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Cena de Vinte dias sem guerra
Major Lopatin (Yuriy Nikulin), um escritor e soldado de meia-idade, retorna para sua cidade natal no Uzbequistão, após receber uma licença de 20 dias, durante a Batalha de Estalingrado, em 1942. Além de trazer consigo os pertences de um soldado morto para serem entregues à sua família, Lopatin assessora uma produção cinematográfica sobre seus escritos de guerra, e diverge do diretor com relação à imprecisão histórica e ao retrato irrealista de heroísmo. Ele também encoraja trabalhadores de uma fábrica, que não passam de crianças, a fazer horas extras em prol dos soldados, discute com um grupo teatral, dizendo que um soldado não dá a vida pela pátria, mas luta por sua própria sobrevivência, e encontra tempo para um romance com uma antiga colega e funcionária do teatro (Lyudmila Gurchenko), conferindo à breve jornada uma certa dimensão doméstica e de normalidade.
Baseado em uma história do correspondente de guerra, escritor e poeta Konstantin Simonov, o segundo longa-metragem autoral do cineasta russo Aleksey German foi filmado em preto e branco e carrega um tom melancólico, com ocasionais rupturas violentas. Assim como outros filmes de German, Vinte dias sem guerra foi censurado e lançado apenas cinco anos após sua conclusão.
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O major Lopatin (Yuriy Nikulin), um escritor e soldado de meia idade, retorna para sua cidade natal no Uzbequistão, após receber uma licença de 20 dias, durante a Batalha de Estalingrado, em 1942. Além de trazer consigo os pertences de um soldado morto para serem entregues à sua família, Lopatin assessora uma produção cinematográfica sobre seus escritos de guerra e diverge do diretor com relação à imprecisão histórica e ao retrato irrealista de heroísmo. Ele também encoraja trabalhadores de uma fábrica, que não passam de crianças, a fazer horas extras em prol dos soldados, discute com um grupo teatral dizendo que um soldado não dá a vida pela pátria, mas luta por sua própria sobrevivência e encontra tempo para um romance com uma antiga colega e funcionaria do teatro (Lyudmila Gurchenko), conferindo à breve jornada uma certa dimensão doméstica e de normalidade. Baseado em uma história do correspondente de guerra, escritor e poeta Konstantin Simonov, foi filmado em preto e branco e carrega um tom melancólico com ocasionais rupturas violentas. Vinte dias sem guerra foi censurado e lançado apenas cinco anos após sua conclusão. Soldados e civis soviéticos descansam entre as ruínas de um edifício. Ouve-se apenas uma melodia que remete a um parque de diversões. Um grupo se organiza para ser fotografado. O som de mísseis interrompe a música e, repentinamente, tudo voa pelos ares. Voltando ao presente, em um set de filmagem, atores interpretam a história que originou a lembrança, uma história cujo real protagonista - um escritor e soldado de meia-idade - diverge enfaticamente do falso heroísmo presente na dramatização. Vinte dias sem guerra (1976), de Aleksey German, é uma ficção com narrativa clássica que relata a história de um soldado em licença durante a Segunda Guerra Mundial. O major tenta compartilhar conosco uma luta contínua contra a falsa imagem de pudor e heroísmo de regimes autoritários e de guerras (não me espanta até nos dias atuais essa falsa imagem perdura, em qualquer lugar do ocidente). German passou sua carreira cinematográfica buscando precisão histórica. O diretor russo (nascido em 1938 e morto em 2013, tendo concluído um total de seis filmes) se dedicou a representar a história recente da Rússia e da União Soviética, do final da Primeira Guerra Mundial à morte de Stalin. Suas obras são recriações meticulosas, filmadas em preto e branco, de momentos de desilusão ideológica do regime soviético. Seus protagonistas são soldados e oficiais corruptos, desgastados ou coagidos, que, ao longo de seus percursos, expõem a violência física e intelectual do período estalinista. Consequentemente, seus filmes pré-Glasnost foram censurados, inclusive Vinte dias sem guerra, sua obra crítica mais comedida. Diferentemente dos filmes vertiginosos, desorientadores e com múltiplos protagonistas, como Meu amigo Ivan Lapshin (1984), sobre a Grande Purga promovida por Stalin antes de assumir o poder (Os historiadores estimam o número total de mortes devido à repressão stalinista em 1937-1938 entre 950 000 e 1 200 000), e Khrustalyov, meu carro! (1998), que retrata a decadência social no período da morte de Stalin.
Lopatin ao mesmo tempo sustenta a visão ideológica da guerra para aqueles que a amparam à distância e se vê isolado com suas árduas memórias, contraditórias à visão fantasiosa daqueles que o rodeiam. Suas palavras se tornam uma ponte que conecta duas realidades. Ainda que todos estejam sendo afetados pela guerra, ele é o único na cidade que esteve no campo de batalha e que pode descrever a degradação humana no front. A crise de consciência, se assim podemos dizer, não me parece das mais frutíferas, afinal o major discursa para trabalhadores infantis numa fábrica convencendo-os que o trabalho deles é importante para que os soldados sobrevivam e o país se liberte! Cena grotesca, mas a mim me parece a mais emblemática do filme! qual a serventia de criança serem convencidas de que seu trabalho, infantil, degradante e escravo é importante para a nação? No limite, a função dos dois se aproximam muito, o soldado no front e a criança escrava na fábrica...triste. Mas a receita ainda parece ser utilizada, hoje, temos tantos soldados que vão invadir outros países, matar e roubar e voltam como heróis! heróis do que, cara pálida?