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Jogos Vorazes: A Esperança, parte 1
Tem Alguns Spoilers...
"Are you, are you coming to the tree?
Where they strung up a man they say who murdered three
Strange things did happen here, no stranger would it be
If we met at midnight in the hanging tree
Are you, are you coming to the tree?
Where a dead man called out for his love to flee
Strange things did happen here, no stranger would it be
If we met at midnight in the hanging tree"
"Jogos Vorazes: Esperança – Parte 1" larga o freio de mão e mostra o lado mais feio, cinzento e claustrofóbico da política. Aqui não tem arena com relógio tecnológico e praia artificial; a arena agora é o mundo real, cheio de escombros, ossos humanos calcinados e cheiro de pólvora. É o filme mais rústico da franquia, onde a violência sai da TV e vai pro meio do asfalto, mostrando o estômago podre de uma revolução que precisa ser fabricada mais no grito, do que na bala.
A história pega a nossa Katlin Everdeen (Jennifer Lawrence), com o coração cuspindo ódio e trauma de pesadelos quase reais; e escondida nos subsolos de concreto do Distrito 13, ela tenta esquecer o pesadelo. O lugar parece um bunker da Guerra Fria: todo mundo usa uniforme cinza de operário, come lavagem de ração militar, obedece à fria Presidente Alma Coin (Julianne Moore, com aquele cabelo milimetricamente cortado na régua que já avisa que ela é farinha do mesmo saco do sistema).
Coin e o sábio Plutarch (Philip Seymour Hoffman) querem usar Katniss como arma de propaganda, o "Tordo" da revolução, para unificar os distritos na porrada. Mas Kat tá com o chassi amassado de dor, porque o Peeta Mellark (Josh Hutcherson) ficou para trás e está sendo usado pelo velho Snow (Donald Sutherland) na televisão da Capital, magro, pálido e com o cérebro lavado pela imprensa deles, pedindo paz enquanto o exército desce o chicote no peão. É o espetáculo da narrativa contra a realidade da guerra!
O filme é um tratado espetacular sobre como a mídia constrói ou destrói um herói. Quando botam a Katniss num estúdio de chroma key para gravar um comercial de revolução, fica uma bosta engomada e falsa. O Haymitch (Woody Harrelson, rústico e mestre) joga a real: "Ela só funciona no terrão, no calor do sangue!". Aí a diretora Cressida (a linda Natalie Dormer, com a cabeça raspada) leva a equipe de filmagem direto pro hospital de campanha do Distrito 8, lotado de feridos e amputados.
Quando o Snow descobre, manda os explodir o hospital com todo mundo dentro. E no meio do fogo, da fumaça e da carniça, a Katniss bota a flecha no arco, derruba o caça da Capital e solta o grito que explode o concreto da Capital, e põem fogo na revolução:
"Se nós queimarmos, vocês queimarão conosco!"
O elenco dá um show de atuação, com cenas de fazer inveja a muito filme na época. O saudoso Philip Seymour Hoffman entrega uma das suas últimas atuações na malandragem política, o cara é um monstro do cinema e faz muita falta na tela. Julianne Moore é uma bruxa de atriz! Todo filme que ela faz, ela hipnotiza. Você desconfia da presidente Alma Coin, mas não acredita no que sente porque Julianne nao deixa. Ela te prende o tempo todo com aquele olhar frio e aquele papo de político de palanque.
O contraste visual é um soco no queixo: o Distrito 13 cinzento, sem cor, com cheiro de óleo diesel e poeira, contra o luxo decadente da Capital que está começando a ver o reboco do teto cair. A cena do Distrito 5, onde os operários avançam cantando "The Hanging Tree" (A Árvore Forca) e se explodem junto com a represa elétrica para apagar a luz do palácio do Snow, é puro suco de adrenalina de guerrilha!
O final da primeira parte é de uma amargura de corredor da morte. Os rebeldes conseguem resgatar os ex-BBBs sequestrados, mas quando a Katniss vai dar aquele abraço de carne e saudade no Peeta, o moleque está tão louco e com o juízo tão virado pelo veneno de Bestante da Capital que pula no pescoço dela para estrangular a mina até a morte!
O filme fecha com o Peeta amarrado numa maca, babando de ódio, e a Katniss olhando pelo vidro com os olhos cheios de sangue, sabendo que para salvar o braço do sistema, ela vai ter que arrancar a cabeça do Velho Snow na base do facão. É o gancho perfeito para a guerra total!
"Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1" é um puta filme! Sob a direção perfeita de Francis Lawrence, o ritmo desacelerado dá mais realismo e intensidade para a história. O filme envelheceu como os salgueiros tristes da canção pra Rue, deixando de ser um reality show pop para virar um uma revolução política violenta, covarde e desesperada.
Tem Alguns Spoilers...
Se o primeiro filme foi o gongo soando pra avisar que o povo tava com fome, "Em Chamas" chega com o diretor Francis Lawrence metendo o pé no peito da sociedade e injetando nitrometano na veia da franquia.
"Jogos Vorazes: Em Chamas" é um thriller político de guerra, rústico, pesado, onde a faísca Katniss Everdeen vira um tornado de fogo, que incendeia o curral inteiro de Panem. O filme morde a jugular da gente num ritmo tão violento que o concreto da Capital racha logo na pprimeira flecha.
Logo após Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) quase se matarem com as amoras. Eles achavam que iriam curtir a vitória e ter uma relativa paz, mas o Presidente Snow (Donald Sutherland, gelado como o aço de uma peixeira) bate na porta dela com o cheiro de sangue e rosa branca na boca. O velho joga a real na mesa: ou eles convencem os distritos de que o amor deles é real na turnê dos vitoriosos, ou o governo explode a família de todo mundo.
A partir dali, a grama seca, a terra vira pó e as matas se incendeiam. Os louros da vitória, viram crisântemos de uma tumba. Katniss e Peeta viram escravos do sistema e são obrigados a servir suas vontades. O clima fica claustrofóbico e tenso, a viagem deles pelos Distrito, viram a propaganda perfeita do sistema, que vence tudo e controla todos com a ternura de um carrasco.
O contraste é uma voadora no peito; eles visitam o Distrito 11 e o peão está comendo terra sob a bota de ferro dos Pacificadores, enquanto na Capital os progressistas tomam uma bebida para vomitar a janta só para poderem comer mais na festa da elite. É o estômago podre do mundo escancarando suas almas de carniça em horário nobre!
Como a Ketlin não nasceu para bater palma pra ditador, o grito dos esquecidos ecoa forte. O idoso do Distrito 11 dá o sinal do Torto e acaba executado com chumbo na cabeça na frente de todo mundo. Ali, o asfalto racha! Katniss é um símbolo, seu nome é tão grande que nem as mentiras do sistema conseguem apagar, com os discursos de obediência e ordem que o casal é obrigado a fazer, sob pena de morte pros seus entes queridos.
Vendo que a narrativa da imprensa não tá segura a fúria da classe trabalhadora, o Snow e o novo Idealizador dos Jogos, Plutarch Heavensbee (o genial Philip Seymour Hoffman) mudam as regras do jogo. Para o aniversário de 75 anos dos jogos, o sorteio do Massacre Quaternário vai pegar os vencedores das edições passadas para se matarem na arena! Tudo pra apagar a imagem da Katniss e Peeta, que agora são os símbolos da resistência.
O elenco de veteranos que entra arrebenta com o filme: Finnick (Sam Claflin) com seu tridente, a invocada Johanna Mason (Jena Malone) tirando a roupa do sistema dentro do elevador, e o mestre dos fios Beetee (Jeffrey Wright). Quando o gongo soa na nova arena na praia tropical tecnológica que parece uma gaiola de rato, o filme solta outra flecha na tela! O diretor filma a ação com uma câmera pesada, rústica, sem poesia do primeiro filme, mostrando ação, tensão e suspense.
O mato que morde a perna, névoa que queima a pele, macacos assassinos de computação gráfica que matam e a chuva de sangue na hora certa do relógio, passaros que gritam em desespero, os nomes da nossa familia. Sim, alem de outros oponentes cheio de ódio, a ideia dos jogos era matar (Katniss) os participantes de todo jeito.
Mas o grupo de Katniss tinha um plano! Só que Katniss e a gente não sabia. E o Snow também tinha o seu, mas a Katniss também não sabia. Tudo se caminhava para que seu nome caísse na lama. Ateé que a garota bota a flecha de titânio no arco, amarra o cabo de aço direto pro raio que cai na árvore e atira na Matrix do teto da arena! PUTA QUE PARIU! O céu de concreto estilhaça, a computação gráfica entra em curto e o sistema do Presidente Snow é nocauteado com 50.000 volts de pura audácia!
O filme fecha com uma dignidade brutal! Katniss acorda no aerodeslizador dos rebeldes, toda machucada e fudida. E descobre que a revolução, já tinha começado. Não na flecha que ela tinha lançado no teto, não com as amoras venenosas, mas no momento que ela tinha tomado o lugar da irmã. Katniss era o Tordo.
"Jogos Vorazes: Em Chamas" envelheceu como os salgueiro tristes da canção para Rue. O filme de Francis Lawrence, mantém a gente amarrado no sofá do início ao fim, com uma trama tensa, nervosa, dramática e cheio de ação. A produção, os efeitos especiais, o CGI, continuam fabulosos. O elenco arrebenta e a Jennifer Lawrence arrepia em cada cena.
Eu assiti no cinema, na cena da flechada no teto, pensei que a sala explodiria. Tenho o ingresso até hoje e o DVD guardado à sete chaves.
Últimos recados
Obrigado amigo, você é um amigo!
Valeu!
aaah muito obrigada, vagner! seja bem vindo também! 😊
"A esperança é a única coisa mais forte que o medo."
— Presidente Snow
Olhar o desfecho de "Jogos Vorazes" e enxergar apenas um triângulo amoroso ou o brilho artificial dos efeitos especiais é assinar o atestado de que a Panem te venceu. Por trás do espetáculo visual de explosões e do figurino de gala, o que existe é uma autópsia cirúrgica do mundo real. Uma crítica brutal sobre como as estruturas de poder se sustentam no topo, independente de quem ganha ou quem perde no tabuleiro dos jogos de poder do nosso mundo.
A armadilha do sistema é nos fazer acreditar em lados. Ele cria a ilusão da esquerda e da direita, pinta os extremos com cores chamativas e divide a arquibancada para que o povo se estraçalhe enquanto o camarote do poder continue intacto. Na verdade, esses lados são apenas os dois braços de um mesmo corpo oculto. O sistema se reorganiza com uma facilidade assustadora: ele entrega a mão para salvar o braço, cria novas lideranças, financia novas promessas e se finge de aliado para continuar governando o curral.
A verdadeira tirania não veste apenas o terno impecável e gélido de uma ditadura conservadora como a do Presidente Snow; ela também se esconde atrás do discurso inflamado, populista e oportunista de palanque de uma liderança rebelde como Alma Coin. No final, as duas pontas se encontram no mesmo estômago podre da sede de poder.
É nesse cenário de manipulação midiática que a figura da Katniss Everdeen quebra a banca. Ela é a anomalia que a máquina não previu. Ela não passou por quartéis, não decorou cartilhas ideológicas e não treinou para ser um mito. O sistema tentou enjaulá-la em estúdios de chroma key, cobri-la de maquiagem e transformar sua dor num comercial de TV engomado e falso. Mas o herói de verdade não nasce em laboratório de marketing; ele é forjado no terrão, no calor do sangue, no horror do hospital de campanha.
A revolução real da Katniss começou no exato momento em que ela deu um passo à frente para proteger sua irmã caçula da barbárie. Foi uma atitude humana, rústica e desesperada contra homens maus. O resto foi a história sendo escrita pela força bruta da realidade, por alguém que tinha o grito de liberdade preso na garganta, mas que precisou lançar suas flechas no teto e nos corações das pessoas, para incendia-las.
O contraste visual da saga é o reflexo da nossa própria sociedade. De um lado, os distritos de operários, onde o trabalhador parece aprisionado no poço escuro e cinzento do século XIX, sufocado pelo cheiro de óleo diesel e pela poeira do carvão. Do outro, a Capital, um extremo progressista artificial, dominado pelo espetáculo da informação manipulada, por desejos fúteis e por uma beleza morta.
É o conforto da Matrix que alimenta e anestesia os dominadores enquanto os dominados sangram na invisibilidade de escravo do seu dia a dia. Mas na história, toda ditadura e regime tem seu fim: quando o abuso de um lado transborda, a revolta do outro racha o asfalto. Quando a massa acorda e avança cantando contra a opressão, as luzes dos palácios se apagam no medo.
Por isso, o desfecho dessa jornada é foda. Para destruir o monstro, não basta cortar a cabeça e trocar o tirano do trono; e cravar a flecha direto no coração da estrutura. Quando a mira da flecha da Katniss muda de rumo no meio da avenida lotada, a narrativa desaba e o sistema leva um choque de realidade. A Matrix caiu, a flecha não acertou só o coração do novo dono do curral, mas na mente de todo rebanho, que tinha lutado pra ser livre, mas que agora beijava as mão de um novo carrasco.
O exílio final na natureza, o silêncio do Distrito 12 em ruínas e o olhar profundo de quem carrega cicatrizes eternas no peito dizem tudo: a paz não vem com bandeiras ou discursos de vitória no rádio. A paz é o direito sagrado de voltar para a terra, cuidar dos seus e cantar uma canção de ninar para que as próximas gerações nunca se esqueçam de quem foi usado como peão no faminto jogo do poder.