Este é um daqueles casos em que a morte, em vez de ser o descanso final, vira o começo de uma sucessão de acontecimentos que desafiam qualquer noção de paz ou respeito. É uma história que não combina com a ideia de “descanse em paz”; aqui, a morte esbarra em práticas que beiram o absurdo, revelando um caso macabro e, desconfortavelmente, interessante.
Mas, mesmo achando o caso fascinante, não gosto muito das escolhas narrativas da série. Acho que ela dá voz demais ao David. Você começa achando que vai ver mais um caso bizarro e, de repente, está ouvindo o David Sconce contar suas atrocidades como quem lembra de um emprego antigo. Ele fala demais e as vítimas não falam o suficiente. É como se o documentário estivesse mais interessado em dar palco — e microfone — justamente a quem menos precisava dele. E não que seja moralmente errado entrevistar alguém como ele; se fosse, nem existiriam tantos documentários entrevistando Ted Bundy, John Wayne Gacy ou qualquer outro que cometeu crimes piores. O ponto é que The Mortician parece fascinado pelo David. E, de fato, ele é uma figura hipnotizante: egocêntrico, manipulador, cercado de brutamontes que usava a seu favor, gabando-se como se fosse intocável, falando até do tipo de veneno que usaria para matar alguém. Mas fica estranho quando, num documentário repleto de depoimentos de vítimas, o foco escorrega para o prazer dele em negar, minimizar ou se justificar.
Lembro que assisti a um documentário sobre Alex Jones, e lá a narrativa era muito mais produtiva e sensível. Jones atormentava pais de crianças vítimas de tiroteios escolares, chamando-os de atores e espalhando mentiras em plataformas de grande alcance, impedindo que aqueles pais sequer tivessem espaço para viver o luto. E o documentário se concentrava na batalha legal, dando peso à dor real daquelas famílias. São casos diferentes, claro, mas a comparação ajuda a entender meu incômodo aqui. Em The Mortician, os depoimentos das famílias são tristes, mas se perdem pelo profundo interesse no David. A gente sente raiva dele — claro que sente — e essa raiva funciona como um motor narrativo, especialmente quando ele diz, com aquela frieza perturbadora, que não havia nada demais em enfiar vários corpos no forno e misturar as cinzas, que eram “só cinzas”. Mas, às vezes, o documentário parece tão empenhado em deixá-lo se exibir que esquece de quem realmente importa.
Ainda assim, The Mortician é um bom documentário. O que mais prende é perceber que o David não brotou do nada — ele é só o ramo mais visível de uma árvore familiar que sempre cresceu torta. Uma família inteira com um histórico que faria qualquer um querer morrer duas vezes antes de cair na mão deles. Se no início tudo parece girar em torno do “rei funerário”, do gângster das cinzas, logo entendemos que ele não era um desvio isolado. Era um ramo apodrecido de uma árvore já envenenada. A Lamb Funeral Home, tão tradicional à primeira vista, guarda um legado de práticas clandestinas que vão da retirada e venda de órgãos ao comércio nada discreto de dentes de ouro. E Lorraine Sconce, a matriarca aparentemente intocável, surge como uma figura tão moralmente distorcida quanto o próprio filho.
Essa dimensão hereditária da crueldade — a ideia de que o horror ali era tradição, não acidente — é, ironicamente, o aspecto mais fascinante do documentário. É perturbador perceber que nem enterrar alguém era um processo seguro sob o comando dessa família. The Mortician talvez não acerte em tudo, mas consegue revelar algo maior do que a história de um criminoso: mostra como uma família inteira transformou a morte em negócio, e o luto em oportunidade.
O cara é um puta dum narcisista e sociopata, a ponto de rir e ironizar várias situações delicadas. Queria que o diretor do doc tivesse perguntado pra ele se ele faria cremação coletiva dos avós dele quando faleceram e ele, por incrível que pareça, ficou comovido.
19/5/2026
Este é um daqueles casos em que a morte, em vez de ser o descanso final, vira o começo de uma sucessão de acontecimentos que desafiam qualquer noção de paz ou respeito. É uma história que não combina com a ideia de “descanse em paz”; aqui, a morte esbarra em práticas que beiram o absurdo, revelando um caso macabro e, desconfortavelmente, interessante.
Mas, mesmo achando o caso fascinante, não gosto muito das escolhas narrativas da série. Acho que ela dá voz demais ao David. Você começa achando que vai ver mais um caso bizarro e, de repente, está ouvindo o David Sconce contar suas atrocidades como quem lembra de um emprego antigo. Ele fala demais e as vítimas não falam o suficiente. É como se o documentário estivesse mais interessado em dar palco — e microfone — justamente a quem menos precisava dele. E não que seja moralmente errado entrevistar alguém como ele; se fosse, nem existiriam tantos documentários entrevistando Ted Bundy, John Wayne Gacy ou qualquer outro que cometeu crimes piores. O ponto é que The Mortician parece fascinado pelo David. E, de fato, ele é uma figura hipnotizante: egocêntrico, manipulador, cercado de brutamontes que usava a seu favor, gabando-se como se fosse intocável, falando até do tipo de veneno que usaria para matar alguém. Mas fica estranho quando, num documentário repleto de depoimentos de vítimas, o foco escorrega para o prazer dele em negar, minimizar ou se justificar.
Lembro que assisti a um documentário sobre Alex Jones, e lá a narrativa era muito mais produtiva e sensível. Jones atormentava pais de crianças vítimas de tiroteios escolares, chamando-os de atores e espalhando mentiras em plataformas de grande alcance, impedindo que aqueles pais sequer tivessem espaço para viver o luto. E o documentário se concentrava na batalha legal, dando peso à dor real daquelas famílias. São casos diferentes, claro, mas a comparação ajuda a entender meu incômodo aqui. Em The Mortician, os depoimentos das famílias são tristes, mas se perdem pelo profundo interesse no David. A gente sente raiva dele — claro que sente — e essa raiva funciona como um motor narrativo, especialmente quando ele diz, com aquela frieza perturbadora, que não havia nada demais em enfiar vários corpos no forno e misturar as cinzas, que eram “só cinzas”. Mas, às vezes, o documentário parece tão empenhado em deixá-lo se exibir que esquece de quem realmente importa.
Ainda assim, The Mortician é um bom documentário. O que mais prende é perceber que o David não brotou do nada — ele é só o ramo mais visível de uma árvore familiar que sempre cresceu torta. Uma família inteira com um histórico que faria qualquer um querer morrer duas vezes antes de cair na mão deles. Se no início tudo parece girar em torno do “rei funerário”, do gângster das cinzas, logo entendemos que ele não era um desvio isolado. Era um ramo apodrecido de uma árvore já envenenada. A Lamb Funeral Home, tão tradicional à primeira vista, guarda um legado de práticas clandestinas que vão da retirada e venda de órgãos ao comércio nada discreto de dentes de ouro. E Lorraine Sconce, a matriarca aparentemente intocável, surge como uma figura tão moralmente distorcida quanto o próprio filho.
Essa dimensão hereditária da crueldade — a ideia de que o horror ali era tradição, não acidente — é, ironicamente, o aspecto mais fascinante do documentário. É perturbador perceber que nem enterrar alguém era um processo seguro sob o comando dessa família. The Mortician talvez não acerte em tudo, mas consegue revelar algo maior do que a história de um criminoso: mostra como uma família inteira transformou a morte em negócio, e o luto em oportunidade.
Um dos docs true crime mais impactantes que assisti nos últimos meses!
O cara é um puta dum narcisista e sociopata, a ponto de rir e ironizar várias situações delicadas. Queria que o diretor do doc tivesse perguntado pra ele se ele faria cremação coletiva dos avós dele quando faleceram e ele, por incrível que pareça, ficou comovido.
Inacreditável!!
Morbidez e sociopatia.