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⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Uma coisa que a ficção científica moderna nos ensinou é que uma boa premissa visual pode virar uma armadilha mortal nas mãos de um roteiro indeciso. Dirigido pelo argentino Juan Diego Solanas, "Mundos Opostos" tenta erguer um universo grandioso, mas acaba trocando a física e a geopolítica por um romance meloso de banca de jornal que substitui Albert Einstein por Nicholas Sparks.
O conceito até começa instigante: dois mundos gêmeos sobrepostos, colados no mesmo latifúndio cósmico, onde cada um possui sua própria gravidade e realidade social. De um lado, está o mundo cinzento, operário, sujo e infeliz do protagonista Adam (Jim Sturgess); do outro, a metrópole rica, iluminada e corporativa de Éden, interpretada pela dona do "beijo do século dos anos 2000", Kirsten Dunst — que faz milagre para entregar um pouco de dignidade a um papel tão raso. O drama explode quando os dois se apaixonam na juventude e passam anos separados, até Adam ver a amada pela televisão e decidir invadir o mundo de cima a qualquer custo.
A partir daí, a vaca vai pro brejo com força total. Para invadir o mundo de cima, o novinho apela pro contrabando de matéria-prima do planeta vizinho e costura um terno para enganar a gravidade — uma engenhoca estranha que esquenta no corpo até começar a pegar fogo. E a tal geleia rosa? É uma receita mágica da falecida avó dele que equaliza a matéria dos dois mundos, e por causa dela ele arruma um emprego na firma de lá. Para piorar, toda a estética do filme abusa de um CGI apelativo e datado, forçado com excesso de luzes fortes e filtros brilhantes que parecem tinta de placa de anúncio de estrada.
No elenco tem uma turma boa, com destaque pro grande Timothy Spall (eterno Rabicho de "Harry Potter"), que traz um peso como amigo de Adam. Contudo, nada salva a narrativa de virar uma correria maluca dentro de um pote de açúcar, do casal tentando ficar junto, mas a físicaloca não deixa. Só a geleia milagrosa do Nicholas Sparks.
"Mundos Opostos" começa prometendo uma distopia conceitual instigante, mas se esgota rapidamente sob o peso de um CGI artificial, um romance exaggerated e uma geleia que derrete qualquer vestígio de lógica. É uma bomba romântica maquiada de ficção científica pretensiosa.
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Se em dramas existenciais o tempo é um fardo silencioso, em "Mate ou Morra" o looping temporal é uma arena de massacre ininterrupto de sangue, adrenalina e mortes quase sem fim. O diretor Joe Carnahan pega a premissa incrível de "Feitiço do Tempo" e a injeta gasolina e uma estética de videogame frenética, e entrega tregando um dos entretenimentos de viagem no tempo mais loucos, violentos e divertidos dos últimos anos.
No centro do caos está Frank Grillo (Roy Pulver), um ex-agente especial condenado a acordar todos os dias às 7h00 da matina já desviando de um helicóptero e de assassinos dentro do seu quarto. A graça do filme não está em tentar ser profundo, mas na matemática da tentativa e do erro: Roy morre dezenas vezes e de formas grotescas até aprender cada movimento dos seus carrascos. Entre perseguições alucinantes, tiroteios e duelos de espada sensacionais — o treinamento com a lendária Michelle Yeoh para derrotar a ninja cortadora de cabeças é foda —, a narrativa ganha corpo sem nunca perder o ritmo. O elenco ainda conta com Mel Gibson como um vilão corporativo debochado e Naomi Watts dando o suporte científico para a insanidade da máquina, o "Espelho de Osíris".
Por trás de tanta pancadaria, o filme encontra uma camada surpreendente de humanidade no passado de Roy. Homem acostumado à violência e pai ausente, ele percebe no looping a sua única chance de redenção, usando o tempo infinito para se reaproximar do filho que mal conhece. As cenas em que ele simplesmente para de fugir para passar tardes inteiras com o garoto em uma casa de arcade dão mais coração à narrativa, transformando um brucutu em um pai que tenta recuperar os anos perdidos no meio do apocalipse diário.
Quando a história exige o clímax, a produção engata a última marcha numa corrida frenética contra o fim do mundo. Sabendo que tem minutos contados para impedir que a máquina destrua o planeta e salvar a mulher que ama, Roy transforma o aprendizado de centenas de mortes em um balé de violência cirúrgico, enfrentando o exército do vilão em um pico de adrenalina puro.
Com a narração afiada de Frank Grillo, humor ácido, muita violência e uma execução técnica impecável, "Mate ou Morra" entrega um cinema pipoca de alto nível, que sabe usar todos os clichês de ação e de looping temporal pra nos divertir do início ao fim.
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Às vezes, os filmes de viagem no tempo adoram fritar os neurônios dos nossos cérebros. São horas de diálogos sobre mecânica quântica, buracos de minhoca, maletas, máquinas, carros e exterminadores. É justamente por fugir dessa pirotecnia que o sci-fi britânico "Questão de Tempo", do Richard Curtis, se consolida como uma das obras mais elegantes do gênero nos últimos anos.
Aqui não tem DeLorean atingindo 88 milhas por hora, Skynet, diários de dor e pó mágico. A regra da viagem no tempo na família do jovem Tim (Domhnall Gleeson) é simples: basta entrar no guarda-roupa Marabrás inglês, fechar os olhos, apertar os punhos e pensar no momento exato pra onde quer voltar. Com esse dom na mão, o protagonista tenta resolver o óbvio: consertar as cabaçadas amorosas de Ano Novo, até a paixão de verão pela linda Margot Robbie.
Contudo, o grande mérito do roteiro é não escorregar no quiabo — ou melhor, nos ponteiros do relógio das tramas do gênero. Enquanto a maioria das histórias de viagem temporais se perde em paradoxos gigantescos, com efeitos especiais monstruosos e CGI até a tampa, o filme do Richard Curtis se mantém focado nas miudezas da vida cotidiana, com as pretensões domésticas de um jovem que virou adulto, esposo e pai, e que sonha apenas com uma vida feliz com sua família.
A química de Domhnall Gleeson com Rachel McAdams funciona no timing exato; os dois se dão muito bem em cena, onde misturam drama e um romance agridoce, até que situações difíceis surgem pra tirar a felicidade quase atemporal do longa. É na relação do protagonista com o pai (vivido de forma magistral por Bill Nighy) que o filme encontra sua verdadeira alma. Além da descoberta e dos conselhos de que certas escolhas cobram um preço — das regras biológicas às viagens temporais —, a comédia romântica despretensiosa se transforma num drama profundo sobre o luto e a finitude.
Sem precisar de um único centavo em efeitos digitais mirabolantes, "Questão de Tempo" equilibra de forma brilhante o humor britânico da boa etiqueta com uma melancolia sutil e devastadora. Tudo numa ficção científica humana, precisa e que prova que um bom roteiro e um guarda-roupão escuro valem mais do que qualquer supercomputador louco de Hollywood.