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Últimas opiniões enviadas

  • Jonathan Silva

    SOFRIMENTO DE LETRADO VALE MAIS

    Depois de lançar o superestimado "Shame", cruzada moralista e meio reacionária travestida de drama sobre compulsão sexual, o diretor Steve McQueen (nada tem a ver com o ator da Hollywood antiga) volta ao batente com este "12 Anos de Escravidão". Vencedor do Oscar de melhor filme, o longa acaba sendo só mais um drama superestimado pelos críticos que, embora muito bem intencionado e pertinente pela temática abordada, traz alguns conservadorismos bobos nas entrelinhas e outros erros imperdoáveis que o impedem de ser tão brilhante como tanta gente andou dizendo era. Não que o filme seja ruim, muito pelo contrário. Mantém o interesse até o fim e tem mais prós que contras, porém no fim das contas se resume a um monte de clichês, teme dar vôos mais altos e ser mais impactante estética e artisticamente.

    Entre os contras, comecemos pelo ator que faz o protagonista, Chiwetel Ejiofor, que só sabe variar entre duas expressões durante toda a projeção: cara de sonso e cara de coitado. Quase não há sinal de raiva, desejo, dúvida e ódio impressos no rosto de Solomon Northup, mesmo nas cenas em que o personagem demanda expressamente que tais reações acontecessem, ou quando o roteiro abre brechas para o ator sair da expressão de chorão vitimizado que ele quis manter no filme todo. A gente sai da sessão de "12 Anos de Escravidão" achando que Ejiofor tem sangue de barata e não consegue ficar nervoso, mesmo nas piores provações, ao passo que Solomon, o personagem (e autor do livro no qual se baseia o longa) passa longe disso e mostra em suas escolhas vários sinais de raiva, ódio até, da situação desumana à qual é submetido. O que o torna bem mais interessante, a meu ver.

    Não conheço o livro para saber se a leitura é boa, porém a adaptação do roteiro é no máximo medíocre (com direito a frases de um maniqueísmo infantil tipo "meu coração é do tamanho de uma moeda") e capenga especialmente no primeiro terço do filme, que é truncado demais, situando mal a vida liberta de Solomon, o sequestro e os anos passados na primeira fazenda, com pontas inexpressivas de Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti e Paul Dano, todos rasos e com pouca oportunidade em cena. Os diálogos melhoram depois dessa primeira parte, quando finalmente o personagem de Fassbinder entra em cena, mas até lá é só um amontoado de lugares-comuns sobre filmes de escravidão que mal e porcamente contextualizam seja o absurdo ao qual os negros eram sujeitos, seja a passagem do protagonista para essa nova etapa, tendo que se adaptar na marra ao sequestro e venda para trabalho escravo.

    Plasticamente, "12 Anos de Escravidão" é apenas razoável, já que o diretor e a equipe passaram um verniz estético de "sessão da tarde" que impedem que fique na memória qualquer lembrança sobre algum plano mais elaborado, ou sobre a cenografia. No máximo, o figurino é digno de mais elogios. A trilha musical incidental de Hans Zimmer também não ajuda nada, é manjada e piegas, embora ao menos o compositor não tenha recorrido aos sintetizadores barulhentos e desconexos que são marcas registradas na maioria de suas trilhas.

    Mas o pior defeito do filme, sem a menor sombra de dúvidas, é o modo como McQueen e o roteiro tratam o protagonista como se ele fosse "mais" que os outros porque nasceu livre e, sobretudo, porque era músico em outro estado e estava bem longe de ser pobre. É como se o filme nos dissesse: "vejam como a escravidão de negros é uma abominação ética para qualquer uma das suas vítimas - mas, cá pra nós, é bem pior quando se trata de uma pessoa que nasceu livre e tinha dinheiro!". Essas entrelinhas meio elitistas, perceptíveis para os mais atentos logo no começo da projeção, pipocando na tela de novo aqui e ali várias vezes, me causaram repulsa de cara e impediram que eu entrasse mais na narrativa.

    Não bastasse o elitismo, fica ainda pior na medida em que McQueen é um moralistão dissimulado (como já visto no "Shame"), sempre que pode mostra quanto o personagem é "do bem" justamente porque tem uma família lá fora (o sofrimento de quem não tem cônjuge e filhos não mereceria esse destaque?) e não se envolve sexualmente com mais ninguém (novamente: se ele tivesse transado, o sofrimento mereceria menos destaque?). Não por acaso, o cineasta escolheu apresentar seu herói no plano de abertura com a recusa de uma investida sexual de outra escrava na senzala. E olha que foram 12 anos de cativeiro, como o título faz questão de dizer! Fica até inverossímil...

    Por sorte, o filme tem um monte de prós para compensar todos esses graves defeitos. O melhor de todos tem nome: Michael Fassbender. Mais uma vez confirmando que é um dos melhores atores de sua geração, passa a quilômetros longe do maniqueísmo, retratando um antagonista denso, capaz de usar uma criança para se escorar num momento e pegar outra no colo logo no minuto seguinte, mas escancarando a "superioridade" que ele sente que tem através da economia e da lei (lembrando que os escravos são "propriedade", coisificados) ou da religião toda vez que é enfrentado por qualquer um dos outros personagens a respeito de sua tirania, ou de sua pretensa virilidade.

    Não só Fassbinder, mas a merecidamente elogiada Lupita Nyong'o está perfeita na pele da jovem escrava Patsey, que o vilão obriga a servir como amante, para desgosto da "sinhá" ciumenta (vivida com competência por Sarah Paulson).O jogo de forças político, sexual e econômico que é representado na relação entre esses três personagens está bastante atual ainda hoje e é o que há de melhor na narrativa. Fica ainda mais interessante na medida em que Solomon também é absorvido sem querer por esse turbilhão de acontecimentos, motivados pela crescente obsessão e crueldade de Fassbinder com a "amante", ficando no meio do fogo cruzado e sendo forçado a tomar decisões éticas cada vez mais difíceis entre os interesses de ajudar a amiga e fugir do cativeiro. A pequena participação da amante mais velha também é impagável e tem bons diálogos, chega mesmo a ser lamentável que apareça tão pouco.

    Para mim não resta a menor dúvida, aliás, que "12 Anos de Escravidão" seria um filme bem melhor se o enredo tivesse Patsey como protagonista e Solomon fosse um personagem secundário, passando mais tempo desenvolvendo o drama dela e a opressão constante sofrida pelo escravocrata libidinoso e pela sinhá - que, por sua vez, também era oprimida pelo esposo. Mas, que nada, McQueen visivelmente se identifica mais com o negro sequestrado ilegalmente, sem dúvidas porque era um "artista letrado" como ele e, claro, para abocanhar o happy ending tipicamente roliudiano que a história (real) de Solomon oferece. Pena que para cada "artista letrado" preso ilegalmente, existiam centenas de Patseys que nasceram e morreram na escravidão sem nem cogitar que um dia poderiam aprender a ler ou sair do cativeiro com apoio da lei, não é mesmo? E ali não tinha sequer possibilidade de final feliz. Pelo sofrimento e destino desses, no entanto, McQueen tem menos interesse. A partir do momento em que o negro "civilizado" sai dali, azar dos outros. Merecem uma nota de rodapé na história, uma citação genérica nos letreiros finais e olhe lá.

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