Últimas opiniões enviadas
-Achei que você tivesse ficado com medo.
-Você tinha razão. Estou com medo. Será que todos os amantes têm a impressão de estar inventando algo? Eu conheço os gestos. Imaginei tudo enquanto esperava por você.
-Você sonhou comigo?
-Não. Eu pensei em você.
Revendo um filme que provavelmente é meu favorito, junto com outro, que não vem ao caso.
Vejo que há infinitas coisas pra se falar aqui, mas dá pra se ater a duas, basicamente.
Uma delas é como o filme é sobre uma pessoa pintando a outra, sobre um quadro a ser pintado, e se torna um filme sobre quadros não pintados. Sobre histórias não contadas. Tudo que a gente vê nesse filme poderia ser um quadro, é feito como se fosse pra ser uma pintura. Há então vários momentos em que Marianne apenas vê Heloise. Depois de muito ver, ela nunca a pinta da maneira que a vê, é sempre algo mais contido, como a própria Heloise deixa claro ao dizer que o primeiro retrato não era próximo da realidade tampouco próximo de quem o realizou. Então tudo o que acontece ali pode ser contado, pintado, mas no final não é. Porque na verdade não se pode. E Heloise não é um sujeito passivo a isso, apesar de ser o "objeto" do retrato. Ela inclusive quer que o aborto que ela presenciou seja retratado, ela quer registrar e se lembrar daquilo, quer esta história sendo contada.
E o segundo ponto de destaque do filme, que é meio batido, é o olhar. Marianne o tempo todo tem que olhar para Heloise para pintá-la, tentando captar tudo o que existe nessa pessoa, decifrar a outra através da observação. Novamente, Heloise não é passiva a isso. Ela, inclusive, fala a Marianne: por que você acha que só você tá me olhando? Veja onde eu estou, nós estamos no mesmo local. Eu também estou olhando diretamente para você.
Posteriormente, é a própria Heloise que decide agir igual a Eurídice. Elas não possuem escolhas. Não é aquele último olhar que acabou com a história das duas, tampouco com a de Eurídice. Aquele olhar é apenas uma ausência de arrependimento, é a presença da lembrança, é a vulnerabilidade de se permitir ser visto, é o momento em que Marianne deixa escapar o fato de que é uma pintora justamente por estar vulnerável, é a primeira vez que Heloise escuta uma música que não é sacra, é a liberdade de se andar sozinha e entrar no mar pela primeira vez.
Conforme falei da primeira vez que assisti, eu discordo de Marianne: Heloise olhou para ela diante da orquestra, olhar para a música era olhar pra ela afinal.
Não existe nada igual a esse filme
Há milhões de filmes/diretores que refletem sobre o tempo. O Linklater, por exemplo, fez Boyhood e a trilogia basicamente para tentar mensurar o efeito do tempo sobre as pessoas e relações.
Tem também outras obras, como Primavera, verão, outono, inverno e... Primavera, que falam sobre um aspecto específico da vida no tempo. Nesse caso, sobre como tudo é cíclico e como retornamos para onde viemos.
E entre todos os diretores que falam sobre o tempo, acho que o Kiarostami e a Chantal Akerman são os que mais trazem uma proposta não necessariamente de reflexão ou de dissertação, mas de meditação acerca do tempo.
A Chantal segue muito a linha de esticarmos o tempo ao máximo, mostrar coisas muito próximas a nada acontecendo. Então quando vamos ver a filmografia dela vamos encontrar longuíssimos momentos em que vemos ruas sem rosto algum, hotéis vazios e, principalmente, uma mulher cortando legumes. O nada e o ninguém estão lá, tomando o nosso tempo. Não me parece nem chegar a ser contemplativo porque, afinal, o que estamos contemplando?
O Kiarostami, principalmente em O vento nos levará, também gosta de trazer este tempo esticado, porém de um jeito mais aberto e menos vazio. E aqui falo "vazio" não com o objetivo de esvaziar a obra da Chantal, mas mais como um adjetivo pra falar que as cenas dela muitas vezes não tem ninguém. O Kiarostami traz sim seus personagens, diálogos, histórias, porém estas pessoas não são ninguém frente ao tempo.
Aqui, um homem chega a um local claramente esperando uma morte eminente. Morte que simplesmente não acontece. E enquanto a esperamos, o tempo passa. Não vemos exatamente o dia virar noite nem tantas mudanças conforme as semanas avançam, ao mesmo tempo que vemos.
Explico-me melhor: todo dia parece igual, mas o tempo vai passando e vemos como o ambiente traz essa passagem. Animais andam pra lá e pra cá, alguém que começou a cavar um buraco agora está tão fundo que precisa ser resgatado, crianças nascem, tartarugas se viram, um médico vai pra lá e pra cá filosofando em cima da sua motinha, ordenhas subterrâneas feitas por uma moça que não mostra seu rosto. E o que mais?
O que mais existe nesse filme? Talvez nada. Talvez apenas imagens abertas da paisagem montanhosa e pouco arborizada do interior iraniano. Resta contemplar. Assistir sentindo que o tempo passou e, por mais que tenha parecido arrastado, assim como são os dias, muita coisa se passou, muita coisa indicou essa passagem de tempo.
Pra quem gostou, recomendo tudo o que eu gosto do Kiarostami e da Chantal: a trilogia Koker, Close-up, Gosto de cereja, Jeanne Dielman, Hotel Monterey, Notícias de Casa e tudo mais o que pode ser visto.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
Quando vi a premissa e toda a história por trás do filme, fiquei bastante interessado. Depois de ver, quase defendi o figurão da warner que não queria lançar.
Um humor quase infantil, mas que se finge de um pouco mais adulto, lembrando o (terrível) Inspetor Bugiganga. Tenta retratar alguma sátira ao sistema judiciário dos Estados Unidos, mas não engata em momento algum. Os personagens de desenhos aparecem do modo mais genérico possível, tirando o Coyote, que realmente é usado de modo muito criativo na ausência das palavras e no seu humor físico.
De resto, ruim à beça.
Vejo que A Crônica Francesa, do Wes Anderson, usa animação de modo muito mais criativo.