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Os dias do senhor João de Deus decorrem sem grandes sobressaltos, divididos entre o seu trabalho no "Paraíso de Gelado" onde, a contento de todos, desempenha as funções de encarregado e de inventor da especialidade da casa, o famoso gelado "Paraíso", que faz as delícias da clientela, e a sua casa, onde, paralelamente aos trabalhos domésticos, ocupa as suas horas de ócio, quase sempre solitárias, a coleccionar pentelhos femininos, num precioso album a que chama "Livro dos pensamentos".
As raparigas de origem modesta constituem o pessoal do estabelecimento, são objecto dos cuidados permanentes do responsável, zeloso pelo cumprimento de regras básicas de higiene que não façam perigar a saúde pública.
Satisfeita com o curso do negócio, Judite, a patroa, sonha fundi-lo com uma empresa francesa e conta com os préstimos de João de Deus para impressionar favoravelmente um famoso geladeiro francês, vindo expressamente de Paris para provar a especialidade da casa. Os resultados são nulos e saldar-se-ão por um rotundo fracasso.
Entretanto, o comportamento de João de Deus - até aí sem falhas - começa a apresentar sintomas de desvios algo inquietantes. Que o digam a senhora arquitecta, Rosarinho e Virgínia.
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chaaaaaaaaaaaato
Um Pasolini com menos sexo + Chatice usual de filmes portugueses + "filosofia" = "A Comédia de Deus"
Incrível como os longas portugueses são extremamente chatos.
O filme tem 2h42 ou 6h?
"Retrocedam com essa merda!"
Melhor filme português de todos os tempos. Banho de leite, sorvetes de mulheres, ritual da fertilidade com uma garota de 15 anos sentada em uma cornucópia de ovos, a garota lendo um poema de Camões ao vaso sanitário fazendo as necessidades... o sublime desce às coisas mundanas e absurdas nessa união única em que o sagrado é evidenciado pelo profano, já que tudo é visto pelo olhar desse Deus encarnado no corpo de um pobre diabo.
João de Deus é o outro filho de Deus, aquele que, diferentemente do Cristo, encontra o sagrado em seus pecados e não consegue salvar nem a si mesmo. Assim como Cristo, porém, João de Deus também é perseguido pela sociedade que não compreende e não aceita seus atos. Quando percebemos essa relação, o filme adquire uma ironia deliciosa e somos livrados da culpa de ver tudo aquilo com seriedade. Somos, a esse ponto, como os dois patetas a brigar pelos cigarros a serem mantidos ou não na boca antes do acontecimento sério. Vemos antes da gravidade da violência que vem punir a pedofilia, o humor que dá a tudo um tom leve, um humor negro muito fino. A partir daí, o filme passa a funcionar como uma comédia mesmo, uma divina comédia humana.
O mais interessante de se notar é que, a partir desse segundo filme da trilogia, o olhar de João César Monteiro enquanto autor sobre sua obra vai ficando mais evidente, a moldura do quadro vai sendo evidenciada. Há aqui, em relação a "Recordações da Casa Amarela", uma decupagem bem mais econômica, com planos que se mudam muito pouco e apreendem em um único quadro todos os gestos dos personagens, extraindo suas forças desses gestos, à semelhança do teatro mesmo. Há construções que prezam mais evidentemente mais pela própria artificialidade, pelo espetáculo construído, desorientando a todo momento o espectador com a persistência da ação prolongada que tende tanto para o estranho (a natação simulada sobre a mesa), quanto para o cômico de um humor negro (o já mencionado confronto entre João e o pai ultrajado antes do confronto físico, que se torna uma luta para fumar cigarros); ou então, se manifesta nos planos sem contra-planos que se instauram nas conversas entre João e as suas "pupilas" do trabalho na gelateria.
Essa câmera expectante que aguarda que os acontecimentos se desenrolem por si, que vive o improviso do teatro, no que Leonor Areal chamou de "filme-esmola", é de fato a marca mais própria de João César Monteiro. Marca que não estava muito evidente no primeiro filme da trilogia, que prefere maiores sutilezas. Aqui em "A Comédia de Deus", esse olhar de Monteiro aparece, porém mesclado ao olhar de João de Deus. O amálgama ficará mais evidente em "As Bodas de Deus", o terceiro da trilogia.
É como se, dessa forma, João César Monteiro fosse cada vez mais se fundindo à sua criação, deixando esse processo natural da ficção que absorve a realidade do criador acontecer. Acontece o processo inverso com José Mojica Marins, cineasta em quem enxergo certas semelhanças com Monteiro, como sua contraparte brasileira. Mojica não suportou o horror de ser engolido pelo terrível Zé do Caixão, e teve que exorcizá-lo em "Exorcismo Negro". Monteiro, por outro lado, foi se tornando cada vez mais seu personagem fílmico, como se ambos tivessem chegado à conclusão de que não podiam existir separados, conforme se verá melhor no contexto de "As Bodas de Deus".
Tudo é de um paladar cremoso: os perfumes dos sorvetes, os óleos essenciais da alma, o paraíso servido numa vulva azul, os desvarios de um velho tarado nadador, o talho na cabritinha ensanguentada e as vitelas arremessadas (Evaristo, tens cá disto?) o banho de leite amargo e patriótico, o nabo que vira salsa, o livro dos pentelhos-pensamentos venenosos e, pasmem, os diálogos.