unreallucas

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unreallucas
2 meses atrás

Em dado momento da versão restaurada de "Limite", existe um dano de tempo no negativo original que persistiu por uma cena inteira, o qual traz e também acentua a atmosfera fantasmagórica do filme de Mário Peixoto. Eu realmente fiquei hipnotizado nesse 'fantasma' do negativo castigado pelo tempo, e acima de tudo por vê-lo como um 'fantasma' do descaso e da má preservação dessa peça tão importante da história do nosso cinema e da nossa cultura. Um 'fantasma' que ali se infiltra e que ali passa a fazer parte do filme, tanto no rolo do negativo quanto em seu conteúdo.

Os personagens aqui não possuem nome, apesar de possuírem um passado que parece os assombrar constantemente e que nos é apresentado por uma montagem experimental e narrativa não linear, onde Peixoto apresenta cada ação que levou aquelas figuras assombradas a terminarem daquele jeito. A imagem faz sentir o que palavra nenhuma poderia comunicar e, nem com toda força, o bote parece sair do lugar. Se antes estes personagens pareciam especialmente limitados e presos mesmo a frente de cenários espaçosos, é no espaço limitado do bote onde o fantasma da melancolia parece finalmente se abater sobre o trio.

O bote que parece servir como uma fuga de seu passado está furado, e agora o que reste é esperar o fim nesta prisão flutuante em que os mesmos se colocaram. É nesse uso sensorial e espacial, junto da narrativa experimental, que Peixoto consegue trabalhar primorosamente a melancolia da fuga e da tragédia, junto a essa fragilidade de ser humano. No fim, o passado continua assombrando estes personagens como o fantasma do descaso assombra tanto o negativo quanto a obra agora eternizada pela restauração. É triste, mas existe um calor dentro de toda essa melancolia.

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