Quando terminei o filme não sabia muito bem o que fazer, se registrava alguma coisa, se tentava entender por que um vazio me invadia, se limpava as lágrimas ou se imediatamente assistiria mais uma vez para tentar memorizar todas as imagens e guardar na mente todas as frases que me atravessaram, que me mantiveram na casa vazia do filme, no barco perdido ou nas árvores marcadas pelas memórias de seu crescimento, desenvolvimento e queda. Não sabia também se falava para a minha mãe sobre ele, até porque, as mães morrem no filme, de forma tão inesperada e abrupta que fiquei marcada pelo vazio que elas deixaram. Eu falaria pra ela sobre as cartas jogadas ao mar, escritas com tonturas das ondas e que se encontra com as palavras sóbrias de saudades da terra. Falaria que sinto que nossa conexão é assim, distante, meio sóbria demais da saudade, mas também em meio as vertigens de palavras que vagam entre diretas ou indiretas, entre sentimentos e lições de vida. Mas falaria que apesar da ausência de mães, elas nunca deixam de serem mencionadas, na verdade, elas são o ponto central, elas que formam as palavras, elas que predominam nas imagens, elas invadem cenários e invadem o som do mar turbulento. São elas que provocam que esses dois personagens se encontram e digam para nós o quanto suas palavras de saudade, são também palavras de ausência, solidão, valentia e principalmente amor. O filme não existiria sem mães, a diretora não saberia o que falar, seu pai não teria o que ler e nós perderíamos a grandeza das metamorfoses do filme. Falaria que foi esse filme que me fez olhar diferente para nós duas, que me fez enxergar as paredes vazias de casa como uma nova forma de olhar o mundo, olhei as rachaduras, as manchas de fungos, as marcas de fotografias antigas, olhei para dentro de casa e percebi que agora, eu deveria estar olhando para fora.
“Fui com os pássaros. Eles têm asas e eu preciso de um novo coração.”
(comentei mais sobre o filme e seus efeitos em mim na audiossérie Sinal Boreal: https://open.spotify.com/episode/2vcOwYmyrXHRhWjpispePL?si=caeaba94f1684bbd)
"-Esse filme é tão triste. -Triste? Eu acho feliz. -É feliz, mas é triste. A gente começa a pensar na vida. E a pensar na vida da gente. Uma vida que devia ser assim: buscar a felicidade e mais nada."
Até hoje eu nunca precisei de aspirinas, nunca tive uma dor de cabeça muito forte ou uma dor no corpo insuportável, na verdade remédios raramente são necessários em minha vida, o corpo me deixa leve para que a cabeça me pese. Porém, se vendessem aspirinas em troca de pequenos filmes eu teria sérios problemas de vício, ou é o que os outros achariam quando me vissem todos os dias saindo de casa para comprar aspirinas e só voltando duas horas depois ludibriada, encantada, triste e às vezes até feliz, pois não há nada mais mágico e encantador para mim do que imagens em uma tela improvisada. E é nessa estrada vazia de carros e cheia de gente de “Cinema, Aspirinas e Urubus” que embarcamos nessa pequena troca de dores pela imagem. Imagem essa construída no filme através de luzes fortes do sol ardente ao céu e tremida pelo balanço da caminhonete de Johann e a aproximação em cada vivência da estrada. E onde o som é preenchido pela rádio com os relatos da guerra e pelas confissões da carona que nem precisa de aspirina, mas sim de algum estrangeiro para ouvir suas histórias tão comuns nesse Brasil. Brasil esse que encanta Johann, que apesar de chegar para fugir da guerra da Alemanha, ele ficou pelo encanto do povo a tela improvisada, pois mesmo vendendo dores inexistentes a esse povo é a pequena dose de cinema que alimenta o corpo. Porém Ranulpho, o carona que permanece, não está encantado por imagens ou por dores inexistentes, Ranulpho não se encanta mais pelo Brasil, está tão determinado a sair do país como está com medo de fracassar na saída. Porém é ao lado de Johann que um pequeno encantamento volta, talvez pela oportunidade de fugir ou pelo novo olhar que o estrangeiro lhe mostra do Brasil, não importa. Aqui é a vida que encanta. (Falei mais sobre ele na audiossérie Sinal Boreal: https://open.spotify.com/episode/0TGlNbotLVR8TlItRFQbcY?si=ad42e40b3e6d4684 )
A morte é o ponto inicial do filme, é a tragédia para os olhos de uma criança. O quarto vazio com a ausência de sua própria avó é o destino da pequena Nelly de 8 anos na primeira cena, e no caminho deste destino ela diz adeus a outras avós que vivem ali, no asilo, mas o quarto de sua própria está vazio, não vemos a despedida, nem há lágrimas ou choro em Nelly, apenas o silêncio e o desejo de guardar sua bengala, uma pequena lembrança de algo tão presente na figura de sua avó. E na primeira cena que vemos a mãe de Nelly ela está de costas e o título do filme preenche o plano: “Pequena Mamãe”, Através de uma tragédia sem lágrimas que a diretora Céline Sciamma decide começar o seu filme protagonizado por uma criança. Nelly, sua mãe, Marion, e seu pai viajam até a casa de sua avó, a casa cheia de móveis novos cobrindo as lembranças do passado, a tinta nova da parede pintada apenas em volta dos móveis, o quarto escondendo cadernos de infância, o armário escondido no meio do corredor, tantas lembranças afundadas em uma casa e agora em uma pessoa que viveu todas essas mudanças e não consegue aguentar mais uma e é por isso que Marion foge de sua própria casa. E é no olhar de Nelly que a diretora nos guia pelo luto, pela descoberta de um passado que não é dela e pela curiosidade de entender a própria mãe e foi aqui que entendi o peso desse filme em mim, foi pelo olhar Marion em seu quarto antigo e foi o desejo de Nelly de despedir de sua avó que vi meu próprio desejo de entender a minha própria mãe, de entender o seu olhar vazio para o próprio quarto e de sua viagem sem despedidas até uma casa de verão abandonada. E curiosa com o que iria descobrir decidi registrar um pouco sobre a viagem na audiossérie Sinal Boreal.
"Não acha que podem ser a mesma coisa? Amor e atenção?"
Esse filme é uma carta de amor, para uma cidade que se tornou um lar ou uma prisão, para uma mãe que tenta amar e para uma adolescente que nega seu próprio nome. Lady Bird vive nessa metamorfose da adolescência para a vida adulta, nesse limbo constante que mistura o desejo de ficar e o desejo de fugir, mistura um adeus com um eu te amo, o gostar e o amar. É a vida do lado errado dos trilhos de trem, é o amor que mora na casa mais grande da cidade, é uma redação para uma fuga, é o vestido do baile rosa demais, é perguntar se gostar é maior que amar. É procurar conforto aos domingos à tarde visitando casas vazias enquanto se recupera de um coração partido, é também correr com coração partido no aeroporto para dizer que ama e chegar atrasada. É perceber que lar, amor e detalhes estão tudo em uma mesma carta. E quando eu li, ouvi e vi essa carta pela primeira vez me vi com uma angústia tão grande que desabei como as garotas do filme que desabam pela primeira decepção amorosa, eu desabei pela primeira despedida que tive que fazer quando esse filme acabou. Não me vi na protagonista, mas me vi nos detalhes, me vi nessa cidade longe demais do centro, nesse desejo de encontrar um lar no futuro, mesmo escrevendo uma carta de amor ao meu passado, e me vi nessa incerteza de quem sou. E acho que quanto mais eu assistir, mais eu perceberei detalhes ou frases de amor nessa carta.
Entre o retrato de uma adolescência vazia e festas cheias, Anita Rocha da Silveira vaga entre a vida e a morte de sua protagonista, mas não a morte definitiva e sim a morte como uma forma de lidar com a vida, como uma euforia de olhar para essas cidades vazias, enquadradas como espaços desconhecidos a esses alunos que vagam todos os dias por lá, e sentir prazer em sentir que está vivo, o prazer de beijar a própria morte e dizer até a próxima. E apesar desse prazer a diretora não se perde em nos envolver nessas violências que, infelizmente devo dizer, cotidianas, todos os dias um corpo de um jovem é encontrado, todos os dias um grito é abafado por uma sirene, todos os dias a euforia da morte se mistura com o medo da vida. Todos os dias a vida se torna em perambular por pontos de ônibus vazios e por caminhos de terra marcados pelos seus próprios passos. Todos os dias eu encarava as mesmas ruas para ir para a minha escola, estavam vazias pois tinha que sair cedo, cedo demais para uma adolescente acordar, todos os dias eu andava até a sala entre corredores vazios, entre salas trancadas e entre sussurros de adultos que já me reconheciam, mas não me conheciam. Eu enterrei a maioria dessas memórias em mim, e ao contrário desses adolescentes do filme, não consigo encarar a morte de frente, pois não conseguia encarar a vida de frente, é o olhar desviando em uma conversa, é o silêncio ocupando o espaço. É o medo de perder os meus “todos os dias”, os meus passos nos mesmos corredores, os sussurros que eu reconheço e o olhar a fechadura trancada, na espera de alguém para abri-la. E esse filme me fez relembrar de tudo isso e principalmente dessa minha relação com a morte, tão estranha e tão presente, mesmo que camuflada no medo da vida e com tudo isso decidi registrar sobre a morte de ‘todos os dias’ na audiossérie Sinal Boreal.
Como contar histórias tão distintas em seu tempo, lugar e espaço? Como contar a história dessas três mulheres que se consomem pelo desejo de fazer algo para si? Nem que seja se afogar em barulhos intensos, no meio da água ou no esquecimento de si. O diretor faz com que cada fala seja um deleite melancólico e agoniante, que cada corte seja essa fusão de histórias tão próximas emocionalmente e tão longe cronologicamente e Phillip Glass faz com que cada nota seja um peso e um alívio nessas personagens que estão sempre em metamorfoses.
E vendo elas refleti em como essas personagens e essas metamorfoses entram também aqui em casa, pensei em como minha avó adora cortar o caule de suas flores e em como ela não se importa se elas irão viver menos, talvez ela deseje que esse ciclo seja renovado constantemente. Pensei em como minha mãe sempre cortava papeis para os alunos da sala aos quais dava aula, eram noites que preenchiam o chão de pequenas pontas dos papeis que desapareciam de manhã, mas eu não tenho coragem de cortar caules ou papeis, acho que não quero ciclos renovados ou salas de aulas barulhentas. Já Clarissa deseja comemorar mais um ciclo de Richard, Virgínia queria o barulho de uma cidade tumultuada e Laura queria fazer apenas um bolo de aniversário para conseguir sentir algo dentro de si. Mulheres que desejam que o tempo não fosse tão desgastante quanto as ações, como pode tantas gerações e tantas aflições em um filme só? E tentando me aliviar um pouco do peso de tudo isso, acabei falando (ou desabafando) sobre tudo isso na audiossérie Sinal Boreal.
Me senti um pouco aflita com essas mulheres, os enquadramentos tão próximos e cheios de movimentos nos deixando aflitos com essa dança sem liberdade, mesmo que essas mulheres vaguem em suas mentes, seus corpos continuam parados e os olhos perdidos nas rachaduras da casa. Existe um desejo tão intenso de desaparecer aqui, essas mulheres que buscam pertencer em algum lugar ou em lugar nenhum, talvez como um registro, para serem marcadas pela suas próprias palavras ou por alguém que se importa em ouvi-las, um registro de sua busca pela sanidade em sua própria mente, ou para não serem esquecidas. Esse filme me fez pensar sobre ser quem eu sou, sobre esses momentos que vivi que assim como o filme, beiram a coisas da minha imaginação ou da realidade e me fez registrar tudo isso na audiossérie Sinal Boreal
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A Metamorfose dos Pássaros
4.2 45“Minha mãe não era só mãe, era uma árvore.”
Quando terminei o filme não sabia muito bem o que fazer, se registrava alguma coisa, se tentava entender por que um vazio me invadia, se limpava as lágrimas ou se imediatamente assistiria mais uma vez para tentar memorizar todas as imagens e guardar na mente todas as frases que me atravessaram, que me mantiveram na casa vazia do filme, no barco perdido ou nas árvores marcadas pelas memórias de seu crescimento, desenvolvimento e queda.
Não sabia também se falava para a minha mãe sobre ele, até porque, as mães morrem no filme, de forma tão inesperada e abrupta que fiquei marcada pelo vazio que elas deixaram.
Eu falaria pra ela sobre as cartas jogadas ao mar, escritas com tonturas das ondas e que se encontra com as palavras sóbrias de saudades da terra. Falaria que sinto que nossa conexão é assim, distante, meio sóbria demais da saudade, mas também em meio as vertigens de palavras que vagam entre diretas ou indiretas, entre sentimentos e lições de vida.
Mas falaria que apesar da ausência de mães, elas nunca deixam de serem mencionadas, na verdade, elas são o ponto central, elas que formam as palavras, elas que predominam nas imagens, elas invadem cenários e invadem o som do mar turbulento.
São elas que provocam que esses dois personagens se encontram e digam para nós o quanto suas palavras de saudade, são também palavras de ausência, solidão, valentia e principalmente amor. O filme não existiria sem mães, a diretora não saberia o que falar, seu pai não teria o que ler e nós perderíamos a grandeza das metamorfoses do filme.
Falaria que foi esse filme que me fez olhar diferente para nós duas, que me fez enxergar as paredes vazias de casa como uma nova forma de olhar o mundo, olhei as rachaduras, as manchas de fungos, as marcas de fotografias antigas, olhei para dentro de casa e percebi que agora, eu deveria estar olhando para fora.
“Fui com os pássaros.
Eles têm asas e eu preciso de um novo coração.”
(comentei mais sobre o filme e seus efeitos em mim na audiossérie Sinal Boreal:
https://open.spotify.com/episode/2vcOwYmyrXHRhWjpispePL?si=caeaba94f1684bbd)
Cinema, Aspirinas e Urubus
3.9 372 Assista Agora"-Esse filme é tão triste.
-Triste? Eu acho feliz.
-É feliz, mas é triste. A gente começa a pensar na vida. E a pensar na vida da gente. Uma vida que devia ser assim: buscar a felicidade e mais nada."
Até hoje eu nunca precisei de aspirinas, nunca tive uma dor de cabeça muito forte ou uma dor no corpo insuportável, na verdade remédios raramente são necessários em minha vida, o corpo me deixa leve para que a cabeça me pese.
Porém, se vendessem aspirinas em troca de pequenos filmes eu teria sérios problemas de vício, ou é o que os outros achariam quando me vissem todos os dias saindo de casa para comprar aspirinas e só voltando duas horas depois ludibriada, encantada, triste e às vezes até feliz, pois não há nada mais mágico e encantador para mim do que imagens em uma tela improvisada.
E é nessa estrada vazia de carros e cheia de gente de “Cinema, Aspirinas e Urubus” que embarcamos nessa pequena troca de dores pela imagem.
Imagem essa construída no filme através de luzes fortes do sol ardente ao céu e tremida pelo balanço da caminhonete de Johann e a aproximação em cada vivência da estrada. E onde o som é preenchido pela rádio com os relatos da guerra e pelas confissões da carona que nem precisa de aspirina, mas sim de algum estrangeiro para ouvir suas histórias tão comuns nesse Brasil.
Brasil esse que encanta Johann, que apesar de chegar para fugir da guerra da Alemanha, ele ficou pelo encanto do povo a tela improvisada, pois mesmo vendendo dores inexistentes a esse povo é a pequena dose de cinema que alimenta o corpo.
Porém Ranulpho, o carona que permanece, não está encantado por imagens ou por dores inexistentes, Ranulpho não se encanta mais pelo Brasil, está tão determinado a sair do país como está com medo de fracassar na saída. Porém é ao lado de Johann que um pequeno encantamento volta, talvez pela oportunidade de fugir ou pelo novo olhar que o estrangeiro lhe mostra do Brasil, não importa. Aqui é a vida que encanta.
(Falei mais sobre ele na audiossérie Sinal Boreal: https://open.spotify.com/episode/0TGlNbotLVR8TlItRFQbcY?si=ad42e40b3e6d4684 )
Pequena Mamãe
3.8 96 Assista AgoraA morte é o ponto inicial do filme, é a tragédia para os olhos de uma criança. O quarto vazio com a ausência de sua própria avó é o destino da pequena Nelly de 8 anos na primeira cena, e no caminho deste destino ela diz adeus a outras avós que vivem ali, no asilo, mas o quarto de sua própria está vazio, não vemos a despedida, nem há lágrimas ou choro em Nelly, apenas o silêncio e o desejo de guardar sua bengala, uma pequena lembrança de algo tão presente na figura de sua avó.
E na primeira cena que vemos a mãe de Nelly ela está de costas e o título do filme preenche o plano: “Pequena Mamãe”, Através de uma tragédia sem lágrimas que a diretora Céline Sciamma decide começar o seu filme protagonizado por uma criança.
Nelly, sua mãe, Marion, e seu pai viajam até a casa de sua avó, a casa cheia de móveis novos cobrindo as lembranças do passado, a tinta nova da parede pintada apenas em volta dos móveis, o quarto escondendo cadernos de infância, o armário escondido no meio do corredor, tantas lembranças afundadas em uma casa e agora em uma pessoa que viveu todas essas mudanças e não consegue aguentar mais uma e é por isso que Marion foge de sua própria casa.
E é no olhar de Nelly que a diretora nos guia pelo luto, pela descoberta de um passado que não é dela e pela curiosidade de entender a própria mãe e foi aqui que entendi o peso desse filme em mim, foi pelo olhar Marion em seu quarto antigo e foi o desejo de Nelly de despedir de sua avó que vi meu próprio desejo de entender a minha própria mãe, de entender o seu olhar vazio para o próprio quarto e de sua viagem sem despedidas até uma casa de verão abandonada. E curiosa com o que iria descobrir decidi registrar um pouco sobre a viagem na audiossérie Sinal Boreal.
Lady Bird: A Hora de Voar
3.8 2,1K Assista Agora"Não acha que podem ser a mesma coisa? Amor e atenção?"
Esse filme é uma carta de amor, para uma cidade que se tornou um lar ou uma prisão, para uma mãe que tenta amar e para uma adolescente que nega seu próprio nome.
Lady Bird vive nessa metamorfose da adolescência para a vida adulta, nesse limbo constante que mistura o desejo de ficar e o desejo de fugir, mistura um adeus com um eu te amo, o gostar e o amar.
É a vida do lado errado dos trilhos de trem, é o amor que mora na casa mais grande da cidade, é uma redação para uma fuga, é o vestido do baile rosa demais, é perguntar se gostar é maior que amar.
É procurar conforto aos domingos à tarde visitando casas vazias enquanto se recupera de um coração partido, é também correr com coração partido no aeroporto para dizer que ama e chegar atrasada.
É perceber que lar, amor e detalhes estão tudo em uma mesma carta.
E quando eu li, ouvi e vi essa carta pela primeira vez me vi com uma angústia tão grande que desabei como as garotas do filme que desabam pela primeira decepção amorosa, eu desabei pela primeira despedida que tive que fazer quando esse filme acabou. Não me vi na protagonista, mas me vi nos detalhes, me vi nessa cidade longe demais do centro, nesse desejo de encontrar um lar no futuro, mesmo escrevendo uma carta de amor ao meu passado, e me vi nessa incerteza de quem sou. E acho que quanto mais eu assistir, mais eu perceberei detalhes ou frases de amor nessa carta.
Mate-me Por Favor
3.0 237Entre o retrato de uma adolescência vazia e festas cheias, Anita Rocha da Silveira vaga entre a vida e a morte de sua protagonista, mas não a morte definitiva e sim a morte como uma forma de lidar com a vida, como uma euforia de olhar para essas cidades vazias, enquadradas como espaços desconhecidos a esses alunos que vagam todos os dias por lá, e sentir prazer em sentir que está vivo, o prazer de beijar a própria morte e dizer até a próxima.
E apesar desse prazer a diretora não se perde em nos envolver nessas violências que, infelizmente devo dizer, cotidianas, todos os dias um corpo de um jovem é encontrado, todos os dias um grito é abafado por uma sirene, todos os dias a euforia da morte se mistura com o medo da vida. Todos os dias a vida se torna em perambular por pontos de ônibus vazios e por caminhos de terra marcados pelos seus próprios passos.
Todos os dias eu encarava as mesmas ruas para ir para a minha escola, estavam vazias pois tinha que sair cedo, cedo demais para uma adolescente acordar, todos os dias eu andava até a sala entre corredores vazios, entre salas trancadas e entre sussurros de adultos que já me reconheciam, mas não me conheciam.
Eu enterrei a maioria dessas memórias em mim, e ao contrário desses adolescentes do filme, não consigo encarar a morte de frente, pois não conseguia encarar a vida de frente, é o olhar desviando em uma conversa, é o silêncio ocupando o espaço. É o medo de perder os meus “todos os dias”, os meus passos nos mesmos corredores, os sussurros que eu reconheço e o olhar a fechadura trancada, na espera de alguém para abri-la.
E esse filme me fez relembrar de tudo isso e principalmente dessa minha relação com a morte, tão estranha e tão presente, mesmo que camuflada no medo da vida e com tudo isso decidi registrar sobre a morte de ‘todos os dias’ na audiossérie Sinal Boreal.
As Horas
4.2 1,4KComo contar histórias tão distintas em seu tempo, lugar e espaço? Como contar a história dessas três mulheres que se consomem pelo desejo de fazer algo para si? Nem que seja se afogar em barulhos intensos, no meio da água ou no esquecimento de si. O diretor faz com que cada fala seja um deleite melancólico e agoniante, que cada corte seja essa fusão de histórias tão próximas emocionalmente e tão longe cronologicamente e Phillip Glass faz com que cada nota seja um peso e um alívio nessas personagens que estão sempre em metamorfoses.
E vendo elas refleti em como essas personagens e essas metamorfoses entram também aqui em casa, pensei em como minha avó adora cortar o caule de suas flores e em como ela não se importa se elas irão viver menos, talvez ela deseje que esse ciclo seja renovado constantemente. Pensei em como minha mãe sempre cortava papeis para os alunos da sala aos quais dava aula, eram noites que preenchiam o chão de pequenas pontas dos papeis que desapareciam de manhã, mas eu não tenho coragem de cortar caules ou papeis, acho que não quero ciclos renovados ou salas de aulas barulhentas. Já Clarissa deseja comemorar mais um ciclo de Richard, Virgínia queria o barulho de uma cidade tumultuada e Laura queria fazer apenas um bolo de aniversário para conseguir sentir algo dentro de si. Mulheres que desejam que o tempo não fosse tão desgastante quanto as ações, como pode tantas gerações e tantas aflições em um filme só? E tentando me aliviar um pouco do peso de tudo isso, acabei falando (ou desabafando) sobre tudo isso na audiossérie Sinal Boreal.
Shirley
3.3 74 Assista AgoraMe senti um pouco aflita com essas mulheres, os enquadramentos tão próximos e cheios de movimentos nos deixando aflitos com essa dança sem liberdade, mesmo que essas mulheres vaguem em suas mentes, seus corpos continuam parados e os olhos perdidos nas rachaduras da casa.
Existe um desejo tão intenso de desaparecer aqui, essas mulheres que buscam pertencer em algum lugar ou em lugar nenhum, talvez como um registro, para serem marcadas pela suas próprias palavras ou por alguém que se importa em ouvi-las, um registro de sua busca pela sanidade em sua própria mente, ou para não serem esquecidas.
Esse filme me fez pensar sobre ser quem eu sou, sobre esses momentos que vivi que assim como o filme, beiram a coisas da minha imaginação ou da realidade e me fez registrar tudo isso na audiossérie Sinal Boreal