Sou um devoto de BOCA DE LIXO, mas não curto muito o trabalho do Coutinho - em especial, seus últimos vistos por mim. Se JOGO DE CENA ainda me proporcionou um certo sabor por conta de sua feitura formal com detalhes metalinguísticos, nesse a formalidade seria só isso mesmo. Não vejo mérito nem sensibilidade do diretor em extrair o íntimo de seus entrevistados. Por isso fico com a primeira impressão que tive pós primeiro filme que vi dele (CABRA MARCADO PARA MORRER), ou seja, é só mais um, tal qual o sistema, alimentando-se da desgraça alheia.
Esse não um filme sobre música, é um filme sobre relacionamentos e sua finitude. Eduardo Coutinho utiliza do gatilho das canções como um fio condutor de sua excelente narrativa. A música sempre é associada diretamente a um amor, que mesmo com o fim do relacionamento não deixa de existir, a pessoa pode não estar mais ali, mas a lembrança e as canções são para sempre.
As Canções é um filho de Jogo de Cena, aqui menos experimentalista e mais pessoalista. Talvez a mulher que canta em Jogo de Cena tenha ajudado na gestação dessa ideia, fiquei com este pensamento. Uma bela seleção de personagens, com grandes histórias e escolhas de canções, inclusive e sobretudo as autorais. Forte demais. Em alguns específicos momentos percebo o limiar entre realidade e ficção. Será?
Acho que nada me emociona tal qual esse. Desde o começo vem uma inquietação muito grande, cada história parece trazer uma intimidade maior com cada pessoa ali, que é desconhecida.
Falar sobre música (sobre esporte também, talvez) é um pouco complexo em filmes. Não somente em musicais, mas na hora de falar também sobre a relação de pessoas com a música. A grande maioria das vezes, é abrangido o quesito profissional da música, ou seja: quem tem a voz é quem a escreveu ou a performa profissionalmente - o que pode ser bastante interessante muitas vezes, claro. Aqui, fala-se sobre o que as músicas significam pras pessoas. Como pode captar-se isso? Parece tudo muito simples, ao mesmo tempo em que é difícil imaginar outras ocasiões em que já vimos isso em tela. Cada pessoa ali chega e abre o coração sobre o que cada música representa pra si. A música não toca, ela é cantada por quem conta a história. Há alguns erros no ritmo, na letra. Cada música pertente à pessoa que canta sua vida.
Quantas vidas cabem em uma canção? Quantas histórias de amor e abandono (juntos) cada uma pode conter?
Acho que apenas uma das histórias não é sobre um romance vivido e aqui eu sinto a mesma coisa que em Babilônia 2000: a vida (ou o amor) foi duro com quem está ali, mas nada disso faz da pessoa uma coitada. Ela viveu, amou, foi amada, se fudeu e hoje lida com isso como pode. Por exemplo, uma das últimas mulheres fala sobre um romance da vida inteira, que nunca acabou propriamente e que a fez sofrer muito, ao mesmo tempo em que fala que teve, sim, seus amigos que não são amigos. Uma das primeiras senhoras conta absurdos que viveu na mão de um companheiro e no final faz questão de dizer "foi muito bom". Não sei exatamente explicar o que essa frase significa, mas olhar para ela falando isso com voz embargada, porém firme, com lágrimas nos olhos, é algo que vai além de qualquer explicação.
Dia desses ouvi alguém falando sobre outro do Coutinho (Cabra marcado para morrer ou Jogo de Cena, não me lembro exatamente) e mencionou algo interessante: ele sempre tira os atores, o cenário, os movimentos elaborados de câmera, a trilha sonora, o conhecimento prévio do entrevistador. O que sobra? Isso é realmente um filme? Sim, e é o maior já feito, o único que capta de maneira brilhante a relação que temos com canções.
Depois desse, recomendo muito Santo Forte e Babilônia 2000. Coutinho falou de quase tudo que nos permeia na vida, desde a repressão a ligas camponesas na ditadura até a ansiedade de um ano novo. De religião até o fim do ensino médio. De vizinhança até atuação. E esses dois também falam de seus temas de um modo que ninguém conseguiu falar sobre eles. Talvez porque o próprio Coutinho, a direção, não sei, não fale nada diretamente. O negócio é deixar falarem. Não é tão simples como parece, aparentemente.
IMPRIMATUR - visto pela TV em 2014:
Sou um devoto de BOCA DE LIXO, mas não curto muito o trabalho do Coutinho - em especial, seus últimos vistos por mim. Se JOGO DE CENA ainda me proporcionou um certo sabor por conta de sua feitura formal com detalhes metalinguísticos, nesse a formalidade seria só isso mesmo. Não vejo mérito nem sensibilidade do diretor em extrair o íntimo de seus entrevistados. Por isso fico com a primeira impressão que tive pós primeiro filme que vi dele (CABRA MARCADO PARA MORRER), ou seja, é só mais um, tal qual o sistema, alimentando-se da desgraça alheia.
Avaliação em nota: 7.0
Esse não um filme sobre música, é um filme sobre relacionamentos e sua finitude.
Eduardo Coutinho utiliza do gatilho das canções como um fio condutor de sua excelente narrativa. A música sempre é associada diretamente a um amor, que mesmo com o fim do relacionamento não deixa de existir, a pessoa pode não estar mais ali, mas a lembrança e as canções são para sempre.
As Canções é um filho de Jogo de Cena, aqui menos experimentalista e mais pessoalista. Talvez a mulher que canta em Jogo de Cena tenha ajudado na gestação dessa ideia, fiquei com este pensamento. Uma bela seleção de personagens, com grandes histórias e escolhas de canções, inclusive e sobretudo as autorais. Forte demais. Em alguns específicos momentos percebo o limiar entre realidade e ficção. Será?
Revendo meu filme favorito
Acho que nada me emociona tal qual esse. Desde o começo vem uma inquietação muito grande, cada história parece trazer uma intimidade maior com cada pessoa ali, que é desconhecida.
Falar sobre música (sobre esporte também, talvez) é um pouco complexo em filmes. Não somente em musicais, mas na hora de falar também sobre a relação de pessoas com a música. A grande maioria das vezes, é abrangido o quesito profissional da música, ou seja: quem tem a voz é quem a escreveu ou a performa profissionalmente - o que pode ser bastante interessante muitas vezes, claro.
Aqui, fala-se sobre o que as músicas significam pras pessoas. Como pode captar-se isso?
Parece tudo muito simples, ao mesmo tempo em que é difícil imaginar outras ocasiões em que já vimos isso em tela.
Cada pessoa ali chega e abre o coração sobre o que cada música representa pra si. A música não toca, ela é cantada por quem conta a história. Há alguns erros no ritmo, na letra. Cada música pertente à pessoa que canta sua vida.
Quantas vidas cabem em uma canção?
Quantas histórias de amor e abandono (juntos) cada uma pode conter?
Acho que apenas uma das histórias não é sobre um romance vivido e aqui eu sinto a mesma coisa que em Babilônia 2000: a vida (ou o amor) foi duro com quem está ali, mas nada disso faz da pessoa uma coitada. Ela viveu, amou, foi amada, se fudeu e hoje lida com isso como pode. Por exemplo, uma das últimas mulheres fala sobre um romance da vida inteira, que nunca acabou propriamente e que a fez sofrer muito, ao mesmo tempo em que fala que teve, sim, seus amigos que não são amigos.
Uma das primeiras senhoras conta absurdos que viveu na mão de um companheiro e no final faz questão de dizer "foi muito bom". Não sei exatamente explicar o que essa frase significa, mas olhar para ela falando isso com voz embargada, porém firme, com lágrimas nos olhos, é algo que vai além de qualquer explicação.
Dia desses ouvi alguém falando sobre outro do Coutinho (Cabra marcado para morrer ou Jogo de Cena, não me lembro exatamente) e mencionou algo interessante: ele sempre tira os atores, o cenário, os movimentos elaborados de câmera, a trilha sonora, o conhecimento prévio do entrevistador. O que sobra? Isso é realmente um filme?
Sim, e é o maior já feito, o único que capta de maneira brilhante a relação que temos com canções.
Depois desse, recomendo muito Santo Forte e Babilônia 2000. Coutinho falou de quase tudo que nos permeia na vida, desde a repressão a ligas camponesas na ditadura até a ansiedade de um ano novo. De religião até o fim do ensino médio. De vizinhança até atuação. E esses dois também falam de seus temas de um modo que ninguém conseguiu falar sobre eles. Talvez porque o próprio Coutinho, a direção, não sei, não fale nada diretamente. O negócio é deixar falarem. Não é tão simples como parece, aparentemente.
Coutinho e a sua simplicidade avassaladora!!!