problemas do povo. E se em 2012 já tivemos o que reclamar com os estilhaços da crise, em 2077 eles parecem ter mais ainda: tudo é dominado por uma empresa chamada SadTech, que cria um sistema opressivo para quem vive nele e massacrante para os que ficam de fora.
Os inimigos de Kiera, responsáveis pela morte de milhares de pessoas, são sagazes e bem coordenados, sob o comando de Kagame, um brilhante senhor de idade, e tendo como membros Sonya, uma médica que trabalha com alterações genéticas; Lucas Ingram, um gênio da Engenharia; Kellog cuja função todos desconhecem e finalmente Garza e Travis, dois soldados “perfeitos” com alterações genéticas que os fazem rir de metade dos batalhões “de elite” atuais.
O único contato de Kiera é Alec Sadler, criador do sistema de chip que todos os Protetores têm e figura importante em 2077 – mas em 2012, ele malmente passa de um adolescente. Alec consegue colocar Kiera dentro do departamento de polícia e ela começa a trabalhar com o detetive Carlos Fonnegra contra a Liber8, tarefa muito mais complicada do que eles poderiam imaginar.
Série canadense, Continuum não deixa nada a dever em termos de produção aos seus pares americanos – não é uma loucura de efeitos especiais estilo Terra Nova, mas não dá vontade de rir do fogo falso como em Jogos Voraezes. A série é, na verdade, muito bem sucedida em utilizar os famosos arquétipos, conseguindo construir em Kiera e nas mulheres da Liber8 personagens femininas bem longe dos estereótipos.
A evolução das coisas é um pouco lenta: Continuum se torna quase um peridural (aqueles seriados estilo CSI ou House – um caso por episódio) quando vemos cada capítulo da série ser focado em um problema causado pela Liber8, sem perder o grande conflito de vista. Não vi muito problema nisso, porém – como uma trilha de migalhas de pão, cada um desses pequenos conflitos é necessário para que Kiera encontre seu caminho de volta para casa.
Os personagens vão sendo mais e mais construídos com o passar dos episódios, graças a flashbacks coerentes e bem distribuídos – nada daquelas sessões gigantescas de informação, ou o truque do “membro novo”. Cada temporada (são duas até agora) possui dez episódios – uma quantidade razoável e adequada e assisti quase todos em menos de uma semana.
Mas a melhor coisa sobre Continuum não são os personagens, o enredo ou os efeitos especiais: é o fato de que eu não soube por quem torcer. Ao mesmo tempo que ficava felicíssima quando Kiera (que apesar de meio fria consegue criar empatia no espectador) conseguia impedir algumas mortes pelas mãos Liber8, sei que a causa deles está correta e é justa. É a velha questão: os fins justificam os meios? Matar agora em atentados terroristas para evitar mortes e vidas oprimidas graças as corporações no futuro vale a pena? E a grande pergunta mesmo entre os membros da Liber8: dá para fazer uma revolução sem violência?
A questão é complexa demais, e apesar de não ser apresentada de forma direta, é através das ações do grupo e seus resultados. Um grande monte de interrogações, que até mesmo aqueles com sede de mudança não conseguiram apagar.
Com elementos tão interessantes e sem enrolação, o resultado não podia ser outro: Continuum é viciante. Ai das minhas unhas...
Ei, gostou da resenha? Então passa lá no meu blog: distopicamente.blogspot.com
The Paradise (1ª Temporada)
4.2 31Por algum tempo, séries de época para mim se resumiam naquelas que mostravam a ociosa (mas não entediante) vida das elites da época vitoriana.
Ainda bem que o novelão Downton Abbey desmistificou isso na minha cabecinha, abrindo meus horizontes para produções que retratam épocas mais recentes e a classe operária – mas que não perdem a magia e sotaque bonito.
Confesso que as adaptações de Jane Austen (com sua leve e quase imperceptível ironia) ainda ocupam o lugar número um no coração, mas o charme também é presente naquelas que retratam não as relações sociais da elite inglesa, e sim as mudanças – protagonizadas por gente de todo tipo e origem.
As lojas de departamento fizeram parte da consolidação da cultura de consumo em praticamente todo o lugar, alterando a tradição e minando muitos pequenos comerciantes e seus exclusivos (mas de qualidade) produtos. Eu já havia começado a assistir Mr.Selfridge’s, que conta a história da abertura da primeira loja de departamentos em Londres (que existe até hoje) mas o andamento da série e seus personagens não me agradaram muito para passar do terceiro episódio. Aí achei The Paradise que, apesar de alguns defeitos, superou minhas expectativas.
Denise Lovett é uma garota do interior da Inglaterra que cansa do tédio de sua cidade natal e vai para a cidade grande esperando trabalhar com seu tio, um talentoso alfaiate. O Sr.Lovett, porém, não pode acolhe-la: graças a loja de departamentos vizinha, The Paradise, os negócios vão mal – os preços e variedade do estabelecimento do selfmade man John Moray parecem atender mais a demanda dos clientes do que sua exclusividade e tradição.
Não querendo voltar para casa, Denise vai atrás de emprego justamente na loja do “inimigo”, decisão que deixa seu tio triste por um período, mas não por muito tempo: ele percebe que a sua cidade de origem era, de fato, pequena demais para sua sobrinha. Denise logo se mostra uma vendedora habilidosa e cheia de idéias, com uma criatividade tão viva que atraí inveja de Clara, sua moderna e cheia de segredos colega de trabalho e até mesmo da Srta.Audrey, sua chefe de departamento organizada e dedicada, mas sem muita imaginação.
Ela obviamente também não passa despercebida ao Sr.Moray, que logo percebe o seu potencial e inteligência. Um romance entre os dois é o óbvio e vai se desenvolvendo ao curso da série, mas fiquei bastante feliz em constatar que o assunto não toma, em nenhum momento, a cena do que acontece em The Paradise.
Porque, obviamente, um romance patrão-empregada é muito pequeno se comparado a inovação louca e os problemas que aquele novo modelo de consumo traz: a elite resistente a mudanças é representada por Katherine Glendenning, a grande dama local, cortejada (e enrolada) por Moray há meses. Em uma atitude superior típica, Katherine se recusa a “apadrinhar” a loja (algo essencial para a conquista de clientes nas altas rodas) temerosa de que comprar ao lado da filha do açougueiro estrague sua imagem.
Mas não só isso. Logo a órfã de mãe da alta sociedade percebe que pode usar a sua presença em The Paradise como um ardil para conquistar Moray de uma vez. E mais: com um imóvel alugado e quase sem possibilidade de expansão, Moray depende do banco do Sr.Glendenning para tornar The Paradise a grande loja para a qual tem potencial.
Cada episódio apresenta um pequeno conflito a ser resolvido em The Paradise, além de seguir a linha comum da história. Os personagens secundários, outros funcionários da loja, são maneirissimos, bem construídos e com personalidade própria. Alguns seguem os arquétipos básicos, como Pauline, a moça engraçadinha e Sam, um rapaz charmoso que vive flertando com Denise, mas isso não chega a incomodar. Destaco aqui o Sr.Jonas, um funcionário da administração, que começa somente como uma figura macabra para os vendedores mas acaba crescendo em importância. Os mistérios de sua origem e dos seus métodos (ele defende The Paradise a todo custo) vão crescendo, um ótimo gancho que me faz querer assistir a segunda temporada.
a luz de tais personagens secundários ofuscou, até mais ou menos o episódio cinco, o que eu não conseguia detectar como defeito da série: a falta de defeitos do casal principal, Denise e Moray. Sim, os dois pisam na bola com freqüência – afinal, assim não haveria nenhum tipo de conflito decente na série, certo? – mas sim por errinhos de percurso, não falhas de personalidade. Isso fez bastante falta quando o meu sentimento por Katherine Glendenning passou da pena à raiva, pois eu não conseguia equilibrar ela e seu vítima-algoz, Moray. É estranho, já que The Paradise é baseada em um romance de um famoso escritor que nunca li (mas com certeza acreditava nos tais tons de cinza ao invés de no preto-e-branco), Émile Zola.
De qualquer maneira, fica aí a sinalização no meu calendário para a segunda temporada: quem diria que liquidações, fornecedores e preços poderiam render boas histórias?
Gostou da resenha? Então faça uma blogueira feliz dando uma passadinha no meu blog distopicamente.blogspot.com :D
Black Mirror (1ª Temporada)
4.4 1,3K Assista AgoraQuando se fala de filmes, livros, música, seriados, a linha que separa o “adorei!” da adoração é mais tênue do que se possa pensar. Black Mirror a cruzou.
Fazer algo bom não é fácil, mas existem sete bilhões de pessoas no mundo com talento e suor suficientes para mais coisas maravilhosas do que jamais poderemos usufruir de. Já algo que desperte adoração deve ser milimetricamente calculado e ao mesmo tempo espontâneo. Algo genuíno, belo, maravilhoso. Black Mirror é tudo isso, e arrisco a dizer que a série curtinha de três episódios por temporada (cada um representando uma história isolada) não sai da minha cabeça desde que a assisti pela primeira vez.
Geralmente quando se fala do poder exercido pela mídia sob nós não se sai muito do “a mídia aliena”. Particularmente detesto o termo “alienação” e todos os seus derivados – mesmo que eu esqueça momentaneamente (o que não ocorre) o seu uso em geral elitista, é complicado não aplicá-lo de forma arrogante. Ora, então você realmente sabe qual é a verdade e agora quer iluminar a todos nós?
Black Mirror não teria ganho a minha adoração se não fosse muito mais fundo no tema – seus três episódios são três nuances da nossa relação com o quarto poder, e qualquer um que o assistir com atenção o suficiente verá seu comportamento representado, hora ou outra, nos personagens.
No piloto, The National Anthem, o primeiro ministro britânico Michael Callow é acordado por seus assessores graças a uma vídeo ameaça. A vítima não poderia ser (politicamente para Callow, ao menos) pior: a princesa Susanne, popular com seus súditos por ter uma forte presença no Facebook.
Raramente a segurança de nações poderosas deixa tais brechas, mas de qualquer maneira, uma princesa seqüestrada por um terrorista não é nada de extraordinário, certo? Espere até ouvir a barganha: em troca da vida de Susanne, o primeiro ministro deverá fazer sexo com um porco, transmitindo o ato em rede nacional. Rapidamente o vídeo da ameaça ganha a internet, e especulações são feitas.
A dúvida se o ato ocorrerá ou não permeia o episódio, mas não é isso o mais fascinante, e sim a espetacularização de uma situação completamente absurda, coroada com um final pouquíssimo previsível e fantasticamente real.
O universo do segundo episódio me deu uma invejinha criativa: como eu queria ter sido seu criador! Nele, a única ocupação para jovens fisicamente aptos é pedalar em bicicletas para a geração de energia, o dia inteiro acompanhados por programas e joguinhos – que são, aliás, a única forma de entretenimento deste planeta. Cada pedalada gera um determinado nível de créditos, utilizável para as coisas comuns, como comida, até outras como o direito de secar as mãos no banheiro.
Mesmo com mais de quinze milhões de créditos em sua conta, Bing não liga muito para isso – as distrações que o sistema oferece não são muito interessantes para ele. Até que ele arruma um jeito de gastar essa bolada: ao ouvir a voz de anjo de Abi, uma menina bastante doce que acaba de começar a trabalhar, Bing se oferece para pagar a participação da garota no O popular, cruel show de talentos que é a única forma de ascensão social.
15 milhões de méritos critica a nossa sede insaciável por entretenimento, perpassando pela idiotização do mesmo – os jovens que engordam ou desenvolvem problemas de coração, por exemplo, viram faxineiros, ridicularizados por programas de TV e humilhados por seus pares. Além disso, o episódio mostra de forma quase cruel o ciclo vicioso em que nossa sociedade está fadada a viver, com trabalho incansável para comprar as mesmas porcarias que nos darão um prazer raso e passageiro, constantemente renovado para que não haja um só momento de reflexão. Melhor do que muito livro de filosofia.
Todo mundo que já discutiu pelo MSN ou Facebook sabe: não é boa coisa ter registros desse tipo de situação. Como desculpas seriam válidas se as palavras estão escritas em algo quase tão duradouro como pedra? No terceiro episódio de Black Mirror, The Entire Story of you, esse probleminha ocasional da geração Z é elevado a um nível extremo.
Liam é um advogado desempregado, com histórico de ciúmes, portador (como quase todos de seu mundo) do Grão, dispositivo que guarda todas as memórias do indivíduo em vídeo, em uma inteligente linha do tempo. Útil para resolução de crimes, um desastre para as relações interpessoais.
Isso fica claro quando a esposa de Liam, Fion, se reencontra com um velho caso de verão. Aí a espiral de ciúmes começa, em um círculo doentio alimentado por velhas memórias e a sagacidade de advogado de Liam. Nada diferente do que ocorre desde que o mundo é mundo, mas aqui as certezas são absolutas, não há relativização e as mentiras doem mais.
Tão bom quanto o segundo episódio, este critica o nosso hábito de viver no passado, tão presos há lembranças antigas que não há nenhum esforço em produzir novas. Esquecer é péssimo, mas lembrar demais também. O epitáfio de Matadouro cinco seria bastante útil aqui: “tudo era belo e nada doía”.
Gosto de terminar posts com frases legais (que nem sempre soam legais fora da minha cabeça, mas enfim) só que nenhuma que me ocorre é boa o suficiente para Black Mirror. Minha última consideração: largue o que você estiver fazendo com sua vida e vá assistir essa fantástica série. AGORA.
Publiquei essa resenha originalmente em distopicamente.blogspot.com , meu blog sobre filmes, séries e livros. Caso tenha gostado, não esqueça de visitar e nos seguir na página do Facebook (facebook.com/blogdistopicamente)!
Sessão de Terapia (1ª Temporada)
4.2 147Você pode até não gostar de novela, mas dizer que os populares dramas globais são mal-feitos é um pouquinho demais. Acompanho alguns seriados americanos e sou viciada em mini-séries de época britânicas, e posso dizer que os nossos equivalentes raramente deixam algo a dever em termos de produção – geralmente é ao contrário.
Quando se fala de inovação da trama e qualidade do enredo, porém, novelas freqüentemente pecam – o que não é difícil, considerando que elas vão ao ar seis vezes por semana durante meses. Pelo risco de ver mais do mesmo, não me incomodo em acompanhar uma há alguns anos, mas os elogios freqüentes a produções nacionais mais curtas despertaram minha curiosidade.
Resolvi começar por Sessão de terapia: franquia israelense de sucesso no mundo todo, veio ao Brasil com as devidas adaptações culturais e direção de Selton Mello, seguindo Theo, um terapeuta, na sua semana carregada de dores alheias.
Rainer Maria Rilke dizia que o jovem poeta que não consegue encontrar poesia em seu cotidiano deve culpar a si, e não à rotina. Essa premissa é bastante seguida em Sessão de terapia: embora alguns dos pacientes possuam problemas que não se encontra em qualquer esquina, a maioria sofre de males pouco extraordinários, que encantam exatamente por sua falta de ineditismo.
As segundas-feiras, Theo atende Júlia, uma médica bonita e com várias questões em seu relacionamento – casar ou não casar com seu namorado de longa data, eis a questão? Por isso ela acaba desenvolvendo um caso do que Theo se refere como “transferência” – é óbvia desde os primeiros minutos de sua consulta a sua atração por seu terapeuta.
Na terça, conhecemos Breno, um atirador de elite talentoso e arrogante que, ao assassinar um traficante, atinge por acaso uma criança. O que já seria problemático por si só revela muito para Breno sobre seu próprio caráter – dúvidas sobre sua sexualidade e a falta de autonomia sobre suas próprias decisões vem à tona rapidamente logo na primeira sessão. Breno é o personagem mais detestável – ninguém gosta de um dono da verdade – mas me pareceu o mais complexo e, até agora, o meu favorito.
Quarta-feira é o dia de Nina, uma ginasta de quinze anos que sofreu um acidente de bicicleta e agora necessita de um laudo para atestar sua sanidade mental – a companhia de seguro do carro que a atropelou está convencida de que a menina tem tendências suicidas, não querendo assim pagar a indenização que custearia seu tratamento – algo essencial para sua rápida convalesça e sua volta à ginástica. Nina apresenta uma postura birrenta e infantil, decidida a somente pegar o laudo e nunca mais voltar à terapia, escudo que vai se esvaindo a medida que seus problemas familiares vão se revelando.
Quinta-feira é o dia de uma terapia de casal: Ana, uma gerente publicitária bem sucedida, e João, um ator desempregado. Depois do primeiro filho, foram cinco anos exaustivos e mal-sucedidos de tratamento de fertilidade, abandonado por conselho médico. Um ano depois, quando Ana está terminando de se recuperar de não ter conseguido, o filho vem – mas não é mais tão desejado assim. Para Ana, abortar é óbvio, para João, não só um crime, como um assassinato.
E finalmente na sexta temos a terapia do próprio terapeuta, com sua conhecida de longa data Dora. O que parecia no princípio uma conversa civilizada vai revelando aos poucos um rancor por muito tempo destilado, só superado pela necessidade crescente de Theo de ajuda – lidar com seus pacientes (quase sempre esquivos ou hostis – é difícil revelar-se a outrem, mesmo que essa pessoa seja um profissional contratado e preparado para lhe ajudar) fica cada vez mais difícil.
Em Sessão de terapia, vemos que até mesmo os problemas mais complexos têm raízes simples, e a magia na série vem desse elemento cotidiano muitas vezes ausente na ficção. Cada episódio é uma aula de como estruturar um bom dialogo, com elementos que dão uma profundidade e aproximam os personagens do espectador de tal maneira que é difícil convencer-se de que eles não são reais.
Praticamente não existem cenas externas ao consultório de Theo, mas é difícil ficar entediado.
Publicada originalmente em distopicamente.blogspot.com
Emily Owens M.D. (1ª Temporada)
4.2 78Emily Owens MD mexeu com dois aspectos que há muito me intrigavam na ficção.
O primeiro deles é o nível de segurança que os chamados “adultos” parecem ter. Como assim não existem dúvidas e crises sobre si depois dos vinte e cinco? Emily, uma médica no seu primeiro ano de internato (feito lá na terra do tio Sam somente após quatro anos de universidade e três de pós-graduação) sabe muito bem disso. Uma típica “nerd” durante a escola e a faculdade, ela agora ingressa no Denver Hospital, com uma pontinha de orgulho por ter conseguido ser uma das poucas a ingressar no programa com a Dra. Gina Bandari, uma cirurgiã de ponta.
Eis que a tal “vida adulta” não é tão diferente da escola como Emily esperava: há a garota má (Cassandra, sua ex-colega de classe), a quedinha (Will, um de seus melhores amigos) e até a professora assustadora (a própria Dra.Bandari). Além disso, a própria Emily mudou muito pouco, com a mesma insegurança, lealdade e gentileza que, de vez em quando, a colocam em situações hilárias.
Falando em gentileza, é esse o segundo aspecto que há muito me intrigava: Emily é a primeira médica da televisão que realmente se importa com os pacientes. É claro que, a sua maneira, House também o fazia, mas não se envolvia de uma maneira tão direta e emocional como a Dra.Owens. Ela os ama, genuinamente, com reações de partir o coração para cada decisão mal tomada. Isso é um problema para quem tem que lidar com a morte diariamente? Sim. É fascinante? Também.
Mais realista do que muitas séries (como a supracitada House) Emily e seus colegas trabalham com vários casos por episódio, o que não os tornam menos interessantes. Não são exceções da medicina ou coisas do tipo, mas os doentes tem panos de fundo (familiares e pessoais) tão inteligentemente montados que não dá para não se envolver. É aquela coisa: muitos ficcionistas não dão atenção o suficiente para os personagens secundários, perdendo a complexidade imensa que eles poderiam apresentar.
Falando em complexidade: apesar de parecerem bem clichêzinhos, os colegas e amigos de Emily são, na verdade, muito bons. Sim, de vez em quando os roteiristas caem naquele hábito de contar em conversas super emocionais e inoportunas, e não realmente mostrá-los agindo, mas não é tão freqüente assim, então relevemos. Aqui, o princípio de Walt Disney (para cada lágrima, uma risada) é seguido a risca, e enquanto me emocionei com os pacientes de Emily, ri com sua falta de jeito na vida pessoal.
Emily Owens MD, na real, só tem um defeito: foi cancelada. No décimo terceiro episódio, com um final que não foi exatamente, bem, um final. Meio estranho – como séries péssimas duram temporadas e temporadas e uma tão legal não? Mesmo com parcos 13 episódios, a série não deixa de valer a pena.
Publicada originalmente em distopicamente.blogspot.com . Acesse para mais resenhas!
Os Bórgias (1ª Temporada)
4.3 130 Assista AgoraHesito um pouco ao escrever sobre The Borgias. Não que este drama seja uma série ruim, mas porque os requintes da crueldade dos personagens é tamanho que é impossível não se chocar um pouco. Assim como qualquer pessoa que está no poder (e quer se manter nele) os Bórgias mentem, roubam e matam pessoas como quem mata formigas ao pisar no chão – e tudo isso tendo o Vaticano como pano de fundo.
Sim, é meio desagradável – mas continua sendo uma série fantástica.
Em 1492, o cardeal Rodrigo Bórgia é escolhido como papa. Mas é óbvio que toda a audiência de The Borgias não se deve as infinitas demonstrações de amor do santo padre em questão, e sim justamente pelo contrário – sua eleição, completamente forjada no primeiro, dá uma ideia bem clara do que vem por aí.
Um espanhol mal-falado, cheio de filhos e que publicamente admite manter uma “cocunbina” (que nos tempos modernos seria considerada esposa) Rodrigo Bórgia obviamente não foi eleito por amor de seus irmãos cardeais. Na complicada tarefa de introduzir tentativas de suborno para os membros do conclave ele tem ajuda de seu primogênito, Cesare – um bispo de índole tão duvidosa que foi a inspiração de Maquiavel no seu famoso livro O príncipe. Maquiavel que, aliás, se faz presente no seriado em um dos seus melhores aspectos: o retrato de personalidades históricas.
É bem comum em produções que retratam a História com h maiúsculo a admissão de que os espectadores já a conhecem. Aqui, isso não é feito, apresentando o panorama do Vaticano e do mundo na época de uma maneira tão didática que você dificilmente diria que está aprendendo.E esse tal panorama é bastante importante: o agora papa Alexander Sixtus (não, não é spoiler – acontece no primeiro episódio) percebe que seu cargo é muito mais político do que religioso, envolvendo-se em um emaranhado de guerras, reis e príncipes. Problemas internos também representam uma pedra no seu sapato – a maior delas é o honroso cardeal Della Rovere, que crê ser Bórgia um homem vil demais para o papado. Usando como justificativa os seus inúmeros filhos, mulher e uma amante bem nascida, o cardeal prova ser um dos personagens mais corajosos que já vi ao sair pela Europa buscando apoio à derrubada de Alexander Sixtus, arriscando-se cair nas perigosas mãos de Cesare.
Embora este último tenha sido imortalizado por Maquiavel, é Lucrezia Bórgia que mais desperta a atenção de cineastas e escritores. No início me perguntei por quê: a garota de catorze anos não passava de uma princesa em uma torre, a ser resgatada por seu muito afetivo irmão e sem grandes atrativos além de sua beleza. Depois de ser continuamente maltratada por seu marido (um nobre com quem casou por necessidade de mais homens no exército papal), é operada em Lucrezia uma mudança ímpar, que a torna tão sagaz quanto Cesare e sedutora como seu pai.
Porque, como é insinuado, não é o Vaticano, e sim a família Bórgia que ocupa um papel central no enredo. Embora Rodrigo Bórgia tenha tido vários filhos, além dos supracitados, só acrescemos Juan, um rapaz desmiolado destinado pelo pai à guerra assim como seu irmão foi destinado à igreja. Para a carreira eclesiástica nenhum dos dois apresentava talento, mas para a militar fica logo claro que Cesare tinha de estar no seu lugar – e, mais do que isso, queria. Coloque na mistura a mãe, uma mulher com orgulho ferido ao ver o homem por quem tudo abandonou (inclusive os princípios religiosos que, por incrível que pareça, se fazem presentes de vez em quando) exibindo-se publicamente com a amante: voilá, temos The Borgias.
A produção é impecável, com uma preocupação enorme e riqueza de detalhes com caracterização e cenários. Embora o papa Alexander Sixtus dos livros de História tenha me soado diferente, não reclamo, ao contrário de muitos, da atuação de seu interprete – e nem de nenhum dos outros.
É impressionante a lista de obras ficcionais nas quais a família Bórgia figura – e não é para menos: a “primeira família criminosa” tinha bastante o que contar.
Acesse o meu blog para mais resenhas: distopicamente.blogspot.com
My Mad Fat Diary (1ªTemporada)
4.7 474É difícil falar sobre as coisas que você gosta muito. Por maior que seja o seu vocabulário, a única coisa que se consegue pensar é: “porra, isso é muito bom!”.
OK, mas eu vou tentar.
Assisti a primeira temporada (composta de seis episódios de 45 minutos) de My mad fat diary em dois dias. Não sou muito de fazer maratonas de seriados, mas eu queria saber o que iria acontecer com Rae – a protagonista apaixonada por música e (de uma maneira meio estranha) pela vida me encantou, alçando aquele patamar de que me preocupei com seu futuro não como um personagem ficcional, mas como uma pessoa de verdade, uma amiga. É cômico, mas é verdade – e um dos maiores elogios que se pode fazer a ficção.
Em meados dos anos 90, Rae, de dezesseis anos, acaba de levar alta do hospital psiquiátrico onde passou quatro meses graças a uma tentativa de suicídio. Como o título da série diz, Rae é gorda – as cinco letras, sem eufemismos nem inhas – e seus problemas com sua auto-imagem levaram-na ao extremo. Agora acompanhada de um diário, onde escreve cada um de seus desejos, planos e pensamentos, Rae tem a dificílima missão de começar de novo.
É uma mania bem grande das séries mainstream americanas “enfeitar” um pouquinho as coisas – sejam os relacionamentos, seja o que se põe na tela. Meu primeiro elogio vai aí: além de ser gorda “de verdade” (e não uma magrela de ossos grandes ou usuária de tamanho 40 com enchimentos) Rae não tem papas na língua, como geralmente se é em um diário. Há algum tempo eu havia me posto a comparar meus próprios com aqueles de ficção, e mesmo que eu não guarde grandes segredos ou tenha aquela vergonha mortificante de alguma coisa, nunca ponho nada tão bonitinho quanto Mia Thermopolis. É algo íntimo, com as conseqüências de tal. Nele, Rae oscila entre a esperança de uma felicidade plena e o risco de cair de novo nos abismos da depressão, com um bom humor louvável no primeiro caso e uma tristeza profunda e genuína no segundo.
Esses “enfeites” não só são da linguagem e do corpo dos atores, mas também das relações interpessoais. A mãe de Rae (que a criou sozinha) é amorosa e preocupada, mas não tem a resposta para tudo, frases de efeito em momentos difíceis e comete erros homéricos as vezes.
Antes de ir para o hospital, Rae tinha basicamente uma amiga – a lindíssima Chloe – e a relação delas não é aquele estilo conte-comigo-para-sempre bonitinho: povoada de inveja ocasional e acusações mútuas, se aproxima bastante da realidade. Afinal, qual de nós está isento de ouvir ou falar “você é um amigo de merda de vez em quando”?
Acreditando que a ausência dos últimos meses se deveu a uma viagem à França, Chloe apresenta Rae a seus novos amigos: Archie, obcecado por música e bonitinho; Finn, o calado; Izzie, uma garota fofissima e Chop, o palhaço. Levando uma vida dupla com a nova turma, a terapia e as visitas ao hospital, Rae tenta ao máximo se encaixar, ser “normal” – mas sobretudo, descobrir o que “normal” significa.
Nas minhas andanças no Facebook, me deparei com um artigo d’O globo sobre a chamada sick-lit – a literatura que tem como protagonistas adolescentes com problemas como depressão, transtornos alimentares, câncer etc. Sob uma ótica completamente desfavorável, a reportagem era tendenciosa quanto a dizer que a “sick-lit” é ruim, influenciando jovens a desenvolver os tais problemas.
Compreendo a desconfiança: Os sofrimentos do jovem Werther, por exemplo, foi gatilho para o suicídio de muitos na época de seu lançamento, sendo proibida a sua impressão em vários países por tal. Mas acho completamente ingênuo acreditar que alguém desenvolverá algum tipo de doença somente por causa de um livro, sem possuir algum problema anterior. Falando agora pela “sick-lit” (ponho em aspas porque não gosto muito do termo) contemporânea, acredito piamente que ela pode inclusive ser um auxílio, não só para aqueles com problemas sérios, mas para os que têm problemas cotidianos. Rae não se define só por sua depressão, mas também por seus problemas banais e cotidianos. Se ela consegue superá-los, porque o espectador não conseguiria?
My mad fat diary é como um doce: comi rápido demais, e agora me arrependo de não ter guardado mais para depois – até 2014, Rae.
Acesse meu blog, o distopicamente.blogspot.com para mais resenhas!
The Inbetweeners (1ª Temporada)
3.9 41O filme As melhores coisas do mundo foi o estopim que modificou meu conceito de filme para adolescentes. Primeiro porque é nacional, algo raríssimo no gênero. Segundo porque foge bastante aos clichês, tanto no enredo quanto no elenco – é bom ver personagens adolescentes sendo feitos por atores adolescentes, e não por aqueles que há muito passaram desta fase.
Conversando com uma amiga sobre isso, porém, ela apontou algo estranho: o tanto de coisas que acontecem a Mano, o protagonista, ao mesmo tempo. Isso chamou minha atenção para uma tendência nessas obras que retratam o crescer de forma sensível. Sim, um de nós pode eventualmente descobrir que o pai é gay, que o irmão tem depressão, a irmã está grávida, a namorada tem câncer, perder um amigo tragicamente – e provavelmente uma dessas coisas vai acontecer, além de milhares de outras variantes não tão adequadas ou artisticamente interessantes – mas vários desses itens ao mesmo tempo? É mais do que um ser humano pode agüentar.
Isso sem falar daqueles que são mais irreais ainda – a maior parte de nós não é rico feito a Gossip girl e seus temas de fofoca, desregrado feito os personagens de Skins muito menos possui poderes sobrenaturais. Não é que eu não goste dessas histórias, mas de vez em quando é bom uma dose cavalar de realidade, um trabalho de ficção que não se baseie em um ou mais eventos ruins, e sim aquelas situações cotidianas de quem cresce.
Aí eu achei The inbetweeners.
Depois de uma vida inteira em escolas particulares, Will vai a uma das temidas Comprehensive Schools – uma escola pública inglesa. Enquanto a vida do garoto pode ter ficado difícil em termos acadêmicos, a mudança de início não parece ser grande em termos sociais: vítima de chacota a vida inteira, ser perseguido pelo valentão não é grande coisa.
Com o tempo e um pouco de insistência, ele acha seu grupo – nem os “nerds”, nem os “populares”, os “inbetweeners”, pessoas sem nada em especial que os caracterize como uma panelinha.
Dos três novos amigos de Will, Simon é o mais sensato – apaixonado por Carli, filha de amigos do pai, desde a infância, são incontáveis as suas gafes tentando impressionar a garota. A paixonite é bem engraçadinha, e nada exagerada: Simon tem vida, personalidade e anseios além de Carli, tirando a série da perigosa zona “você é o ar que eu respiro, fulana/o”. Essa tendência das obras Young Adult é compreensível, mas cansa. Sim, uma parcela considerável dos adolescentes vai chegar aos dezoito com um histórico de pelo menos um relacionamento estilo Bella/Edward, mas aqueles um pouco mais sensatos precisam ser representados também.
Neil fica “fora de órbita” o tempo quase inteiro, sendo, dos quatro, o que menos se importa com “ser legal” – e acaba se dando bem freqüentemente por isso. Na primeira temporada, vemos bem pouco dele (provavelmente por esse aspecto desligado) mas espero que sua personalidade se desenvolva no futuro.
Já Jay é o imbecil do grupo, e confesso que muitas vezes pensei em parar de assistir a série por causa dele. É muita imbecilidade para um personagem só! No quinto episódio da primeira temporada, porém, Freud explica, e Jay foi (quase) perdoado.
A narração de Will é bastante inteligente e despretensiosa, me lembrando um pouco Oliver Tate de Submarino. A série é leve e engraçada, sem eventos irreais demais e com o fator vergonha alheia no alto. Como a maior parte dos seriados britânicos, tem poucos episódios – cerca de seis por temporada (são três) com vinte e cinco minutos de duração – o que, pela primeira vez, me fez não gostar desse traço nacional das séries da terra da rainha: eu bem que poderia lidar com um pouquinho mais de The inbetweeners.
Acesse distopicamente.blogspot.com para mais resenhas!
The Following (1ª Temporada)
4.0 947O que The Following fez para conquistar tantos fãs? Bom, para mim foi amor a primeira vista graças ao enredo.
(...)
Não consegui, em nenhum momento, gostar de Ryan Hardy. Mas não desgostei também: um mocinho trágico, tem a sua história escrita com sangue de entes queridos. Nada foi sua culpa, claro, mas o tormento continua sendo o mesmo. Simplesmente chato – não chato o suficiente para estragar a série, felizmente.
Mas poderia reduzir bastante a sua qualidade se não fosse pelos personagens secundários. Começando pelo lado dos bonzinhos, temos o agente Weston e a agente Parks, encarregados do caso ao lado de Ryan. O primeiro é o típico sidekick adorável, bastante inteligente e sempre preocupado em fazer a coisa certa – mas que quebra a monotonia em se mostrar bastante humano diante de situações extremas.
É na agente Parks que acho que residiu um dos maiores erros da série: ela merecia mais atenção. Mais algumas toneladas. Especialista em cultos, o seu objeto de estudo se relaciona com seu passado, e mais alguns flashbacks do mesmo cairiam bem. Foi o suficiente para entender de onde ela tira tamanho conhecimento de causa e determinação, mas não para satisfazer a minha curiosidade.
Com o passar dos episódios, o culto de Caroll se mostra maior e mais organizado do que as estimativas mais pessimistas, e alguns dos seus seguidores ganham destaque. Paul e Jacob, introduzidos logo no começo, dedicaram anos de sua vida a Caroll, aflorando os piores lados das respectivas personalidades (a coisa do serial killer adormecido) e guardando segredos só muito secretos na perspectiva distorcida de seus colegas de culto. Ao contrário de boa parte do fandom, não sou lá muito chegada em Emma, parceira mais próxima dos dois: é uma personagem bastante complexa e com certeza uma das seguidoras mais apaixonadas, mas não passa muito disso.
Conforme os episódios vão passando, aumenta a tensão: o reinado de mortes e ataques do culto não pode continuar. Mas como capturar algo tão ineditamente organizado, com membros tão dedicados que o culto já faz parte de suas vidas? Reclamações são várias a falta de verossimilhança – o FBI de verdade nunca demoraria tanto tempo assim para acabar com isso – mas a complexidade da situação e do culto em si é, para mim, uma boa justificativa.
Os criadores de The Following arrumaram para si um grande problema – grande estilo Lost – ao colocar um final enigmático, difícil de ser continuado com lógica. Pensei um pouco depois da season finale (o episódio de número quinze – relativamente curto para séries americanas, outro ponto positivo) e resolvi depositar minha confiança: o seriado que me estarreceu semana após semana, me fazendo ansiar pelo próximo especulando a continuação com certeza pode me dar uma ótima segunda temporada.
Leia essa e outras resenhas na íntegra em distopicamente.blogspot.com
Les Revenants: A Volta dos Mortos (1ª Temporada)
4.5 318(...)
A primeira série que realmente assisti foi Lost – minha mãe costumava comprar os DVDs (entulhados no armário da sala até hoje) e fazíamos maratonas no final de semana. Gostei do formato de uma história contada em vários episódios de quarenta minutos ao invés de somente em duas horinhas, e realmente me apaixonei por todo aquele mistério, os personagens, a ilha.
Mas mesmo para alguém com pouquíssima experiência em seriados era óbvia a enorme confusão em que os produtores estavam metidos: como explicar todos aqueles fenômenos loucos sem uma desculpinha estúpida? Temi quanto a isso com Les Revenants, mas o caráter eminentemente sobrenatural da série a salvou.
Mas não foi só isso: ao contrário de Lost (que perdeu um pouco da qualidade lá pela quarta temporada) Les Revenants é impecável do início ao fim. Não há um só ator ruim no elenco, com destaques para a intérprete de Lena – que encarna perfeitamente uma adolescente obviamente confusa pela volta da irmã – e de Adéle. Duas jóias vindas da França que eu nunca havia ouvido falar, mas que prestarei mais atenção no futuro.
Até porque para cumprir o proposto pelo enredo era obviamente necessário uma dose forte de emoção. Embora o mistério cative e prenda de uma forma que me fez assistir os oito episódios em cerca de um final de semana, não é esse o sustentáculo de Les Revenants, e sim as reações dos personagens. Se lidar com a morte de um ente querido é difícil, imagine com a sua volta? Os personagens religiosos da série aceitam isso de forma melhor, como era de se esperar, mas só a reação dos renascidos já seria o suficiente – a solidão e deslocamento são quase palpáveis. Não é terror, é um suspense psicológico dos bons.
Pouco a pouco, outros personagens são introduzidos – renascidos ou não – e outros mistérios também. Não há explicação racional (ou até mesmo dentro do universo paranormal da série) para nenhum dos fenômenos, mas isso não fez muita falta – ao menos não para mim.
Les Revenants foi renovado para mais uma temporada, e será importado para os Estados Unidos com uma versão que provavelmente se chamará Rebound. Ambas as coisas (segunda temporada e versão americana) são daquele tipo que podem dar maravilhosamente certo ou epicamente errado – afinal, não é exatamente fácil se equilibrar na corda bamba entre mistério sobrenatural e historinhas de zumbis.
Leia esta resenha na íntegra e outras em distopicamente.blogspot.com