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Todo caçador sabe que rastros podem enganar. Pegadas desaparecem, cheiros se confundem e, às vezes, aquilo que parecia um lobo era outra coisa completamente diferente. Hunter Hunter entende bem essa ideia. Só não demonstra a mesma habilidade quando chega a hora de seguir os próprios rastros.
Isso não significa que o filme fracasse em criar tensão. Mesmo adotando um ritmo mais lento, consegue extrair suspense da própria floresta. A constante sensação de que existe algo observando aquela família à distância transforma cada caminhada mata adentro em um potencial perigo. O problema surge quando o filme finalmente decide mostrar as cartas. A revelação de que o verdadeiro predador não era exatamente aquele que imaginávamos é interessante e até ressignifica alguns momentos anteriores. Ainda assim, a sensação é de que o longa encontra uma boa ideia, mas não sabe desenvolvê-la.
Para um filme chamado Hunter Hunter, existe pouca caça de fato. Falta um verdadeiro jogo entre predador e presa. Não há uma dinâmica particularmente envolvente entre a mãe da família e o assassino. Tudo acontece de maneira rápida e, por vezes, conveniente demais, especialmente quando personagens gravemente feridos parecem recuperar as forças na velocidade exigida pelo roteiro.
Apesar dessas limitações, Hunter Hunter guarda uma última cartada. Tenho a impressão de que o idealizador imaginou a cena final primeiro e só depois escreveu o resto do filme. E quer saber? Talvez tenha sido a decisão correta. Porque, embora a caçada prometida pelo título nunca aconteça de verdade, o longa guarda para seus minutos finais uma ironia tão cruel quanto memorável.
Ao esfolar o assassino utilizando as mesmas técnicas empregadas nos animais que caça, Anne oferece ao filme sua imagem mais poderosa: a do predador reduzido à condição de presa. É grotesco, chocante e difícil de esquecer.
Uma das coisas que mais me fascinam em Casablanca é a própria ideia daquele lugar. Embora ambientado no Marrocos, o filme transforma a cidade em algo muito maior: uma espécie de sala de espera da História. Todos estão ali aguardando alguma coisa. Um visto, uma oportunidade, um avião, uma fuga. O sonho da América paira sobre cada personagem, como se existisse um mundo melhor logo depois da pista de decolagem. Sempre me comove a sensação de que ninguém realmente vive em Casablanca; todos apenas esperam partir.
No centro desse espaço está Rick, talvez um dos protagonistas mais interessantes do cinema clássico. Ele administra seu café como um homem neutro, alguém que não toma partido. Seu estabelecimento recebe alemães, resistentes, refugiados e oportunistas, enquanto ele insiste em afirmar que não arrisca o pescoço por ninguém. O interessante é que o passado de Rick revela alguém que já esteve ao lado de causas perdidas, e seu presente sugere que o cinismo não passa de uma ferida mal cicatrizada. Talvez seja justamente por isso que nunca enxerguei Rick como um personagem verdadeiramente ambíguo. Desde o início, existe nele uma fragilidade evidente: Rick é sentimental. E esse sentimentalismo, que ele tenta esconder sob frases secas e indiferença calculada, acaba sendo sua ruína e sua salvação. Porque Casablanca parece entender algo essencial: a neutralidade só é possível enquanto nada nos afeta pessoalmente.
Por isso, o final funciona tão bem. Mais do que abrir mão de uma mulher, Rick abre mão da própria neutralidade. Diante do fascismo, Casablanca parece sugerir que não existe verdadeira neutralidade; em algum momento, é preciso escolher um lado. E Rick escolhe. O sacrifício amoroso deixa de ser apenas um gesto romântico e se transforma numa afirmação moral. Ao renunciar ao grande amor de sua vida, ele também recupera uma parte de si mesmo que acreditava ter perdido.
Ainda assim, existe um aspecto do filme que não me conquista completamente: a construção do romance entre Rick e Ilsa. Eu consigo sentir a intensidade daquela relação, a dor da separação e o peso das lembranças de Paris. O filme transmite tudo isso com enorme sensibilidade através da música, dos olhares e da atmosfera melancólica. Mas, pessoalmente, senti falta de compreender mais claramente o que fez aquelas duas pessoas se apaixonarem. Queria ter enxergado, para além da paixão e das circunstâncias históricas, aquilo que Rick viu de tão singular em Ilsa para nunca conseguir esquecê-la. Talvez o filme esteja menos interessado em construir um amor concreto e mais interessado em transformar Paris e Ilsa numa lembrança idealizada de um mundo perdido. Ainda assim, essa distância emocional me impediu de me conectar completamente ao romance.
Curiosamente, quem acabou despertando ainda mais meu interesse foi Victor Laszlo. O filme poderia facilmente reduzi-lo ao papel de rival romântico, mas escolhe torná-lo admirável. Sua integridade e sua fidelidade aos próprios princípios tornam a decisão final de Rick muito mais dolorosa, porque não existe um homem indigno a ser derrotado. Existe apenas uma escolha impossível entre felicidade individual e responsabilidade histórica.
Talvez seja justamente isso que torna Casablanca tão especial. Não é apenas uma história sobre amor, mas sobre renúncia. Sobre compreender que algumas perdas possuem sentido porque existem coisas maiores do que os nossos desejos individuais. E talvez seja por isso que, décadas depois, o filme continue tão vivo: porque poucas experiências são tão dolorosas quanto perceber que, às vezes, amar alguém significa deixá-lo partir.
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Equipe Filmow
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Passei boa parte de A Thousand and One acreditando que a história caminhava inevitavelmente para uma tragédia envolvendo violência policial. O filme oferece elementos para isso: a Nova York marcada por desigualdades, a fala de Inez sobre sentir que algo ruim está prestes a acontecer e, principalmente, aquela abordagem policial sofrida por Terry, que imediatamente acendeu em mim o alerta de que seu destino já estava traçado. Talvez eu esteja tão acostumada a determinadas narrativas que comecei a enxergar fantasmas onde eles não existiam.
Porque a sensação de tragédia estava correta. Só estava deslocada. A violência não viria da rua. Não viria da polícia. Não viria sequer de Nova York. Ela já estava dentro de casa desde o início.
Inez talvez seja uma das protagonistas mais difíceis de acompanhar. Ela é ríspida, explosiva, orgulhosa demais para pedir ajuda e rápida demais para transformar qualquer desconforto em confronto. Mas o filme nunca permite que a enxerguemos de forma simples. Existe amor ali. Um amor torto, desvirtuado, sufocante até, mas ainda assim amor.
Quando o filme revela seu segredo, tudo ganha outra dimensão. Terry não é seu filho. Inez o sequestrou e o criou como seu numa tentativa desesperada de poupá-lo da experiência que definiu sua própria vida: crescer sendo deixado para trás.
Existe algo profundamente trágico nisso. Tentando quebrar um ciclo, Inez acaba criando outro. Na tentativa de salvar Terry do abandono, ela lhe rouba algo fundamental: sua própria identidade. É uma contradição dolorosa, porque seu gesto nasce do amor, mas também da incapacidade de amar sem reproduzir as marcas do próprio trauma.
Fui esperando algo próximo de Fruitvale Station. Encontrei uma história infinitamente mais complexa. Uma pequena grande mentira capaz de sustentar uma família inteira — e talvez destruí-la também. Saí de A Thousand and One pensando que algumas pessoas passam a vida tentando impedir que suas feridas alcancem quem amam. O mais doloroso é perceber que, às vezes, é justamente assim que novas feridas começam.