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Vamos lá: esse filme se propõe a ser político. O Saddam é mostrado o tempo todo. Fala-se dele sempre.
E um filme que se propõe a ser político, no Iraque dos anos 90, e que não menciona os Estados Unidos da América é, por definição, incompleto.
Acho que nem compensa muito falar como as pessoas são mostradas como burras (os bonzinhos) e selvagens (os mauzinhos), mas vale dizer que tudo é construído como se todo mundo ali fosse um pouco alheio ao terror que vivem. Então todos veneram Saddam mesmo vivendo na miséria. Existe uma forte menção à repressão militar, mas de todo modo os personagens parecem muito pouco críticos àquela barbárie.
Vale lembrar também que o filme é uma produção americana.
Nos últimos anos tivemos A Voz de Hind Rajab, por exemplo, que também se propõe a ser político, só que sem certas concessões.
Em alguns outros do Almodovar em que fala-se de um filme dentro de um filme acontece algo parecido com aqui: os personagens criados pelos autores fictícios não possuem um final para suas histórias. Um exemplo disso é Dor e Glória: o filme comandado pelo protagonista possui apenas as cenas de sua infância gravadas. Vejo que roteiros assim dão uma liberdade maior para que não seja necessário criar conclusões para todos os personagens, é uma maneira de dizer que as histórias ainda estão sendo contadas, etc.
Vejo, porém, que em Natal Amargo isso não cai muito bem. A história da Elsa parece um pouco capenga sem uma conclusão. Diferentemente de Má Educação (por exemplo), aqui também vejo que não há um bom equilíbrio entre o filme e o filme dentro do filme. Elsa e sua trama possuem um desenvolvimento mais elaborado, mais tempo de tela, enquanto Raúl aparece pontualmente quase que como apenas um narrador.
De todo modo, vejo que há uma cena que funciona bem nesse arco do Raúl: o momento, já ao final, em que ele pensa em como escrever o que acontecerá, de frente para seu computador, enquanto Natália e Elsa olham para a câmera, como se olhassem para o próprio Raúl, aguardando um direcionamento de suas vidas, ansiosas pelo seu destino.
Além disso, podemos falar que a história de Elsa funciona muito bem. O filme dentro do filme possui personagens muito cativantes, cenas muito sensuais que nos fazem até revisitar os filmes americanos que o Almodovar fez recentemente e que, apesar de excelentes, eram bastante tímidos no quesito cenas explícitas. O momento do strip tease do Bonifácio é maravilhoso, vale destacar: depois de sua performance no palco, a divisão de tela entre as mesas é divertidíssima e traz um dinamismo muito interessante.
Gosto também como, mais recentemente, o Almodovar tenta trazer ambientes surreais. As casas em seus filmes são bastante artificiais desde sempre, mas me parece que ultimamente ele aposta em ambientes quase oníricos, como tudo o que envolve a ilha vulcânica na qual a história se passa - bem como o cenário de faroeste em Estranha forma de vida e a casa toda em branco na infância de Salvador em Dor e glória.
Também me agradam dois momentos aqui que remetem à filmografia dele e toda a relação com música que os personagens possuem. Então aqui vemos um choro frente a uma personagem cantando, assim como acontece em Volver e Fale com ela. E também temos Elsa e sua amiga chorando ao escutarem La llorona no rádio (como acontece no táxi em Mulheres à beira de um ataque de nervos) em um sofá, terminando tudo com um abraço que já vimos várias vezes, como em Abraços partidos.
E não acho que o filme seja válido apenas pelas referências do autor a si mesmo, mas vejo que estas cenas que se repetem ao longo da filmografia funcionam muito bem aqui. O Almodovar construiu uma carreira brilhante com cenas assim e aqui elas são arrebatadoras, além de se encaixarem muito bem e de trazerem toda uma potência ao que é mostrado.
Se eu fosse menos apegado ao final, teria amado.
Pra quem gostou, recomendo, como sempre, Abraços partidos.
É legal quando a gente vai esperando uma maluquice sem fim de algum diretor e, quando a gente vai ver o filme, as coisas acontecem de modo muito mais sóbrio. É tipo o clipe de Extreme - More than words, com eles desligando as guitarras.
Eu gosto de como a Julia Ducournau fala sobre a culpa de quem cria filhos: Em Titane, fala de um pai, e aqui fala de uma mãe, que também é uma irmã que se sente culpada pelo que aconteceu em sua família.
E acho que em relação a culpa e tudo mais, o que mais me marcou foi o final em que Alpha fala pra sua mãe que é muito nova para passar por tudo aquilo: uma mãe cheia de paranoias que não consegue criar sua filha sem que seja totalmente contaminada pelo modo que seu próprio irmão foi destrutivo. E em resposta a isso, a mãe de Alpha responde: nós também éramos muito jovens para passar por tudo o que passamos. Acho que tudo isso tem como objetivo questionar se existe alguém que realmente não é jovem demais para passar por certos dramas, certas barbáries.
Eu gosto também de como o fantasma do irmão/tio está o tempo todo ali e como só ao final descobrimos tudo o que realmente aconteceu com ele, sobre como sua irmã não conseguiu salvá-lo.
Destaque aqui para a cena final, em que o tio vai ser deixado em casa, o que nos leva a um local onde o vento rubro domina, trazendo um vermelho que é quase igual ao tom da fotografia do passado do filme, dando a entender que ali realmente é a casa do irmão: o passado.
Pra quem gostou, recomendo A metamorfose dos pássaros. Também sobre criar filhos, também sobre luto.