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Um tema, uma situação e três histórias. O tema, a ânsia do homem pelo infinito, seu clamor e sua derrota. A situação, um barco perdido no oceano com três náufragos - um homem e duas mulheres. As três histórias são aquelas que os personagens mutuamente se contam. Na situação se esboça o tema que as três histórias desenvolvem. A tragédia cósmica se passa no barco. E para ele convergem as histórias.
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Em dado momento da versão restaurada de "Limite", existe um dano de tempo no negativo original que persistiu por uma cena inteira, o qual traz e também acentua a atmosfera fantasmagórica do filme de Mário Peixoto. Eu realmente fiquei hipnotizado nesse 'fantasma' do negativo castigado pelo tempo, e acima de tudo por vê-lo como um 'fantasma' do descaso e da má preservação dessa peça tão importante da história do nosso cinema e da nossa cultura. Um 'fantasma' que ali se infiltra e que ali passa a fazer parte do filme, tanto no rolo do negativo quanto em seu conteúdo.
Os personagens aqui não possuem nome, apesar de possuírem um passado que parece os assombrar constantemente e que nos é apresentado por uma montagem experimental e narrativa não linear, onde Peixoto apresenta cada ação que levou aquelas figuras assombradas a terminarem daquele jeito. A imagem faz sentir o que palavra nenhuma poderia comunicar e, nem com toda força, o bote parece sair do lugar. Se antes estes personagens pareciam especialmente limitados e presos mesmo a frente de cenários espaçosos, é no espaço limitado do bote onde o fantasma da melancolia parece finalmente se abater sobre o trio.
O bote que parece servir como uma fuga de seu passado está furado, e agora o que reste é esperar o fim nesta prisão flutuante em que os mesmos se colocaram. É nesse uso sensorial e espacial, junto da narrativa experimental, que Peixoto consegue trabalhar primorosamente a melancolia da fuga e da tragédia, junto a essa fragilidade de ser humano. No fim, o passado continua assombrando estes personagens como o fantasma do descaso assombra tanto o negativo quanto a obra agora eternizada pela restauração. É triste, mas existe um calor dentro de toda essa melancolia.
Eu não gosto de ler nada sobre um filme logo depois de assistir. Mesmo quando não entendo, gosto de deixar o filme dar uma amadurecida na minha cabeça. Dessa vez, porém, eu fui atrás de ler algo porque eu realmente senti que não havia entendido nada. Tinha algo um pouco vago na minha cabeça, que parecia muito diferente do que eu havia imaginado inicialmente, então tentei procurar alguma análise que pudesse me trazer outros pensamentos.
Li meio por cima um texto da Fabi que começa com "À deriva, no limite da imagem e da vida. O primeiro filme experimental da América Latina é, também, uma obra-prima do cinema brasileiro". Então senti que entendi tudo.
A ideia vaga que eu tinha era um pouco parecida com o que ela falou e eu larguei mão de tentar encaixar Limite em uma narrativa clássica, como eram minhas expectativas.
É interessante como são mostradas estas pessoas à deriva: sempre em movimento, alternando-se com trens que vão para onde não sabemos, portas fechadas, pegadas que são apagadas pelo mar, rostos escondidos. Os cabelos, as roupas, as faces, nada disso é estável. Tudo muda.
A melhor representação que já vi sobre estar perdido.
Pra quem gostou, recomendo Girlhood, da Celine Sciamma. Outra protagonista à deriva.
O que é preciso conceber depois que você o assiste:
- E de 1931
- É experimentalismo, seja na busca por ideias, seja no modo de filmar.
- Se você se despir de se cobrar por entender contemplará uma bonita fotografia, boa técnica de filmagem e uma trilha sonora muito adequada ao modo que foi filmado.
Fico feliz de ter visto a vanguarda do cinema nacional.
nossa como forçam esse nem de longe é o melhor filme nacional
Limite, do Mário Peixoto, é tipo aquele filme que você assiste e pensa: “ok, não entendi tudo, mas senti tudo”. Ele não tem diálogos, só imagens e música, mas cada plano parece gritar emoções que a gente não sabe explicar — tristeza, solidão, esperança meio quebrada. É cinema puro, cru, poesia visual antes de virar modinha.
Ver esse filme hoje é quase um rolê de viagem no tempo. É como se o cinema brasileiro já tivesse flertado com o que a galera da vanguarda europeia tava fazendo, mas com um jeitão nosso. A montagem não te pega pela mão; ela te joga no barco, no rosto dos personagens, no mar infinito, e você tem que se virar pra sentir o peso daquilo tudo.
No fim, Limite é aquele filme que não é pra todo mundo, mas se você se deixa levar, ele explode na sua cabeça. Não é só “arte experimental”; é um manifesto de que o cinema brasileiro já nasceu ousado, sem medo de ser estranho, melancólico e grandioso. É pra assistir mais com o coração do que com os olhos.