Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Mais um filme cult em cópia restaurada integra a programação do Festival Olhar de Cinema desse ano. Trata-se de “High School”, na seção Olhares Clássicos Cine Passeio. O documentário é um dos filmes da primeira fase do diretor três vezes vencedor do Emmy Frederick Wiseman, falecido em fevereiro passado aos 96 anos. Em seu segundo trabalho para o cinema, ele retrata o cotidiano de uma escola pública secundária na Filadélfia e expõe, com olhar crítico, os mecanismos de disciplina, conformismo e controle presentes na educação norte-americana em plena efervescência social da década de 1960. A estética do longa é marcada pelo estilo do Cinéma Vérité, sem narração ou entrevistas, captando sucessão de fatos e acontecimentos (do jeito que a vida é). O diretor se põe como um observador do cotidiano daquela escola, mostrando professores autoritários, alunos rebeldes e até policiais chamados às pressas para reprimendas. O ano de 1968 foi um período tenso, marcado pela contracultura, protestos estudantis, passeatas feministas, tensões da Guerra Fria e a explosão da Guerra do Vietnã. A escola-alvo do filme, a Northeast High School, na Filadélfia, Pensilvânia, vira um microcosmo daquela sociedade em profunda transformação. O filme acompanha choques geracionais, entre adultos tentando preservar valores tradicionais enquanto jovens encarnam a mudança cultural que emergia nos Estados Unidos. E a punição severa, naturalizada na época, é vista como forma de obediência/subserviência. Wiseman é um cronista da cena urbana, utiliza o estilo direto do documentário observacional, sem comentários externos, entrevistas ou trilha sonora, com um preto-e-branco formidável que dramatiza as passagens. O filme tem uma montagem fragmentada, com cortes abruptos, enquadramentos variados (com muitos closes em rostos) e sobreposição de cenas que desafiam o espectador a interpretar os significados. Na época, o filme foi considerado polêmico, e olhando-o depois de quase 60 anos, as imagens continuam poderosas, incômodas. 25 anos depois Wiseman fez uma espécie de sequência, “High School II” (1994), analisando desta vez o cenário escolar da Escola Secundária Central Park East, em Nova York. O documentário conta com mais uma sessão no festival Olhar de Cinema, no dia 09/06. PS: No mês passado a Mubi lançou uma coleção em homenagem ao cineasta, intitulada “Frederick Wiseman: American lives”, com oito documentários dele que são análises íntimas da sociedade americana e suas contradições; no catálogo há “Model” (1980) e “High School”, bem como longas de enorme duração que ele fez e foi exibido e importantes festivais, como “At Berkeley” (2013) e “City Hall” (2020). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros. Filme integra a Mostra Competitiva Brasileira, com exibição nos dias 12 e 13/06. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
As bilheterias no mundo engordaram com o novo “Todo mundo em pânico”, o sexto filme da franquia que retornou com tudo aos cinemas no último fim de semana, uma fita escrachada que implode os vícios da cultura americana e parodia os filmes de terror da atual safra (além de fazer uma série de autocríticas do próprio elenco). A comédia besteirol é de uma liberdade criativa infinita, bem superior aos anteriores (que foram ficando envelhecidos, esculachados, mal-feitos e sem sentido). Há reciclagem das piadas e referências, reunindo o elenco original (como Regina Hall, os irmãos Marlon e Shawn Wayans, Anna Faris, Lochlyn Munro, Chris Elliott, Carmen Electra e Dave Sheridan), que usam e abusam de zoeiras, cafonices e ousadia para manter o legado da franquia. As piadas políticas se superam: tem citações aos movimentos “Me too” e “Vidas negras importam”, críticas ferozes a Trump e sua polícia fascista que caça imigrantes, o “Ice”, referência à invasão ao Capitólio, a Musk e ao pedófilo Jeffrey Epstein. Criticam a cultura das lives e dos influencers e a era do cancelamento, caçoam da linguagem como gírias e pronome neutro, e parodiam mais de 20 longas da última década, não só de terror, mas animações e policial, como “Corra!”, “Pânico”, “Pecadores”, “Halloween”, “Guerreiras do K-pop”, “Sorria”, “Michael”, “Longlegs – Vínculo mortal”, “A substância”, “John Wick” e “Bailarina, “Candyman”, “A hora do mal” e até uma passagem de segundos, muito engraçada, de “As branquelas”. Abre com Teyana Taylor como ela mesma numa referência a ter perdido o Oscar desse ano. Curti e rachei de rir em alguns momentos (pelo menos me aliviei nesse puro suco de entretenimento que não se disfarça em ser “enlatado cultural”). Como disse, é bem melhor que os filmes anteriores da franquia que completou 26 anos – quase todos os outros foram campeões de indicações no Razzie Awards, com Lindsay Lohan e Carmen Electra vencendo de “pior atriz”, junto de The Stinkers Bad Movie Awards, que também existiu em Los Angeles por quase 30 anos para premiar os piores. A cinessérie nasceu em 2000, numa década marcada pelo besteirol que enchia as salas de jovens (como “American pie” e “Jackass”), e a cada dois anos aparecia um novo filme zoeira do grupo; desde 2013 não havia um exemplar, e este, que se chamaria “parte 6”, devido ao lapso de tanto tempo, ficou, a mando da distribuidora Universal, apenas “Todo mundo em pânico” - já que também em nenhum há relações diretas de continuação. Está nos cinemas fazendo boa bilheteria - vá para rir muito e se soltar, e espere até os últimos minutos, pois há duas cenas pós-créditos. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Animação brasileira independente lançada nos cinemas no último fim de semana pela Retrato Filmes, é uma fita que explora o cordel para o público jovem, com muito humor, ação e traços peculiares, com uso de formas que recorrem à xilogravura. Há de se notar ainda elementos de ficção científica e estética cyberpunk, com canções populares rítmicas, que criam um sertão futurista onde cangaceiros viajam no tempo para enfrentar o mítico vilão Cabra da Peste. O longa dirigido por Ale McHaddo (pioneira no cinema de animação, que lá atrás fez o bizarro curta que ganhou festivais “A lasanha assassina”) parte de uma premissa curiosa: levar as tradições seculares do cordel para o mundo tecnológico da ficção científica, criando um contraste inimaginável. A trama acompanha um grupo de cangaceiros que encontram e usam uma máquina do tempo, e são lançados ao ano de 3333. Nesse futuro distópico, o sertão se converte em um “Neo Nordeste” povoado por robôs, alienígenas e recursos super avançados, ainda marcado pela memória cultural do cangaço. O vilão Cabra da Peste os persegue até lá para uma vingança. Há crítica social e texturas de uma rica brasilidade nesse filme engraçado, dinâmico, curtinho, que cativa pelos personagens e seus sotaques, cujas vozes são feitas por ótimos atores, como Bruno Garcia (como Capitão Rocha), Tadeu Mello (como Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi), Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e o cantor e ator Falcão (como Falcão Espacial). Diversão ágil para crianças e jovens. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Terror instigante com forte clima de mistério que leva para o cinema a estranha atmosfera criada por Kane Parsons em seu seriado homônimo no YouTube anos atrás. Ele transforma uma lenda da internet em uma experiência sensorial marcada pelo minimalismo visual. Quem assistiu à série do Youtube (disponível gratuitamente no perfil de Parsons) sabe que é uma doideira aquilo tudo, um seriado desconexo, cujos episódios são irregulares e não dependem um do outro. Trago um pouco da série para caminhar para algumas explicações em torno do filme que vem fazendo sucesso inesperado nas salas de cinema. Em 2022 Parsons (apelidado de Kane Pixels) criou o projeto de vídeos “The Backrooms”, inspirado em “liminal spaces”, conceito de jogos de salas fechadas e abandonadas, em que alguém (em primeira pessoa) explora o ambiente, sem saber o que irá encontrar pelo trajeto. Às vezes há flashes ao fundo de uma criatura disforme, em outros sons peculiares de vozes vindas de uma rádio, em outros passos e até de gente correndo com trajes de proteção de material radioativo. Esses episódios foram inspirados nas tais creepypastas (lendas de terror que inundam fóruns da internet, criadas por anônimos) e found footage. Entre 2022 e 2025 o jovem cineasta Parsons (veja que prodígio, começou a série aos 16 anos na internet e conquistou milhões de visualizações com seus vídeos) lançou 25 episódios de duração variada (de 1 a 40 minutos cada), totalizando 176 minutos, sempre no mesmo cenário: um ambiente com quartos infinitos de cor amarelada, com perfeita geometria. A série descontinuada traz conceitos de scifici envolvendo cientistas, lixo tóxico, criaturas e tensão permanente (eu assisti à série todinha, alguns episódios são bem instigantes, outros são sem sentido total e cansativos). O filme agora amplia a visão de Parsons (hoje com 20 anos de idade) para uma trama com começo, meio e fim, diferente da série. Nele, vemos o proprietário de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) frustrado com a vida, que faz terapia e mora num espaço improvisado numa sala do próprio trabalho. Um dia vê uma luz estranha na divisória de uma das paredes da loja; ao tocá-la, ele se transpõe para uma outra dimensão, um “não-lugar”, que é exatamente o Backroom da série: um lugar infinito, inabitado, extradimensional, formado por corredores de labirintos e salas amarelas. Ali, a realidade como conhece parece se esvair. Escuta um som estranho, há manequins espalhados, vozes vindas de um walkie talkie, fios que conectam televisores, cadeiras amontadas, ou seja, tudo muito confuso. Ele explora o local, até que sai para contar o que viu para sua terapeuta (Renata Reinsve), que duvida então de sua sanidade. Até que o homem monta um grupo de pessoas para entrar no Backroom e filmar os espaços. Eles se perdem e ficam em salas separadas, percebem que há uma presença sinistra ali, e desaparecem. Então a terapeuta vai até lá verificar o sumiço do paciente, descobrindo a fenda luminosa que a transporta para as salas infinitas. O filme trata o tempo todo de um medo intenso de um lugar desconhecido e vazio, interminável, de pura repetição. Os personagens são levados à loucura quando entram em outros tipos de quartos, um vermelho com árvores de natal, um que parece um spa com piscinas, todo alagado. O que seria o Backroom? É um lugar que existe fora da realidade ou apenas dentro da cabeça dos personagens? O tempo todo o longa faz esse questionamento. O design é fiel à estética dos vídeos que viralizaram na web: paredes amareladas, carpete gasto, iluminação fluorescente (realmente um design efusivo, o ponto alto do filme, com mais de 80 cenários diferentes, cada vez mais amedrontadores, bem caóticos). Esse minimalismo não é apenas visual, mas conceitual: o espaço é desprovido de identidade, reforçando a ideia do “não-lugar”, onde o ser humano perde referências. A atmosfera segue os efeitos digitais discretos, usados para sugerir presenças invisíveis e distorções espaciais, o que dá muito certo nesse filme que pegou em cheio o público (de um orçamento mínimo, de U$ 10 milhões, já arrecadou nas salas U$ 210 mi). Há uma aura de filme bizarro, estranhíssimo, que vem atiçando a curiosidade do público, por isso essa bilheteria – além de trazer dois atores de peso, indicados ao Oscar, em ótimos papéis (o britânico Ejiofor e a norueguesa Renata). A marca da produtora A24 é também chamariz, sempre trazendo filmes conceituais e diferenciados do mercado tão saturado de filmes de terror. Parsons é mestre em VFX, processo digital feito na pós-produção, que utiliza cenas reais com CGI, recorrendo a simulação 3D, composições, remoção de objetos indesejados etc, que o fez tanto na série quanto no filme. Norte-americano, ele reuniu um pouco da profissão dos pais para sua formação e até colocou algo disso no filme: o pai era programador de videogames e a mãe, terapeuta (o que explica o papel de Renata Reinsve). Estudou desde cedo efeitos visuais e jogos, e quando criou seu canal no Youtube em 2015, para postar jogos de Minecraft e memes, criou o “Backroom”, que viralizou rapidamente. Agora no seu primeiro contato com o cinema, nessa adaptação, ele mantém a parte boa e a essência da obra conceitual do seriado, explorando também os conflitos humanos e o poder da mente, com uma estética caseira, mas avassaladora - mistura cenas de câmera manual em primeira pessoa (estilo “A bruxa de Blair”) com gravações de atores na frente da câmera. Cai um pouco na parte final, porém ainda assusta (definiria o filme como um terror psicológico com ficção científica). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Fenômeno de bilheteria na Europa, o novo trabalho do cineasta turco naturalizado na Itália Ferzan Özpetek, de “O primeiro que disse” (2010) e outros 25 curtas e longas, é uma homenagem ao universo da moda visto por dentro do cinema. Retrata duas histórias distintas, mas que se complementam, divididas entre presente e passado, cuja força feminina é a base desse drama de estética vibrante, que exibe com detalhes os bastidores da transformação de tecidos em figurinos elegantíssimos que serão destinados a celebridades que os usarão nas gravações de um filme. O enredo traz um diretor de cinema, no tempo atual, planejando a execução de um longa-metragem com suas atrizes preferidas, pensando no figurino ideal para a obra; isto os transpõe para 50 anos antes, na década de70, em um ateliê comandado por duas irmãs da família Canova, Alberta (Luisa Ranieri, de “A mão de Deus”) e Gabriella (Jasmine Trinca, de “O quarto do filho”), cujas personalidades são conflitantes. Cada uma tem um modo de pensar e agir. Com elas, trabalham funcionárias que enfrentam dilemas universais: violência doméstica, luto, paixões e maternidade. No ateliê, aquele grupo de mulheres trocam segredos em conversas reservadas (um espaço de sororidade), trabalham arduamente com o tempo contado e se unem em torno de um ideal comum: elaborar os figurinos mais bonitos do cinema. Özpetek costura as historietas com referências cinematográficas aos montes, como uma cena da escadaria que remete à “Crepúsculo dos deuses”. O filme também é especial para o cineasta, uma espécie de memórias do seu primeiro trabalho, nas décadas de 70 e 80, como assistente de direção na Sartoria Tirelli, uma antiga casa italiana de figurinos para o cinema. Além de Luisa e Jasmine, no elenco há outras mulheres carismáticas que trazem vivacidade para a história, como Sara Bosi, Elena Sofia Ricci, Anna Ferzetti (filha do falecido ator italiano Gabriele Ferzetti), Paola Minaccioni e participação do ator Stefano Accorsi. Sucesso estrondoso na Itália, onde liderou bilheterias por quase dois anos (o filme é de 2024), passou em cinemas de mais de 40 países, chegando agora ao Brasil pela Pandora Filmes, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema Italiano no Brasil. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Filme de terror do momento, que está na boca do público jovem, vem lotando sessões nas salas de exibição e causando uma série de sentimentos controversos – eu, por exemplo, fiquei baqueado, pois aquilo tudo mexeu comigo, já que é um filme de pura tensão psicológica que causa mal-estar. Realizado em 2025 por um cineasta independente desconhecido, Curry Barker (que o escreveu e dirigiu), o filme foi exibido no Festival de Toronto e, após um ano, entrou no circuito mundial, incluindo no Brasil, com distribuição da Universal Pictures. É um terror psicológico inquietante, com roteiro original trazendo jumpscares eficazes, assustadores, que faz com que até desviemos o olhar nas cenas em que sabemos que o horror explodirá na tela. Um aparente romance juvenil vira um pesadelo sobrenatural de raízes profundas. O enredo acompanha Bear (Michael Johnston), um rapaz solitário, que procura um novo amor após o término com a namorada. Um dia, em uma loja de souvenirs, compra um brinquedo misterioso chamado One Wish Willow (Salgueiro da Sorte), capaz de realizar um único desejo. Ao pedir para ser amado por sua melhor amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), ele vê seu sonho se concretizar de forma imediata. Eles iniciam um romance descomunal, só que o amor de Nikki se converte em obsessão. O comportamento de Nikki oscila, como se fosse duas pessoas diferentes: a garota cuidadosa, afetiva, vira em poucos segundos uma pessoa histérica, amarga, capaz de loucuras para ter o namorado por perto. Bear descobre que o desejo escolhido terá um preço sombrio e irreversível. A premissa, aparentemente simples, é engenhosa, dando ao filme uma originalidade rara no gênero, que explora os limites entre desejo, paixão e destruição. Há momentos tensos que deixarão o público de cabelo em pé, tamanho o clima sombrio que o diretor conseguiu instaurar. O roteiro mescla drama íntimo com terror sobrenatural, sem recorrer a clichês, e tudo muito pessimista, incluindo o desfecho arrasador. O filme é de puro clima de paranoia, perseguição, loucura e claustrofobia, com tensão crescente – prepare o coração, já adianto. Há toda uma discussão crítica sobre os relacionamentos sufocantes, principalmente os da atualidade, dos tempos das redes sociais, fugazes e passageiros, que corroem o casal; de um lado, um jovem inseguro que necessita ser amado a qualquer custo, e de outro, uma garota consumida pela necessidade de ter o namorado por perto, não o deixando sair sozinho, nem falar com os amigos. Michael Johnston e Inde Navarrette entregam personagens difíceis de interpretar, dando um show de performance. Eu curti o filme, um dos melhores de terror do ano. Assista, se possível, no escurinho do cinema (para quem gosta de levar sustos) e preste atenção em todos os detalhes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Estamos em uma boa temporada de filmes de horror que vem levando muita gente para as salas de cinema. Somente em maio estrearam no Brasil sete do gênero: “Exit 8”, “Dolly – A boneca maldita”, “Love kills” (este brasileiro), “Passageiro do mal”, “Obsessão”, “Backrooms: Um não-lugar” e “Hokum”. Os três últimos assisti numa tacada, no último fim de semana, e gostei. Vamos para “Hokum”, um baita terror atmosférico com um personagem só, trancado em uma pousada mal-assombrada. Nesse folk horror inspirado em uma lenda urbana irlandesa, o ator Adam Scott (de “Krampus: O terror do natal”) interpreta Ohm Bauman, um escritor de livros de aventura conhecido, mas egocêntrico, que viaja para o interior da Irlanda com o objetivo de cumprir o último desejo dos pais falecidos recentemente: espalhar as cinzas deles no local onde se conheceram, uma floresta de sequoias. Ele também está lá para terminar seu próximo livro, portanto se hospeda por alguns dias em uma antiga pousada. Escuta de duas pessoas histórias funestas sobre o lugar, de que num dos quartos nupciais uma bruxa foi aprisionada. O cômodo é mantido em segredo, isolado por portas maciças reforçadas com cadeados. Inicialmente ele não dá bola para o caso, mas quando uma funcionária do hotel, com quem ele conversava, desaparece, Bauman resolve explorar os cantos da misteriosa pousada. O escritor não imagina no que está se metendo, até se enfurnar em um pesadelo interminável. O filme é assustador, conduzindo o espectador por uma narrativa de luto, segredos e forças sobrenaturais, com momentos de angústia e sustos de pular da cadeira. O longa anterior do cineasta Damian McCarthy, “Oddity: Objetos obscuros” (2024), mexia com temas parecidos (como isolamento, figuras míticas amaldiçoadas, resolução de crimes do passado), e agora reúne tudo isso em um terror mais explícito e de ambiguidades (aqueles dias de terror são reais ou está na mente do protagonista?). A figura da bruxa aparece nas penumbras, o que gera dúvidas e mais medo no espectador, sendo uma metáfora inevitável da morte. O roteiro tem uma boa construção, com um desfecho regular e cenas bem fotografadas de ambientes escuros (que provocam a tensão necessária para esse tipo de filme). Está nos cinemas pela Diamond Films. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Astro do cinema francês atual, Omar Sy protagoniza esse bom e eficiente drama com toques de suspense que é uma coprodução entre França e Bélgica, exibido em festivais como Tallinn Black Nights Film Festival (na Estônia) e no Brasil no Festival de Cinema Francês, e que acaba de estrear nos cinemas pela Califórnia Filmes. Ele interpreta Julien, um homem que vê seu relacionamento desabar com a chegada de uma ex-namorada de infância na cidade onde mora, Anaëlle (Vanessa Paradis). Segredos serão revelados, a feliz convivência do casal será colocada em dúvida, e a esposa dele, Marie (Élodie Bouchez – outra atriz de peso no filme), inicia um estranho romance com o chefe mau caráter, Thomas (José García). O longa reúne um elenco firme numa história que é um verdadeiro jogo feroz de manipulações, contradições e vingança, com todo o charme que o cinema francês sabe muito bem realizar. O filme foi escrito e dirigido pela veterana atriz e cineasta Anne Le Ny, que recentemente esteve em filmes exibidos nos cinemas brasileiros, como “Era uma vez minha mãe” (2025) e “Provas de amor” (2025). Boa pedida para os fãs do ator Omar Sy, que está num de seus melhores dias. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Uma boa recomendação de filme para os apreciadores de música erudita, bem como quem gosta de biografias de músicos clássicos é “Chopin, uma sonata em Paris”, que acaba de estrear nos cinemas, com distribuição da Synapse Distribution. O drama é a cinebiografia de Frédéric Chopin (1810-1849), pianista e compositor polonês da era romântica, considerado um gênio sensível que rompeu padrões até então estabelecidos no mundo da música clássica. Nascido na pequena vila de Żelazowa Wola, na Polônia, desde cedo revelou talento extraordinário para a música. Cresceu em Varsóvia, tendo a juventude marcada por estudos intensos de piano e composição, rapidamente tornando-se um prodígio. Ainda jovem, deixou a Polônia para se estabelecer em Paris, centro artístico da Europa, em plena efervescência cultural da década de 30. Lá firmou sua carreira tornando-se figura essencial do movimento do Romantismo. A saúde de Chopin, porém, foi o tormento de seus dias: ele sofria de tuberculose, doença que não tinha cura na época e que o acompanhou até a morte prematura aos 39 anos – a doença também, como pode ser visto no filme, influenciou o tom melancólico de suas composições, parte delas obras-primas. Chopin (no longa muito bem interpretado pelo carismático e jovem ator polonês Eryk Kulm, de “Servindo nazistas”) circulava pela boemia e teve uma relação intensa com a escritora George Sand (no filme, papel de Joséphine de La Baume, de “Um dia”), que o apoiou na doença e na criação artística - o romance teve altos e baixos e terminou de forma dolorosa para ambos. A força do artista era tanta que foi o preferido da aristocracia francesa, agradando até o rei Louis-Philippe (papel de Lambert Wilson, de “Matrix resurrections”). O filme busca o lado humanizado de Chopin, um homem tímido, retraído, mas brilhante no piano, que evitava palcos e lugares cheios de gente, e que sofreu horrores com a tuberculose (isto explicava seus problemas respiratórios crônicos, desnutrição e fraqueza, que o levava a desmaiar pelas ruas). O drama com tom musical do cineasta polonês Michal Kwiecinski não é apenas tragédia e dor, é uma ode com momentos de alegria que homenageia a intensa e virtuosa trajetória de Chopin, recorrendo a belos cenários e figurinos. O filme está nos principais cinemas do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Salvador. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Outro bom documentário brasileiro entra em circuito em algumas salas de cinema alternativo aqui do país. O longa, com encenações que lembram um ‘docudrama’, resgata a trajetória perdida e pouco conhecida do artista plástico e desenhista cearense Antônio Bandeira (1922-1967), representante da arte abstrata e do Modernismo. Por meio de um estudo criterioso, o filme analisa dois momentos da vida do pintor – do nascimento até os 23 anos no Brasil, época em que entrou para o mundo das artes plásticas, e sua estadia/moradia na França, de 1946, quando ganhou uma bolsa de estudo e foi para Paris, até sua morte na capital francesa. Viveu metade da curta vida na Cidade-Luz onde participou de salões e expos em diversos países da Europa, tornando-se figura ímpar do Abstracionismo – Bandeira ficou mais notório lá fora do que no país onde nasceu. Quem conduz as histórias é o sobrinho Francisco Bandeira, um dos herdeiros de sua obra – enquanto há um ator que atua como Antônio, fotos, reportagens e telas verdadeiras dele aparecem no quadro, como uma maneira de desvendar a inquietude artística desse homem genial, que infelizmente partiu cedo, aos 45 anos, durante uma cirurgia malsucedida. O doc recebeu o troféu Mucuripe de melhor longa na mostra ‘Olhar do Ceará’, no Cine Ceará de 2024, e acaba de estrear nos cinemas com distribuição da Sereia Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinemanaweb blogspotcom (Publicado em 11/04/2025)
Com forte mercado consumidor de cinema, China e Hong Kong despontam na lista dos maiores produtores de filmes do mundo. Em 2024, os dois países realizaram 800 filmes, boa parte deles de ação e terror, gêneros que atraem o olhar do numeroso público jovem. Porém, os filmes circulam mais na Ásia, e nós, aqui no Brasil, temos menos acesso às produções. Nos últimos anos a Netflix e os festivais de cinema feitos no Brasil trazem em sua programação fitas chinesas e honconguesas, como é o caso desse bom exemplar de horror psicológico ‘Mente perturbada’ (2023) – disponível para aluguel ou compra em streamings como Prime e AppleTV. É também um drama familiar com elementos místicos da cultura chinesa. São sete dias na vida de um jovem que retorna para Hong Kong, sua cidade natal, para visitar a mãe gravemente hospitalizada. Ele se hospeda no apartamento onde cresceu, localizado num condomínio suburbano antigo. Aos poucos, estranha a vizinhança e começa a ter visões sobrenaturais, de vultos pretos, principalmente à noite. Certo dia, acolhe um garotinho, que mora com a mãe no prédio, e descobre que ele também vê fantasmas. Com o tempo a relação dos dois personagens se fortalece, e entendemos o passado do protagonista, repleto de angústia e medo devido às visões que tem desde criança. Misturando drama, terror e suspense, o filme honconguês tem clima assustador, com tom sobrenatural, reforçado pelos cenários claustrofóbicos, dentro de um condomínio sujo, de quartos pequenos, onde as pessoas não são o que aparentam. Chama a atenção o elenco, com os veteranos Tai-Bo, de ‘Police story’ (1985), e Yuk Ying Tam, de ‘Infiltrado’ (2016), e de uma atriz que nunca mais vi, a chinesa Bai Ling, que fez carreira em seu país, mas nos anos 90 participou de grandes produções americanas, como ‘O corvo’, Justiça vermelha’ e ‘Anna e o rei’. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinemanaweb blogspotcom (Publicado em 21/04/2025)
Chegou na semana passada na plataforma de streaming Filmelier+ esse filme novíssimo, de 2025, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e que é primeiro longa de ficção da diretora francesa Alexe Poukine (que atua como documentarista). É um drama feminino visceral sobre sobrevivência, protagonizada por Manon Clavel, de “A verdade” (2019), num esplêndido e complexo papel, o de uma jovem mãe grávida, que ficou viúva há pouco e precisa enfrentar escolhas inesperadas para sustentar a família em formação. Ela se chama Kika, uma assistente social ainda aturdida com a morte prematura do marido, com quem teve um relacionamento intenso. Ela cuida da primeira filha, ainda pequena, e agora, com um filho para chegar, decide vender roupas íntimas usadas por ela pela internet, um fetichismo que existe aos montes por aí. Devido à urgência financeira, entra aos poucos no mundo do mercado sexual digital. Poukine constrói o retrato de uma mulher vulnerável, dividida entre o trabalho formal e um outro ganha-pão que é novidade para ela, mas malvisto e feito às escondidas. Ela é testada todo dia pela sociedade, portanto é tomada por um dilema moral. Há elementos de outros filmes de temática semelhante, da mulher que tem papel duplo envolvendo sexo para sobreviver, como “Jeanne Dielman” (1975) e “Irina Palm” (2007), e todos os três trazem figuras femininas poderosas na tela, de mulheres que não sucumbem nem ao machismo nem a hipocrisia dos valores pregados pela sociedade. Sem estereótipos ou melodrama, o filme (que tem uma ótima fotografia que evoca a pessoalidade da protagonista) amplia a discussão sobre como mulheres em situação de fragilidade (tanto emocional quanto financeira) são forçadas a recorrer a alternativas inesperadas para sobreviver. Um filme que gostei de conhecer e que recomendo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
O gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É Tudo Verdade’ de 2025 (onde assisti) na ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160 apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, o doc foi exibido em festivais importantes como CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen. Acaba de estrear nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Diretor belga que sigo há muito tempo, de filmes cult como “A economia do amor”, “Seguir em frente” e “Um silêncio”, Joachim Lafosse lança seu novo trabalho, um drama feminino de enorme força íntima. Coprodução entre Bélgica, França e Luxemburgo, o filme foi premiado no Festival de San Sebastián nas categorias de direção e roteiro (também dele, em parceria com outros dois roteiristas), e é inspirado em lembranças da infância dele, mantendo na obra um tom confessional e humano. É a história de Sana (Eye Haïdara, de “Assim é a vida”), uma mãe que decide levar os filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera. Após contratempos, mãe e filhos ficam às escondidas na luxuosa casa dos antigos sogros, na Riviera Francesa, por seis dias. Será um tempo de descobertas, como perda da inocência e a união familiar. A fragilidade econômica da mãe se confronta com o poder material da família paterna, eixo dramático do longa, tudo revelado pelos olhos das crianças. A produção se destaca pela fotografia lindíssima (de sol e calor na região da Riviera) de Jean-François Hensgens, além da montagem cuidadosa de Marie-Hélène Dozo, que reforça o ritmo contemplativo. Lafosse constrói mais um filme com mise-en-scène delicada, marcada por silêncios e gestos sutis, que traduzem a intimidade e a tensão social – ele aqui revisita sua própria trajetória para falar de desigualdade, pertencimento e família, além de afeto e da beleza que resiste nas dificuldades cotidianas. Recomendo conhecerem o cinema desse diretor autor brilhante. “Seis dias naquela primavera” está em exibição nos cinemas brasileiros das principais capitais, como São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com distribuição da Zeta Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Dirigido por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin, principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX (este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino, Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da Imovision. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
O novo longa de Caco Ciocler (que há um bom tempo vem se dividindo entre atuação e direção) encerra uma trilogia política que ele construiu sem planejar, que analisa o Brasil contemporâneo e suas tensões no campo da política. A trilogia é formada pelos documentários “Partida” (2019), que traz a atriz Georgette Fadel tentando se candidatar à presidência da República após a eleição de Bolsonaro, e como inspiração viaja de ônibus com um grupo de amigos para visitar o presidente do Uruguai Pepe Mujica, seguida de “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), filmado em plena pandemia, que trata de artistas no isolamento social e a invasão das fakes news sobre eles naquele período crítico da política nacional. Agora Ciocler faz uma obra ficcional misturando comédia e drama e, como consta na tagline do pôster, é “baseada em um meme real”: é a história verídica de um caso inusitado que viralizou nas redes e grande mídia no final de 2022, chamado de “O patriota do caminhão”. O apelido foi dado a um indivíduo chamado Marcos Guedes, dito empresário, que virou um dos maiores memes da internet após se agarrar na frente de um caminhão em movimento. O episódio ocorreu em novembro de 2022, na rodovia BR-232, em Caruaru (PE), durante os bloqueios de estradas ilegais realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contestavam o resultado das eleições presidenciais (em que Lula ganhou). O tal empresário fez isso para impedir que um caminhão furasse o bloqueio. A partir desse meme de segundos de duração que contaminou as redes, Ciocler faz, em “Eu não te ouço”, um estudo de personagens instigante, com o ator Márcio Vito em papel duplo: o do caminhoneiro e o manifestante agarrado no veículo. O filme parte desse acontecimento para propor uma metáfora sobre a divisão do país, que explodiu em conflitos ideológicos. De um lado, o motorista fechado na cabine, seguindo com seu trabalho, e do outro, o manifestante agarrado na frente do caminhão, gritando palavras que o caminhoneiro não consegue ouvir. Entre eles, o vidro, uma barreira física e simbólica que separa mundos e impede o diálogo. A obra é sobre a impossibilidade de escuta em uma sociedade dividida, onde discursos se chocam e nunca há conciliação. Pode ser visto como um road movie de estilo autoral, com pitadas de sarcasmo e ironias da vida real. O trabalho de Vito foi reconhecido em muitos festivais, como o Festival do Rio, onde ganhou o Troféu Redentor de melhor ator. O roteiro foi escrito em três: por Ciocler, Vito e pela atriz Isabel Teixeira (filha do cantor e compositor Renato Teixeira). Exibido em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a obra está nos cinemas brasileiros, com produção e distribuição da Amaia. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Excelente produção da Netflix, o documentário conduzido pelo jornalista britânico Louis Theroux é uma assustadora pesquisa de campo em que ele analisa o universo digital da chamada “manosfera”, apelidada de “machosfera”, uma subcultura da internet formada por comunidades masculinistas, cuja característica é se opor radicalmente aos movimentos feministas utilizando-se de discursos misóginos e odiosos contra as mulheres. Grupos como Red Pills, Incels e MGTOW (Men Going Their Own Way, na tradução “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) integram essa rede, e nos últimos anos ficaram conhecidos pelo conteúdo agressivo que é disseminado a milhões de seguidores nas redes sociais. O filme é uma investigação particular de Louis Theroux, premiado jornalista britânico de documentários investigativos da BBC e apresentador de TV, que estuda masculinidade tóxica, e no doc ele mapeia influencers da machosfera para uma conversa informal com eles. Ele entrevista, por exemplo, Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing e hoje influenciador, Sneako (Nicolas Balinthazy), criador de conteúdo que mistura debates sobre cultura jovem, política e masculinidade, e Myron Gaines (Amrou Fudl), podcaster red pill, que toparam falar sem censura. É uma visão de mundo desses caras muito particular, com discursos virulentos, o que chega a causar espanto. O jornalista abre um debate sobre como as redes sociais e espaços virtuais moldaram comportamentos abusivos, especialmente entre homens jovens, que expressam sem medo opiniões das mais absurdas e perigosas, sem que eles respondam por aquilo na justiça – nos EUA as leis das redes são afrouxadas, sequer existe controle. Com cautela e distanciamento, Theroux visita casa e estúdio dos entrevistados, sem julgamentos imediatos, mas com perguntas incisivas que revelam contradições e tensões. Para essas personalidades midiáticas, a manosfera propõe a “restauração” da masculinidade tradicional, segundo eles tendo o homem como protagonista da vida em sociedade (por isso a misoginia, que boa parte deles, contaminados por esse ideal de vida, não percebe cometer). O documentário da Netflix é um retrato inquietante de como a internet se tornou terreno fértil para ideologias que misturam ressentimento, frustração e radicalização. Recomendo. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Chegou ontem com exclusividade no streaming Adrenalina Pura+ esse drama de guerra espanhol inspirado em fatos verídicos ocorridos em um campo de prisioneiros soviético na década de 40. Dirigido por Miguel Ángel Vivas (de “Horas do medo” e “Apocalipse”), o longo filme (que tem 151 minutos de duração) aborda as cicatrizes da Guerra Civil Espanhola no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial. É a trágica história do Capitão Reyes e Tenente Salgado, dois homens do Exército que lutaram em lados opostos na Guerra Civil, um franquista e outro republicano, e que, por ironia do destino, são presos juntos em um gulag mantido pela URSS. Daquele paradoxo nasce uma relação de sobrevivência entre os dois inimigos; eles são forçados a conviver (e sobreviver) em meio a outros soldados aprisionados naquele inferno, um lugar gelado sob condições desumanas. Estrelado por Miguel Herrán (o Río da série da Netflix “La casa de papel”) e Arón Piper (o Ander da série “Elite”, também da Netflix), os atores vivem personagens tomados pelo peso das ideologias que dividiram a Espanha, ao mesmo tempo que procuram a urgência da sobrevivência diante da fome, do frio, da violência sorrateira dentro da prisão e das torturas físicas e psicológicas cometidas pelos agentes carcereiros (alguns morrem enquanto outros enlouquecem). Com bons diálogos, o drama se segura pela fotografia, marcada por tons gélidos e ambientes sufocantes, com muitas sequências no breu da prisão, aliado à trilha sonora discreta que intensifica os silêncios daquele lugar de desesperança. Exibido no Festival de San Sebastián de 2025 e indicado ao Goya desse ano de melhor maquiagem, o filme está agora disponível no Brasil no streaming Adrenalina Pura+, uma parceria entre a Sofa Dgtl e a California Filmes, que traz no catálogo produções de ação, terror e suspense, para assinatura na Apple TV, no Prime Video e na Claro TV+. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
“Crítico” marca a estreia de Kleber Mendonça Filho como diretor de longa-metragem, já revelando muito da sua inquietação que atravessaria a carreira. O filme, lançado em 2008, nasceu de uma ideia simples, mas de forte apelo: reunir depoimentos de críticos de cinema, cineastas brasileiros e estrangeiros e atores e atrizes para discutir a relação de quem faz e quem analisa filmes. Kleber, que começou a carreira como crítico em Recife, aproveitou sua rede de contatos e cobertura de festivais nacionais e internacionais para colher entrevistas em diferentes contextos – o resultado é um mosaico de vozes que se cruzam e se contradizem. Filme de abertura da Mostra de Tiradentes de 2008, o documentário traz 70 depoimentos de profissionais do cinema do mundo todo, como dos críticos Luiz Zanin, Deborah Young, Pierre Murat e Bertrand Bonello (que depois viria a ser diretor de cinema), o teórico de cinema e escritor Michel Ciment, e uma vastidão de cineastas, como Jafar Panahi, Catherine Hardwicke, Hector Babenco, Elia Suleiman, Claudio Assis, Daniel Burman, Costa-Gavras, Gus Van Sant, Nelson Pereira dos Santos, Julian Schnabel, Sergio Bianchi, Roberto Gervitz, Fernando Meirelles, Beto Brant, Luiz Carlos Lacerda, Tom Tykwer, Eduardo Coutinho, Curtis Hanson, Daniel Filho, Phillip Noyce, Richard Linklater, Carlos Reichenbach, Walter Salles e Carlos Saura, além de atores, como Fernanda Torres e Samuel L. Jackson. Entre um depoimento e outro, Kleber alterna cenas de filmes cult (como de David Lynch, que aliás dá um depoimento em voz apenas), cenas de sets de filmagens (que participou) e de festivais onde esteve, como Berlim. É um registro completo e extenso, de enorme dedicação e amor ao cinema, que demorou oito anos para ele realizar (Mendonça fez as gravações entre os anos de 1999 e 2007), num processo artesanal, sem grandes recursos, em que dispunha apenas de sua câmera e microfone para gravar conversas informais em mesas e corredores. O resultado são pontos de vista sobre o papel da crítica de cinema, a relação dela com o público, a subjetividade do crítico, a importância dessa profissão ao longo do tempo, a tensão que existe na relação entre críticos e cineastas, a seleção do que o público deve ou não ver. Não procura respostas, mas mostra como o olhar crítico pode ser tanto um aliado na difusão do cinema quanto um obstáculo para quem cria, dependendo da perspectiva. Na época do doc, Kleber tinha 40 anos, e este foi seu primeiro longa-metragem após alguns curtas exibidos em festivais internacionais, como “Vinil verde” (2004). É um trabalho independente que antecipa a sensibilidade de Mendonça para observar relações sociais e culturais, algo que se tornaria marca registrada em filmes posteriores como “O som ao redor” (2012), “Aquarius” (2016) e “O agente secreto” (2025). “Crítico” também foi o primeiro trabalho da CinemaScópio, produtora de Kleber fundada naquele ano, 2008, ao lado da esposa Emilie Lesclaux (produtora de cinema e cientista social de origem francesa), com que se casou um ano antes (juntos, produziriam todos os filmes que vieram em seguida). Distribuição do doc agora pela Vitrine Filmes. PS - O documentário é um dos destaques da nova mostra de cinema do Sesc, a “Mostra Farol - O cinema entre a memória e o agora”, lançada em março desse ano, que traz filmes lançamentos e clássicos feitos por cineastas autorais de 12 países, criadores de obras de linguagem própria e estética revolucionária. Foram 31 filmes na programação, entre sessões presenciais no Cinesesc (entre março e abril) e online (gratuitos na plataforma do Sesc Digital, com títulos até amanhã dia 20/05, incluindo “Crítico”), com longas que vão do drama intimista ao body horror, que tocam em temas como violência doméstica, imigração e sexualidade. Dentre os títulos da Mostra Farol estão os clássicos “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão” (de Pedro Almodóvar) e “Rio, 40 graus” (de Nelson Pereira dos Santos) e os recém-lançados “Alpha” (de Julia Ducournau) e “O senhor dos mortos” (de David Cronenberg). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
É a estreia da semana do Filmelier+, streaming que apresenta ao público filmes de vários países e épocas. Exibido no Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Camera, o longa, de 2025, é um íntimo retrato sobre a imigração numa das maiores cidades do mundo, Nova York. O filme acompanha 48 horas na rotina de Lu (Chang Chen), jovem chinês que acaba de se instalar em Manhattan e consegue um emprego como entregador de comida. Nas primeiras horas nas ruas, sua bicicleta elétrica é furtada, e ele então corre contra o tempo para localizar sua principal ferramenta de trabalho. Está para chegar na cidade sua família (esposa e a filha), e Lu acaba de ter uma séria discussão com o proprietário do apartamento que alugou – ou seja, seu dia não pisca para a sorte. O filme acompanha esses momentos angustiantes e decisivos na vida de Lu, que luta por dignidade e reconhecimento. É uma visão amarga de Nova York, da cidade que não dorme, focando na figura de um homem dividido entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando sob chuva e frio para propiciar condições mais dignas para a família. Partindo da ideia central do clássico neorrealista “Ladrões de bicicleta” (1948), o primeiro longa do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen é uma adaptação para o cinema de seu curta-metragem premiado em Cannes e Toronto, “Same old” (2022), sobre a rotina de um entregador em Nova York. Conta com um ótimo trabalho de Chang Chen, de “Duna”, nua interpretação sem exageros ou melodrama – ator e diretor foram indicados ao Film Independent Spirit Awards deste ano pelo filme. Assisti, gostei e recomendo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Nesse delicado drama espanhol sobre maternidade e inclusão acompanhamos Ângela (Miriam Garlo), uma mulher surda que acaba de se tornar mãe e compartilha com afinco essa experiência ao lado de seu marido, que é ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). A chegada do bebê expõe os desafios universais da maternidade e, no caso de Ângela, as barreiras para uma mulher surda em uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência. O filme nasceu de um curta-metragem de mesmo nome, “Surda” (2021), indicado ao Goya - nele contracenam a atriz surda Miriam Garlo sob direção da irmã, Eva Libertad – e agora ambas retornaram no longa (que venceu três prêmios Goya, consagrando Miriam Garlo como a primeira surda a receber o prêmio de atriz revelação). O roteiro é inspirado na própria trajetória de Miriam, escrito pela irmã Eva, ou seja, um projeto autoral feito em família. A obra trabalha sons alternados com momentos de profundo silêncio para mostrar as relações da personagem na sociedade, explorando de forma sensível temas como autonomia, maternidade, isolamento e comunicação. A própria câmera, com movimentos sutis, privilegia silêncios e gestos, num trabalho primoroso da equipe técnica. O trabalho de Álvaro Cervantes como o marido de Ângela, premiado como melhor ator coadjuvante no Goya, complementa a performance de Miriam com naturalidade, reforçando a dinâmica de um casal que precisa reinventar sua comunicação diante das exigências da vida com um bebê. O longa também recebeu o Prêmio do Público na Mostra Panorama do Festival de Berlim, além de exibições em festivais como Guadalajara, Seattle e Málaga. Estreou no último fim de semana nos cinemas do Brasil, com sessões que contam com legenda descritiva, audiodescrição e Libras via aplicativo ‘Conecta’, reforçando o compromisso da obra com a acessibilidade. A distribuição nas salas é pela Retrato Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Moscas Caçadoras
3.3 1Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
High School
3.6 17 Assista AgoraMais um filme cult em cópia restaurada integra a programação do Festival Olhar de Cinema desse ano. Trata-se de “High School”, na seção Olhares Clássicos Cine Passeio. O documentário é um dos filmes da primeira fase do diretor três vezes vencedor do Emmy Frederick Wiseman, falecido em fevereiro passado aos 96 anos. Em seu segundo trabalho para o cinema, ele retrata o cotidiano de uma escola pública secundária na Filadélfia e expõe, com olhar crítico, os mecanismos de disciplina, conformismo e controle presentes na educação norte-americana em plena efervescência social da década de 1960. A estética do longa é marcada pelo estilo do Cinéma Vérité, sem narração ou entrevistas, captando sucessão de fatos e acontecimentos (do jeito que a vida é). O diretor se põe como um observador do cotidiano daquela escola, mostrando professores autoritários, alunos rebeldes e até policiais chamados às pressas para reprimendas. O ano de 1968 foi um período tenso, marcado pela contracultura, protestos estudantis, passeatas feministas, tensões da Guerra Fria e a explosão da Guerra do Vietnã. A escola-alvo do filme, a Northeast High School, na Filadélfia, Pensilvânia, vira um microcosmo daquela sociedade em profunda transformação. O filme acompanha choques geracionais, entre adultos tentando preservar valores tradicionais enquanto jovens encarnam a mudança cultural que emergia nos Estados Unidos. E a punição severa, naturalizada na época, é vista como forma de obediência/subserviência. Wiseman é um cronista da cena urbana, utiliza o estilo direto do documentário observacional, sem comentários externos, entrevistas ou trilha sonora, com um preto-e-branco formidável que dramatiza as passagens. O filme tem uma montagem fragmentada, com cortes abruptos, enquadramentos variados (com muitos closes em rostos) e sobreposição de cenas que desafiam o espectador a interpretar os significados. Na época, o filme foi considerado polêmico, e olhando-o depois de quase 60 anos, as imagens continuam poderosas, incômodas. 25 anos depois Wiseman fez uma espécie de sequência, “High School II” (1994), analisando desta vez o cenário escolar da Escola Secundária Central Park East, em Nova York. O documentário conta com mais uma sessão no festival Olhar de Cinema, no dia 09/06. PS: No mês passado a Mubi lançou uma coleção em homenagem ao cineasta, intitulada “Frederick Wiseman: American lives”, com oito documentários dele que são análises íntimas da sociedade americana e suas contradições; no catálogo há “Model” (1980) e “High School”, bem como longas de enorme duração que ele fez e foi exibido e importantes festivais, como “At Berkeley” (2013) e “City Hall” (2020). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha
3.0 1Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros. Filme integra a Mostra Competitiva Brasileira, com exibição nos dias 12 e 13/06. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Todo Mundo em Pânico
3.0 123As bilheterias no mundo engordaram com o novo “Todo mundo em pânico”, o sexto filme da franquia que retornou com tudo aos cinemas no último fim de semana, uma fita escrachada que implode os vícios da cultura americana e parodia os filmes de terror da atual safra (além de fazer uma série de autocríticas do próprio elenco). A comédia besteirol é de uma liberdade criativa infinita, bem superior aos anteriores (que foram ficando envelhecidos, esculachados, mal-feitos e sem sentido). Há reciclagem das piadas e referências, reunindo o elenco original (como Regina Hall, os irmãos Marlon e Shawn Wayans, Anna Faris, Lochlyn Munro, Chris Elliott, Carmen Electra e Dave Sheridan), que usam e abusam de zoeiras, cafonices e ousadia para manter o legado da franquia. As piadas políticas se superam: tem citações aos movimentos “Me too” e “Vidas negras importam”, críticas ferozes a Trump e sua polícia fascista que caça imigrantes, o “Ice”, referência à invasão ao Capitólio, a Musk e ao pedófilo Jeffrey Epstein. Criticam a cultura das lives e dos influencers e a era do cancelamento, caçoam da linguagem como gírias e pronome neutro, e parodiam mais de 20 longas da última década, não só de terror, mas animações e policial, como “Corra!”, “Pânico”, “Pecadores”, “Halloween”, “Guerreiras do K-pop”, “Sorria”, “Michael”, “Longlegs – Vínculo mortal”, “A substância”, “John Wick” e “Bailarina, “Candyman”, “A hora do mal” e até uma passagem de segundos, muito engraçada, de “As branquelas”. Abre com Teyana Taylor como ela mesma numa referência a ter perdido o Oscar desse ano. Curti e rachei de rir em alguns momentos (pelo menos me aliviei nesse puro suco de entretenimento que não se disfarça em ser “enlatado cultural”). Como disse, é bem melhor que os filmes anteriores da franquia que completou 26 anos – quase todos os outros foram campeões de indicações no Razzie Awards, com Lindsay Lohan e Carmen Electra vencendo de “pior atriz”, junto de The Stinkers Bad Movie Awards, que também existiu em Los Angeles por quase 30 anos para premiar os piores. A cinessérie nasceu em 2000, numa década marcada pelo besteirol que enchia as salas de jovens (como “American pie” e “Jackass”), e a cada dois anos aparecia um novo filme zoeira do grupo; desde 2013 não havia um exemplar, e este, que se chamaria “parte 6”, devido ao lapso de tanto tempo, ficou, a mando da distribuidora Universal, apenas “Todo mundo em pânico” - já que também em nenhum há relações diretas de continuação. Está nos cinemas fazendo boa bilheteria - vá para rir muito e se soltar, e espere até os últimos minutos, pois há duas cenas pós-créditos. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste
3.5 2Animação brasileira independente lançada nos cinemas no último fim de semana pela Retrato Filmes, é uma fita que explora o cordel para o público jovem, com muito humor, ação e traços peculiares, com uso de formas que recorrem à xilogravura. Há de se notar ainda elementos de ficção científica e estética cyberpunk, com canções populares rítmicas, que criam um sertão futurista onde cangaceiros viajam no tempo para enfrentar o mítico vilão Cabra da Peste. O longa dirigido por Ale McHaddo (pioneira no cinema de animação, que lá atrás fez o bizarro curta que ganhou festivais “A lasanha assassina”) parte de uma premissa curiosa: levar as tradições seculares do cordel para o mundo tecnológico da ficção científica, criando um contraste inimaginável. A trama acompanha um grupo de cangaceiros que encontram e usam uma máquina do tempo, e são lançados ao ano de 3333. Nesse futuro distópico, o sertão se converte em um “Neo Nordeste” povoado por robôs, alienígenas e recursos super avançados, ainda marcado pela memória cultural do cangaço. O vilão Cabra da Peste os persegue até lá para uma vingança. Há crítica social e texturas de uma rica brasilidade nesse filme engraçado, dinâmico, curtinho, que cativa pelos personagens e seus sotaques, cujas vozes são feitas por ótimos atores, como Bruno Garcia (como Capitão Rocha), Tadeu Mello (como Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi), Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e o cantor e ator Falcão (como Falcão Espacial). Diversão ágil para crianças e jovens. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Backrooms: Um Não-Lugar
3.4 133Terror instigante com forte clima de mistério que leva para o cinema a estranha atmosfera criada por Kane Parsons em seu seriado homônimo no YouTube anos atrás. Ele transforma uma lenda da internet em uma experiência sensorial marcada pelo minimalismo visual. Quem assistiu à série do Youtube (disponível gratuitamente no perfil de Parsons) sabe que é uma doideira aquilo tudo, um seriado desconexo, cujos episódios são irregulares e não dependem um do outro. Trago um pouco da série para caminhar para algumas explicações em torno do filme que vem fazendo sucesso inesperado nas salas de cinema. Em 2022 Parsons (apelidado de Kane Pixels) criou o projeto de vídeos “The Backrooms”, inspirado em “liminal spaces”, conceito de jogos de salas fechadas e abandonadas, em que alguém (em primeira pessoa) explora o ambiente, sem saber o que irá encontrar pelo trajeto. Às vezes há flashes ao fundo de uma criatura disforme, em outros sons peculiares de vozes vindas de uma rádio, em outros passos e até de gente correndo com trajes de proteção de material radioativo. Esses episódios foram inspirados nas tais creepypastas (lendas de terror que inundam fóruns da internet, criadas por anônimos) e found footage. Entre 2022 e 2025 o jovem cineasta Parsons (veja que prodígio, começou a série aos 16 anos na internet e conquistou milhões de visualizações com seus vídeos) lançou 25 episódios de duração variada (de 1 a 40 minutos cada), totalizando 176 minutos, sempre no mesmo cenário: um ambiente com quartos infinitos de cor amarelada, com perfeita geometria. A série descontinuada traz conceitos de scifici envolvendo cientistas, lixo tóxico, criaturas e tensão permanente (eu assisti à série todinha, alguns episódios são bem instigantes, outros são sem sentido total e cansativos). O filme agora amplia a visão de Parsons (hoje com 20 anos de idade) para uma trama com começo, meio e fim, diferente da série. Nele, vemos o proprietário de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) frustrado com a vida, que faz terapia e mora num espaço improvisado numa sala do próprio trabalho. Um dia vê uma luz estranha na divisória de uma das paredes da loja; ao tocá-la, ele se transpõe para uma outra dimensão, um “não-lugar”, que é exatamente o Backroom da série: um lugar infinito, inabitado, extradimensional, formado por corredores de labirintos e salas amarelas. Ali, a realidade como conhece parece se esvair. Escuta um som estranho, há manequins espalhados, vozes vindas de um walkie talkie, fios que conectam televisores, cadeiras amontadas, ou seja, tudo muito confuso. Ele explora o local, até que sai para contar o que viu para sua terapeuta (Renata Reinsve), que duvida então de sua sanidade. Até que o homem monta um grupo de pessoas para entrar no Backroom e filmar os espaços. Eles se perdem e ficam em salas separadas, percebem que há uma presença sinistra ali, e desaparecem. Então a terapeuta vai até lá verificar o sumiço do paciente, descobrindo a fenda luminosa que a transporta para as salas infinitas. O filme trata o tempo todo de um medo intenso de um lugar desconhecido e vazio, interminável, de pura repetição. Os personagens são levados à loucura quando entram em outros tipos de quartos, um vermelho com árvores de natal, um que parece um spa com piscinas, todo alagado. O que seria o Backroom? É um lugar que existe fora da realidade ou apenas dentro da cabeça dos personagens? O tempo todo o longa faz esse questionamento. O design é fiel à estética dos vídeos que viralizaram na web: paredes amareladas, carpete gasto, iluminação fluorescente (realmente um design efusivo, o ponto alto do filme, com mais de 80 cenários diferentes, cada vez mais amedrontadores, bem caóticos). Esse minimalismo não é apenas visual, mas conceitual: o espaço é desprovido de identidade, reforçando a ideia do “não-lugar”, onde o ser humano perde referências. A atmosfera segue os efeitos digitais discretos, usados para sugerir presenças invisíveis e distorções espaciais, o que dá muito certo nesse filme que pegou em cheio o público (de um orçamento mínimo, de U$ 10 milhões, já arrecadou nas salas U$ 210 mi). Há uma aura de filme bizarro, estranhíssimo, que vem atiçando a curiosidade do público, por isso essa bilheteria – além de trazer dois atores de peso, indicados ao Oscar, em ótimos papéis (o britânico Ejiofor e a norueguesa Renata). A marca da produtora A24 é também chamariz, sempre trazendo filmes conceituais e diferenciados do mercado tão saturado de filmes de terror. Parsons é mestre em VFX, processo digital feito na pós-produção, que utiliza cenas reais com CGI, recorrendo a simulação 3D, composições, remoção de objetos indesejados etc, que o fez tanto na série quanto no filme. Norte-americano, ele reuniu um pouco da profissão dos pais para sua formação e até colocou algo disso no filme: o pai era programador de videogames e a mãe, terapeuta (o que explica o papel de Renata Reinsve). Estudou desde cedo efeitos visuais e jogos, e quando criou seu canal no Youtube em 2015, para postar jogos de Minecraft e memes, criou o “Backroom”, que viralizou rapidamente. Agora no seu primeiro contato com o cinema, nessa adaptação, ele mantém a parte boa e a essência da obra conceitual do seriado, explorando também os conflitos humanos e o poder da mente, com uma estética caseira, mas avassaladora - mistura cenas de câmera manual em primeira pessoa (estilo “A bruxa de Blair”) com gravações de atores na frente da câmera. Cai um pouco na parte final, porém ainda assusta (definiria o filme como um terror psicológico com ficção científica). POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
Diamantes
3.4 4Fenômeno de bilheteria na Europa, o novo trabalho do cineasta turco naturalizado na Itália Ferzan Özpetek, de “O primeiro que disse” (2010) e outros 25 curtas e longas, é uma homenagem ao universo da moda visto por dentro do cinema. Retrata duas histórias distintas, mas que se complementam, divididas entre presente e passado, cuja força feminina é a base desse drama de estética vibrante, que exibe com detalhes os bastidores da transformação de tecidos em figurinos elegantíssimos que serão destinados a celebridades que os usarão nas gravações de um filme. O enredo traz um diretor de cinema, no tempo atual, planejando a execução de um longa-metragem com suas atrizes preferidas, pensando no figurino ideal para a obra; isto os transpõe para 50 anos antes, na década de70, em um ateliê comandado por duas irmãs da família Canova, Alberta (Luisa Ranieri, de “A mão de Deus”) e Gabriella (Jasmine Trinca, de “O quarto do filho”), cujas personalidades são conflitantes. Cada uma tem um modo de pensar e agir. Com elas, trabalham funcionárias que enfrentam dilemas universais: violência doméstica, luto, paixões e maternidade. No ateliê, aquele grupo de mulheres trocam segredos em conversas reservadas (um espaço de sororidade), trabalham arduamente com o tempo contado e se unem em torno de um ideal comum: elaborar os figurinos mais bonitos do cinema. Özpetek costura as historietas com referências cinematográficas aos montes, como uma cena da escadaria que remete à “Crepúsculo dos deuses”. O filme também é especial para o cineasta, uma espécie de memórias do seu primeiro trabalho, nas décadas de 70 e 80, como assistente de direção na Sartoria Tirelli, uma antiga casa italiana de figurinos para o cinema. Além de Luisa e Jasmine, no elenco há outras mulheres carismáticas que trazem vivacidade para a história, como Sara Bosi, Elena Sofia Ricci, Anna Ferzetti (filha do falecido ator italiano Gabriele Ferzetti), Paola Minaccioni e participação do ator Stefano Accorsi. Sucesso estrondoso na Itália, onde liderou bilheterias por quase dois anos (o filme é de 2024), passou em cinemas de mais de 40 países, chegando agora ao Brasil pela Pandora Filmes, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema Italiano no Brasil. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Obsessão
4.0 215Filme de terror do momento, que está na boca do público jovem, vem lotando sessões nas salas de exibição e causando uma série de sentimentos controversos – eu, por exemplo, fiquei baqueado, pois aquilo tudo mexeu comigo, já que é um filme de pura tensão psicológica que causa mal-estar. Realizado em 2025 por um cineasta independente desconhecido, Curry Barker (que o escreveu e dirigiu), o filme foi exibido no Festival de Toronto e, após um ano, entrou no circuito mundial, incluindo no Brasil, com distribuição da Universal Pictures. É um terror psicológico inquietante, com roteiro original trazendo jumpscares eficazes, assustadores, que faz com que até desviemos o olhar nas cenas em que sabemos que o horror explodirá na tela. Um aparente romance juvenil vira um pesadelo sobrenatural de raízes profundas. O enredo acompanha Bear (Michael Johnston), um rapaz solitário, que procura um novo amor após o término com a namorada. Um dia, em uma loja de souvenirs, compra um brinquedo misterioso chamado One Wish Willow (Salgueiro da Sorte), capaz de realizar um único desejo. Ao pedir para ser amado por sua melhor amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), ele vê seu sonho se concretizar de forma imediata. Eles iniciam um romance descomunal, só que o amor de Nikki se converte em obsessão. O comportamento de Nikki oscila, como se fosse duas pessoas diferentes: a garota cuidadosa, afetiva, vira em poucos segundos uma pessoa histérica, amarga, capaz de loucuras para ter o namorado por perto. Bear descobre que o desejo escolhido terá um preço sombrio e irreversível. A premissa, aparentemente simples, é engenhosa, dando ao filme uma originalidade rara no gênero, que explora os limites entre desejo, paixão e destruição. Há momentos tensos que deixarão o público de cabelo em pé, tamanho o clima sombrio que o diretor conseguiu instaurar. O roteiro mescla drama íntimo com terror sobrenatural, sem recorrer a clichês, e tudo muito pessimista, incluindo o desfecho arrasador. O filme é de puro clima de paranoia, perseguição, loucura e claustrofobia, com tensão crescente – prepare o coração, já adianto. Há toda uma discussão crítica sobre os relacionamentos sufocantes, principalmente os da atualidade, dos tempos das redes sociais, fugazes e passageiros, que corroem o casal; de um lado, um jovem inseguro que necessita ser amado a qualquer custo, e de outro, uma garota consumida pela necessidade de ter o namorado por perto, não o deixando sair sozinho, nem falar com os amigos. Michael Johnston e Inde Navarrette entregam personagens difíceis de interpretar, dando um show de performance. Eu curti o filme, um dos melhores de terror do ano. Assista, se possível, no escurinho do cinema (para quem gosta de levar sustos) e preste atenção em todos os detalhes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Hokum: O Pesadelo da Bruxa
3.0 72Estamos em uma boa temporada de filmes de horror que vem levando muita gente para as salas de cinema. Somente em maio estrearam no Brasil sete do gênero: “Exit 8”, “Dolly – A boneca maldita”, “Love kills” (este brasileiro), “Passageiro do mal”, “Obsessão”, “Backrooms: Um não-lugar” e “Hokum”. Os três últimos assisti numa tacada, no último fim de semana, e gostei. Vamos para “Hokum”, um baita terror atmosférico com um personagem só, trancado em uma pousada mal-assombrada. Nesse folk horror inspirado em uma lenda urbana irlandesa, o ator Adam Scott (de “Krampus: O terror do natal”) interpreta Ohm Bauman, um escritor de livros de aventura conhecido, mas egocêntrico, que viaja para o interior da Irlanda com o objetivo de cumprir o último desejo dos pais falecidos recentemente: espalhar as cinzas deles no local onde se conheceram, uma floresta de sequoias. Ele também está lá para terminar seu próximo livro, portanto se hospeda por alguns dias em uma antiga pousada. Escuta de duas pessoas histórias funestas sobre o lugar, de que num dos quartos nupciais uma bruxa foi aprisionada. O cômodo é mantido em segredo, isolado por portas maciças reforçadas com cadeados. Inicialmente ele não dá bola para o caso, mas quando uma funcionária do hotel, com quem ele conversava, desaparece, Bauman resolve explorar os cantos da misteriosa pousada. O escritor não imagina no que está se metendo, até se enfurnar em um pesadelo interminável. O filme é assustador, conduzindo o espectador por uma narrativa de luto, segredos e forças sobrenaturais, com momentos de angústia e sustos de pular da cadeira. O longa anterior do cineasta Damian McCarthy, “Oddity: Objetos obscuros” (2024), mexia com temas parecidos (como isolamento, figuras míticas amaldiçoadas, resolução de crimes do passado), e agora reúne tudo isso em um terror mais explícito e de ambiguidades (aqueles dias de terror são reais ou está na mente do protagonista?). A figura da bruxa aparece nas penumbras, o que gera dúvidas e mais medo no espectador, sendo uma metáfora inevitável da morte. O roteiro tem uma boa construção, com um desfecho regular e cenas bem fotografadas de ambientes escuros (que provocam a tensão necessária para esse tipo de filme). Está nos cinemas pela Diamond Films. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Fora de Controle
2.4 1Astro do cinema francês atual, Omar Sy protagoniza esse bom e eficiente drama com toques de suspense que é uma coprodução entre França e Bélgica, exibido em festivais como Tallinn Black Nights Film Festival (na Estônia) e no Brasil no Festival de Cinema Francês, e que acaba de estrear nos cinemas pela Califórnia Filmes. Ele interpreta Julien, um homem que vê seu relacionamento desabar com a chegada de uma ex-namorada de infância na cidade onde mora, Anaëlle (Vanessa Paradis). Segredos serão revelados, a feliz convivência do casal será colocada em dúvida, e a esposa dele, Marie (Élodie Bouchez – outra atriz de peso no filme), inicia um estranho romance com o chefe mau caráter, Thomas (José García). O longa reúne um elenco firme numa história que é um verdadeiro jogo feroz de manipulações, contradições e vingança, com todo o charme que o cinema francês sabe muito bem realizar. O filme foi escrito e dirigido pela veterana atriz e cineasta Anne Le Ny, que recentemente esteve em filmes exibidos nos cinemas brasileiros, como “Era uma vez minha mãe” (2025) e “Provas de amor” (2025). Boa pedida para os fãs do ator Omar Sy, que está num de seus melhores dias. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Chopin, Uma Sonata em Paris
3.2 2Chopin, uma sonata em Paris
Uma boa recomendação de filme para os apreciadores de música erudita, bem como quem gosta de biografias de músicos clássicos é “Chopin, uma sonata em Paris”, que acaba de estrear nos cinemas, com distribuição da Synapse Distribution. O drama é a cinebiografia de Frédéric Chopin (1810-1849), pianista e compositor polonês da era romântica, considerado um gênio sensível que rompeu padrões até então estabelecidos no mundo da música clássica. Nascido na pequena vila de Żelazowa Wola, na Polônia, desde cedo revelou talento extraordinário para a música. Cresceu em Varsóvia, tendo a juventude marcada por estudos intensos de piano e composição, rapidamente tornando-se um prodígio. Ainda jovem, deixou a Polônia para se estabelecer em Paris, centro artístico da Europa, em plena efervescência cultural da década de 30. Lá firmou sua carreira tornando-se figura essencial do movimento do Romantismo. A saúde de Chopin, porém, foi o tormento de seus dias: ele sofria de tuberculose, doença que não tinha cura na época e que o acompanhou até a morte prematura aos 39 anos – a doença também, como pode ser visto no filme, influenciou o tom melancólico de suas composições, parte delas obras-primas. Chopin (no longa muito bem interpretado pelo carismático e jovem ator polonês Eryk Kulm, de “Servindo nazistas”) circulava pela boemia e teve uma relação intensa com a escritora George Sand (no filme, papel de Joséphine de La Baume, de “Um dia”), que o apoiou na doença e na criação artística - o romance teve altos e baixos e terminou de forma dolorosa para ambos. A força do artista era tanta que foi o preferido da aristocracia francesa, agradando até o rei Louis-Philippe (papel de Lambert Wilson, de “Matrix resurrections”). O filme busca o lado humanizado de Chopin, um homem tímido, retraído, mas brilhante no piano, que evitava palcos e lugares cheios de gente, e que sofreu horrores com a tuberculose (isto explicava seus problemas respiratórios crônicos, desnutrição e fraqueza, que o levava a desmaiar pelas ruas). O drama com tom musical do cineasta polonês Michal Kwiecinski não é apenas tragédia e dor, é uma ode com momentos de alegria que homenageia a intensa e virtuosa trajetória de Chopin, recorrendo a belos cenários e figurinos. O filme está nos principais cinemas do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Salvador. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Antônio Bandeira - O Poeta das Cores
3.2 1Outro bom documentário brasileiro entra em circuito em algumas salas de cinema alternativo aqui do país. O longa, com encenações que lembram um ‘docudrama’, resgata a trajetória perdida e pouco conhecida do artista plástico e desenhista cearense Antônio Bandeira (1922-1967), representante da arte abstrata e do Modernismo. Por meio de um estudo criterioso, o filme analisa dois momentos da vida do pintor – do nascimento até os 23 anos no Brasil, época em que entrou para o mundo das artes plásticas, e sua estadia/moradia na França, de 1946, quando ganhou uma bolsa de estudo e foi para Paris, até sua morte na capital francesa. Viveu metade da curta vida na Cidade-Luz onde participou de salões e expos em diversos países da Europa, tornando-se figura ímpar do Abstracionismo – Bandeira ficou mais notório lá fora do que no país onde nasceu. Quem conduz as histórias é o sobrinho Francisco Bandeira, um dos herdeiros de sua obra – enquanto há um ator que atua como Antônio, fotos, reportagens e telas verdadeiras dele aparecem no quadro, como uma maneira de desvendar a inquietude artística desse homem genial, que infelizmente partiu cedo, aos 45 anos, durante uma cirurgia malsucedida.
O doc recebeu o troféu Mucuripe de melhor longa na mostra ‘Olhar do Ceará’, no Cine Ceará de 2024, e acaba de estrear nos cinemas com distribuição da Sereia Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinemanaweb blogspotcom (Publicado em 11/04/2025)
Mente Perturbada
2.2 4 Assista AgoraCom forte mercado consumidor de cinema, China e Hong Kong despontam na lista dos maiores produtores de filmes do mundo. Em 2024, os dois países realizaram 800 filmes, boa parte deles de ação e terror, gêneros que atraem o olhar do numeroso público jovem. Porém, os filmes circulam mais na Ásia, e nós, aqui no Brasil, temos menos acesso às produções. Nos últimos anos a Netflix e os festivais de cinema feitos no Brasil trazem em sua programação fitas chinesas e honconguesas, como é o caso desse bom exemplar de horror psicológico ‘Mente perturbada’ (2023) – disponível para aluguel ou compra em streamings como Prime e AppleTV. É também um drama familiar com elementos místicos da cultura chinesa. São sete dias na vida de um jovem que retorna para Hong Kong, sua cidade natal, para visitar a mãe gravemente hospitalizada. Ele se hospeda no apartamento onde cresceu, localizado num condomínio suburbano antigo. Aos poucos, estranha a vizinhança e começa a ter visões sobrenaturais, de vultos pretos, principalmente à noite. Certo dia, acolhe um garotinho, que mora com a mãe no prédio, e descobre que ele também vê fantasmas. Com o tempo a relação dos dois personagens se fortalece, e entendemos o passado do protagonista, repleto de angústia e medo devido às visões que tem desde criança. Misturando drama, terror e suspense, o filme honconguês tem clima assustador, com tom sobrenatural, reforçado pelos cenários claustrofóbicos, dentro de um condomínio sujo, de quartos pequenos, onde as pessoas não são o que aparentam. Chama a atenção o elenco, com os veteranos Tai-Bo, de ‘Police story’ (1985), e Yuk Ying Tam, de ‘Infiltrado’ (2016), e de uma atriz que nunca mais vi, a chinesa Bai Ling, que fez carreira em seu país, mas nos anos 90 participou de grandes produções americanas, como ‘O corvo’, Justiça vermelha’ e ‘Anna e o rei’. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinemanaweb blogspotcom (Publicado em 21/04/2025)
A Vida Secreta de Kika
3.0 2 Assista AgoraChegou na semana passada na plataforma de streaming Filmelier+ esse filme novíssimo, de 2025, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e que é primeiro longa de ficção da diretora francesa Alexe Poukine (que atua como documentarista). É um drama feminino visceral sobre sobrevivência, protagonizada por Manon Clavel, de “A verdade” (2019), num esplêndido e complexo papel, o de uma jovem mãe grávida, que ficou viúva há pouco e precisa enfrentar escolhas inesperadas para sustentar a família em formação. Ela se chama Kika, uma assistente social ainda aturdida com a morte prematura do marido, com quem teve um relacionamento intenso. Ela cuida da primeira filha, ainda pequena, e agora, com um filho para chegar, decide vender roupas íntimas usadas por ela pela internet, um fetichismo que existe aos montes por aí. Devido à urgência financeira, entra aos poucos no mundo do mercado sexual digital. Poukine constrói o retrato de uma mulher vulnerável, dividida entre o trabalho formal e um outro ganha-pão que é novidade para ela, mas malvisto e feito às escondidas. Ela é testada todo dia pela sociedade, portanto é tomada por um dilema moral. Há elementos de outros filmes de temática semelhante, da mulher que tem papel duplo envolvendo sexo para sobreviver, como “Jeanne Dielman” (1975) e “Irina Palm” (2007), e todos os três trazem figuras femininas poderosas na tela, de mulheres que não sucumbem nem ao machismo nem a hipocrisia dos valores pregados pela sociedade. Sem estereótipos ou melodrama, o filme (que tem uma ótima fotografia que evoca a pessoalidade da protagonista) amplia a discussão sobre como mulheres em situação de fragilidade (tanto emocional quanto financeira) são forçadas a recorrer a alternativas inesperadas para sobreviver. Um filme que gostei de conhecer e que recomendo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Copan
3.4 3O gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É Tudo Verdade’ de 2025 (onde assisti) na ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160 apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, o doc foi exibido em festivais importantes como CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen. Acaba de estrear nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Seis Dias Naquela Primavera
3.4 2Diretor belga que sigo há muito tempo, de filmes cult como “A economia do amor”, “Seguir em frente” e “Um silêncio”, Joachim Lafosse lança seu novo trabalho, um drama feminino de enorme força íntima. Coprodução entre Bélgica, França e Luxemburgo, o filme foi premiado no Festival de San Sebastián nas categorias de direção e roteiro (também dele, em parceria com outros dois roteiristas), e é inspirado em lembranças da infância dele, mantendo na obra um tom confessional e humano. É a história de Sana (Eye Haïdara, de “Assim é a vida”), uma mãe que decide levar os filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera. Após contratempos, mãe e filhos ficam às escondidas na luxuosa casa dos antigos sogros, na Riviera Francesa, por seis dias. Será um tempo de descobertas, como perda da inocência e a união familiar. A fragilidade econômica da mãe se confronta com o poder material da família paterna, eixo dramático do longa, tudo revelado pelos olhos das crianças. A produção se destaca pela fotografia lindíssima (de sol e calor na região da Riviera) de Jean-François Hensgens, além da montagem cuidadosa de Marie-Hélène Dozo, que reforça o ritmo contemplativo. Lafosse constrói mais um filme com mise-en-scène delicada, marcada por silêncios e gestos sutis, que traduzem a intimidade e a tensão social – ele aqui revisita sua própria trajetória para falar de desigualdade, pertencimento e família, além de afeto e da beleza que resiste nas dificuldades cotidianas. Recomendo conhecerem o cinema desse diretor autor brilhante. “Seis dias naquela primavera” está em exibição nos cinemas brasileiros das principais capitais, como São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com distribuição da Zeta Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Vivendo no Limite
3.0 1 Assista AgoraDirigido por Jinghao Zhou (em seu segundo trabalho), o drama com suspense produzido na China é uma fita intensa que se passa no universo competitivo da patinação artística, expondo a tensão entre duas patinadoras durante os preparativos de um campeonato – e o filme não deixa de lado outros subtemas, como a pressão familiar em busca do sucesso e os dilemas emocionais das atletas. A estética do filme é fenomenal, um trabalho de mestre com grandes cenas de patinação, em que a câmera captura closes nos patins riscando o gelo, enquadramentos por cima e por baixo das atletas, além de cenas em que as duas personagens centrais se confrontam em diálogo combativos. O longa acompanha Jiang (Zifeng Zhang), uma promissora patinadora que tenta de tudo para ascender na carreira, sob o olhar implacável da mãe e treinadora, Wang (Yili Ma). A relação entre as duas é de disciplina rigorosa, que não fica só no ambiente da casa, mas mais ainda nas quadras. A relação entre ambas aumenta a tensão psicológica do filme e revela como o amor pode ser dominado e até destruído pelo controle em excesso. Na pista, Jiang encontra-se com Zhong (Xiangyuan Ding), que vê nela um reflexo de próprias inseguranças. Até que Wang passa a treinar Zhong, estabelecendo uma rivalidade entre as duas patinadoras. Rivalidade esta que se torna uma busca pela perfeição e também uma obsessão, levando as duas garotas a um jogo intenso de confrontos. A direção de Zhou recorre a um fino trabalho, com ótima fotografia de Yu Jing-Pin, principalmente a dos treinos no gelo (com cores frias, num ambiente cercado e solitário). Não é apenas um filme sobre competição esportiva, e sim uma obra densa sobre os limites da ambição e os custos do reconhecimento e sucesso (em certos aspectos lembra “Eu, Tonya”, em especial a relação controversa da patinadora com a mãe temperamental). Uma fita que inquieta, aguça nossa percepção e comprova mais uma vez a qualidade do cinema chinês contemporâneo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Erupcja
3.4 3Um dos filmes mais curtos (de duração) que assisti recentemente, com seus enxutos 71 minutos, “Erupcja” é uma fita experimental rápida, com a cantora, DJ e compositora britânica que vem se jogando no cinema alternativo, Charli XCX (este ano ela lançou também o mockumentary “The moment”, que teve sessões no Festival de Berlim, onde assisti, e depois estreou no Brasil com baixíssima repercussão). “Erupcja” (palavra em polonês que significa “Erupção”) surge como uma experiência cinematográfica que mistura drama feminino e um humor diferentão, recorrendo a metáfora da erupção vulcânica para explorar sentimentos pessoais. O filme foi inteiramente rodado nas ruas da Polônia, gravado com estilo de cinema artesanal/caseiro, com câmera na mão, naquela estética que balança a imagem ao acompanhar os personagens se movimentando de lá para cá. Na história, a jovem Nel (Lena Góra) leva uma vida serena em uma floricultura na capital polonesa, Varsóvia, até ser surpreendida pela visita de Bethany (Charli XCX), amiga de infância que está na região para turistar. A vinda da Bethany desperta em Nel memórias e desejos reprimidos; enquanto isso, um vulcão próximo entra em erupção, espelhando as cinzas e as ondas de calor (uma combustão simbólica, que envolve o dilema emocional entre aquelas duas mulheres). Há outras alegorias sutis no filme: a dualidade da delicadeza das flores com imagens de lava e fumaça, as conversas ambíguas entre as amigas, a relação controversa com seus namorados etc. Charli XCX, além de protagonizar (e está bem no papel), assina o roteiro ao lado do diretor, Pete Ohs, e da atriz Lena Góra, bem como produz a fita, demonstrando compromisso com o cinema autoral. Seu papel dá dimensão a uma figura vulnerabilizada, que vai se transmutando no decorrer da intensidade da história, que trata de amizade e desejos profundamente reprimidos. Filme produzido no auge do sucesso do disco de Charli “Brat”, que virou um fenômeno pop que ditou regras de comportamento e moda (o que é tratado no longa posterior dela, “The moment”). Selecionado para o Festival Internacional de Toronto, o filme teve exibições em outros festivais de renome, como SXSW, Torino, Thessaloniki, Miami, IndieLisboa, Guadalajara e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Entrou em cartaz no último fim de semana, com distribuição da Imovision. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Eu Não Te Ouço
2.8 2Eu não te ouço
O novo longa de Caco Ciocler (que há um bom tempo vem se dividindo entre atuação e direção) encerra uma trilogia política que ele construiu sem planejar, que analisa o Brasil contemporâneo e suas tensões no campo da política. A trilogia é formada pelos documentários “Partida” (2019), que traz a atriz Georgette Fadel tentando se candidatar à presidência da República após a eleição de Bolsonaro, e como inspiração viaja de ônibus com um grupo de amigos para visitar o presidente do Uruguai Pepe Mujica, seguida de “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), filmado em plena pandemia, que trata de artistas no isolamento social e a invasão das fakes news sobre eles naquele período crítico da política nacional. Agora Ciocler faz uma obra ficcional misturando comédia e drama e, como consta na tagline do pôster, é “baseada em um meme real”: é a história verídica de um caso inusitado que viralizou nas redes e grande mídia no final de 2022, chamado de “O patriota do caminhão”. O apelido foi dado a um indivíduo chamado Marcos Guedes, dito empresário, que virou um dos maiores memes da internet após se agarrar na frente de um caminhão em movimento. O episódio ocorreu em novembro de 2022, na rodovia BR-232, em Caruaru (PE), durante os bloqueios de estradas ilegais realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contestavam o resultado das eleições presidenciais (em que Lula ganhou). O tal empresário fez isso para impedir que um caminhão furasse o bloqueio. A partir desse meme de segundos de duração que contaminou as redes, Ciocler faz, em “Eu não te ouço”, um estudo de personagens instigante, com o ator Márcio Vito em papel duplo: o do caminhoneiro e o manifestante agarrado no veículo. O filme parte desse acontecimento para propor uma metáfora sobre a divisão do país, que explodiu em conflitos ideológicos. De um lado, o motorista fechado na cabine, seguindo com seu trabalho, e do outro, o manifestante agarrado na frente do caminhão, gritando palavras que o caminhoneiro não consegue ouvir. Entre eles, o vidro, uma barreira física e simbólica que separa mundos e impede o diálogo. A obra é sobre a impossibilidade de escuta em uma sociedade dividida, onde discursos se chocam e nunca há conciliação. Pode ser visto como um road movie de estilo autoral, com pitadas de sarcasmo e ironias da vida real. O trabalho de Vito foi reconhecido em muitos festivais, como o Festival do Rio, onde ganhou o Troféu Redentor de melhor ator. O roteiro foi escrito em três: por Ciocler, Vito e pela atriz Isabel Teixeira (filha do cantor e compositor Renato Teixeira). Exibido em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a obra está nos cinemas brasileiros, com produção e distribuição da Amaia.
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Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera
3.2 35 Assista AgoraLouis Theroux: Por dentro da Machosfera
Excelente produção da Netflix, o documentário conduzido pelo jornalista britânico Louis Theroux é uma assustadora pesquisa de campo em que ele analisa o universo digital da chamada “manosfera”, apelidada de “machosfera”, uma subcultura da internet formada por comunidades masculinistas, cuja característica é se opor radicalmente aos movimentos feministas utilizando-se de discursos misóginos e odiosos contra as mulheres. Grupos como Red Pills, Incels e MGTOW (Men Going Their Own Way, na tradução “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) integram essa rede, e nos últimos anos ficaram conhecidos pelo conteúdo agressivo que é disseminado a milhões de seguidores nas redes sociais. O filme é uma investigação particular de Louis Theroux, premiado jornalista britânico de documentários investigativos da BBC e apresentador de TV, que estuda masculinidade tóxica, e no doc ele mapeia influencers da machosfera para uma conversa informal com eles. Ele entrevista, por exemplo, Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing e hoje influenciador, Sneako (Nicolas Balinthazy), criador de conteúdo que mistura debates sobre cultura jovem, política e masculinidade, e Myron Gaines (Amrou Fudl), podcaster red pill, que toparam falar sem censura. É uma visão de mundo desses caras muito particular, com discursos virulentos, o que chega a causar espanto. O jornalista abre um debate sobre como as redes sociais e espaços virtuais moldaram comportamentos abusivos, especialmente entre homens jovens, que expressam sem medo opiniões das mais absurdas e perigosas, sem que eles respondam por aquilo na justiça – nos EUA as leis das redes são afrouxadas, sequer existe controle. Com cautela e distanciamento, Theroux visita casa e estúdio dos entrevistados, sem julgamentos imediatos, mas com perguntas incisivas que revelam contradições e tensões. Para essas personalidades midiáticas, a manosfera propõe a “restauração” da masculinidade tradicional, segundo eles tendo o homem como protagonista da vida em sociedade (por isso a misoginia, que boa parte deles, contaminados por esse ideal de vida, não percebe cometer). O documentário da Netflix é um retrato inquietante de como a internet se tornou terreno fértil para ideologias que misturam ressentimento, frustração e radicalização. Recomendo.
POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB BLOGSPOTCOM
A Trégua
2.4 1 Assista AgoraA trégua
Chegou ontem com exclusividade no streaming Adrenalina Pura+ esse drama de guerra espanhol inspirado em fatos verídicos ocorridos em um campo de prisioneiros soviético na década de 40. Dirigido por Miguel Ángel Vivas (de “Horas do medo” e “Apocalipse”), o longo filme (que tem 151 minutos de duração) aborda as cicatrizes da Guerra Civil Espanhola no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial. É a trágica história do Capitão Reyes e Tenente Salgado, dois homens do Exército que lutaram em lados opostos na Guerra Civil, um franquista e outro republicano, e que, por ironia do destino, são presos juntos em um gulag mantido pela URSS. Daquele paradoxo nasce uma relação de sobrevivência entre os dois inimigos; eles são forçados a conviver (e sobreviver) em meio a outros soldados aprisionados naquele inferno, um lugar gelado sob condições desumanas. Estrelado por Miguel Herrán (o Río da série da Netflix “La casa de papel”) e Arón Piper (o Ander da série “Elite”, também da Netflix), os atores vivem personagens tomados pelo peso das ideologias que dividiram a Espanha, ao mesmo tempo que procuram a urgência da sobrevivência diante da fome, do frio, da violência sorrateira dentro da prisão e das torturas físicas e psicológicas cometidas pelos agentes carcereiros (alguns morrem enquanto outros enlouquecem). Com bons diálogos, o drama se segura pela fotografia, marcada por tons gélidos e ambientes sufocantes, com muitas sequências no breu da prisão, aliado à trilha sonora discreta que intensifica os silêncios daquele lugar de desesperança. Exibido no Festival de San Sebastián de 2025 e indicado ao Goya desse ano de melhor maquiagem, o filme está agora disponível no Brasil no streaming Adrenalina Pura+, uma parceria entre a Sofa Dgtl e a California Filmes, que traz no catálogo produções de ação, terror e suspense, para assinatura na Apple TV, no Prime Video e na Claro TV+.
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Crítico
4.0 36 Assista Agora“Crítico” marca a estreia de Kleber Mendonça Filho como diretor de longa-metragem, já revelando muito da sua inquietação que atravessaria a carreira. O filme, lançado em 2008, nasceu de uma ideia simples, mas de forte apelo: reunir depoimentos de críticos de cinema, cineastas brasileiros e estrangeiros e atores e atrizes para discutir a relação de quem faz e quem analisa filmes. Kleber, que começou a carreira como crítico em Recife, aproveitou sua rede de contatos e cobertura de festivais nacionais e internacionais para colher entrevistas em diferentes contextos – o resultado é um mosaico de vozes que se cruzam e se contradizem. Filme de abertura da Mostra de Tiradentes de 2008, o documentário traz 70 depoimentos de profissionais do cinema do mundo todo, como dos críticos Luiz Zanin, Deborah Young, Pierre Murat e Bertrand Bonello (que depois viria a ser diretor de cinema), o teórico de cinema e escritor Michel Ciment, e uma vastidão de cineastas, como Jafar Panahi, Catherine Hardwicke, Hector Babenco, Elia Suleiman, Claudio Assis, Daniel Burman, Costa-Gavras, Gus Van Sant, Nelson Pereira dos Santos, Julian Schnabel, Sergio Bianchi, Roberto Gervitz, Fernando Meirelles, Beto Brant, Luiz Carlos Lacerda, Tom Tykwer, Eduardo Coutinho, Curtis Hanson, Daniel Filho, Phillip Noyce, Richard Linklater, Carlos Reichenbach, Walter Salles e Carlos Saura, além de atores, como Fernanda Torres e Samuel L. Jackson. Entre um depoimento e outro, Kleber alterna cenas de filmes cult (como de David Lynch, que aliás dá um depoimento em voz apenas), cenas de sets de filmagens (que participou) e de festivais onde esteve, como Berlim. É um registro completo e extenso, de enorme dedicação e amor ao cinema, que demorou oito anos para ele realizar (Mendonça fez as gravações entre os anos de 1999 e 2007), num processo artesanal, sem grandes recursos, em que dispunha apenas de sua câmera e microfone para gravar conversas informais em mesas e corredores. O resultado são pontos de vista sobre o papel da crítica de cinema, a relação dela com o público, a subjetividade do crítico, a importância dessa profissão ao longo do tempo, a tensão que existe na relação entre críticos e cineastas, a seleção do que o público deve ou não ver. Não procura respostas, mas mostra como o olhar crítico pode ser tanto um aliado na difusão do cinema quanto um obstáculo para quem cria, dependendo da perspectiva. Na época do doc, Kleber tinha 40 anos, e este foi seu primeiro longa-metragem após alguns curtas exibidos em festivais internacionais, como “Vinil verde” (2004). É um trabalho independente que antecipa a sensibilidade de Mendonça para observar relações sociais e culturais, algo que se tornaria marca registrada em filmes posteriores como “O som ao redor” (2012), “Aquarius” (2016) e “O agente secreto” (2025). “Crítico” também foi o primeiro trabalho da CinemaScópio, produtora de Kleber fundada naquele ano, 2008, ao lado da esposa Emilie Lesclaux (produtora de cinema e cientista social de origem francesa), com que se casou um ano antes (juntos, produziriam todos os filmes que vieram em seguida). Distribuição do doc agora pela Vitrine Filmes. PS - O documentário é um dos destaques da nova mostra de cinema do Sesc, a “Mostra Farol - O cinema entre a memória e o agora”, lançada em março desse ano, que traz filmes lançamentos e clássicos feitos por cineastas autorais de 12 países, criadores de obras de linguagem própria e estética revolucionária. Foram 31 filmes na programação, entre sessões presenciais no Cinesesc (entre março e abril) e online (gratuitos na plataforma do Sesc Digital, com títulos até amanhã dia 20/05, incluindo “Crítico”), com longas que vão do drama intimista ao body horror, que tocam em temas como violência doméstica, imigração e sexualidade. Dentre os títulos da Mostra Farol estão os clássicos “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão” (de Pedro Almodóvar) e “Rio, 40 graus” (de Nelson Pereira dos Santos) e os recém-lançados “Alpha” (de Julia Ducournau) e “O senhor dos mortos” (de David Cronenberg). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Um Dia de Sorte em Nova York
3.5 1 Assista AgoraÉ a estreia da semana do Filmelier+, streaming que apresenta ao público filmes de vários países e épocas. Exibido no Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Camera, o longa, de 2025, é um íntimo retrato sobre a imigração numa das maiores cidades do mundo, Nova York. O filme acompanha 48 horas na rotina de Lu (Chang Chen), jovem chinês que acaba de se instalar em Manhattan e consegue um emprego como entregador de comida. Nas primeiras horas nas ruas, sua bicicleta elétrica é furtada, e ele então corre contra o tempo para localizar sua principal ferramenta de trabalho. Está para chegar na cidade sua família (esposa e a filha), e Lu acaba de ter uma séria discussão com o proprietário do apartamento que alugou – ou seja, seu dia não pisca para a sorte. O filme acompanha esses momentos angustiantes e decisivos na vida de Lu, que luta por dignidade e reconhecimento. É uma visão amarga de Nova York, da cidade que não dorme, focando na figura de um homem dividido entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando sob chuva e frio para propiciar condições mais dignas para a família. Partindo da ideia central do clássico neorrealista “Ladrões de bicicleta” (1948), o primeiro longa do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen é uma adaptação para o cinema de seu curta-metragem premiado em Cannes e Toronto, “Same old” (2022), sobre a rotina de um entregador em Nova York. Conta com um ótimo trabalho de Chang Chen, de “Duna”, nua interpretação sem exageros ou melodrama – ator e diretor foram indicados ao Film Independent Spirit Awards deste ano pelo filme. Assisti, gostei e recomendo. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Surda
4.0 6Nesse delicado drama espanhol sobre maternidade e inclusão acompanhamos Ângela (Miriam Garlo), uma mulher surda que acaba de se tornar mãe e compartilha com afinco essa experiência ao lado de seu marido, que é ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). A chegada do bebê expõe os desafios universais da maternidade e, no caso de Ângela, as barreiras para uma mulher surda em uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência. O filme nasceu de um curta-metragem de mesmo nome, “Surda” (2021), indicado ao Goya - nele contracenam a atriz surda Miriam Garlo sob direção da irmã, Eva Libertad – e agora ambas retornaram no longa (que venceu três prêmios Goya, consagrando Miriam Garlo como a primeira surda a receber o prêmio de atriz revelação). O roteiro é inspirado na própria trajetória de Miriam, escrito pela irmã Eva, ou seja, um projeto autoral feito em família. A obra trabalha sons alternados com momentos de profundo silêncio para mostrar as relações da personagem na sociedade, explorando de forma sensível temas como autonomia, maternidade, isolamento e comunicação. A própria câmera, com movimentos sutis, privilegia silêncios e gestos, num trabalho primoroso da equipe técnica. O trabalho de Álvaro Cervantes como o marido de Ângela, premiado como melhor ator coadjuvante no Goya, complementa a performance de Miriam com naturalidade, reforçando a dinâmica de um casal que precisa reinventar sua comunicação diante das exigências da vida com um bebê. O longa também recebeu o Prêmio do Público na Mostra Panorama do Festival de Berlim, além de exibições em festivais como Guadalajara, Seattle e Málaga. Estreou no último fim de semana nos cinemas do Brasil, com sessões que contam com legenda descritiva, audiodescrição e Libras via aplicativo ‘Conecta’, reforçando o compromisso da obra com a acessibilidade. A distribuição nas salas é pela Retrato Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom