Somando voz às críticas: os diálogos são extremamente bobos e simplistas, beirando o ridículo em diversas passagens. Na primeira cena de sexo (fora a suruba) exibida, o cara manda um "eu te amo. Eu não consigo viver sem você. Acho que encontrei minha alma gêmea. Não paro de pensar em você". POR FAVOR, mais respeito. Nem na pior novela da Globo enfiam uma sequência tão tosca de declarações de amor banais. Agora sobre as simplificações e distorções da realidade: Verônica se formou em medicina. Quando isso aconteceu, ela não estava num hospital, cheia de plantões, já vestindo branco há pelo menos três anos e atendendo pacientes - como todos os estudantes de medicina brasileiros que estão prestes a se formar. Não. Verônica, personagem de um filme que se pretende realista, estava numa sala de aula convencional, fazendo uma provinha com mais 40 alunos, e essa provinha era a última do curso de medicina. Antes disso, ela nunca entrara num hospital senão como paciente, o que fica muito claro numa das falas mais fracas do filme, uma confissão ao pai que é mais ou menos assim: "agora não são livros e professores. É gente de verdade na minha frente". Ora, mas que surpresa, Verônica. Que baque! E do nada! Sério, não dá pra respeitar um filme que se vale de tantas adaptações da realidade, e ainda mais pra passar uma mensagem tão superficial como essa: ai, a vida real é tão dura. Poderia ter sido exploradado qualquer dilema mais esférico da transição estudo-trabalho. E de preferência sem uma diferença abismal entre essas fases. Mas não, tudo em "eu, paciente de mim mesma" é raso. O recurso do gravador, que já é bem apelativo, poderia ao menos ser bem utilizado, afinal é quase um diário. Esperamos reflexões e questionamentos profundos - ou no mínimo consistentes - a respeito da autodeclarada "crise" de Verônica, mas o que ouvimos é "por que tenho um coração de pedra?". Porra, Verônica! Coração de Pedra? Até em desenho animado aboliram essa metáfora pobre. Se esse filme é poético, é da poesia mais barata.
Pra evitar qualquer injustiça no julgamento desse filme é preciso entender que ele não é uma tradução cinematográfica do livro de Tolstoi, mas uma possível leitura da obra. E uma leitura muito bonita, por sinal. É óbvio que ao escolher Keira Knightley para o papel de Karenina, uma personagem que, no livro, tem como principal característica a beleza estonteante e a presença encantadora, Joe Whright mostra que a fidelidade ao original de Tolstoi não é sua principal preocupação. E acho pertinente que não seja. É uma escolha válida e que permite a exploração de outros elementos, seja a fotografia, o figurino ou trilha sonora. Como não se encantar com a forma fluida e inusitada que é usada para substituir os antiquados cortes de uma cena a outra? A pluri-utilização do espaço do teatro, seja do palco, da plateia, das coxias ou corredores é um desafio à noção espacial do espectador e um constante estímulo à sua imaginação. Claro que é preciso citar que o enredo ficou prejudicado, que a grandeza de nenhum dos personagens é fielmente retratada, que muitas das reflexões filosóficas de Tolstoi foram olvidadas. Mas poderia ser diferente, diante dessa obra? Esses são critérios razoáveis quanto se trata de Tolstoi, e logo de Anna Karenina? Retratar a complexidade de uma obra como essa é possível através de meios cinematográficos? Já vi a versão de russa de 1967, umas das pretensamente mais fieis, e não acredito que seja justo compará-la, de fato, ao livro. Seja ou não, fiquei satisfeita com o resultado deste filme, que não é nenhuma obra-prima, mas é bem bonito e agradável. É o que ele se propõe a ser.
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Era Uma Vez Eu, Verônica
3.5 197Somando voz às críticas: os diálogos são extremamente bobos e simplistas, beirando o ridículo em diversas passagens. Na primeira cena de sexo (fora a suruba) exibida, o cara manda um "eu te amo. Eu não consigo viver sem você. Acho que encontrei minha alma gêmea. Não paro de pensar em você". POR FAVOR, mais respeito. Nem na pior novela da Globo enfiam uma sequência tão tosca de declarações de amor banais.
Agora sobre as simplificações e distorções da realidade: Verônica se formou em medicina. Quando isso aconteceu, ela não estava num hospital, cheia de plantões, já vestindo branco há pelo menos três anos e atendendo pacientes - como todos os estudantes de medicina brasileiros que estão prestes a se formar. Não. Verônica, personagem de um filme que se pretende realista, estava numa sala de aula convencional, fazendo uma provinha com mais 40 alunos, e essa provinha era a última do curso de medicina. Antes disso, ela nunca entrara num hospital senão como paciente, o que fica muito claro numa das falas mais fracas do filme, uma confissão ao pai que é mais ou menos assim: "agora não são livros e professores. É gente de verdade na minha frente". Ora, mas que surpresa, Verônica. Que baque! E do nada!
Sério, não dá pra respeitar um filme que se vale de tantas adaptações da realidade, e ainda mais pra passar uma mensagem tão superficial como essa: ai, a vida real é tão dura. Poderia ter sido exploradado qualquer dilema mais esférico da transição estudo-trabalho. E de preferência sem uma diferença abismal entre essas fases.
Mas não, tudo em "eu, paciente de mim mesma" é raso. O recurso do gravador, que já é bem apelativo, poderia ao menos ser bem utilizado, afinal é quase um diário. Esperamos reflexões e questionamentos profundos - ou no mínimo consistentes - a respeito da autodeclarada "crise" de Verônica, mas o que ouvimos é "por que tenho um coração de pedra?". Porra, Verônica! Coração de Pedra? Até em desenho animado aboliram essa metáfora pobre.
Se esse filme é poético, é da poesia mais barata.
Anna Karenina
3.7 1,2KPra evitar qualquer injustiça no julgamento desse filme é preciso entender que ele não é uma tradução cinematográfica do livro de Tolstoi, mas uma possível leitura da obra. E uma leitura muito bonita, por sinal.
É óbvio que ao escolher Keira Knightley para o papel de Karenina, uma personagem que, no livro, tem como principal característica a beleza estonteante e a presença encantadora, Joe Whright mostra que a fidelidade ao original de Tolstoi não é sua principal preocupação. E acho pertinente que não seja. É uma escolha válida e que permite a exploração de outros elementos, seja a fotografia, o figurino ou trilha sonora. Como não se encantar com a forma fluida e inusitada que é usada para substituir os antiquados cortes de uma cena a outra? A pluri-utilização do espaço do teatro, seja do palco, da plateia, das coxias ou corredores é um desafio à noção espacial do espectador e um constante estímulo à sua imaginação.
Claro que é preciso citar que o enredo ficou prejudicado, que a grandeza de nenhum dos personagens é fielmente retratada, que muitas das reflexões filosóficas de Tolstoi foram olvidadas. Mas poderia ser diferente, diante dessa obra? Esses são critérios razoáveis quanto se trata de Tolstoi, e logo de Anna Karenina? Retratar a complexidade de uma obra como essa é possível através de meios cinematográficos? Já vi a versão de russa de 1967, umas das pretensamente mais fieis, e não acredito que seja justo compará-la, de fato, ao livro.
Seja ou não, fiquei satisfeita com o resultado deste filme, que não é nenhuma obra-prima, mas é bem bonito e agradável. É o que ele se propõe a ser.