Fazendo alusão à “Morte e vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, o novo filme do inventivo cineasta cearense Guto Parente tem fortes traços com o clássico poema regionalista da literatura brasileira. Ambos tratam de um longo percurso de um personagem solitário, em meio aos desafios do mundo, cercado por obstáculos sociais. Parente volta a estudar personagens queer complexos, aqui trazendo uma protagonista com mutas camadas, Madalena (ótimo papel da atriz travesti Noá Bonoba, também professora e pesquisadora). Ela é uma produtora de cinema, que está grávida e prestes a rodar uma fita de ficção científica B, cujo roteiro foi deixado pelo falecido pai. Madalena tem a rotina revirada quando Davi (Marcus Curvelo), o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece do set. Cheia de dúvidas e maus pressentimentos, ela investiga por conta próprio o sumiço de Davi. O bebê dela está para nascer, o que a motiva a querer gravar logo o filme, mesmo sem a presença do diretor. O longa é uma comédia dramática cheia de subtramas, sobre as andanças dessa personagem que se transforma durante aquela jornada de busca pelo marido e de ser mãe de primeira viagem – sem contar os desafios para as gravações no set. Vê-se um filme dentro de outro filme, metalinguagem pura, com momentos de incerteza sobre aquilo que vemos ser da cabeça da protagonista, algo real ocorrendo ou se aquilo tudo é do roteiro do longa em execução. Para complexar ainda mais o roteiro, a personagem tem devaneios, sonhos misteriosos, enquanto as cenas nítidas de como ela quer o filme aparecem em imagens caóticas, assombradas. Como em “Inferninho” e “Doce amianto”, o cineasta faz um cinema queer contemporâneo unindo fantasia, estética camp, figuras marginalizadas complexas e altas doses de melancolia, entregando aqui um dos filmes de destaque do ano, que gostei demais. Tanto que foi exibido e premiado em importantes festivais nacionais e internacionais, como Ciné+ no FidMarseille 2025 (França), Festival de Brasília, Mostra de Cinema de São Paulo e MixBrasil. Em exibição nos principais cinemas com distribuição da Embaúba Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom em 18/09/2026
Adaptação para os cinemas do livro "Era uma vez minha 1ª vez", que foi sucesso entre os jovens, escrito por Thalita Rebouças (que é também atriz e jornalista, e hoje um dos nomes de destaque da literatura adolescente moderna). E segue a linha dos outros livros da autora que viraram cinema, que discutem relacionamentos afetivos e familiares entre os adolescentes, como “Fala sério, mãe!” e “Ela disse, ele disse”. O longa, em cartaz nos cinemas brasileiros, sofreu alterações no curso das histórias da obra original, incluindo redução no número das personagens (de seis para quatro, que são Teresa, Clara, Tuca e Patty, interpretadas por Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte). No entanto, manteve a essência da discussão, sobre amadurecimento e sexualidade, de forma bem humorada. A linguagem parece com a do livro, direta, com astral lá em cima, ora com momentos cômicos ora dramáticos (quando surgem dúvidas sobre o florescer da idade, em que as meninas adolescentes conversam sobre a “primeira vez”, tanto o beijo quanto o sexo). O quarteto de melhores amigas faz um pacto para perder a virgindade até a formatura, que está chegando, e a partir daí cada uma vivencia sua própria jornada de descobertas, com erros e acertos nos sentimentos e nas atitudes com os prováveis parceiros. É um filme para público teen, com sacadas e gírias daquela idade, às vezes romantizado demais, e serve como passatempo para o público adolescente (que se reconhecerá em várias cenas). Não é um tipo de filme que curto, acho a proposta repetitiva e há outros melhores que este, porém tá valendo à garotada que está em busca de filme que não exige filosofia nem tanta originalidade. O longa tem produção e distribuição da Na Paralela Filmes, com codistribuição de A Fábrica, em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, além de coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme, e investimento do BRDE, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual e da Ancine. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom em 17/09/2026
Continuação de “Funny girl”, filme que deu o Oscar de atriz a Barbra Streisand, e uma boa sequencia dos acontecimentos da vida e da carreira da atriz e cantora Fanny Brice, fenômeno da Broadway. Fanny Brice era uma mulher inteligente, espirituosa e resiliente, capaz de transformar suas dores pessoais em arte. No palco encantava e emocionava o público, e a autenticidade aliada ao humor a tornaram uma figura única no cenário artístico americano daquele período. Sua vida inspirou o musical da Broadway “Funny Girl” (1964), adaptado para o cinema em 1968, e a continuação, “Funny Lady” (1975). Ela permanece como símbolo da mulher que desafiou padrões, conquistou espaço em um meio dominado por homens e deixou uma marca indelével na cultura americana. Sua história de ascensão, amores complicados e talento inquestionável continua a inspirar gerações, especialmente através das interpretações de Streisand que eternizaram sua trajetória. Seguindo os passos do primeiro filme, “Funny girl”, este mantém drama e romance, mas com menos números musicais e menos alegria na vida da personagem central, já que enfrentou relacionamentos amorosos abusivos que a machucaram profundamente. “Funny lady” carrega um forte ar melancólico, retratando cortes importantes do final da vida da biografada, mais adulta e madura, tendo como força motriz o trabalho de Barbra, uma atriz e cantora que gosto muito. Fanny morreu em 29 de maio de 1951, em Beverly Hills, vítima de uma hemorragia cerebral, aos 59 anos. “Funny lady” recebeu cinco indicações ao Oscar (como fotografia, som e figurino) e seis ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme de comédia ou musical, atriz e ator. A direção é de Herbert Ross, de “A garota do adeus” e “Flores de aço”. Disponível em DVD pela Classicline no box “Barbra – The Funny Collection”, que vem junto com o primeiro filme. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
A Classicline lançou recentemente no mercado “Barbra – The Funny Collection”, um box em DVD contendo os dois premiados filmes musicais com Barbra Streisand em que ela interpreta a estrela da Broadway Fanny Brice (1891-1951). São dois discos com cards colecionáveis e com as cópias em boa imagem e som de “Funny girl: A garota genial” (1968) e a continuação, “Funny lady” (1975). Ambos os filmes são uma cinebiografia autêntica de Fanny, que além da Broadway foi estrela do rádio norte-americano, lembrada por sua voz marcante, humor irreverente e pela vida tumultuada, principalmente por causa dos relacionamentos amorosos com homens vigaristas. Neste primeiro filme, Barbra tinha 26 anos, estreando aqui nos cinemas, e pelo contagiante papel ganhou o Oscar de melhor atriz (dividido com Katharine Hepburn por “O leão no inverno”). O foco do longa é a entrada de Fanny na série de espetáculos da Broadway “Ziegfeld Follies”, em 1910, quando ela tinha apenas 19 anos. Nascida Fania Borach em 29 de outubro de 1891, em Manhattan, filha de imigrantes judeus, cresceu em um ambiente modesto. Sua mãe, Rose Stern, era uma figura forte e protetora, com quem Brice manteve uma relação próxima, embora marcada por tensões típicas de uma jovem que buscava independência – a mãe era viciada em jogos de baralho (no filme é interpretada por Kay Medford, que recebeu indicação ao Oscar de atriz coadjuvante). Desde cedo, Fanny demonstrava talento para o palco, o que a fez abandonar a escola para se dedicar ao mundo do entretenimento. Com 13 anos, em 1904, participou de audições artísticas, treinava por conta canto e dança, até que em 1910 foi descoberta por Florenz Ziegfeld (no filme “Funny girl” interpretado por Walter Pidgeon) e tornou-se uma das estrelas das célebres Ziegfeld Follies, onde brilhou com números cômicos e canções que se tornaram clássicos, como “My man” e “Second hand Rose”. As Ziegfeld Follies foram uma série de espetáculos teatrais luxuosos de variedades (vaudeville) apresentados na Broadway entre 1907 e 1931, que misturavam música, dança, comédia e esquetes e com inspiração parisiense, como os cabarés. O lugar lançou Fanny e outros nomes importantes, como W. C. Fields, Eddie Cantor e Josephine Baker. A carreira de Fanny se expandiu para o rádio, onde criou a personagem Baby Snooks, uma criança travessa que conquistou o público e a manteve popular até sua morte. Teve uma vida amorosa conturbada (e o filme traz um bom enfoque sobre isto), casando-se três vezes: primeiro com Frank White (que não aparece nos filmes), depois com o charmoso, mas vigarista enrolado com grandes quantias de dinheiro escusos Nicky Arnstein (papel de Omar Sharif nos dois filmes), com quem teve dois filhos, e por fim com o produtor Billy Rose (James Caan, no segundo filme, “Funny Lady), um showman e empresário da Broadway que tinha humor instável. Seu casamento com Arnstein foi marcado por escândalos, já que ele esteve envolvido em atividades criminosas, o que trouxe sofrimento e humilhação pública para Fanny - e quase a levou ao fim da carreira. “Funny girl” é um filme musical com drama e romance contagiante, com linda fotografia e figurino, além de ótimos números musicais - foi o filme de maior bilheteria de 1968 nos EUA, indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme, edição e trilha sonora, e premiando Barbra (que também venceu o Globo de Ouro naquele ano). E conta com a exímia direção do lendário cineasta William Wyler, diretor premiado com três Oscars, de clássicos como “Tarde demais”, “A princesa e o plebeu” e “Ben-Hur” – “Funny girl” foi seu penúltimo trabalho. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Roy Andersson é um dos cineastas mais singulares da Suécia, conhecido por transformar o cinema em uma espécie de galeria de pinturas vivas, onde a estética visual e o humor absurdo se unem para refletir sobre a condição humana. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” é um dos filmes mais melancólicos e representativos do diretor e roteirista, que iniciou a carreira ainda no fim dos anos 60 (e que por muito tempo trabalhou com publicidade). Dois idosos perambulam pela cidade onde moram mostrando artefatos antigos e novos para serem vendidos, que refletem um pouco sobre o mundo. Eles passam de porta em porta, em casas e comércio, apresentando as estranhas bugigangas, enquanto o tempo parece parar. É uma comédia dramática, de humor frio, que critica costumes do povo sueco, numa obra cuja composição é feita de esquetes curtos, com a estética peculiar que se tornaria marca registrada de Andersson, o “tableau”: câmera estática, iluminação pálida, cores esmaecidas (os personagens parecem zumbis, com o rosto esbranquiçado, semelhantes a uma pintura), personagens rígidos (sem demonstrar sentimentos), cenários meticulosamente criados (que dão a sensação de hiper-realidade). E sempre situações tragicômicas que revelam a banalidade e a profundidade da vida cotidiana. Os fragmentos curtos, quanto reunidos, refletem sobre a solidão, o vazio, o alto consumismo e a melancolia da vida moderna, bem como o absurdo da existência e a alienação social. Tudo é muito inusitado, lento, com algo surreal que paira nos esquetes, num tipo originalíssimo de se fazer cinema. Fita para público que curte cinema alternativo, um típico longa-metragem de festival. Disponível em DVD (com distribuição da Mares Filmes em parceria com a Versátil Home Video) e em streamings de cinema cult. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom
Documentário da Netflix de 2022 sobre a investigação em torno do assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, ocorrido em 25 de janeiro de 1997, em Pinamar, que se tornou um dos episódios mais marcantes da história recente da Argentina. Sequestrado, o fotógrafo da destacada revista Notícias foi torturado e morto. Meses antes, ele fez a primeira imagem pública do empresário Alfredo Yabrán, um magnata poderoso, de forte influência no governo da época, que evitava ser fotografado. Yabrán era acusado de lavar dinheiro para o tráfico de drogas e armas. A foto de Yabrán ilustrou a capa da revista Notícias e foi vista como uma afronta ao empresário. O caso terminou em uma trama de vingança envolvendo criminosos e policiais corrompidos, cujo filme procura explorar bem a partir de reportagens da época e entrevistas. O assassinato de Cabezas tornou-se uma mensagem de intimidação contra o jornalismo e a liberdade de expressão, no país em que a ditadura havia terminado há menos de 15 anos – lembrando que na Argentina a ditadura (1976-1983) foi a mais violenta da América do Sul, que resultou em mais de 30 mil desaparecidos. A tragédia gerou enorme comoção nacional, com marchas e manifestações em prol dos direitos humanos, da justiça e da liberdade de expressão, com o lema “No se olviden de Cabezas”, transformando o fotógrafo em símbolo da luta contra a impunidade. Mais um bom documentário investigativo da Netflix, disponível no catálogo do streaming. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom
O cineasta polonês Jan Komasa realiza obras complexas e bem contraditórias, de narrativa moderna e visual ousado. Antes de “Bom garoto” (2025), ele fez dois longas que acho geniais, o indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Corpus Christi” (2019), sobre um jovem detento que abre uma igreja, e “Rede de ódio” (2020), da Netflix, que veio no meio da pandemia e trata de uma conspiração política por meio das fake news. Os anteriores a esses eu não vi, que são dois outros, “A sala do suicídio” (2011) e “Varsóvia 44” (2014). “Bom garoto” é o primeiro trabalho do diretor fora da terra natal, rodado no Reino Unido com atores premiados e até indicados a Oscar. “Heel” ou “Good boy” (recebeu esses dois títulos originais) é um suspense psicológico com alta dose de humor macabro e um denso clima perturbador, explorando os limites da moralidade. É uma trama complexa e bizarra, em que acompanhamos Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos mergulhado em drogas, violência e exibicionismo nas redes sociais. Após uma noite de excessos, é sequestrado por Chris (Stephen Graham, premiado com o Emmy, o Globo de Ouro e o Bafta pela minissérie “Adolescência”) e sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough, indicada ao Oscar por “A sorte grande”), que decidem “reeducá-lo” em sua residência isolada. O casal, que bate fora do bumbo, utiliza o lar como um cativeiro, sem comunicação com o mundo exterior. Ali também mora o filho pequeno do casal, Jonathan (Kit Rakusen). Chris e Kathryn desenvolvem uma estranha obsessão em transformar Tommy em um “bom garoto”. O rapaz fica numa coleira pendurada no teto, em trilhos, inicialmente no porão escuro; com o passar dos dias, a família libera mais espaços para o jovem percorrer, sempre com o pescoço amarrado com a corrente cruzando os trilhos. Entre castigos físicos, leituras de clássicos literários e recompensas por comportamento adequado, Tommy passa por uma experiência de tortura psicológica e condicionamento social. O filme nasceu da colaboração entre os roteiristas Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, que se inspiraram em debates sobre juventude desgovernada e os limites da disciplina familiar. O argumento do diretor é inspirado em casos reais de jovens que transformaram a delinquência em espetáculo online, viciados em redes sociais – e Komasa imaginou o que aconteceria se alguém decidisse impor uma cura radical a essas atitudes. Há momentos sufocantes, tensos, num filme que explora a Síndrome de Estocolmo e a manipulação mental. O elenco é um dos pontos altos, com destaque para Stephen Graham, Andrea Riseborough e Anson Boon. Komasa, vale destacar, explora novamente, com inteligência, o tema do vício nas redes sociais, depois de o fazer em “Rede de ódio” (aqui o protagonista, alvo daquela família, é um exibicionista/narcisista, que tem voz ativa nas mídias e utiliza o espaço para sustentar seu ego). PS: No mesmo ano de “Bom garoto”, 2025, o diretor lançou outro filme ótimo, também inspirado nas redes e no uso desenfreado das fake news para corroer a democracia americana, um filmão que acaba de estrear na Prime Video, “O aniversário” (com Diane Lane, Kyle Chandler e Dylan O'Brien). “Bom garoto” se destacou em festivais internacionais, como Toronto, BFI London e Roma, e agora chega com exclusividade no Brasil na plataforma Filmelier. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom, em 15/09/2026
Vencedor do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado (que terminou na última semana) e lá também ganhador dos prêmios de melhor fotografia e direção de arte, “Nosso segredo” chega aos cinemas após carreira de sucesso em festivais de cinema nacionais e internacionais (como na Berlinale do ano passado, onde teve a première mundial). O filme autoral marca a estreia na direção da consagrada atriz mineira Grace Passô, que escreveu também o roteiro, uma adaptação da peça dela de 2006, “Amores surdos”. De forte teor poético, com um visual visceral, o roteiro delicado e a autenticidade nas interpretações são características essenciais do belo filme rodado em Belo Horizonte, que presenta um trabalho extraordinário do elenco, principalmente o infantil. O enredo acompanha uma família negra atravessada pelo luto; cada um, da criança ao idoso, enfrenta seus sentimentos de tristeza e ausência. Do silêncio, surgem as memórias do ente que se foi, até que um segredo guardado passa a ser explorado, que irá marcar aquele longo processo de dor. Há uma mistura de drama e fantasia, consolidados em uma atmosfera sensível que trata de identidade e reconstrução. A fotografia é uma assinatura à parte, que ajuda a explorar a vida transformada daqueles personagens. O elenco reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, e traz participações especiais de Mateus Aleluia (do grupo Tincoãs) e da cantora e compositora Tássia Reis. Produzido pelo cineasta Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves, Grãos da Imagem e Globo Filmes, está nos cinemas na Sessão Vitrine Petrobras, com distribuição da Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras (projeto que amplia o acesso do público ao cinema nacional independente). POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom, em 04/09/2026
Documentário independente produzido em 2025, com direção de Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, e produção executiva de Íris Sodré (Gavulino Filmes), o filme é uma aula didática viva sobre a Rebelião dos Jangadeiros, conhecida historicamente como a Greve dos Jangadeiros, ocorrida em 1881 no Porto de Fortaleza, Ceará. O que se viu ali tornou-se um marco fundamental do movimento abolicionista no Brasil e uma preparação para a Abolição dos escravos, que viria anos depois. Liderada por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (apelidado de Dragão do Mar), a revolta ocorreu em janeiro de 1881 no Porto de Fortaleza, consistindo na recusa coletiva dos jangadeiros em transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros que as transportaria para os mercados de café nas regiões Sul e Sudeste. Com o famoso lema de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", a rebelião paralisou o tráfico interprovincial na região, abrindo uma ampla discussão na sociedade brasileira daquele período. A mobilização popular foi decisiva para acelerar o fim da escravidão no Nordeste, fazendo com que o Ceará se tornasse o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, em 27 de março de 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea. O filme é repleto de depoimentos de historiadores, museólogos, antropólogos e ativistas sociais, sentados em uma sala olhando para a câmera, em que lembram curiosidades, dados históricos e fatos relevantes daquele movimento pioneiro, que rompia não só com trabalho forçado, mas de ideais racistas e de um sistema todo de controle dos corpos negros. O longa, de apenas 79 minutos, mistura aos depoimentos imagens (como desenhos da época e ilustrações de livros de História) e animações modernas. O filme está em exibição gratuita no streaming Sesc Digital até o dia 11/10. Por Felipe Brida - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Drama histórico exibido no Festival de Rotterdam, escrito e dirigido pelo diretor Roberto Andó, um veterano cineasta que faz obras de arte ao mesmo tempo cult e moderno. Novamente trabalha com o nome mais importante da Itália do momento, premiado ano passado em Veneza, Toni Servillo – eles fizeram juntos pelo menos três longas que gosto muito, ‘Viva a liberdade’ (2013), ‘As confissões’ (2016) e ‘A estranha comédia da vida’ (2022). Nesta intrigante história real ocorrida nos anos finais do Risorgimento, a Unificação Italiana, Servillo interpreta o coronel siciliano Vincenzo Orsini, que liderou tropas para enfrentar o exército Bourbon, na campanha de 1860, de Giuseppe Garibaldi (papel aqui de Tommaso Ragno). Orsini e Garibaldi criam a Expedição dos Mil, na tentativa de conquistar Palermo; para tanto, organizam um mirabolante plano, de simular a retirada dos soldados para enganar os inimigos. Um filme de estratégias militares, que lembra uma partida de xadrez, onde cada movimento é decisivo. Apesar de poucos recursos, Andó realizou um filme diferenciado, de uma história esquecida e que se tornou emblemática para a Unificação da Itália na metade do século XIX. Bom figurino de época e diálogos auspiciosos impulsionam a trama de disputa de território e heroísmo. Exibido no 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2025, com o título provisório e “A ilusão”, estreia hoje nas principais salas de cinema, com distribuição da Pandora Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022). POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Entre 1835 e 1836, na Guerra pela independência do Texas, um homem deixa o Forte Álamo para ajudar outras pessoas no conflito separatista entre EUA e México.
Diretor de 12 filmes faroeste, sendo sete com Randolph Scott, Budd Boetticher realizou aqui um de seus notórios trabalhos. Glenn Ford, lenda do cinema western, protagoniza, travando uma luta cruel no Texas, como um homem em uma missão quase impossível. Ação, honra e vingança envolvem o filme em torno da lenda do Álamo, antiga missão espanhola transformada em forte militar, situada na cidade de San Antonio, no estado do Texas (o local ficou famoso por causa da Batalha do Álamo, ocorrida em 1836, que se tornou um símbolo de resistência e sacrifício na luta pela independência do Texas em relação ao México). Ford interpreta John Stroud, um homem que abandona o famoso cerco para proteger sua família, e por isso acaba marcado como traidor. Ao retornar para as terras, descobre que seus entes foram mortos, e sua jornada passa a ser de busca por justiça. O filme traz todos os elementos típicos do faroeste: vastas paisagens texanas, emboscadas, cavalgadas e o embate entre colonos e forças mexicanas. E ainda trata de um fato real: na Revolução do Texas, os colonos americanos e tejanos (mexicanos que apoiavam o Texas) se rebelaram contra o governo centralizador de Santa Anna, pois queriam formar um governo próprio, sendo duramente reprimidos pelo general mexicano Antonio López de Santa Anna. “Sangue por sangue” é um faroeste de excelência, cheio de vigor e com personagens cercados por dilemas morais (que marcariam os filmes do diretor Budd Boetticher). Em DVD pela Classicline. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Durante uma expedição ao México para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, em 1916, o major do Exército Thomas Thorn (Gary Cooper) é incumbido de resgatar cinco soldados para serem condecorados com a maior honraria do Congresso americano. Ele terá de trazer o grupo a salvo até a base militar de Cordura. No caminho haverá conflitos e ataques na divisa dos dois países.
“Heróis de barro” é um dos tantos filmes adaptados da literatura do romancista Glendon Swarthout (que dedicou a carreira a livros de faroeste). Insere-se na linha do “western psicológico”, que foca na mente dos personagens deixando os tradicionais tiroteios em segundo plano - essas obras exploram a solidão e os medos dos pistoleiros e soldados em cenários áridos e arriscados. O pano de fundo do longa é a Expedição Punitiva (ou “Expedição Pancho Villa”), operação militar do Exército dos Estados Unidos no México entre 1916 e 1917 que levou para lá 10 mil soldados para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, que tinha iniciado ao lado de Emiliano Zapata a Revolução Mexicana. O major vai com um pequeno grupo de pessoas a um lugar desconhecido, de terreno irregular, sob o sol escaldante. Entra em crise ao se ver cercado num ambiente hostil, e a missão começa a desmoronar. O filme prioriza o lado psicológico, mas tem cenas de bangue-bangue, duelos e pitadas de romance (a figura feminina é de Rita Hayworth, femme fatale do cinema, de filmes noir como “Gilda”). Gary Cooper, lenda do gênero western (de “Matar ou morrer”), entrega uma atuação madura, marcada pela introspecção, num de seus últimos trabalhos (seria seu penúltimo filme, já que morreria dois anos depois, em 1961). O filme questiona mitos do Oeste americano, mostrando que a glória militar pode ser tão frágil quanto a areia que cobre o deserto (por isso os heróis de barro). Quem dirige é Robert Rossen, cineasta e roteirista que durante o Macarthismo (o "caça às bruxas" anticomunista nos EUA) foi incluído na lista negra, impedido de trabalhar e convocado a depor no comitê do Congresso – depois de recusar a devassa contra colegas, cedeu à pressão em 1953 e entregou o nome de 57 pessoas. Acabou tendo dificuldades de voltar ao cinema, sendo “Heróis de barro” um dos poucos que ele fez depois do interrogatório – um de seus últimos trabalhos seria o mais famoso e simbólico a tudo o que enfrentou no “caça às bruxas”, “Desafio à corrupção” (1961), indicado a nove Oscars (incluindo ator para Paul Newman) e ganhador de dois. Em DVD pela Classicline. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Documentário brasileiro que retorna para a itinerância do festival In-edit nesse mês, ao mesmo tempo em que estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas com os primogênitos de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"), Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”, “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura, que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Um dos melhores documentários brasileiros do ano, está nos cinemas pela Embaúba Filmes. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Drama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Novo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Oficial do Exército (Kevin Costner), durante a Guerra Civil Americana, é enviado para um posto na fronteira dos Estados Unidos com o México. Lá, ficará próximo de um grupo de indígenas Sioux, e os ajudará a sobreviver a um massacre coordenado pelo Exército.
Um dos maiores clássicos modernos do cinema retorna ao público em uma edição histórica em bluray para colecionadores, em inédita versão estendida com quase uma hora a mais de filme. A distribuidora Obras-primas do Cinema lançou no mercado de mídia física, neste mês, “Dança com lobos” (1990), um western psicológico ganhador de sete Oscars, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e direção para Kevin Costner. Também estrelado por Costner, o épico drama de faroeste ultrapassou os limites da narrativa convencional se consolidando como um marco cultural dentro do cinema. A história está dentro do contexto real da Guerra Civil americana, travada entre 1861 e 1865, período em que os Estados Unidos se dividiram entre norte e sul, com guerras de território e exploração das terras indígenas. O longa acompanha o tenente John Dunbar (Kevin Costner), um oficial da União, representante dos estados do Norte que buscava manter o país unido e impedir a separação dos estados do sul. Após um ato de bravura em combate, ele é enviado para um posto na fronteira oeste dos Estados Unidos. Dunbar se afasta da guerra entre “brancos” para mergulhar em um universo desconhecido, as inóspitas terras dos indígenas Sioux, que transformará sua visão de mundo. Sozinho no posto que fica ao lado de uma casa antiga que será sua residência, fica próximo de um lobo selvagem, que o visita todas as manhãs, e será observado por um grupo de Sioux. Até que ele os encontra frente a frente, desenvolvendo um forte laço com os indígenas, que passarão a ser alvo do Exército. O enredo se desenvolve na relação de Dunbar com os Sioux, uma das maiores nações indígenas das Grandes Planícies. Inicialmente, há desconfiança e distância entre ele e o grupo, mas o oficial conquista gradualmente a confiança da tribo, aprendendo sua língua, seus costumes e sua espiritualidade. Por causa da aproximação de Dunbar com aquele lobo selvagem que o visita, os Sioux o apelidam de “Dança com lobos”, como símbolo da metamorfose espiritual do homem branco com o animal. O filme retrata os Sioux com dignidade, de um povo guardião de uma tradição oral rica, de uma espiritualidade profunda e de uma organização comunitária que valorizava o coletivo acima do individual. Costner mostra a organização social deles, dos ritos, da lealdade ao grupo, da importância dos búfalos naquela cultura e na ligação íntima com a natureza. Historicamente, os Sioux habitavam vastas regiões que hoje correspondem a estados como Minnesota, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Nebraska (estes dois estados, com riachos e descampados abertos, serviram de locações para a gravação do filme). Eram povos nômades, adaptados ao ambiente das planícies, e sua sobrevivência estava diretamente ligada ao equilíbrio ecológico da região. Entretanto, a história dos Sioux é marcada pela tragédia da colonização: com o avanço da fronteira e a política expansionista dos EUA, foram dizimados, vítimas de massacres, deslocamentos forçados e da destruição de seu modo de vida. Ao trazer essa realidade para a tela, “Dança com lobos” não apenas narra a amizade improvável entre um soldado branco e uma tribo indígena, mas também denuncia a devastação cultural e humana provocada pela conquista do Oeste. O impacto do filme foi extraordinário: em uma época em que Hollywood deixava de retratar os indígenas como vilões ou figuras secundárias, Costner oferecia uma visão humanizada e crítica da relação de colonizador e colonizado. O longa se tornou um fenômeno cultural, abrindo espaço para debates sobre memória histórica e representação. Vencedor de um prêmio especial na Berlinale, onde concorreu ao Urso de Ouro, o filme foi indicado a 12 Oscars, recebendo sete: melhor filme, direção, trilha sonora, roteiro adaptado, edição, som e fotografia – e parte do elenco foi indicado, no caso Costner, Graham Greene (no papel do líder Sioux que se torna amigo do oficial) e Mary McDonnell (interpretando uma mulher branca criada por indígenas desde pequena e que se apaixona por Dunbar). A parte técnica é impecável, realçada agora na cópia restaurada em 4K: fotografia grandiosa (que captura a vastidão das planícies americanas), trilha sonora emotiva e lindos figurinos de época, que elevam a história que equilibra ação, romance e drama. Foi o primeiro trabalho de Costner na direção, que na época, aos 35 anos, já era um galã, com filmes importantes no currículo como ator. Também foi a primeira investida dele no universo western, desconstruindo o mito americano do Velho Oeste. É um filme revisionista, feito sob uma ótica crítica em torno do choque entre civilização e natureza, entre progresso e tradição. O Oeste, para Costner, não é apenas cenário, mas metáfora de transformação e conflito cultural - e que mais tarde ele voltaria ao tema como diretor, em filmes como “Pacto de justiça” (2003) e na recente trilogia “Horizon: Uma saga americana” (2024-2026). Sem contar o interesse em protagonizar filmes que se passavam no oeste, como “Silverado”, “Wyatt Earp” e no seriado “Yellowstone”. “Dança com lobos” sai agora em edição estendida em bluray, pela primeira vez no Brasil, com distribuição da Obras-primas do Cinema – a versão de cinema tinha 181 minutos, e esta apresenta 53 minutos a mais, totalizando 234 minutos. Vem junto na caixa um pôster do filme, quatro cards e um livreto de 16 páginas. O box traz o filme em bluray, em 4K, e um DVD com mais de duas horas de extras, como making of, trailers e entrevistas.
* Publicado hoje, dia 30/08, no blog Cinema-naweb blogspotcom
Morte e Vida Madalena
3.9 10Fazendo alusão à “Morte e vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, o novo filme do inventivo cineasta cearense Guto Parente tem fortes traços com o clássico poema regionalista da literatura brasileira. Ambos tratam de um longo percurso de um personagem solitário, em meio aos desafios do mundo, cercado por obstáculos sociais. Parente volta a estudar personagens queer complexos, aqui trazendo uma protagonista com mutas camadas, Madalena (ótimo papel da atriz travesti Noá Bonoba, também professora e pesquisadora). Ela é uma produtora de cinema, que está grávida e prestes a rodar uma fita de ficção científica B, cujo roteiro foi deixado pelo falecido pai. Madalena tem a rotina revirada quando Davi (Marcus Curvelo), o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece do set. Cheia de dúvidas e maus pressentimentos, ela investiga por conta próprio o sumiço de Davi. O bebê dela está para nascer, o que a motiva a querer gravar logo o filme, mesmo sem a presença do diretor. O longa é uma comédia dramática cheia de subtramas, sobre as andanças dessa personagem que se transforma durante aquela jornada de busca pelo marido e de ser mãe de primeira viagem – sem contar os desafios para as gravações no set. Vê-se um filme dentro de outro filme, metalinguagem pura, com momentos de incerteza sobre aquilo que vemos ser da cabeça da protagonista, algo real ocorrendo ou se aquilo tudo é do roteiro do longa em execução. Para complexar ainda mais o roteiro, a personagem tem devaneios, sonhos misteriosos, enquanto as cenas nítidas de como ela quer o filme aparecem em imagens caóticas, assombradas. Como em “Inferninho” e “Doce amianto”, o cineasta faz um cinema queer contemporâneo unindo fantasia, estética camp, figuras marginalizadas complexas e altas doses de melancolia, entregando aqui um dos filmes de destaque do ano, que gostei demais. Tanto que foi exibido e premiado em importantes festivais nacionais e internacionais, como Ciné+ no FidMarseille 2025 (França), Festival de Brasília, Mostra de Cinema de São Paulo e MixBrasil. Em exibição nos principais cinemas com distribuição da Embaúba Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom em 18/09/2026
Era Uma Vez Minha 1ª Vez
2.2 2Adaptação para os cinemas do livro "Era uma vez minha 1ª vez", que foi sucesso entre os jovens, escrito por Thalita Rebouças (que é também atriz e jornalista, e hoje um dos nomes de destaque da literatura adolescente moderna). E segue a linha dos outros livros da autora que viraram cinema, que discutem relacionamentos afetivos e familiares entre os adolescentes, como “Fala sério, mãe!” e “Ela disse, ele disse”. O longa, em cartaz nos cinemas brasileiros, sofreu alterações no curso das histórias da obra original, incluindo redução no número das personagens (de seis para quatro, que são Teresa, Clara, Tuca e Patty, interpretadas por Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte). No entanto, manteve a essência da discussão, sobre amadurecimento e sexualidade, de forma bem humorada. A linguagem parece com a do livro, direta, com astral lá em cima, ora com momentos cômicos ora dramáticos (quando surgem dúvidas sobre o florescer da idade, em que as meninas adolescentes conversam sobre a “primeira vez”, tanto o beijo quanto o sexo). O quarteto de melhores amigas faz um pacto para perder a virgindade até a formatura, que está chegando, e a partir daí cada uma vivencia sua própria jornada de descobertas, com erros e acertos nos sentimentos e nas atitudes com os prováveis parceiros. É um filme para público teen, com sacadas e gírias daquela idade, às vezes romantizado demais, e serve como passatempo para o público adolescente (que se reconhecerá em várias cenas). Não é um tipo de filme que curto, acho a proposta repetitiva e há outros melhores que este, porém tá valendo à garotada que está em busca de filme que não exige filosofia nem tanta originalidade. O longa tem produção e distribuição da Na Paralela Filmes, com codistribuição de A Fábrica, em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, além de coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme, e investimento do BRDE, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual e da Ancine. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom em 17/09/2026
Funny Lady
3.5 23Continuação de “Funny girl”, filme que deu o Oscar de atriz a Barbra Streisand, e uma boa sequencia dos acontecimentos da vida e da carreira da atriz e cantora Fanny Brice, fenômeno da Broadway. Fanny Brice era uma mulher inteligente, espirituosa e resiliente, capaz de transformar suas dores pessoais em arte. No palco encantava e emocionava o público, e a autenticidade aliada ao humor a tornaram uma figura única no cenário artístico americano daquele período. Sua vida inspirou o musical da Broadway “Funny Girl” (1964), adaptado para o cinema em 1968, e a continuação, “Funny Lady” (1975). Ela permanece como símbolo da mulher que desafiou padrões, conquistou espaço em um meio dominado por homens e deixou uma marca indelével na cultura americana. Sua história de ascensão, amores complicados e talento inquestionável continua a inspirar gerações, especialmente através das interpretações de Streisand que eternizaram sua trajetória. Seguindo os passos do primeiro filme, “Funny girl”, este mantém drama e romance, mas com menos números musicais e menos alegria na vida da personagem central, já que enfrentou relacionamentos amorosos abusivos que a machucaram profundamente. “Funny lady” carrega um forte ar melancólico, retratando cortes importantes do final da vida da biografada, mais adulta e madura, tendo como força motriz o trabalho de Barbra, uma atriz e cantora que gosto muito. Fanny morreu em 29 de maio de 1951, em Beverly Hills, vítima de uma hemorragia cerebral, aos 59 anos. “Funny lady” recebeu cinco indicações ao Oscar (como fotografia, som e figurino) e seis ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme de comédia ou musical, atriz e ator. A direção é de Herbert Ross, de “A garota do adeus” e “Flores de aço”. Disponível em DVD pela Classicline no box “Barbra – The Funny Collection”, que vem junto com o primeiro filme. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Funny Girl - A Garota Genial
4.3 216A Classicline lançou recentemente no mercado “Barbra – The Funny Collection”, um box em DVD contendo os dois premiados filmes musicais com Barbra Streisand em que ela interpreta a estrela da Broadway Fanny Brice (1891-1951). São dois discos com cards colecionáveis e com as cópias em boa imagem e som de “Funny girl: A garota genial” (1968) e a continuação, “Funny lady” (1975). Ambos os filmes são uma cinebiografia autêntica de Fanny, que além da Broadway foi estrela do rádio norte-americano, lembrada por sua voz marcante, humor irreverente e pela vida tumultuada, principalmente por causa dos relacionamentos amorosos com homens vigaristas. Neste primeiro filme, Barbra tinha 26 anos, estreando aqui nos cinemas, e pelo contagiante papel ganhou o Oscar de melhor atriz (dividido com Katharine Hepburn por “O leão no inverno”). O foco do longa é a entrada de Fanny na série de espetáculos da Broadway “Ziegfeld Follies”, em 1910, quando ela tinha apenas 19 anos. Nascida Fania Borach em 29 de outubro de 1891, em Manhattan, filha de imigrantes judeus, cresceu em um ambiente modesto. Sua mãe, Rose Stern, era uma figura forte e protetora, com quem Brice manteve uma relação próxima, embora marcada por tensões típicas de uma jovem que buscava independência – a mãe era viciada em jogos de baralho (no filme é interpretada por Kay Medford, que recebeu indicação ao Oscar de atriz coadjuvante). Desde cedo, Fanny demonstrava talento para o palco, o que a fez abandonar a escola para se dedicar ao mundo do entretenimento. Com 13 anos, em 1904, participou de audições artísticas, treinava por conta canto e dança, até que em 1910 foi descoberta por Florenz Ziegfeld (no filme “Funny girl” interpretado por Walter Pidgeon) e tornou-se uma das estrelas das célebres Ziegfeld Follies, onde brilhou com números cômicos e canções que se tornaram clássicos, como “My man” e “Second hand Rose”. As Ziegfeld Follies foram uma série de espetáculos teatrais luxuosos de variedades (vaudeville) apresentados na Broadway entre 1907 e 1931, que misturavam música, dança, comédia e esquetes e com inspiração parisiense, como os cabarés. O lugar lançou Fanny e outros nomes importantes, como W. C. Fields, Eddie Cantor e Josephine Baker. A carreira de Fanny se expandiu para o rádio, onde criou a personagem Baby Snooks, uma criança travessa que conquistou o público e a manteve popular até sua morte. Teve uma vida amorosa conturbada (e o filme traz um bom enfoque sobre isto), casando-se três vezes: primeiro com Frank White (que não aparece nos filmes), depois com o charmoso, mas vigarista enrolado com grandes quantias de dinheiro escusos Nicky Arnstein (papel de Omar Sharif nos dois filmes), com quem teve dois filhos, e por fim com o produtor Billy Rose (James Caan, no segundo filme, “Funny Lady), um showman e empresário da Broadway que tinha humor instável. Seu casamento com Arnstein foi marcado por escândalos, já que ele esteve envolvido em atividades criminosas, o que trouxe sofrimento e humilhação pública para Fanny - e quase a levou ao fim da carreira. “Funny girl” é um filme musical com drama e romance contagiante, com linda fotografia e figurino, além de ótimos números musicais - foi o filme de maior bilheteria de 1968 nos EUA, indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme, edição e trilha sonora, e premiando Barbra (que também venceu o Globo de Ouro naquele ano). E conta com a exímia direção do lendário cineasta William Wyler, diretor premiado com três Oscars, de clássicos como “Tarde demais”, “A princesa e o plebeu” e “Ben-Hur” – “Funny girl” foi seu penúltimo trabalho. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência
3.6 267Roy Andersson é um dos cineastas mais singulares da Suécia, conhecido por transformar o cinema em uma espécie de galeria de pinturas vivas, onde a estética visual e o humor absurdo se unem para refletir sobre a condição humana. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” é um dos filmes mais melancólicos e representativos do diretor e roteirista, que iniciou a carreira ainda no fim dos anos 60 (e que por muito tempo trabalhou com publicidade). Dois idosos perambulam pela cidade onde moram mostrando artefatos antigos e novos para serem vendidos, que refletem um pouco sobre o mundo. Eles passam de porta em porta, em casas e comércio, apresentando as estranhas bugigangas, enquanto o tempo parece parar. É uma comédia dramática, de humor frio, que critica costumes do povo sueco, numa obra cuja composição é feita de esquetes curtos, com a estética peculiar que se tornaria marca registrada de Andersson, o “tableau”: câmera estática, iluminação pálida, cores esmaecidas (os personagens parecem zumbis, com o rosto esbranquiçado, semelhantes a uma pintura), personagens rígidos (sem demonstrar sentimentos), cenários meticulosamente criados (que dão a sensação de hiper-realidade). E sempre situações tragicômicas que revelam a banalidade e a profundidade da vida cotidiana. Os fragmentos curtos, quanto reunidos, refletem sobre a solidão, o vazio, o alto consumismo e a melancolia da vida moderna, bem como o absurdo da existência e a alienação social. Tudo é muito inusitado, lento, com algo surreal que paira nos esquetes, num tipo originalíssimo de se fazer cinema. Fita para público que curte cinema alternativo, um típico longa-metragem de festival. Disponível em DVD (com distribuição da Mares Filmes em parceria com a Versátil Home Video) e em streamings de cinema cult. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom
O Fotógrafo e o Carteiro: O Crime que Parou a …
3.4 7Documentário da Netflix de 2022 sobre a investigação em torno do assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, ocorrido em 25 de janeiro de 1997, em Pinamar, que se tornou um dos episódios mais marcantes da história recente da Argentina. Sequestrado, o fotógrafo da destacada revista Notícias foi torturado e morto. Meses antes, ele fez a primeira imagem pública do empresário Alfredo Yabrán, um magnata poderoso, de forte influência no governo da época, que evitava ser fotografado. Yabrán era acusado de lavar dinheiro para o tráfico de drogas e armas. A foto de Yabrán ilustrou a capa da revista Notícias e foi vista como uma afronta ao empresário. O caso terminou em uma trama de vingança envolvendo criminosos e policiais corrompidos, cujo filme procura explorar bem a partir de reportagens da época e entrevistas. O assassinato de Cabezas tornou-se uma mensagem de intimidação contra o jornalismo e a liberdade de expressão, no país em que a ditadura havia terminado há menos de 15 anos – lembrando que na Argentina a ditadura (1976-1983) foi a mais violenta da América do Sul, que resultou em mais de 30 mil desaparecidos. A tragédia gerou enorme comoção nacional, com marchas e manifestações em prol dos direitos humanos, da justiça e da liberdade de expressão, com o lema “No se olviden de Cabezas”, transformando o fotógrafo em símbolo da luta contra a impunidade. Mais um bom documentário investigativo da Netflix, disponível no catálogo do streaming. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom
Bom Garoto
3.5 45 Assista AgoraBom garoto
O cineasta polonês Jan Komasa realiza obras complexas e bem contraditórias, de narrativa moderna e visual ousado. Antes de “Bom garoto” (2025), ele fez dois longas que acho geniais, o indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Corpus Christi” (2019), sobre um jovem detento que abre uma igreja, e “Rede de ódio” (2020), da Netflix, que veio no meio da pandemia e trata de uma conspiração política por meio das fake news. Os anteriores a esses eu não vi, que são dois outros, “A sala do suicídio” (2011) e “Varsóvia 44” (2014). “Bom garoto” é o primeiro trabalho do diretor fora da terra natal, rodado no Reino Unido com atores premiados e até indicados a Oscar. “Heel” ou “Good boy” (recebeu esses dois títulos originais) é um suspense psicológico com alta dose de humor macabro e um denso clima perturbador, explorando os limites da moralidade. É uma trama complexa e bizarra, em que acompanhamos Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos mergulhado em drogas, violência e exibicionismo nas redes sociais. Após uma noite de excessos, é sequestrado por Chris (Stephen Graham, premiado com o Emmy, o Globo de Ouro e o Bafta pela minissérie “Adolescência”) e sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough, indicada ao Oscar por “A sorte grande”), que decidem “reeducá-lo” em sua residência isolada. O casal, que bate fora do bumbo, utiliza o lar como um cativeiro, sem comunicação com o mundo exterior. Ali também mora o filho pequeno do casal, Jonathan (Kit Rakusen). Chris e Kathryn desenvolvem uma estranha obsessão em transformar Tommy em um “bom garoto”. O rapaz fica numa coleira pendurada no teto, em trilhos, inicialmente no porão escuro; com o passar dos dias, a família libera mais espaços para o jovem percorrer, sempre com o pescoço amarrado com a corrente cruzando os trilhos. Entre castigos físicos, leituras de clássicos literários e recompensas por comportamento adequado, Tommy passa por uma experiência de tortura psicológica e condicionamento social. O filme nasceu da colaboração entre os roteiristas Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, que se inspiraram em debates sobre juventude desgovernada e os limites da disciplina familiar. O argumento do diretor é inspirado em casos reais de jovens que transformaram a delinquência em espetáculo online, viciados em redes sociais – e Komasa imaginou o que aconteceria se alguém decidisse impor uma cura radical a essas atitudes. Há momentos sufocantes, tensos, num filme que explora a Síndrome de Estocolmo e a manipulação mental. O elenco é um dos pontos altos, com destaque para Stephen Graham, Andrea Riseborough e Anson Boon. Komasa, vale destacar, explora novamente, com inteligência, o tema do vício nas redes sociais, depois de o fazer em “Rede de ódio” (aqui o protagonista, alvo daquela família, é um exibicionista/narcisista, que tem voz ativa nas mídias e utiliza o espaço para sustentar seu ego). PS: No mesmo ano de “Bom garoto”, 2025, o diretor lançou outro filme ótimo, também inspirado nas redes e no uso desenfreado das fake news para corroer a democracia americana, um filmão que acaba de estrear na Prime Video, “O aniversário” (com Diane Lane, Kyle Chandler e Dylan O'Brien). “Bom garoto” se destacou em festivais internacionais, como Toronto, BFI London e Roma, e agora chega com exclusividade no Brasil na plataforma Filmelier. POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom, em 15/09/2026
Nosso Segredo
3.7 11Nosso segredo
Vencedor do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado (que terminou na última semana) e lá também ganhador dos prêmios de melhor fotografia e direção de arte, “Nosso segredo” chega aos cinemas após carreira de sucesso em festivais de cinema nacionais e internacionais (como na Berlinale do ano passado, onde teve a première mundial). O filme autoral marca a estreia na direção da consagrada atriz mineira Grace Passô, que escreveu também o roteiro, uma adaptação da peça dela de 2006, “Amores surdos”. De forte teor poético, com um visual visceral, o roteiro delicado e a autenticidade nas interpretações são características essenciais do belo filme rodado em Belo Horizonte, que presenta um trabalho extraordinário do elenco, principalmente o infantil. O enredo acompanha uma família negra atravessada pelo luto; cada um, da criança ao idoso, enfrenta seus sentimentos de tristeza e ausência. Do silêncio, surgem as memórias do ente que se foi, até que um segredo guardado passa a ser explorado, que irá marcar aquele longo processo de dor. Há uma mistura de drama e fantasia, consolidados em uma atmosfera sensível que trata de identidade e reconstrução. A fotografia é uma assinatura à parte, que ajuda a explorar a vida transformada daqueles personagens. O elenco reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, e traz participações especiais de Mateus Aleluia (do grupo Tincoãs) e da cantora e compositora Tássia Reis. Produzido pelo cineasta Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves, Grãos da Imagem e Globo Filmes, está nos cinemas na Sessão Vitrine Petrobras, com distribuição da Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras (projeto que amplia o acesso do público ao cinema nacional independente). POR FELIPE BRIDA - Texto publicado no blog Cinema-naweb blogspotcom, em 04/09/2026
A Rebelião dos Jangadeiros
3.0 1Documentário independente produzido em 2025, com direção de Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, e produção executiva de Íris Sodré (Gavulino Filmes), o filme é uma aula didática viva sobre a Rebelião dos Jangadeiros, conhecida historicamente como a Greve dos Jangadeiros, ocorrida em 1881 no Porto de Fortaleza, Ceará. O que se viu ali tornou-se um marco fundamental do movimento abolicionista no Brasil e uma preparação para a Abolição dos escravos, que viria anos depois. Liderada por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (apelidado de Dragão do Mar), a revolta ocorreu em janeiro de 1881 no Porto de Fortaleza, consistindo na recusa coletiva dos jangadeiros em transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros que as transportaria para os mercados de café nas regiões Sul e Sudeste. Com o famoso lema de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", a rebelião paralisou o tráfico interprovincial na região, abrindo uma ampla discussão na sociedade brasileira daquele período. A mobilização popular foi decisiva para acelerar o fim da escravidão no Nordeste, fazendo com que o Ceará se tornasse o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, em 27 de março de 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea. O filme é repleto de depoimentos de historiadores, museólogos, antropólogos e ativistas sociais, sentados em uma sala olhando para a câmera, em que lembram curiosidades, dados históricos e fatos relevantes daquele movimento pioneiro, que rompia não só com trabalho forçado, mas de ideais racistas e de um sistema todo de controle dos corpos negros. O longa, de apenas 79 minutos, mistura aos depoimentos imagens (como desenhos da época e ilustrações de livros de História) e animações modernas. O filme está em exibição gratuita no streaming Sesc Digital até o dia 11/10. Por Felipe Brida - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Três Vezes Adeus
4.0 7Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Os Trapaceiros de Garibaldi
3.2 2Drama histórico exibido no Festival de Rotterdam, escrito e dirigido pelo diretor Roberto Andó, um veterano cineasta que faz obras de arte ao mesmo tempo cult e moderno. Novamente trabalha com o nome mais importante da Itália do momento, premiado ano passado em Veneza, Toni Servillo – eles fizeram juntos pelo menos três longas que gosto muito, ‘Viva a liberdade’ (2013), ‘As confissões’ (2016) e ‘A estranha comédia da vida’ (2022). Nesta intrigante história real ocorrida nos anos finais do Risorgimento, a Unificação Italiana, Servillo interpreta o coronel siciliano Vincenzo Orsini, que liderou tropas para enfrentar o exército Bourbon, na campanha de 1860, de Giuseppe Garibaldi (papel aqui de Tommaso Ragno). Orsini e Garibaldi criam a Expedição dos Mil, na tentativa de conquistar Palermo; para tanto, organizam um mirabolante plano, de simular a retirada dos soldados para enganar os inimigos. Um filme de estratégias militares, que lembra uma partida de xadrez, onde cada movimento é decisivo. Apesar de poucos recursos, Andó realizou um filme diferenciado, de uma história esquecida e que se tornou emblemática para a Unificação da Itália na metade do século XIX. Bom figurino de época e diálogos auspiciosos impulsionam a trama de disputa de território e heroísmo. Exibido no 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2025, com o título provisório e “A ilusão”, estreia hoje nas principais salas de cinema, com distribuição da Pandora Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Viva Marília
4.0 3Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Não Existe Almoço Grátis
3.8 7Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória. POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
A Quinta Portuguesa
3.7 2Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022). POR FELIPE BRIDA - Texto no blog Cinema-naweb blogspotcom
Sangue por Sangue
3.5 9Sangue por sangue
Entre 1835 e 1836, na Guerra pela independência do Texas, um homem deixa o Forte Álamo para ajudar outras pessoas no conflito separatista entre EUA e México.
Diretor de 12 filmes faroeste, sendo sete com Randolph Scott, Budd Boetticher realizou aqui um de seus notórios trabalhos. Glenn Ford, lenda do cinema western, protagoniza, travando uma luta cruel no Texas, como um homem em uma missão quase impossível. Ação, honra e vingança envolvem o filme em torno da lenda do Álamo, antiga missão espanhola transformada em forte militar, situada na cidade de San Antonio, no estado do Texas (o local ficou famoso por causa da Batalha do Álamo, ocorrida em 1836, que se tornou um símbolo de resistência e sacrifício na luta pela independência do Texas em relação ao México). Ford interpreta John Stroud, um homem que abandona o famoso cerco para proteger sua família, e por isso acaba marcado como traidor. Ao retornar para as terras, descobre que seus entes foram mortos, e sua jornada passa a ser de busca por justiça. O filme traz todos os elementos típicos do faroeste: vastas paisagens texanas, emboscadas, cavalgadas e o embate entre colonos e forças mexicanas. E ainda trata de um fato real: na Revolução do Texas, os colonos americanos e tejanos (mexicanos que apoiavam o Texas) se rebelaram contra o governo centralizador de Santa Anna, pois queriam formar um governo próprio, sendo duramente reprimidos pelo general mexicano Antonio López de Santa Anna. “Sangue por sangue” é um faroeste de excelência, cheio de vigor e com personagens cercados por dilemas morais (que marcariam os filmes do diretor Budd Boetticher). Em DVD pela Classicline. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Heróis de Barro
3.6 3Heróis de barro
Durante uma expedição ao México para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, em 1916, o major do Exército Thomas Thorn (Gary Cooper) é incumbido de resgatar cinco soldados para serem condecorados com a maior honraria do Congresso americano. Ele terá de trazer o grupo a salvo até a base militar de Cordura. No caminho haverá conflitos e ataques na divisa dos dois países.
“Heróis de barro” é um dos tantos filmes adaptados da literatura do romancista Glendon Swarthout (que dedicou a carreira a livros de faroeste). Insere-se na linha do “western psicológico”, que foca na mente dos personagens deixando os tradicionais tiroteios em segundo plano - essas obras exploram a solidão e os medos dos pistoleiros e soldados em cenários áridos e arriscados. O pano de fundo do longa é a Expedição Punitiva (ou “Expedição Pancho Villa”), operação militar do Exército dos Estados Unidos no México entre 1916 e 1917 que levou para lá 10 mil soldados para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, que tinha iniciado ao lado de Emiliano Zapata a Revolução Mexicana. O major vai com um pequeno grupo de pessoas a um lugar desconhecido, de terreno irregular, sob o sol escaldante. Entra em crise ao se ver cercado num ambiente hostil, e a missão começa a desmoronar. O filme prioriza o lado psicológico, mas tem cenas de bangue-bangue, duelos e pitadas de romance (a figura feminina é de Rita Hayworth, femme fatale do cinema, de filmes noir como “Gilda”). Gary Cooper, lenda do gênero western (de “Matar ou morrer”), entrega uma atuação madura, marcada pela introspecção, num de seus últimos trabalhos (seria seu penúltimo filme, já que morreria dois anos depois, em 1961). O filme questiona mitos do Oeste americano, mostrando que a glória militar pode ser tão frágil quanto a areia que cobre o deserto (por isso os heróis de barro). Quem dirige é Robert Rossen, cineasta e roteirista que durante o Macarthismo (o "caça às bruxas" anticomunista nos EUA) foi incluído na lista negra, impedido de trabalhar e convocado a depor no comitê do Congresso – depois de recusar a devassa contra colegas, cedeu à pressão em 1953 e entregou o nome de 57 pessoas. Acabou tendo dificuldades de voltar ao cinema, sendo “Heróis de barro” um dos poucos que ele fez depois do interrogatório – um de seus últimos trabalhos seria o mais famoso e simbólico a tudo o que enfrentou no “caça às bruxas”, “Desafio à corrupção” (1961), indicado a nove Oscars (incluindo ator para Paul Newman) e ganhador de dois. Em DVD pela Classicline.
POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Nem Tudo É Paz E Amor
3.3 4Documentário brasileiro que retorna para a itinerância do festival In-edit nesse mês, ao mesmo tempo em que estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas com os primogênitos de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"), Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”, “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura, que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Gonzaguinha, Da Maior Liberdade
3.9 3Gonzaguinha – Da maior liberdade
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
O Delator
3.1 1Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Anistia 79
3.7 4Anistia 79
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Um dos melhores documentários brasileiros do ano, está nos cinemas pela Embaúba Filmes. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
3.3 84 Assista AgoraDrama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Queda Livre: As Consequências do Caso Boeing
3.5 5 Assista AgoraNovo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Coração Partido
2.9 4Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes. Por Felipe Brida - No blog Cinema-naweb blogspotcom
Dança com Lobos
4.0 497Resenha especial
Dança com lobos
Oficial do Exército (Kevin Costner), durante a Guerra Civil Americana, é enviado para um posto na fronteira dos Estados Unidos com o México. Lá, ficará próximo de um grupo de indígenas Sioux, e os ajudará a sobreviver a um massacre coordenado pelo Exército.
Um dos maiores clássicos modernos do cinema retorna ao público em uma edição histórica em bluray para colecionadores, em inédita versão estendida com quase uma hora a mais de filme. A distribuidora Obras-primas do Cinema lançou no mercado de mídia física, neste mês, “Dança com lobos” (1990), um western psicológico ganhador de sete Oscars, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e direção para Kevin Costner.
Também estrelado por Costner, o épico drama de faroeste ultrapassou os limites da narrativa convencional se consolidando como um marco cultural dentro do cinema. A história está dentro do contexto real da Guerra Civil americana, travada entre 1861 e 1865, período em que os Estados Unidos se dividiram entre norte e sul, com guerras de território e exploração das terras indígenas. O longa acompanha o tenente John Dunbar (Kevin Costner), um oficial da União, representante dos estados do Norte que buscava manter o país unido e impedir a separação dos estados do sul. Após um ato de bravura em combate, ele é enviado para um posto na fronteira oeste dos Estados Unidos. Dunbar se afasta da guerra entre “brancos” para mergulhar em um universo desconhecido, as inóspitas terras dos indígenas Sioux, que transformará sua visão de mundo. Sozinho no posto que fica ao lado de uma casa antiga que será sua residência, fica próximo de um lobo selvagem, que o visita todas as manhãs, e será observado por um grupo de Sioux. Até que ele os encontra frente a frente, desenvolvendo um forte laço com os indígenas, que passarão a ser alvo do Exército. O enredo se desenvolve na relação de Dunbar com os Sioux, uma das maiores nações indígenas das Grandes Planícies. Inicialmente, há desconfiança e distância entre ele e o grupo, mas o oficial conquista gradualmente a confiança da tribo, aprendendo sua língua, seus costumes e sua espiritualidade. Por causa da aproximação de Dunbar com aquele lobo selvagem que o visita, os Sioux o apelidam de “Dança com lobos”, como símbolo da metamorfose espiritual do homem branco com o animal.
O filme retrata os Sioux com dignidade, de um povo guardião de uma tradição oral rica, de uma espiritualidade profunda e de uma organização comunitária que valorizava o coletivo acima do individual. Costner mostra a organização social deles, dos ritos, da lealdade ao grupo, da importância dos búfalos naquela cultura e na ligação íntima com a natureza. Historicamente, os Sioux habitavam vastas regiões que hoje correspondem a estados como Minnesota, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Nebraska (estes dois estados, com riachos e descampados abertos, serviram de locações para a gravação do filme). Eram povos nômades, adaptados ao ambiente das planícies, e sua sobrevivência estava diretamente ligada ao equilíbrio ecológico da região. Entretanto, a história dos Sioux é marcada pela tragédia da colonização: com o avanço da fronteira e a política expansionista dos EUA, foram dizimados, vítimas de massacres, deslocamentos forçados e da destruição de seu modo de vida. Ao trazer essa realidade para a tela, “Dança com lobos” não apenas narra a amizade improvável entre um soldado branco e uma tribo indígena, mas também denuncia a devastação cultural e humana provocada pela conquista do Oeste.
O impacto do filme foi extraordinário: em uma época em que Hollywood deixava de retratar os indígenas como vilões ou figuras secundárias, Costner oferecia uma visão humanizada e crítica da relação de colonizador e colonizado. O longa se tornou um fenômeno cultural, abrindo espaço para debates sobre memória histórica e representação. Vencedor de um prêmio especial na Berlinale, onde concorreu ao Urso de Ouro, o filme foi indicado a 12 Oscars, recebendo sete: melhor filme, direção, trilha sonora, roteiro adaptado, edição, som e fotografia – e parte do elenco foi indicado, no caso Costner, Graham Greene (no papel do líder Sioux que se torna amigo do oficial) e Mary McDonnell (interpretando uma mulher branca criada por indígenas desde pequena e que se apaixona por Dunbar). A parte técnica é impecável, realçada agora na cópia restaurada em 4K: fotografia grandiosa (que captura a vastidão das planícies americanas), trilha sonora emotiva e lindos figurinos de época, que elevam a história que equilibra ação, romance e drama.
Foi o primeiro trabalho de Costner na direção, que na época, aos 35 anos, já era um galã, com filmes importantes no currículo como ator. Também foi a primeira investida dele no universo western, desconstruindo o mito americano do Velho Oeste. É um filme revisionista, feito sob uma ótica crítica em torno do choque entre civilização e natureza, entre progresso e tradição. O Oeste, para Costner, não é apenas cenário, mas metáfora de transformação e conflito cultural - e que mais tarde ele voltaria ao tema como diretor, em filmes como “Pacto de justiça” (2003) e na recente trilogia “Horizon: Uma saga americana” (2024-2026). Sem contar o interesse em protagonizar filmes que se passavam no oeste, como “Silverado”, “Wyatt Earp” e no seriado “Yellowstone”.
“Dança com lobos” sai agora em edição estendida em bluray, pela primeira vez no Brasil, com distribuição da Obras-primas do Cinema – a versão de cinema tinha 181 minutos, e esta apresenta 53 minutos a mais, totalizando 234 minutos. Vem junto na caixa um pôster do filme, quatro cards e um livreto de 16 páginas. O box traz o filme em bluray, em 4K, e um DVD com mais de duas horas de extras, como making of, trailers e entrevistas.
* Publicado hoje, dia 30/08, no blog Cinema-naweb blogspotcom