Bengala Ocidental, início do séc. XX: Bimala relembra os eventos que moldaram sua visão de mundo. Anos atrás, seu marido Nikhil, um moderno e rico latifundiário, desafiou a tradição ao dar-lhe educação e ao convidá-la para sair da reclusão na qual as mulheres casadas eram mantidas na época, para o espanto dos outros parentes. Ao conhecer Sandip, colega revolucionário do marido, ela se envolve nesta causa política apesar dos avisos de Nikhil. Conforme a história se desenvolve, a relação entre Bimala e Sandip vai além do platonismo e as batalhas políticas, colocando ricos contra pobres e hindus contra muçulmanos, revelam-se mais complexas do que todos imaginavam.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Indicado a Palma de Ouro em Cannes, mas no ano do 'Paris, Texas' não tinha para ninguém. Adorei o filme, a dinâmica, a construção dos personagens, direção e condução. Talvez se estenda um pouco, mas no geral foi um dos melhores filmes do diretor que assisti. Me apaixonei pelo Nikhilesh, que maridão! Acho que as pessoas julgam meio mal o Sandip, não consigo enxergá-lo como um vilão, mas sim como um alienado hipócrita que não percebe que é raso e fútil. Bimala é o reflexo da opressão machista. Há tantas camadas no filme, que por mais que não dê para trabalhar tudo, está tudo lá de alguma maneira. Algumas coisas mais aparentes e outras não. O filme dá pano pra manga para se refletir sobre muita coisa, isso que é o grande acerto. Baseado na obra de Rabindranath Tagore, ganhador do Nobel de literatura. Recomendo muito! Interessante tentar entender o contexto da Índia pré Primeira Guerra Mundial.
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NACIONALISMO SOB A ÓTICA INDIANA
Último visto visto em 2017 por este que vos digita. Aproveitei pra ver porque há poucos dias li o centenário romance homônimo que o inspira, escrito pelo vencedor do prêmio Nobel de literatura Rabindranath Tagore, que foi amigo pessoal de Gandhi e por quem Satyajit Ray tem clara admiração, afinal, já adaptou outros escritos dele e dirigiu até um documentário sobre Tagore.
"A Casa e o Mundo" toma algumas liberdades narrativas, a meu ver, bastante acertadas acerca de diminuir as longas divagações sobre o pensamento dos três personagens centrais onipresentes no escrito original, de modo que há pouca narração off e eles expõem a maior parte do que pensam em diálogos diretos com outros interlocutores. É uma prova da inteligência de Ray como cineasta, afinal, há recursos de exposição introspectiva que funcionam bem na literatura, mas nem tanto na linguagem do cinema. Pena que isso tenha culminado num efeito colateral para o filme: o revolucionário maquiavélico Sandip (interpretado por Soumitra Chatterjee, parceiro habitual de Ray desde o genial "O Mundo de Apu" em 1959) é bem menos interessante do que no livro, já que eram deles os mais interessantes momentos da obra que serviu de base para o filme.
Por outro lado, pra minha surpresa, Ray e o ator Victor Banerjee conseguiram transformar justamente o pior personagem do livro, o marajá Nikhil, num sujeito mais carismático e afável que na obra de Tagore, na qual ele era mais uma espécie de asceta reservado dedicado à 'busca pela verdade' num tom religioso demais, além de ser claramente adepto da 'modernidade' inglesa que Sandip busca combater. Na primeira hora de duração, principalmente, Nikhil é empático e o melhor personagem do filme.
Uma pena que "A Casa e o Mundo" tenha herdado do livro sua maior limitação: a qualidade narrativa cai bastante na segunda metade, sobretudo na medida em que a complexidade de Sandip vai saindo de foco pra transformá-lo quase num 'vilão de novela' convencional. Tanto no livro quanto no filme, a primeira metade é muito melhor, inclusive na tensão sexual crescente entre Sandip e Bimala, que em muito lembra o excelente "Charulata" (por sinal, também adaptado da obra literária de Tagore).
Enfim, até rende uma boa sessão e é uma boa referência do que foi o período de resistência nacionalista contra os ingleses, movimento que está na raiz da independência indiana décadas depois. Mas sabemos que é abaixo do nível que o velho Satyajit é capaz de oferecer...