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"-Esse filme é tão triste.
-Triste? Eu acho feliz.
-É feliz, mas é triste. A gente começa a pensar na vida. E a pensar na vida da gente. Uma vida que devia ser assim: buscar a felicidade e mais nada."
Até hoje eu nunca precisei de aspirinas, nunca tive uma dor de cabeça muito forte ou uma dor no corpo insuportável, na verdade remédios raramente são necessários em minha vida, o corpo me deixa leve para que a cabeça me pese.
Porém, se vendessem aspirinas em troca de pequenos filmes eu teria sérios problemas de vício, ou é o que os outros achariam quando me vissem todos os dias saindo de casa para comprar aspirinas e só voltando duas horas depois ludibriada, encantada, triste e às vezes até feliz, pois não há nada mais mágico e encantador para mim do que imagens em uma tela improvisada.
E é nessa estrada vazia de carros e cheia de gente de “Cinema, Aspirinas e Urubus” que embarcamos nessa pequena troca de dores pela imagem.
Imagem essa construída no filme através de luzes fortes do sol ardente ao céu e tremida pelo balanço da caminhonete de Johann e a aproximação em cada vivência da estrada. E onde o som é preenchido pela rádio com os relatos da guerra e pelas confissões da carona que nem precisa de aspirina, mas sim de algum estrangeiro para ouvir suas histórias tão comuns nesse Brasil.
Brasil esse que encanta Johann, que apesar de chegar para fugir da guerra da Alemanha, ele ficou pelo encanto do povo a tela improvisada, pois mesmo vendendo dores inexistentes a esse povo é a pequena dose de cinema que alimenta o corpo.
Porém Ranulpho, o carona que permanece, não está encantado por imagens ou por dores inexistentes, Ranulpho não se encanta mais pelo Brasil, está tão determinado a sair do país como está com medo de fracassar na saída. Porém é ao lado de Johann que um pequeno encantamento volta, talvez pela oportunidade de fugir ou pelo novo olhar que o estrangeiro lhe mostra do Brasil, não importa. Aqui é a vida que encanta.
(Falei mais sobre ele na audiossérie Sinal Boreal: https://open.spotify.com/episode/0TGlNbotLVR8TlItRFQbcY?si=ad42e40b3e6d4684 )
A morte é o ponto inicial do filme, é a tragédia para os olhos de uma criança. O quarto vazio com a ausência de sua própria avó é o destino da pequena Nelly de 8 anos na primeira cena, e no caminho deste destino ela diz adeus a outras avós que vivem ali, no asilo, mas o quarto de sua própria está vazio, não vemos a despedida, nem há lágrimas ou choro em Nelly, apenas o silêncio e o desejo de guardar sua bengala, uma pequena lembrança de algo tão presente na figura de sua avó.
E na primeira cena que vemos a mãe de Nelly ela está de costas e o título do filme preenche o plano: “Pequena Mamãe”, Através de uma tragédia sem lágrimas que a diretora Céline Sciamma decide começar o seu filme protagonizado por uma criança.
Nelly, sua mãe, Marion, e seu pai viajam até a casa de sua avó, a casa cheia de móveis novos cobrindo as lembranças do passado, a tinta nova da parede pintada apenas em volta dos móveis, o quarto escondendo cadernos de infância, o armário escondido no meio do corredor, tantas lembranças afundadas em uma casa e agora em uma pessoa que viveu todas essas mudanças e não consegue aguentar mais uma e é por isso que Marion foge de sua própria casa.
E é no olhar de Nelly que a diretora nos guia pelo luto, pela descoberta de um passado que não é dela e pela curiosidade de entender a própria mãe e foi aqui que entendi o peso desse filme em mim, foi pelo olhar Marion em seu quarto antigo e foi o desejo de Nelly de despedir de sua avó que vi meu próprio desejo de entender a minha própria mãe, de entender o seu olhar vazio para o próprio quarto e de sua viagem sem despedidas até uma casa de verão abandonada. E curiosa com o que iria descobrir decidi registrar um pouco sobre a viagem na audiossérie Sinal Boreal.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
“Minha mãe não era só mãe, era uma árvore.”
Quando terminei o filme não sabia muito bem o que fazer, se registrava alguma coisa, se tentava entender por que um vazio me invadia, se limpava as lágrimas ou se imediatamente assistiria mais uma vez para tentar memorizar todas as imagens e guardar na mente todas as frases que me atravessaram, que me mantiveram na casa vazia do filme, no barco perdido ou nas árvores marcadas pelas memórias de seu crescimento, desenvolvimento e queda.
Não sabia também se falava para a minha mãe sobre ele, até porque, as mães morrem no filme, de forma tão inesperada e abrupta que fiquei marcada pelo vazio que elas deixaram.
Eu falaria pra ela sobre as cartas jogadas ao mar, escritas com tonturas das ondas e que se encontra com as palavras sóbrias de saudades da terra. Falaria que sinto que nossa conexão é assim, distante, meio sóbria demais da saudade, mas também em meio as vertigens de palavras que vagam entre diretas ou indiretas, entre sentimentos e lições de vida.
Mas falaria que apesar da ausência de mães, elas nunca deixam de serem mencionadas, na verdade, elas são o ponto central, elas que formam as palavras, elas que predominam nas imagens, elas invadem cenários e invadem o som do mar turbulento.
São elas que provocam que esses dois personagens se encontram e digam para nós o quanto suas palavras de saudade, são também palavras de ausência, solidão, valentia e principalmente amor. O filme não existiria sem mães, a diretora não saberia o que falar, seu pai não teria o que ler e nós perderíamos a grandeza das metamorfoses do filme.
Falaria que foi esse filme que me fez olhar diferente para nós duas, que me fez enxergar as paredes vazias de casa como uma nova forma de olhar o mundo, olhei as rachaduras, as manchas de fungos, as marcas de fotografias antigas, olhei para dentro de casa e percebi que agora, eu deveria estar olhando para fora.
“Fui com os pássaros.
Eles têm asas e eu preciso de um novo coração.”
(comentei mais sobre o filme e seus efeitos em mim na audiossérie Sinal Boreal:
https://open.spotify.com/episode/2vcOwYmyrXHRhWjpispePL?si=caeaba94f1684bbd)