O protagonista é um funcionário de uma livraria, que está cansado de sua vida e se sente completamente dominado por sua esposa e sogra. Incapaz de suportar resolve sair, com o pretexto de comprar cigarros, mas querendo ir embora para sempre. Acidentalmente conhece um jovem estudante de estudos poloneses, Irena, que irá mudar sua vida para sempre.
O filme é uma sátira sobre as mudanças progressistas na sociedade, onde as mulheres estão se tornando mais imperiosas e energéticas, e os homens cada vez mais reprimidos, privados de sua própria vontade e dignidade.
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Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM