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Existe uma sensação curiosa de assistir a um filme, admirar quase tudo o que ele faz e, ainda assim, passar boa parte do tempo imaginando outro filme possível. Um caminho alternativo, uma versão que ele nunca quis ser, mas que insiste em rondar nossa cabeça enquanto assistimos. Às vezes, gostar de um filme também significa conviver com a pequena frustração do filme que ele nunca teve interesse em fazer. Acho que foi exatamente assim que me senti assistindo a Running on Empty.
A premissa, para mim, é irresistível. Um casal de ex-revolucionários procurados pelo FBI há anos, vivendo sob identidades falsas, trocando constantemente de cidade, escola, rotina e até de nome para escapar das consequências do próprio passado. No meio disso, um filho adolescente extremamente talentoso para música, começando a experimentar aquilo que talvez seja a primeira chance real de construir uma vida própria: uma universidade, um amor, um futuro que não envolva fugir no meio da noite. Existe algo imediatamente melancólico nessa ideia — principalmente porque qualquer escolha parece carregar um preço enorme. Seguir os próprios sonhos talvez signifique, para ele, nunca mais ver os pais novamente.
E talvez seja justamente por isso que uma parte de mim tenha passado boa parte do filme imaginando outro caminho possível. Não porque o filme me enganasse — ele deixa relativamente claro desde cedo o que quer ser —, mas porque existe uma versão imaginária dessa história que parece perfeitamente desenhada para me atingir em cheio. Um drama mais paranoico, mais tenso, com a sensação constante do FBI se aproximando, discussões familiares mais explosivas, um filho mais revoltado com aquela vida de deslocamento permanente. Um thriller emocional sobre crescer dentro de uma família construída sobre medo e fuga. Esse filme não existe aqui. E talvez nunca tenha querido existir.
Porque Running on Empty escolhe outra estrada. Muito menos thriller, muito mais drama silencioso. Onde eu esperava perseguição, ele encontra delicadeza. Onde parecia existir material para paranoia, ele prefere algo mais melancólico: o retrato de um garoto aprendendo, talvez cedo demais, que crescer às vezes significa se afastar das pessoas que mais amamos. O centro da história não é exatamente a perseguição, mas o amadurecimento. Não é sobre o medo constante de serem encontrados, mas sobre o peso de perceber que construir uma vida própria talvez implique deixar para trás quem nos construiu.
E isso funciona bastante.
River Phoenix é excelente como Danny. Existe algo profundamente cativante nele — um garoto responsável, educado, cuidadoso, alguém que parece ter aprendido cedo demais a não criar problemas porque a própria vida já é instável o suficiente. Talvez até responsável demais. Não existe muito da rebeldia dramática que outros filmes provavelmente explorariam aqui. Quase todo conflito parece acontecer para dentro, no olhar de alguém tentando entender se finalmente tem permissão para desejar alguma coisa para si mesmo.
Mas, curiosamente, a cena que mais ficou comigo nem envolve exatamente Danny. O momento que mais me atravessou foi uma conversa entre Annie e o pai dela, durante um jantar, depois de anos afastados. Talvez porque ali o filme finalmente deixe escapar algo que estava silenciosamente represado o tempo inteiro: o peso do tempo perdido. O que uma fuga, um desaparecimento fazem não apenas com quem parte, mas também com quem ficou. Existe uma tristeza muito adulta naquela cena, uma mistura difícil de traduzir entre afeto, mágoa e saudade. Para mim, foi o momento mais encantador do filme.
E acho curioso como isso acabou me fazendo pensar em CODA, um filme completamente diferente e, ao mesmo tempo, estranhamente próximo. Também existe ali um filho dividido entre o amor pela família e a possibilidade de construir uma vida própria. Também existe música. Também existe culpa. Mas talvez CODA me toque mais porque abraça um tipo de emoção diferente — algo mais caloroso, mais acolhedor, talvez até mais próximo de um filme conforto.
No fim, talvez eu admire Running on Empty mais do que propriamente ame. Reconheço o quanto ele é bonito, delicado e muito bem interpretado. Reconheço a inteligência da contenção. Reconheço até que talvez ele seja, em muitos sentidos, um projeto mais interessante do que CODA. O estranho é que uma parte de mim nunca deixou de olhar para aquela premissa e imaginar um outro filme possível — um pouco mais tenso, um pouco mais paranoico, um pouco mais próximo das histórias que costumam me pegar pela garganta. E talvez essa seja a experiência curiosa de gostar de um filme sem se apaixonar completamente por ele: admirar sinceramente aquilo que ele é enquanto uma parte de você continua, silenciosamente, convivendo com a saudade de algo que ele nunca quis ser.
Não resisto a uma boa dupla. Especialmente aquelas montadas a partir do atrito: o irritado e o provocador, o esquentadinho e o homem que nunca perde a compostura, alguém disposto a explodir e o outro que parece existir apenas para cutucar a explosão. Existe algo magnético nesse tipo de dinâmica. Dois ímãs brigando contra a própria natureza: passam tempo demais se repelindo até perceberem, meio contra a vontade, que talvez estejam sendo puxados um para o outro. Midnight Run parece saber exatamente o quanto isso funciona.
Jack Walsh e Jonathan Mardukas — ou, como todo mundo insiste em chamá-lo, o Duque — funcionam absurdamente bem justamente porque parecem nascer para se irritar. Jack é duro, impaciente, constantemente à beira de explodir. O Duque é inteligente, elegante, verbalmente afiado e parece extrair um prazer muito específico de provocar exatamente onde dói. Nunca perde a compostura, nunca perde o humor e, principalmente, nunca perde a oportunidade de deixar Jack um pouco mais irritado do que já estava cinco minutos antes.
Talvez seja justamente por isso que gosto tanto do fato de Midnight Run ser, em grande parte, um road movie. A estrada vira uma desculpa perfeita para prolongar a convivência. Trem, avião, monomotor, carro roubado, banheiro acorrentado, rio, hotéis, fugas improvisadas. O filme parece entender uma coisa simples: quanto mais tempo esses dois forem obrigados a permanecer juntos, melhor ele fica. E o curioso é que não são necessariamente as grandes cenas de ação que ficam na cabeça, mas as discussões. As pequenas cobranças, as implicâncias, as acusações quase infantis de quem traiu quem primeiro. “Você disse que tinha medo de avião.” “Você prometeu me soltar.” “Você mentiu antes.” Existe um prazer muito específico em ver duas pessoas brigarem de um jeito que, pouco a pouco, começa a parecer intimidade disfarçada.
Isso não significa que o filme não tenha suas conveniências. Acho perfeitamente justo dizer que Midnight Run frequentemente emburrece o mundo ao redor para manter sua dupla funcionando. O FBI, os capangas do mafioso, o caçador de recompensas azarado — todo mundo parece constantemente um passo atrás, tropeçando no próprio caminho enquanto Jack e o Duque seguem viagem. Em vários momentos, parece que bastaria alguém fazer uma ligação minimamente lógica ou conectar informações óbvias para metade daquela perseguição acabar muito mais rápido. Mas, curiosamente, isso nunca me incomodou tanto quanto talvez devesse. Talvez porque o filme pareça pouco interessado em transformar esses perseguidores em ameaça genuína. Eles funcionam como obstáculos cômicos, gente fadada a comer poeira enquanto a história encontra novas desculpas para manter Jack e o Duque dividindo espaço, trocando farpas e, sem perceber, se conhecendo melhor. É um daqueles casos em que o mecanismo do roteiro fica visível, mas a química é boa o suficiente para fazer a gente aceitar o acordo.
Também ajuda o fato de existir algo discretamente melancólico por baixo da comédia. Aos poucos, o filme vai deixando escapar pequenas tristezas: Jack saiu da polícia, perdeu o casamento, mal vê a filha. O Duque, apesar do bom humor quase constante, também é alguém fugindo, alguém que fez escolhas moralmente tortas por razões curiosamente nobres. Um homem que roubou milhões, mas doou para caridade. Um fora da lei que talvez seja mais honesto do que boa parte das pessoas correndo atrás dele. Talvez seja isso que faça a dupla funcionar tão bem. No fundo, ambos perderam alguma coisa para aquele mundo. Ambos parecem mais íntegros do que deveriam parecer num filme cheio de criminosos, agentes federais e gente interessada apenas em dinheiro. E talvez por isso as discussões fiquem melhores à medida que o filme avança. Existe uma espécie de reconhecimento silencioso surgindo ali, entre duas pessoas que provavelmente jamais teriam se escolhido em circunstâncias normais.
Talvez eu goste tanto de Midnight Run porque ele aposta numa ideia improvável: a de que certas pessoas passam tempo suficiente se irritando até começarem, sem perceber, a fazer bem uma à outra. Jack provavelmente jamais admitiria isso. O Duque transformaria qualquer confissão numa provocação. Mas, depois de quase cinco dias discutindo sem parar, acho que o filme quase faz a gente acreditar que até água e óleo podem se misturar.
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Se Lucy Letby for culpada, estamos falando de uma das figuras mais assustadoras da história recente do Reino Unido: uma enfermeira neonatal cuja profissão deveria existir para proteger vidas frágeis. Se houve um erro judicial, então estamos diante de uma história talvez ainda mais inquietante: a de uma mulher transformada no símbolo absoluto do mal por um sistema hospitalar falho, estatísticas mal interpretadas ou uma narrativa jurídica poderosa demais para ser desmontada.
Em qualquer uma das possibilidades, existe um documentário medíocre aqui. Porque, se culpada, Lucy Letby oferecia uma pergunta quase insondável sobre a mente humana — alguém cuja banalidade aparente talvez escondesse algo impossível de compreender completamente. Mas, se vítima de um erro judicial relevante, então tínhamos em mãos uma das histórias mais assustadoras de possível bode expiatório institucional recente.
Nenhuma dessas histórias é desenvolvida plenamente.
Existe algo muito reconhecível nesse formato Netflix de true crime: eles praticamente entregam o filme inteiro na abertura. Primeiro o monstro, depois a rachadura no espelho. Primeiro a certeza, depois a dúvida cuidadosamente programada. O documentário já parece anunciar seu trajeto emocional: aqui estão os investigadores, aqui está a lógica da condenação, aqui está a pior assassina de bebês da Inglaterra — mas espere, talvez exista algo mais por trás disso tudo. E talvez eu esteja cansada dessa engrenagem.
Durante boa parte do documentário, eu realmente pensei: acabou, foi ela. Os bilhetes encontrados em casa, o argumento insistente de que Lucy era a única presente em todos os casos, a repetição quase martelada da coincidência impossível, o fato de as mortes cessarem depois que ela deixa o hospital — o filme organiza tudo de um jeito que parece inevitável. E talvez aí esteja parte do problema: mesmo sabendo que a reviravolta viria, tudo soa estranhamente mecânico. De certo modo, até entediante. Porque, se tudo parecia tão óbvio, eu queria que o documentário seguisse para o próximo nível. Enquanto montava sua acusação, minha cabeça estava em outro lugar. Eu não queria apenas saber o que Lucy supostamente fez; eu queria entender quem ela era. Se Lucy Letby fosse culpada, eu queria ao menos tentar entrar naquela psique — não no sentido sensacionalista da “mente de serial killer”, mas numa tentativa honesta de compreender alguém aparentemente banal, descrita como dedicada, operando num ambiente hospitalar tão íntimo e vulnerável. É difícil aceitar que um ser humano infligiria mal a um bebê. Eu sei que acontece. Mas talvez seja justamente por isso que eu quisesse entender melhor como alguém assim poderia existir.
Só que o filme parece estranhamente desinteressado nela para além do superficial. Os bilhetes aparecem — talvez um dos elementos mais perturbadores do caso — mas passam rápido demais. A amiga surge, mas pouco ilumina, se é que uma amiga recriada por IA consegue realmente esclarecer alguma coisa. Há depoimentos, fragmentos, informações, mas quase nada que produza sensação de proximidade humana. Lucy permanece menos como uma pessoa e mais como um arquivo ambulante de evidências.
Eu procurava uma mente. O documentário me entregava um dossiê.
E então, finalmente, vem a rachadura no espelho. Talvez o momento mais interessante do filme seja justamente quando ele começa a desmontar a narrativa que passou tanto tempo construindo. O argumento da presença constante no hospital ganha outra moldura: Lucy era uma das mais especializadas. O fato de as mortes diminuírem após sua saída já não parece tão definitivo quando entendemos que o hospital também deixou de lidar com casos graves da mesma maneira. Foi aí que o caso finalmente me pegou — não porque eu tenha passado a acreditar na inocência dela, mas porque comecei a perceber algo muito mais inquietante: o poder do discurso. Como uma narrativa pode transformar coincidência em prova. Como estatísticas podem soar condenatórias dependendo de quem as organiza. Como um júri talvez seja menos uma arena da verdade e mais uma disputa entre histórias suficientemente convincentes. Pena que o documentário nunca pareça realmente interessado em deliberar sobre isso.
Quando finalmente encontra algo intelectualmente vivo — a possibilidade de erro, a precariedade hospitalar, a hipótese do bode expiatório — ele recua. A falta de equipe aparece quase como nota de rodapé, as falhas do hospital são citadas mas raramente investigadas, e a ideia de uma batalha Lucy versus instituição surge sem nunca ser realmente assumida. Talvez porque seja cedo demais. Talvez porque o caso ainda esteja quente demais. Talvez exista um receio de comprar qualquer tese. Mas essa hesitação tem um custo: o filme acaba orbitando perguntas enormes sem mergulhar em nenhuma.
E então existe a IA. Meu Deus, a IA.
Não porque eu ache que documentários não possam reencenar — The Thin Blue Line, um dos meus favoritos, é praticamente feito de reencenações, mas elas pensam o caso, argumentam, criam hipótese e inquietação. Aqui, não. O anonimato é um limite ético perfeitamente compreensível, mas o documentário parece incapaz de conviver com ausência — então fabrica presença. A amiga da Lucy surge recriada digitalmente, depois aparecem imagens artificiais das duas juntas, memórias fabricadas de uma intimidade que nunca existiu daquela forma. Mais tarde, o depoimento da mãe de “Zoe”, carregado de tristeza, vem acompanhado daquela sensação estranha de estar assistindo a uma simulação. E no final ainda existe aquela reencenação quase bucólica da mãe com o filho em um cenário tão artificial quanto sentimental.
O efeito em mim foi o oposto do que talvez o filme pretendesse: em vez de humanidade, senti fabricação. Era melhor borrar o rosto. Era melhor ouvir apenas a voz. Era melhor assumir a ausência. Porque existe algo profundamente desconfortável em olhar para um depoimento tão doloroso e pensar que alguém decidiu que aquilo precisava de uma versão renderizada.
No final, saí sem saber se Lucy Letby é uma assassina ou a enfermeira mais azarada da Inglaterra. Mas saí sabendo algo sobre o documentário: ele nunca me ofereceu algo firme ao qual me apegar. Nem uma investigação psicológica. Nem um mergulho institucional. Nem um dilema moral à altura do caso. Só a sensação insistente de um filme orbitando perguntas grandes demais — sem nunca realmente pousar em nenhuma delas. Depois de tudo isso, ainda preciso dizer uma coisa: a pessoa que decidiu recriar digitalmente a mãe de uma vítima deveria responder por crimes contra o bom senso.