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Tem Alguns Spoilers...
De um lado, o azul e amarelo vibrante do Cofre (Vault), onde tudo parece uma propaganda de margarina dos anos 50. Do outro, a superfície cinza, marrom e cruel, onde a vida não vale uma tampinha de Nuka-Cola. Pós apocalipse, faroeste, mundo medieval, anos dourados. Como eu não conhecia "Fallout"?
Adaptado da famosa série da franquia de videogames, a 1ªtemporada de "Fallout", se passa num mundo destruído. A matrix otimista e colorida de um sonhado anos 50 futurista, foi derretida por bombas atômicas, deixando para trás uma humanidade miserável que se rasteja entre a nostalgia de um passado que nunca existiu e a violência de um futuro sem esperança.
A história se desenrola em um futuro devastado por uma misteriosa guerra nuclear, onde a civilização foi quase completamente destruída. E os sobreviventes de diferentes origens, se encontram em um ambiente envenenado e perigoso dominado por facções, disputas e um passado que foi esquecido.
Com a direção principal de Jonathan Nolan e Lisa Joy, a série amplificou a mil, a noção que eu tinha sobre o retro futurismo dos anos 50, com uma estética visual impressionante, combinando elementos de sci-fi, com um mundo medieval, pistoleiros, num tom sombrio e satírico, onde o extremo inocente dos anos dourados é devorado por uma hecatombe global, que jogo o mundo no banco do passageiro dos filmes do Mad Max.
A produção da Amazon MGM, Bethesda e Game Studios é rica em detalhes, capturando a essência dos jogos, dando vida à vida a um mundo vibrante, mas terrivelmente desolador. A série nos envolve com personagens icônicos como Necrótico (Walton Goggins), Lucy MacLean (Ella Purnell) e Maximus (Aaron Moten). Sobreviventes que vivem realidades diferentes, mas que acabam se trombando, não pelo acaso, mas por consequências terríveis de um passado que vai se revelando lentamente.
Lucy é a inocência pura, fruto da cultura empacotada dos anos 50, sua bondade as vezes se mistura a uma burrice angustiante, que num mundo apocalíptico, é fatal. Mas sua honra e caráter, criou uma bravura nata, coisa que deixou de existir na Sodoma destruída que virou os EUA. Ela representa a ingenuidade de uma época, acreditando nas "Regras de Ouro" do Cofre 33. Quando seu pai Hank (Kyle MacLachlan) é sequestrado pela líder de superfície Moldaver (Sarita Choudhury), ela sai para o mundo achando que pode resolver tudo com educação e diplomacia. O choque de realidade dela faz disso o motor da série.
Maximus, foi o soldado humilhado, que virou escudeiro, que depois cavaleiro, até que o destino o fez herói. A crença medieval de sua Irmandade do Aço, parece ser o fim da humanidade, mas também o seu recomeço, um rebut amargo e cruel, assim como em todas civilizações. Ele vive sob a ética e leis de sua irmandade, mas acaba descobrindo de forma quase fatal, que o poder corrompe, tanto quanto a radiação do planeta.
Agora a imagem máxima de "Fallout" é do Necrótico, um homem, vivo-morto, quase um zumbi, que atravessou eras. Cooper Howard, cowboy de TV, viu seu mundo desaparecer durante a crise, vendo sua esposa fazer parte de algo terrível que ajudou a causar a por fim ao seu mundo e o mundo de todos. O resultado de sua aparência é ainda um mistério, mas durante a série muita coisa é mostrada. Cruel, sem bondade, amor, alma e espirito, ele é pistoleiro o solitário e imortal, aqueles que vemos sendo contratos nos filmes de faroeste. Ele é a ponte entre o passado glorioso e o presente podre, sua habilidade é absurda e junto com sua condição de quase zumbi e armas futuristas, Necrótico vira quase um demônio.
Sobrevivência, moralidade em tempos de crise e as consequências da guerra, o contraste entre a vida antes da catástrofe e a realidade brutal do mundo pós-apocalíptico é um dos focos centrais da trama, mostrando de forma alarmante a fragilidade da civilização com seus interesses degenerados, que antecedem a fatídica destruição da civilização (a reunião das corporações me lembrou a reunião na ONU em 2014, com os representantes dos EUA, Inglaterra, Austrália, China, Japão, Brasil e outros, sobre um tal de Covid. Com simulações sobre o alcance do vírus, mortes, vacinas e quais países estariam na frente de tudo. Estava tudo em PDF no site da ONU pra todo mundo ler. Hoje, já sabe.)
A primeira temporada de "Fallout" é uma introdução envolvente ao universo dos jogos que mais uma vez eu não joguei (meu Deus, como eu sou ruim em games!), oferecendo uma narrativa rica, personagens complexos, numa história critica e envolvente. Combinando ação, humor, crítica social, ideologias politicas, religião que a levaram a quebra de toda civilização como foi mostradas em grandes filmes de pós apocalipse como "Planeta dos Macacos", "Mad Max" e Fuga de Nova York.
Mas algo de "O Globo de Prata" ficou escancarado para mim nessa série; o filme de Andrzej Zulawski, está entre as obras mais conturbadas da história do cinema, por ter sido confiscada e quase toda destruída pelo regime comunista, justamente por tocar no seu câncer. A trama do diretor polonês, fala sobre um grupo de astronautas, que fogem e caem num planeta quase desabitado, onde eles acabam repetindo as mesmas barbaridades praticadas na Terra, com a guerra, religião, politica, violência e morte. Mostrando que mesmo no passado, no presente e no futuro, os valores da nossa civilização, ainda criam os mesmo problemas, provando então que o mal está acima de tudo está dentro de nós. E não fora.
Seja qual for o apocalipse, ele é apenas as consequências das loucuras e ilusões disso tudo.
Tem Alguns Spoilers...
Se a 1ª temporada de Euphoria foi o surto da droga, a segunda é a falência múltipla dos órgãos. Sam Levinson abandona o neon e mergulha num âmbar sombrio, onde Rue não é mais a cronista charmosa, mas um animal acuado em busca da próxima dose. A beleza técnica continua, mas sem o espetáculo visual, servindo para filmar o desmoronamento dos personagens, com arcos dramáticos, amorosos e violentos e uma peça de teatro que vira o tribunal dos pecados, onde todos são culpados.
A série perdeu o brilho elétrico e todo impacto visual, se transformando num cinema cheio de texturas, com cenários mais simples de estúdio, com imagens granuladas e amarelada, não parecendo mais o êxtase de uma festa, mas o registro lento de histórias que podem preencher boletim de ocorrência numa delegacia.
Se a narração da Rue, capturava a minha atenção com sua poesia de sarjeta, agora ela expressa as consequências de suas ações de forma visceral, onde ela se torna a vilã dela mesma. Os primeiros episódios cansam muito por mostrar apenas o maldito triângulo amoroso de Cassie, Nate e Maddy. A boneca inflável Cassie, se torna a personificação do desespero por ser amada, a traição com o Nate destrói a amizade com a Maddy e a transforma numa figura quase psicótica, que se esconde atrás de roupas e maquiagens perfeitas.
Desprezada, vazia e sem o seu garanhão para desfilar, Maddy descobre que sua antiga armadura de aparências agora era uma carcaça que não a protege mais de quem ela queria ser. A cena dela confrontando a Cassie é um dos ápices do sangue nos olhos da temporada. Mas o coração da temporada é o episódio 5ª, na explosão nóia de Rue, que foi a sequência mais impressionante e alarmante de toda série.
Pra quem glorifica as drogas, esse foi não um soco no estomago, mas uma verdadeira surra que se precisava levar. Enlouquecida, possuída, alucinada, violenta, covarde, fora de si. "Cadê minhas drogas mãe? Sala destruída, quarto arruinado, porta arrombada. Cadê minhas drogas mãe? Me perdoa mãe. Eu te amo. Cadê minhas drogas?" Foi um inferno.
E no meio do desespero do vicio, a introdução da traficante Laurie traz um horror gelado, mostrando que o perigo não é mais uma overdose acidental, mas as consequências do tráfico, com sua violência brutal para quem entra pros seus negócios. Coisa que deu ao arco de Fezco com a Lexi, um inesperado amor bandido, coisa quase de novela das oito, que tornou o final de assalto com tiroteio final e o trágico destino do Ashtray que fecha a temporada com o som de balas e desespero, mostrando que no mundo real, a conta sempre chega.
Ao mesmo tempo que o destino de Fezco e de seu irmão, eram traçados, Lexi deixava de ser a observadora para ser a diretora. A peça de teatro no final da temporada foi algo que não me agradou. Coloca os personagens para assistirem à própria miséria, parece impactante para os personagens, mas para quem assiste, chegou a ser até cafona. Ver esse momento em que a ficção da série confronta a realidade dos personagens dentro da tela não me impactou, na realidade me decepcionou bastante.
O desfecho teatral da peça de Lexi, a tragédia de Fezco e seu irmão, o surto da família Jacobs, com o pai soltando a franga e a paranoia de Nate, sua relação com Cassie e Maddy, renderam bons momentos. Mas essa "Euphoria" de Sam Levinson, mesmo com a nóia apocalíptica da Rue, não chega perto da apoteose visual e do roteiro marginal, da temporada anterior. Parece até que essa sequencia foi feita pra Netflix e por outro diretor, porque até os personagens ficaram desinteressantes, com arcos normais de adolescentes em crise.
No fim das contas, a 2ª temporada de "Euphoria" é o preço que se paga pelos excessos. Enquanto a Rue de Zendaya alcançava o topo da atuação mundial em meio a escombros do seu vicio, o restante da série se perdia em holofotes de um teatro igual ao que a Lexi mostrou em sua peça. Saímos do brilho do glitter para o amarelado de um filme antigo sem muita expressão, onde as dores dos personagens, não estiveram a altura de suas histórias. A mudança pra película, não foi suficiente para superar o brilho neon visceral mostrado antes. Saímos do brilho do glitter para o amarelado de um filme antigo, mas a nostalgia não foi suficiente para esconder que, quando o choque passa, o que sobra é apenas o vazio de adolescentes que, entre um tiro e uma traição, parecem ter esquecido como era sentir a verdadeira euforia de seus dias passados.
Últimos recados
Valeu!
aaah muito obrigada, vagner! seja bem vindo também! 😊
Se a 1ª temporada de "Fallout" foi a descoberta brutal de um novo mundo, a 2ª é um passeio em suas ruínas. A série continua impressionando com os trabalhos de fotografia, design de produção e pelo cuidado estético que, por vezes, se perdem na própria perfeição, mas faltou algo na história que provocasse aquele estouro em cena, aquelas coisas que marcam o coração de quem assiste.
A narrativa caminha em banho-maria durante a maior parte dos episódios, guardando toda a sua força para uma explosão final que, embora espetacular, deixa um gosto de "quero mais", não pela excelência apresentada, mas pelo tempo que se levou para chegar lá. É uma obra longe de ser ruim, mas que sofre do mal da "sequência de transição", onde a técnica brilha mais do que a coragem de arriscar algo genial no roteiro.
A 2ª temporada de "Fallout" procura expandir seu mundo apocalíptico com uma coerência justa e louvável, mas acaba deixando a desejar demais, esquecendo de enriquecer a trama e seus personagens. A decadente New Vegas parece ser a Terra Prometida da série, porém nos episódios acaba sendo apenas mais um "bom" capítulo antes do fim.
A verdadeira guerra civil deixa de ser por sobrevivência, revelando-se ser por controle de todos, com a trama mostrando o velho cenário de pós-apocalipse onde o ser humano cria novos deuses apenas para ter alguém a quem culpar quando tudo colapsa novamente. Os personagens cresceram, mas permanecem presos a emoções pequenas, quase sem drama, mas com aquele bom humor que é a cara das produções de hoje.
Lucy MacLean (Ella Purnell) não é mais a boneca de porcelana do Cofre. Sua transição para uma sobrevivente real de mundo zumbi é o ponto alto dela na trama. Ela começa a entender que ser boa num mundo do capeta não é virtude, é sentença capital. A violência, a brutalidade, é o mal necessário para se ter e chegar a qualquer lugar.
O Necrótico (Cooper Howard) continua impiedoso, imoral, ruim e traidor, sendo o fio maldito que conduz toda a trama, mas sendo menos pistoleiro e mais um contador de histórias. Ele é o único que lembra do gosto do mundo antes das bombas, mas com um peso nas memórias que tornam suas ações trágicas e carregadas de drama.
Maximus (Aaron Moten) vive agora num terreno perigoso. O herói que queria a armadura agora tem que lidar com o peso de que o poder não traz a justiça que ele almejava, apenas uma nova forma de tirania que o faz confrontar seus paradigmas, fazendo crer que todos os heróis, se não morreram de overdose, morreram nas explosões.
A produção manteve o nível técnico incrível da temporada anterior, desta vez com a fotografia um pouco mais saturada, mais suja, do que na temporada passada. A direção de arte consegue equilibrar o deserto de Mad Max com aquele visual anos 50 da Las Vegas clássica, tentando, no desespero, fingir que a civilização ainda existe. É um cenário de fim de festa permanente, com a morte e o apocalipse dando play em algum momento.
Enfim, a 2ª temporada de "Fallout" não é uma série sobre salvar o mundo, mas sobre assistir um mundo se definhando enquanto se mantêm as aparências. Na 1ª parte, eu me perguntava qual foi a causa desse apocalipse; agora, aqui, eu vejo que esse apocalipse nunca terminou; ele mudou de formato, trocando a radiação por guerra de facções quase impossíveis de se imaginar. Fazendo com que as lembranças dos dias antigos sejam apenas lembranças que servem para tornar o presente ainda mais insuportável.