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Data de lançamento
24 Maio 2002Duração
Slim é uma dedicada garçonete que tem sua vida transformada por completo após se casar com Mitch, um empresário milionário. Ela deixa o trabalho e se adequa a uma tranquila vida com as posses do marido, juntamente com Gracie, sua filha de 5 anos. Entretanto, logo Slim percebe que seu marido não tem nada de perfeito, abusando dela cada vez mais. Cansada, Slim decide ir embora, juntamente com Gracie, para um lugar onde possa recomeçar sua vida. Porém, Mitch parte em sua busca e volta a ameaçá-la, fazendo com que Slim tenha que se preparar física e mentalmente para confrontá-lo e pôr um fim nas ameaças.
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Todo mundo já teve uma professora que dizia que certas coisas entram por um ouvido e saem pelo outro. Acho que minhas ressalvas com Enough funcionam exatamente assim. Eu concordo com quase tudo o que dizem sobre o filme. Que Mitch muda rápido demais, que a história parece empilhar situações para convencer a protagonista de que não existe saída simples, que a reta final abraça uma fantasia hollywoodiana de empoderamento pouco preocupada com realismo. O problema é que, de algum jeito, nenhuma dessas críticas fica tempo suficiente na minha cabeça para me afastar do filme.
Talvez porque exista um tipo muito específico de suspense ao qual sou facilmente manipulável: histórias sobre alguém obcecado em destruir a paz de outra pessoa. Filmes em que um vilão se recusa a desaparecer, invade qualquer tentativa de recomeço e transforma segurança em algo temporário. A Mão que Balança o Berço, Cabo do Medo, Atração Fatal. Sempre tive uma predisposição enorme a embarcar nesse tipo de história, mesmo quando ela está cheia de exageros. E Enough sabe exatamente qual botão apertar.
Isso não significa ignorar os problemas. Acho perfeitamente justo dizer que Mitch funciona muito mais como uma ameaça constante do que como um marido dramaticamente explorado. O filme parece pouco interessado naquela escalada gradual que tantas histórias de violência doméstica costumam mostrar — o ciúme que vira controle, o controle que vira intimidação, a intimidação que vira agressão, a promessa de mudança, a recaída. Existe um casamento aparentemente feliz e, de repente, uma amante, violência física e um homem disposto a transformar a vida da esposa num inferno. Dá para entender perfeitamente quem olha para isso e pensa: isso não me convence. E acho difícil dizer que essa não seja uma das maiores fragilidades do filme. Mitch não parece exatamente um homem cujo comportamento piorou aos poucos. Em certos momentos, ele parece menos um marido abusivo dramaticamente construído e mais uma espécie de Michael Myers do casamento abusivo: alguém que simplesmente reaparece para destruir qualquer sensação de segurança. Isso incomoda, porque Enough lida com algo profundamente real, mas muitas vezes prefere a eficiência do suspense à observação mais cuidadosa de uma relação abusiva. É ótimo para a tensão. Nem sempre tão bom para a verossimilhança.
Mas, curiosamente, nem é isso que mais fica me cutucando depois do filme acabar. Minha pulga atrás da orelha talvez esteja ainda mais nas situações do enredo do que na personalidade de Mitch. O filme frequentemente parece empilhar obstáculos até transformar a fuga de Slim numa espécie de inevitabilidade dramática: o dinheiro dele, os contatos, o medo da guarda da filha, a sensação de que denunciar talvez não resolvesse nada, pessoas desencorajando, rastreamentos improváveis, recomeços constantemente ameaçados. Frequentemente me peguei pensando: o filme está mostrando obstáculos plausíveis ou exagerando todos eles ao mesmo tempo para empurrar a história até aquele confronto final?
Porque algumas decisões começaram a me cutucar. Por que Slim decide fugir apenas à noite se ela nem parecia exatamente viver em cativeiro? Por que não procurar imediatamente um hospital depois das agressões? Por que não registrar evidências cedo, construir algum tipo de documentação, tentar produzir provas antes da situação escalar ainda mais? Não digo isso como quem acha que instituições resolvem tudo. O mundo real está cheio de histórias terríveis de mulheres que denunciaram e continuaram vulneráveis, de medidas protetivas que falharam, de sistemas incapazes de impedir tragédias. Mas Enough frequentemente parece interessado em fechar portas rápido demais, como se cada alternativa precisasse parecer insuficiente para tornar inevitável aquela reta final de sobrevivência e confronto.
Porque essa talvez seja a pergunta mais desconfortável do filme. Não se ele é completamente irreal — não acho que seja —, mas se ele força demais a sensação de que não existe alternativa possível. E, ainda assim, reconheço algo meio inevitável na minha própria experiência assistindo: isso nunca chegou perto de me tirar do filme. Talvez porque Enough reúna muitos dos elementos aos quais eu simplesmente não resisto. A perseguição obsessiva. A sensação constante de perigo. Os recomeços interrompidos. O suspense quase novelesco de alguém tentando reconstruir a vida enquanto o passado insiste em reaparecer. Existe algo profundamente envolvente na estrutura do filme — as mudanças de cidade, os cartões de passagem do tempo, a sensação de jornada, a trilha musical se elevando toda vez que parece que Slim finalmente encontrou algum respiro. Basta Today’s the Day tocar e metade da minha resistência racional começa a desaparecer.
E então chegamos àquilo que talvez seja o ponto mais fácil de atacar e, ao mesmo tempo, o mais difícil para mim fingir que não funcionou: a fantasia hollywoodiana de empoderamento do terceiro ato. O treinamento acelerado. A preparação para o confronto. A sensação de que, depois de tanto sofrer, finalmente chegou a hora da revanche. É profundamente exagerado? Sim. Pouco preocupado com realismo? Também. Vou mentir dizendo que não funcionou comigo? Não vou ser hipócrita. Existe uma parte muito simples em mim como espectadora que só quer ver Slim finalmente inverter a lógica da história e fazer Mitch sofrer. Se ela virou o Rambo pouco me importa. Talvez porque exista algo muito poderoso — ainda que simplificado — em ver alguém aparentemente esmagado tentar, pela primeira vez, recuperar algum controle.
No fim, talvez eu concorde com quase tudo o que dizem sobre Enough. Talvez várias dessas críticas estejam certas. O estranho é que nenhuma delas pesa o suficiente. Não porque eu ignore os problemas — vejo quase todos eles —, mas porque basta o filme voltar a me oferecer aquilo que eu mais gosto em histórias assim — perseguição, recomeço, sobrevivência, a sensação de um Davi enfrentando um Golias — para eu embarcar de novo.
Algumas críticas entram por um ouvido e saem pelo outro. E, com Enough, acho que a professora teria motivos para se irritar comigo.
Já assisti trocentas vezes e continuo amando!!!
Não curti tanto assim... achei meio arrastado e fantasioso. Mesmo assim, aquele cretino, que além de fazer tudo o que fez contra a mulher, ainda prejudica os que tentam ajudá-la... esse me fez passar raiva, então darei estrelinha a mais
Só pelo se tão merecido finale
Mas uma coisa fez falta
Queria ter visto a sósia da Slim dando uma surra naqueles escritos do "FBI"
Já assisti e reassisti tantas vezes que perdi até as contas. Sem dúvidas um dos melhores filmes sobre violência doméstica. Acho que toda mulher deveria seguir o exemplo da protagonista e se manter prevenida de qualquer tipo de agressão conjugal. 😊
Muito bom.