"Iniciou-se a luta pela separação, pela particularização, pela personalidade, pelo “teu” e pelo “meu”. Começaram a falar várias línguas. Conheceram a dor e tomaram-lhe o gosto; ansiavam pelo sofrimento e diziam que a verdade só se comprava pelo preço do martírio.Depois surgiu a ciência. Como se tinham tornado maus, deram em falar de fraternidade e de humanidade, e compreendiam estas ideias. Como se tinham tornado criminosos, inventaram a justiça e redigiram códigos para a encerrarem neles, e, para assegurar o cumprimento desses códigos, ergueram a guilhotina. Mal se recordavam daquilo que tinham perdido e não queriam acreditar que alguma vez tivessem sido inocentes e felizes. Riam-se até da possibilidade dessa sua felicidade passada e tachavam-na de sonho fantástico. Nem sequer podiam fazer uma ideia desse estado, e acontecia, além disso, uma coisa estranha: agora que tinham perdido toda a fé na felicidade pretérita e a classificavam de fantasia, empenhavam-se a tal ponto a voltar a ser inocente se felizes que se ajoelhavam como crianças ante os desejos dos seus corações;adoravam esses desejos, erguiam-lhes templos e oravam à sua própria ideia,ao seu próprio “querer”, ao mesmo tempo que continuavam a acreditar, com uma convicção inabalável, na possibilidade de cumprirem e realizar essa ideia,apenas de implorarem por ela de joelhos. E, no entanto... se pudesse ter-se dado o caso de voltarem outra vez àquele inocente e venturoso estado que perderam; se alguém os tivesse consultado, perguntando-lhes: “Quereis voltar a ele?”, ter-lhes-iam respondido resolutamente que não."
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O Sonho de um Homem Ridículo
4.5 139"Iniciou-se a luta pela separação, pela particularização, pela personalidade, pelo “teu” e pelo “meu”. Começaram a falar várias línguas. Conheceram a dor e tomaram-lhe o gosto; ansiavam pelo sofrimento e diziam que a verdade só se comprava pelo preço do martírio.Depois surgiu a ciência. Como se tinham tornado maus, deram em falar de fraternidade e de humanidade, e compreendiam estas ideias. Como se tinham tornado criminosos, inventaram a justiça e redigiram códigos para a encerrarem neles, e, para assegurar o cumprimento desses códigos, ergueram a guilhotina. Mal se recordavam daquilo que tinham perdido e não queriam acreditar que alguma vez tivessem sido inocentes e felizes. Riam-se até da possibilidade dessa sua felicidade passada e tachavam-na de sonho fantástico. Nem sequer podiam fazer uma ideia desse estado, e acontecia, além disso, uma coisa estranha: agora que tinham perdido toda a fé na felicidade pretérita e a classificavam de fantasia, empenhavam-se a tal ponto a voltar a ser inocente se felizes que se ajoelhavam como crianças ante os desejos dos seus corações;adoravam esses desejos, erguiam-lhes templos e oravam à sua própria ideia,ao seu próprio “querer”, ao mesmo tempo que continuavam a acreditar, com uma convicção inabalável, na possibilidade de cumprirem e realizar essa ideia,apenas de implorarem por ela de joelhos. E, no entanto... se pudesse ter-se dado o caso de voltarem outra vez àquele inocente e venturoso estado que perderam; se alguém os tivesse consultado, perguntando-lhes: “Quereis voltar a ele?”, ter-lhes-iam respondido resolutamente que não."