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Os melhores filmes noir raramente são sobre o crime em si. O assassinato é apenas o ponto de partida; o verdadeiro interesse está nas pessoas que orbitam ao redor dele. In a Lonely Place leva essa ideia particularmente a sério: o mistério pode até envolver uma garota morta, mas o enigma que realmente importa é o homem que talvez tenha cometido o crime.
Esse homem é Dixon Steele, um roteirista de Hollywood com talento suficiente para o sarcasmo e temperamento suficiente para arruinar qualquer sala em que entre. Steele não é exatamente simpático. Ele ocupa aquele território moralmente instável onde charme e agressividade coexistem com desconfortável naturalidade. Não é alguém que disfarça bem suas falhas; ao contrário, parece exibi-las quase com orgulho.
Logo no início, quando Steele conhece Laurel Gray, há algo deliciosamente afiado no encontro dos dois. Eles não seguem a dinâmica clássica de galanteador e donzela. O que surge é uma troca rápida de ironias, uma espécie de reconhecimento mútuo entre duas pessoas que parecem saber exatamente quem são.
O problema é que o filme pertence a uma época que raramente tinha paciência para deixar relações se desenvolverem com calma. Em questão de minutos, duas pessoas que mal se conhecem já estão profundamente envolvidas. É claro que essa velocidade não é exatamente um defeito isolado — trata-se de uma convenção bastante comum no cinema dos anos 50 — e seria injusto cobrar de um noir desse período o tipo de progressão emocional gradual que o cinema contemporâneo costuma privilegiar. Ainda assim, é difícil não sentir que algo está correndo rápido demais.
Especialmente porque o filme quer que acreditemos em algo muito específico: que Laurel começa a se perguntar se o homem por quem se apaixonou é capaz de matar alguém. Curiosamente, essa nunca foi exatamente a minha dúvida. Não porque Steele pareça inocente demais — longe disso. Se há um problema, é quase o oposto: ele parece suspeito demais. Desde o começo demonstra um temperamento tão explosivo que a pergunta deixa de ser “ele seria capaz?” e passa a ser outra, mais desconfortável: até onde esse temperamento poderia chegar?
Nesse sentido, o suspense policial acaba ficando em segundo plano. O verdadeiro tema do filme parece ser outro: o perigo de amar alguém cuja raiva vive sempre logo abaixo da superfície. É isso que torna o final particularmente curioso. O filme tenta encerar a situação como uma tragédia romântica — a mulher que perdeu o homem que amava porque duvidou dele. Só que existe um pequeno problema nessa leitura. Mesmo que Steele não seja um assassino, sua agressividade constante está longe de ser um detalhe irrelevante. Quando ele a agarra com força, quando explode em acessos de violência que ele próprio parece incapaz de controlar, torna-se difícil tratar a dúvida dela como um erro trágico.
Ainda assim, algo em In a Lonely Place continua funcionando de maneira fascinante. Talvez porque, apesar dessas inconsistências estruturais, os personagens nunca soem artificiais. Steele não é apenas um suspeito em um noir; é um homem profundamente desagradável em alguns momentos, encantador em outros, e completamente incapaz de lidar com a própria fúria.
E talvez seja isso que o filme entende melhor do que sua própria trama policial.
Algumas pessoas não precisam cometer um crime para destruir tudo ao seu redor.
Às vezes, o temperamento já basta.
Talvez seja uma questão minha, mas eu costumo me conectar mais quando um filme acompanha alguém de perto, quando existe um mergulho mais íntimo. Aqui, nesse curta sobre os Panteras Negras e a prisão de Huey P. Newton, eu sinto outra proposta: ele parece menos interessado em aprofundar e mais em registrar, em dar forma ao grupo, à sua presença e à sua organização.
O filme fica muito nesse lugar de registro — das reuniões, dos discursos, da mobilização. Tem um peso histórico evidente, principalmente por mostrar esse momento de organização e consciência coletiva. Mesmo assim, eu ainda sinto falta de um olhar mais próximo, mais pessoal, como quando um filme se debruça sobre uma prisão injusta e explora isso com mais profundidade. Aqui, até existem entrevistas com figuras importantes, como o próprio Huey P. Newton, mas nada que realmente se aprofunde nesse nível.
Ainda assim, é interessante observar como o grupo se constrói também em imagem — as boinas, os óculos, os cabelos, essa identidade tão marcada — que faz parte da própria força deles.
No fim, fico com a sensação de ter encostado num momento histórico sem necessariamente entrar nele por completo. Não me atravessa tanto quanto outras histórias; é um filme que eu respeito mais do que, necessariamente, me envolve. Ainda assim, permanece como um registro que carrega um tipo diferente de força.
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Eu tenho um gosto muito específico quando o assunto são histórias de injustiça. Sabe aquele filme de tribunal cheio, com vozes elevadas, um advogado que não solta o osso, revirando cada detalhe até arrancar justiça à força? Ou então o outro extremo: o silêncio frio da vingança, alguém que não aceita o que aconteceu e decide, por conta própria, equilibrar a balança — ainda que com as próprias mãos.
Fruitvale Station não me oferece nada daquilo que eu, por hábito, procuro. Não há tribunal, não há vingança, não há ninguém correndo atrás de justiça em seu nome. O filme acompanha Oscar Grant — não como símbolo, não como herói, mas como alguém comum, imperfeito, tentando, à sua maneira, organizar a própria vida. Vivendo um dia comum que, sem saber, seria o último. E, mais do que isso, é um filme sobre o que fica interrompido: o que ele não pôde continuar, o que ele deixou para trás.
Existe algo de muito simples na forma como Oscar Grant é apresentado — e, por muito tempo, eu não soube bem o que fazer com isso. Costumo gostar mais de personagens que me desafiam de forma mais evidente, que carregam conflitos maiores. Ele não chega assim. Ele aparece correndo com a filha, rindo, transformando o caminho até o carro em brincadeira. Senta à mesa com a família na virada do ano, entre conversas e risadas que vão e voltam. Tenta, do jeito que dá, colocar a própria vida nos trilhos.
Ele tinha pouco. Mas tinha o suficiente.
Durante boa parte do filme, eu me peguei numa espécie de distância. Eu assistia, eu até me envolvia em momentos — mas não estava completamente tomada. Faltava, talvez, aquele “algo a mais” que eu, por gosto pessoal, sempre procuro: dilemas mais densos, relações mais explosivas, principalmente no atrito silencioso com uma mãe cansada de ver o filho, mais uma vez, à beira de se perder.
E então vem o metrô. E aí não existe mais distância possível. Oscar Grant está no chão. Contido. Não há ameaça iminente que justifique o que vem a seguir. E, mesmo assim, o disparo acontece.
Talvez eu esteja acostumada demais a narrativas que precisam justificar a dor com grandeza. Como se fosse necessário que alguém fosse extraordinário para que sua ausência importasse mais. Fruitvale Station recusa isso. Ele diz: não precisa. Não precisa de um grande arco. Não precisa de um discurso inflamado. Não precisa de um protagonista fascinante no sentido clássico. Basta que ele existisse. Basta que ele tivesse uma filha esperando. Basta que ele tivesse um amanhã — ainda que imperfeito.
Talvez seja por isso que eu diga que, para mim, existe um antes e um depois. Antes do metrô, eu estava ali — presente, mas não completamente tomada. Depois, não tem como sair ilesa. Porque a tragédia é a tragédia. E ela muda tudo. Ela reorganiza o que veio antes, dá peso ao que parecia pequeno, transforma gestos simples em ausências irreparáveis. Fruitvale Station pode não ser o tipo de história que eu costumo buscar — mas é uma que eu não consigo ignorar.
No fim, algumas histórias não pedem justiça. Só pedem que a gente não desvie o olhar. Porque algumas histórias não terminam.
Elas são interrompidas.