Beatriz e Henrique casaram-se no dia em que ela fez 21 anos. Henrique, oficial da marinha, passava longas temporadas no mar. Em terra, Beatriz, aprendeu tudo com a verticalidade das plantas. Um dia, subitamente, algo trágico acontece.
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como é perverso amar algo em que a morte pode tocar.
foi como ler um livro, um texto marcadamente poético que só poderia desaguar na intimidade dos fantasmas emocionais produzidos e inventados por nossas memórias.
Já não sei como é falar contigo.
Eu tinha tanta coisa para te contar.
Como é que eu perdi tanta coisa?
As coisas não mudaram tanto, mas explico-te tudo. Tudo o que quiseres saber.
Temos tempo, não temos? Decidi que não ia contar a ninguém que afinal tu estavas viva porque tinha medo de que ao contar. isso deixasse de ser verdade, e eu queria muito que tu estivesses viva. Todos os dias, acordava muito cedo e ia trabalhar, e se ia correr sempre com a desculpa que tinha coisas para tratar, mas era para ir ter contigo.
Acho que nunca vi nada que conseguisse colocar paralelamente ao mesmo tempo que de maneira tão unida nossas vidas com todas as vidas ao redor.
É até um pouco difícil explicar os sentimentos que são transmitidos sobre amadurecimento, luto, morte, árvores, balanços.
O que se queima e o que se perde quando duas pessoas que se amavam não estão mais aqui?
Toda a gente fala da violência dos rios que tudo arrastam, mas ninguém fala da violência das margens que os comprimem.
Um dos últimos filmes que vi com quem me indicou este foi A mulher oceano. Também sobre se fundir com as águas.
filme lindo sobre saudade e estar vivo
“Minha mãe não era só mãe, era uma árvore.”
Quando terminei o filme não sabia muito bem o que fazer, se registrava alguma coisa, se tentava entender por que um vazio me invadia, se limpava as lágrimas ou se imediatamente assistiria mais uma vez para tentar memorizar todas as imagens e guardar na mente todas as frases que me atravessaram, que me mantiveram na casa vazia do filme, no barco perdido ou nas árvores marcadas pelas memórias de seu crescimento, desenvolvimento e queda.
Não sabia também se falava para a minha mãe sobre ele, até porque, as mães morrem no filme, de forma tão inesperada e abrupta que fiquei marcada pelo vazio que elas deixaram.
Eu falaria pra ela sobre as cartas jogadas ao mar, escritas com tonturas das ondas e que se encontra com as palavras sóbrias de saudades da terra. Falaria que sinto que nossa conexão é assim, distante, meio sóbria demais da saudade, mas também em meio as vertigens de palavras que vagam entre diretas ou indiretas, entre sentimentos e lições de vida.
Mas falaria que apesar da ausência de mães, elas nunca deixam de serem mencionadas, na verdade, elas são o ponto central, elas que formam as palavras, elas que predominam nas imagens, elas invadem cenários e invadem o som do mar turbulento.
São elas que provocam que esses dois personagens se encontram e digam para nós o quanto suas palavras de saudade, são também palavras de ausência, solidão, valentia e principalmente amor. O filme não existiria sem mães, a diretora não saberia o que falar, seu pai não teria o que ler e nós perderíamos a grandeza das metamorfoses do filme.
Falaria que foi esse filme que me fez olhar diferente para nós duas, que me fez enxergar as paredes vazias de casa como uma nova forma de olhar o mundo, olhei as rachaduras, as manchas de fungos, as marcas de fotografias antigas, olhei para dentro de casa e percebi que agora, eu deveria estar olhando para fora.
“Fui com os pássaros.
Eles têm asas e eu preciso de um novo coração.”
(comentei mais sobre o filme e seus efeitos em mim na audiossérie Sinal Boreal:
https://open.spotify.com/episode/2vcOwYmyrXHRhWjpispePL?si=caeaba94f1684bbd)
essa é a versão portuguesa de "Elena", da Petra Costa. lindo demais, chorei do começo ao fim