Felipe
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Últimas opiniões enviadas

Felipe
½
11 horas atrás

Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM

Felipe
½
11 horas atrás

Mais um filme cult em cópia restaurada integra a programação do Festival Olhar de Cinema desse ano. Trata-se de “High School”, na seção Olhares Clássicos Cine Passeio. O documentário é um dos filmes da primeira fase do diretor três vezes vencedor do Emmy Frederick Wiseman, falecido em fevereiro passado aos 96 anos. Em seu segundo trabalho para o cinema, ele retrata o cotidiano de uma escola pública secundária na Filadélfia e expõe, com olhar crítico, os mecanismos de disciplina, conformismo e controle presentes na educação norte-americana em plena efervescência social da década de 1960. A estética do longa é marcada pelo estilo do Cinéma Vérité, sem narração ou entrevistas, captando sucessão de fatos e acontecimentos (do jeito que a vida é). O diretor se põe como um observador do cotidiano daquela escola, mostrando professores autoritários, alunos rebeldes e até policiais chamados às pressas para reprimendas. O ano de 1968 foi um período tenso, marcado pela contracultura, protestos estudantis, passeatas feministas, tensões da Guerra Fria e a explosão da Guerra do Vietnã. A escola-alvo do filme, a Northeast High School, na Filadélfia, Pensilvânia, vira um microcosmo daquela sociedade em profunda transformação. O filme acompanha choques geracionais, entre adultos tentando preservar valores tradicionais enquanto jovens encarnam a mudança cultural que emergia nos Estados Unidos. E a punição severa, naturalizada na época, é vista como forma de obediência/subserviência. Wiseman é um cronista da cena urbana, utiliza o estilo direto do documentário observacional, sem comentários externos, entrevistas ou trilha sonora, com um preto-e-branco formidável que dramatiza as passagens. O filme tem uma montagem fragmentada, com cortes abruptos, enquadramentos variados (com muitos closes em rostos) e sobreposição de cenas que desafiam o espectador a interpretar os significados. Na época, o filme foi considerado polêmico, e olhando-o depois de quase 60 anos, as imagens continuam poderosas, incômodas. 25 anos depois Wiseman fez uma espécie de sequência, “High School II” (1994), analisando desta vez o cenário escolar da Escola Secundária Central Park East, em Nova York. O documentário conta com mais uma sessão no festival Olhar de Cinema, no dia 09/06. PS: No mês passado a Mubi lançou uma coleção em homenagem ao cineasta, intitulada “Frederick Wiseman: American lives”, com oito documentários dele que são análises íntimas da sociedade americana e suas contradições; no catálogo há “Model” (1980) e “High School”, bem como longas de enorme duração que ele fez e foi exibido e importantes festivais, como “At Berkeley” (2013) e “City Hall” (2020). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM

Felipe
11 horas atrás

Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros. Filme integra a Mostra Competitiva Brasileira, com exibição nos dias 12 e 13/06. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM

  • Mths Gonc 3 anos atrás

    Oi Felipe

  • Flávia 4 anos atrás

    Oi, bom?

    Gostei do seu perfil e comecei a ler algumas análises tua dos filmes que eu já assisti e são muito boas.

    Só uma dúvida, você já assistiu os filmes:

    - A felicidade não se compra (1946) - Tem dublado e colorido no site "Lapumia . Org "

    - Casablanca

    - Aurora (1927)

    Se não, recomendo MUITO! O primeiro da lista é o meu favorito e se gosta de histórias bonitas e emocionantes, recomendo fortemente (o final é a cereja do do bolo).

  • Carlos Belarmino 5 anos atrás

    Muito obrigado e prazer em conhecer!