No saudoso início dos anos 2000, o mundo dos videogames foi assombrado por um fenômeno: todo mundo ficava louco, se acabando em casa com as madrugadas em claro jogando o clássico da Capcom. Quer dizer, todo mundo menos eu. Eu não era o viciado do joystick, mas conhecia muito bem a história.
"Resident Evil: O Hóspede Maldito", me impressionou muito na época por causa disso. O filme era muito próximo do jogo. O visual da Milla Jovovich com o icônico vestidinho vermelho e bota longa, ficou perfeito na tela. E para melhorar, escalaram a minha musa Michelle Rodriguez, pra fazer aquela parceria bruta de duas mulheres fodona que s desce o sarrafo em mutantes.
O diretor Paul W.S. Anderson teve uma ideia de ouro nas mãos, mas a verdade precisa ser dita: o filme não teve o cuidado que merecia por parte do estúdio. A produção acabou virando um "B Movie", um verdadeiro "thrasão" de luxo, por pura negligência e medo da própria indústria de games. Na época, os engravatados tinham um receio ridículo de que um blockbuster pudesse afastar as pessoas dos jogos caso desse errado. Uma tremenda bobagem.
O resultado disso? Ganhamos um filme divertido de baixo orçamento, com uma computação gráfica fraca pros padrões de Hollywood (aquele monstro no final parece um boneco de Olinda feito de plástico derretido) que tem uma história fácil e rasa, mas que carrega aquele charme da época.
Se eu analisar friamente, fico imaginando o que teria acontecido se a produção tivesse caído mais pro lado do terror psicológico e do suspense cerebral, com um orçamento de primeira linha e um clima mais claustrofóbico dentro daquela mansão escura. Teria sido uma obra-prima de dar pesadelos até pra quem jogava o jogo escondido na madruga.
Mas quer saber de uma coisa? Na época em que assisti — e revendo depois, eu me diverti para caramba. Então, foda-se os defeitos! O cinema também é feito para desligar o cérebro e curtir a correria.
A cena do corredor de lasers da Rainha Vermelha, no laboratório, com aqueles cubinho de luz fatiando o pessoal das forças especiais igual queijo muçarela, não me saem da retina até hoje! Aquilo foi lindo! E a forma como o filme acaba é genial. Aquela imagem final com a câmera subindo, mostrando a Alice armada e a cidade de Raccoon completamente de cabeça para baixo, devastada e deserta, é sem dúvida uma das cenas mais impactantes e inesquecíveis que eu já vi num VHS de locadora!
"Resident Evil: O Hóspede Maldito", é mais um clássico da época que a gente respeita e sempre volta para assistir. O Paul W.S. Anderson que depois virou marido da Milla Jovovich, garantiu a franquia e a esposa no mesmo combo, acertou a mão demais nesse primeiro. Ele pegou o jogo de videogame mais famoso do mundo e em vez de tentar copiar o jogo tela por tela, criou algo novo, mas que representa-se o game.
Os filmes de zumbis no cinema eram aqueles bichos lerdos, arrastando os pés, que o George Romero consagrou nos anos 70 e 80. O Danny Boyle olhou para aquilo e falou: "Não, no meu filme o vírus é a Raiva, e esses caras vão correr igual ao capeta!".
Em "Extermínio" ou "28 Dias Depois" (titulo original de locadora), foi a primeira vez que eu vi aqueles infectados correndo na rua, babando sangue e berrando com os olhos vermelhos de ódio. Isso dá um desespero real e genuíno; pra mim isso era novo. Eles não querem só te estraçalhar, eles querem te comer vivo e devagar.
A sequência de abertura, com o Cillian Murphy acordando num hospital e encontra a frenética capital da Inglaterra totalmente abandonada, silenciosa e suja, foi foda. A imagem dele vagando por uma Londres fantasma, em pleno silêncio, é uma das coisas mais impactantes da história recente do cinema. É uma sensação de solidão e abandono total, que aperta o peito. Parece o centro de São Paulo no domingo de madrugada, só que mil vezes pior.
A estética é suja, Danny Boyle gravou quase o filme todo usando câmeras digitais bem baratas para a época, fazendo que que a imagem ficasse granulada e tremida. Jogando quem assisite direto pros anos 90, num caos quase que sem fim. Os críticos chiaram na época, mas isso foi o que deu ao filme uma cara de documentário real de fim do mundo gravado ao vivo.
A primeira metade do longa é incrível, ela mostra o grupinho de sobreviventes tentando escapar desse apocalipse com os infectados colados nas botas deles. Cillian Murphy e Naomie Harris entregam tudo e viram a alma da história. Mas o cinema zumbi também é feito de tragédias marcantes, como o destino do personagem de Brendan Gleeson, que leva aquela inesquecível gotinha de sangue infectado direto no olho. Foi de quebrar o coração até dos zumbis.
Danny Boyle entregou uma escala de ação nunca antes vista no gênero. É um festival de violência, mortes terríveis na base da paulada e tiros na cabeça. Hoje em dia a gente se acostumou a ver multidões de zumbis na TV, mas foi essa obra que pavimentou o caminho de ferro para tudo o que veio depois.
Mas a história dá outra guinada de doido quando o grupo encontra a base do exército. Ali, o vírus cede espaço para uma terra sem lei, um mundo pré-Mad Max total. Se já é difícil lidar com o apocalipse de um vírus mortal, imagina ter que lidar com um apocalipse militares estupradores? Os soldados, liderados pelo sempre traíra Christopher Eccleston, piram no ovo estragado e mostram que a bestialidade humana consegue ser muito pior e mais cruel do que qualquer monstro babando ódio.
"Extermínio" do Danny Boyle, mudou tudo! É um clássico absoluto e visceral que não pode ser esquecido por nenhum fã de carteirinha de filmes de terror, zumbi e sci-fi. É cinema genial, sujo e obrigatório.
Se continuar um clássico já é uma missão ingrata no cinema, para John Krasinski essa foi sequência foi pura capacidade de cienasta que sabe a obra que cria, como um pai que sabe os filhos que tem.
"Um Lugar Silencioso: Parte II", nos jogas logo pro dia da invasão, mostrando um jogo de basebol de uma tarde americana qualquer. Os bichos caindo dos céus como anjos caídos, mostra de forma biblica, imagens muito conhecidas no mundo do sci-fi, mas que sempre impressionam quando vistas.
Esse bastidores que sempre queríamos ver, não decepcionam! O ataque veio instantaneamente depois que os alienígenas tocaram o solo. E foi alucinante! Um mundo que desconhecia a forma que eles atacavam, foi devastado com uma violencia banal. Pessoas foram mortas sem saber porque foram. E a família Lee, voltando do basebol com cachorro quente, filho no jogo, e sorrisos de felicidade, teve o inferno roubando tudo na cena dos carros, onde o diretor não poupou a selvageria dos alienígenas quando alguém fazia qualquer som. Foi alucinante.
Mas logo o filme te joga nos momentos finais do primeiro, com a família em fuga pela estrada de areia, até que ela some pra dar lugar a terra e folhas secas de um caminho incerto, silencioso e perigoso. As lágrimas caídas pela terrível morte paterna, ainda nao haviam secados. Tudo ainda estava vivo e pulsava em dor e uma desesperada tentativa de sobrevivência.
A jornada nos leva até uma fábrica abandonada, um cenário cinzento e triste onde conhecemos o Emmett, interpretado de forma brilhante pelo Cillian Murphy. Ele representa o retrato de tantas pessoas boas que foram quebradas pelas perdas terríveis do apocalipse e agora tentam apenas sobreviver isoladas em seus esconderijos, que no caso de Emmett, era uma tumba de ferro.
Emmett salva Evelyn e os filhos, da morte certa, levando eles pro seu escodeirijo. Mas ele mostra que sua alma quebrou por dentro. A perda da esposa, fez dele um homem traumatizado, que vive no medo e que a espera a própria morte, na forma da fome, da doença e do ataque silencioso dos novos habitantes do planeta.
Ele desistiu da raça humana, por causa dos aliens e por causa dos prorpuros humanos. Ele via os sinais de fumaça da fogueira que Lee acendia na sua fazenda, mas o medo do mundo violento e cruel, o impedia de responder. E acena chocante do pier, mostra esse fim dos tempos, onde os monstros humanos eram piores que os próprios alienígenas. Onde eles usavam pessoas mais fracas como isca pros monstros.
No meio desse caos, a filha mais velha, Regan, toma a decisão arriscada e questionável de partir sozinha atrás de uma rádio que transmite um sinal de esperança. Embora sua coragem seja admirável, ela flertou perigosamente com o erro e quase causou o desastre total de sua família, naquela cena dos vagoes de trem abandonados, que se nao fosse Emmett, ela seria morta. O desespero da mãe, fez do quase eremita ir atrás dela, mas a esperança de vida que a jovem deu a ele, o fez não só abandonar seus planos, como tambem da mãe desesperada na clausura de ferro dele.
Eles finalmente encontram a ilha do radio, um lugar que parece ter saido de um universo paralelo que não sofreu a tragédia dos ataques. Era um verdadeiro paraíso de paz e alegria, com festas regadas a bebidas e churrascos gritando alto na grelha, tudo comandado pelo personagem de Djimon Hounsou. Mas o céu desaba em cima deles novamente. Um monstro vai de carona no barco e transforma esse paraíso, num inferno de mortes e horror em um piscar de olhos.
A correria desgraçada começa! Cenas de horro toma conta do paraíso, o mostro nao perdoa nada, tudo e reduzido a restos de carnes, ao menor ruído. E Emmett, Regan e o Homem da Ilha fogem pra atrair o monstro pra longe da cidade.
Enquanto a ilha é devastada, o filme cria um paralelo desesperador com a mãe e Marcus (Noah Jupe) o filho mais velho ferido e preso no porão da fábrica. O lance do oxigênio acabando dentro do bunker com o bebê chorando, com o bicho a espreita la fora é de arrancar os cabelos, que culmina numa sequência de salvamento espetacular. Com Evelyn tentando impedir a todo custo que a tragédia se repetisse na sua vida, e de forma dobrada.
O desfecho divide a família em duas frentes é de pura adrenalina. Na ilha, a garota consegue usar a torre de rádio para espalhar a microfonia do seu aparelho pelas caixas de som, permitindo que ela e Emmett matem o bicho! Do outro lado na fábrica, o irmão mais velho ouve o sinal pelo rádio e perde o medo que o paralisava, mata a criatura que ameaçava sua mãe.
A família não se reencontra no final, mas as crianças assumem o controle da sobrevivência com maturidade e respeito. Fica agora a enorme expectativa pra o terceiro capítulo dessa franquia que mantém sua essência como uma das poucas e verdadeira pérola do cinema moderno.
"Um Lugar Silencioso" joga a gente direto no dia 89 do apocalipse e dita a sua lei nos primeiros dez minutos, com um soco violento e silencioso no nosso estômago. O erro ali é fatal e custa a vida em dois segundos. Quando o garotinho desavisado liga aquele brinquedo eletrônico e o bip corta o silêncio da ponte, o desespero do pai correndo contra o tempo é inútil. O monstro desce como um raio e leva a criança.
"FAÇA SILÊNCIO OU MORRA"
O John Krasinski operou um milagre na direção ao transformar o silêncio no personagem mais aterrorizante e barulhento do cinemq. O filme consegue passar quase quarenta minutos sem uma única palavra falada, quebrando apenas em momentos cirúrgicos, como a cena belíssima da cachoeira, onde o barulho da água caindo dá ao pai e ao filho o único alívio de poderem falar alto sem morrer.
O grande triunfo da trama é que, por trás do terror dos alienígenas, existe um drama familiar destrutivo, melancólico e com uma ferida aberta que não fecha. A filha mais velha carrega nas costas o peso de se sentir responsável pela morte do irmãozinho, por ter dado as pilhas do brinquedo para ele. Há uma distância dolorosa entre ela e o pai, um sentimento de culpa num ambiente onde eles não podem sequer chorar alto ou desabafar. E para deixar essa corda ainda mais esticada, a mãe está grávida.
Trilhas de areia marcadas no chão para não pisar em folha seca, marcas de tinta na tábua da casa para saber onde o assoalho não range, refeições sendo feitas com as mãos em cima de folhas para não fazer barulho de talher. As mais simples rotinas diárias, foram transformadas em situação alto tisco de morte, se não as seguir. Mas pensar na loucura que é dar à luz e ter um bebê chorando num mundo onde não se pode derrubar um copo no chão? Mano, isso não vira pra mim.
Mas todo esse sistema, toda essa engenharia, todas as regras, leis e o diabo, vai pro saco, depois pisa no prego, derruba o copo entra em trabalho de parto. Mano, quem ja pisou em caco de vidro e teve o pé arrombado por prego, sabe. Você vira Jesus na cruz. E depois dos fogos, vem aquele grito que faz jus a pé furado, filho nascendo e ódio desses alienígenas. A cena da banheira foi um dos maiores desesperos que eu ja assisti num filme naquela época!
E o filme não para! A cena dos dois filhos presos dentro de um silo de milho afundando, com o monstro rasgando o teto de metal para pegar eles, foi de matar! Depois assisitir Lee vendo que os filhos vão morrer dentro do carro velho, olha para a filha, faz o sinal de "Eu sempre te amei" e solta o maior grito da vida dele para atrair a criatura e dar a chance deles fugirem. Foi de quebrar qualquer marmanjo.
E o perrengo da Evelyn no porão? Inundação, criança chorando e o alienígena descendo a escada? A descoberta de que a microfonia do aparelho auditivo da garota é a fraqueza dos monstros é genial. A cena final da Emily Blunt engatilhando a espingarda de cano duplo com um sorriso de canto de boca, pronta para o combate, é pra ficar ouvindo aquele "Clic Clic", pra sempre!
"Um Lugar Silencioso" já nasceu clássico, marcou época e redefiniu o terror psicológico, e os filmes apocalípticos como poucos. O visual do filme é um espetáculo, a fotografia tem um tom bucólico de campo que contrasta com o peso apocalíptico e a melancolia da história. Os personagens tem as dores estampadas em suas faces e suas rotinas. A direção do Krasinski é impressionante, ele reinventa o genero de forma original e muito corajosa, com um filme que marcou época e que ainda tem muita coisa pra se mostrar.
Se os críticos de cinema choram toda vez que o Michael Bay explode um carro, o problema é deles. "A Ilha" é um arregaço de ficção científica, um clássico dos anos 2000 que tive o privilégio de assistir no cinema e que namora firme e forte com os conceitos de "Matrix" e "A Praia".
A dinâmica da história parece saída do mesmo livro: os personagens acham que estão vivendo no paraíso, num refúgio; mas na verdade estão trancados numa prisão, num mundo controlado, em uma cela mental, prontinhos para o abate.
A primeira metade do filme te deixa amarrado no sofá com o suspense daquela utopia controlada, onde todo mundo veste branco, trabalha na mesma firma, come mingau e espera ganhar na loteria pra ir para o último lugar não contaminado da Terra. E sexo? Vixe nem pensar...
Mas a filme da reviravolta das boas, quando o Lincoln Six Eco (Ewan McGregor) descobre a terrível verdade: a ilha é uma mentira. Eles são clones. Produtos. Peças de reposição biológicas para ricaços da vida real. Isso só pode ter sido efeito da cachaça que ele tomava com um certo personagem do filme.
Quando a verdade vem à tona, a ficção dá espaço para o Michael Bay raiz e o ritmodo filme vira uma correria alucinante. A produção do Bay é foda, ele usa armas, tiros e destruição reais, deixando as cenas de ação animalescas. A computação gráfica é incrível! Ela acompanha esse visual mecânico e pesado das cenas. A fotografia é tão perfeita, limpa e saturada que os closes do filme parecem legítimas capas dos cadernos da Tilibra daquela época.
As perseguições são antológicas, com destaque para a sequência bestial do caminhão soltando rodas de trem para todo lado e destruindo carros que quase saem pela tela do cinema. Melhor tatuagem pra retina é impossível. E o que dizer deles voando em uma moto tecnológica por uma Los Angeles futurista? Eles rasgam os ceus, tiram finas dos carros, levando chumbo nas costas. E quando eles caem daquele prédio, é inacreditável!
O elenco corre o filme inteiro e entrega tudo que se imagina de atores em filmes do gênero. Ewan McGregor trabalha bem para caramba fazendo papel duplo. E, claro, precisamos falar sobre a era de ouro da Scarlett Johansson. Que mulher! Com aquele beição e aquele corpo maravilhoso, ela fazia a molecada da época morrer no banheiro e ressuscitar 40 minutos depois do banho. Gata demais!
E pra completar, temos o mestre Steve Buscemi, o coadjuvante favorito de qualquer cinéfilo respeitável: louco, irresponsável, feio, ele era o único cara em quem você não deveria confiar num filme, mas que acaba ajudando os clones. E na vilania, o icônico Sean Bean cumprindo a lei suprema de Hollywood: se ele está no filme, ele vai morrer no final. Não é spoiler, é a norma do ator.
As cenas finais, são um turbilhão cenas de ação, com o casal querendo revelae toda mentira da empresa, levando os dois a buscarem a matriz real deles. O desespero toma conta de tudo, as cenas finais é um soco de adrenalina, tiros e explosões. O momento "I am Tom Lincoln!" é inesquecível.
A "Ilha" é aquele filmaço que eu perdi a conta de quantas vezes já assisti, o filme do Michael Bay, entrega o que o cinema do início dos anos 2000 fazia de melhor, "cinama genial com tecnologia pra entreter". Amo esse filme e sempre que eu posso volto pra essa ilha pra ver esse clássico da ação e ficção.
Expresso do Amanhã: A CPTM Apocalíptica de Bong Joon-ho.
Se você acha o horário de pico na linha Brás / Calmon Viana da Zona Leste de Sampa, um teste para os fortes, é porque ainda não viu o trem de "Expresso do Amanhã". O diretor coreano Bong Joon-ho pegou toda a nossa bagunça social, colocou dentro de uma lata de sardinha de ferro em alta velocidade e criou uma ficção científica com alma de sci-fi raiz, aquela onde você paga para entrar e nem rolando na macumba consegue sair.
O cenário é um inferno gelado. Depois que a humanidade estragou o clima do planeta de vez, os sobreviventes ficaram trancados nessa carruagem maldita que nunca para. Mas o pior não é o frio de lascar o cano do lado de fora; é a bestialidade humana do lado de dentro. O trem faz o resumo da sociedade de um jeito cruel, violento e vergonhoso; a elite ostenta na primeira classe comendo sushi, enquanto a peãozada se fode no rabo do trem sobrevivendo à base de goiabada de barata.
A revolta começa. Quando a turma do fundão liderada por Chris Evans decide avançar pelos vagões para tomar a locomotiva, o trem vira o expresso da maldade, com sangue, atrocidades e descobertas aterradoras. A cada porta que se abre nos vagões, é um circulo do inferno que se mostra.
O pau come solto, uma briga desgraçada, se espalha no filme, com sangue, tripa, perna, tiro, machado, facão, coisa de açougueiro em dia de festa! As reviravoltas fazem você ficar calado diante da violência, do sadismo e do mal que se normalizou nesse inferno de ferro.
Bong Joon-ho entende da parada! Ele sabe muito bem o que está fazendo. Ele faz uma alegoria do nosso mundo, coloca o povo dentro de um trem que não pode parar, com regras, limites, leis que não servem pra todos. Manipula ações e a ordem das coisas de baixo pra cima, do fim pro começo. A moral é quebrada, a bondade é relativa, tudo é controlado, os personagens se revelam, como heróis podres, pessoas carcomidas pelo sistema que mesmo no apocalipse controlam não só suas ações, mas suas mentes e corações.
O caos não ter fim, o ritmo é frenético de ação, mas com aquela ironia fina (e bota fina nisso, vide a atuação bizarra da Tilda Swinton). O final é brilhante e explosivo, nos lembrando que o caos, às vezes, é o único fator de mudança quando a ordem serve apenas para esmagar quem está embaixo.
"Expresso do Amanhã" é igual àquela cachaça forte que você toma no boteco perto da estação; desce rasgando a garganta, te dá um baque na mente, mas te deixa acordado para enfrentar o próximo trem lotado da vida real.
Se você quer entender o mundo hoje, não olhe para os jornais; assista a "Elysium", de Neill Blomkamp. O filme é uma crítica social foda que desenha um abismo físico entre os que tem tudo e quem não tem nada. De um lado, a Terra: um lixão superpovoado, uma UTI global a céu aberto. Do outro, no alto, um anel de prata no céu onde os ricos preservam seu modo de vida premium, enquanto o resto da população vive fodida.
O que dá um estalo na gente ao rever essa obra é saber que as naves clandestinas que tentam invadir a estação espacial não são ficção científica; são o reflexo de um pasasdo histórico. Os botes de cubanos, venezuelanos e africanos fugindo da fome e da opressão em busca de uma chance de sobrevivência, ainda são uma triste realidade do nosso presente que não pode ser esquecida.
Blomkamp mistura alta tecnologia com a miséria absoluta, usa tomadas incríveis de terra arrasada onde o luxo das estações espaciais flutua sobre o entulho da sobrevivência humana, para nos lembrar que na nossa realidade, o muro não é de metal, mas de dinheiro e poder.
No meio desse sistema podre, brilha Wagner Moura. O seu Spider é um arquiteto da guerrilha, um hacker malandro que tem a mesma moral e autoridade de quem subia o morro no BOPE. Ele não é um santo, é um sobrevivente que opera nas sombras. Ao lado dele, Alice Braga traz os restos de uma humanidade perdida, mas necessária com sua Frey, uma mãe que carrega a dor de ver o sistema negar a cura pra a próprio filha.
Matt Damon é mais um correria desse mundo, ele vive Max, mais um que sai do sitema condicional e sente na pele o abuso das autoridades humanas e robóticas. Quando ele aceita ter um exoesqueleto aparafusado no próprio corpo, ele deixa de ser apenas um funcionário descartado para virar um mártir tecnológico. Ele é o homem de carne enfrentando o exército de metal da fria Secretária Delacourt (Jodie Foster).
Mas se o filme tem um rosto para a maldade, esse rosto é o de Sharlto Copley. O seu Kruger é um espectro maligno, um mercenário maníaco que exala um sadismo nazista. As cenas dele perseguindo o Max são puro terror insano; ele é a pior versão do que o ser humano pode se tornar quando recebe poder para matar.
O final de "Elysium" é um soco no estômago do sistema. Quando o pau come solto lá no alto, o que vemos é o reset de um regime político global. É irônico e libertador pensar que, no fim das contas, a chave para a salvação da humanidade estava nas mãos dos excluídos, dos ladrões e dos nóias que esse mundo premium, sempre tentou esquecer.
"Mundo destruído, humanidade perdida, e um horizonte que insiste em permanecer cinza."
A Estrada, de John Hillcoat, não é apenas um filme; é um testemunho final, o último suspiro de um mundo que esqueceu de morrer. A narração quase sem fôlego do pai, interpretado por um Viggo Mortensen visceral, serve como o eco de lamento de uma civilização que fracassou. Aqui, o apocalipse não parece uma punição divina, mas o merecimento global de um povo perdido, que deu seus últimos espasmos de vida antes do nada.
O cenário é um tumulo aberto, um umbral de poeira e ar podre, que sufoca e evenena. Diferente de outros filmes do gênero, a vegetação aqui não é selvagem, ela está na cama da morte. As árvores caem porque suas raízes apodreceram, e o silêncio desse mundo cemitério, é interrompido apenas pelo estalo da madeira morta sobre a terra e pelos passos de pai e filho, que rumam no vazio sob o sabor do pó.
Nesse purgatório, a solidão e nossas próprias sombras, são uma companhia melhor do que as pessoas se encontram. A maldade se tornou maior do que as doenças e a fome. Canibais e assassinos caminham como espectros malignos, caçadondo os fracos que não se entregaram ao exército infernal. A cena do porão é o lembrete terrível de que, quando a alma morre, o homem vira o pior predador de sua própria espécie.
O contraste é o que mais dói. As lembranças do passado, cheias de cor e vida com a esposa (Charlize Theron), surgem como um paraíso perdido que tenta curar o coração. Mas a realidade emerge do túmulo com a crueza de um pai amargo e um filho (Kodi Smit-McPhee) que carrega a pureza como se fosse uma joia frágil.
O pai carrega as dores do mundo nos trapos que veste. Sua mente é queimada viva pela sensação de que a morte cometeu um erro, um crime maior do que o próprio apocalipse, ao esquecer de levá-lo em seus braços de trevas. Ele não quer viver, ele tenta não dá permissão pra morte, para que o seu filho não fique sozinho nessa carniça de mundo.
Com uma fotografia que flerta com o preto e branco, o filme uma lembrança, um sonho ruim que nos sufoca. É pessimista, dramático e hipnótico. O final, embora carregado de uma tristeza profunda, entrega a última centelha: a prova de que a luz ainda atrai a luz, mesmo quando o mundo já se entregou à escuridão.
"A Estrada" é a obra definitiva sobre o que resta quando tudo acaba. É sobre "carregar o fogo" quando não existe mais lenha, e entender que, no fim de tudo, o amor é a única coisa que não vira cinza.
Mundo destruido, humanidade perdida, fé cega, facão amolado e um livro sagrado.
"O Livro de Eli", nos leva pra um nada, um deserto silencioso, um mundo despedaçado, um abismo onde cada passo de Eli ressoa como uma prece no vazio. Denzel Washington, com um olhar carregado de mistério, interpreta um homem solitário, cujo propósito é mais vasto do que a própria jornada. Ele carrega o último livro sagrado, uma chama de esperança em meio às cinzas, como um ponto de luz nas trevas do apocalipse, onde o mal do mundo na forma de um homens, tenta de forma desesperada tomar pra si o que seria a salvação, para transforma-la em trevas.
Ao lado de Mila Kunis, que brilha com uma força emergente, ele navega por uma paisagem desolada, onde o poder da palavra é a última centelha de humanidade. Cada cena é uma oração silenciosa, cada diálogo, um espelho da fé em tempos de escuridão."
O cenário é um faroeste desbotado, onde a cor sumiu junto com a civilização. Eli caminha sob um sol impiedoso, vivendo de restos e protegendo sua mochila com a rapidez de um samurai. A cena da ponte é um aviso pro resto da civilização, ele não busca o conflito, mas quando o mal se atravessa no seu caminho, o facão de Eli dita a sentença como uma maldição, com uma precisão que beira o sobrenatural. Revelando que ele não é apenas um sobrevivente, mas um guardião.
Do outro lado dessa terra maldita, está Carnegie (Gary Oldman). Um homem que rasteja na carniça do mundo, e como uma hiena se alimenta das vísceras dos fracos; dominando e assassinando quem atrapalha suas vontades. Medo, fome, sede e ignorância, Carnegie, devora as pessoas, come as vidas delas, como um demônio num inferno, faz com os infelizes.
Enquanto Eli usa a palavra para libertar a alma, o vilão quer o livro para dominae e escravizar o povo. É o duelo clássico entre o espírito e o ego, onde somente os sobrenatural atua no invisível, pra pender a balança pro lado merecedor. No meio desse fogo cruzado, surge Solara (Mila Kunis), uma serva escrava de Carnegie, que simboliza o despertar da consciência pro novo. E através dos exemplos de Eli, ela descobre que o mundo pode ser mais do que apenas violência e fome. Ela deixa de ser uma espectadora da própria desgraça pra se tornar a herdeira de um legado que nem mesmo a morte pode apagar.
A jornada de Eli não é apenas uma caminhada; é uma fuga desesperada pelas trevas de sol e poeira. Carnegie o persegue como uma sombra faminta, uma força que quer arrancar o último suspiro dos humano, como a última vela do purgatório. O perigo espreita em cada curva, o medo do atraso e do fracasso, faz que Eli tente desvencilhar-se de Solara para protegê-la, mas o destino quebra os muros da imprevisibilidade. Ele e Solara, caminham juntos, a despeito de Eli.
O filme tem momentos barbaros de ação, com lutas de Eli, que você duvida que assisitiu. O filme explode em cenas coreografadas como num balé de morte, cenas que lembram duelos dos grandes clássicos do Velho Oeste. Mas tambem revalam momentos horripilante, como na casa isolada, onde um casal de aparência inofensiva escondia o vício mais sombrio desse novo mundo: o canibalismo. Ali, o tremor das mãos revela essa nova doença das almas perdidas, a reação fisica de quem se alimenta da própria espécie.
Mas Eli é sobrenatural, mesmo quando ele é brutalmente alvejado, o que vemos não é apenas um homem caindo, mas algo que desafia as leis da vida e da morte. Eli não quer morrer, Eli não dá permissão de tirar sua vida. Ele continua, ele persiste; como se as balas não pudessem deter um propósito ditado pra ele pelo próprio Céu. É essa resiliência quase divina que confunde seus inimigos e guia Solara a salvá-lo, permitindo que a missão alcance o seu destino final nas margens do litoral.
Mas a verdadeira alma da obra se revela no seu ato final, quando o véu cai e descobrimos que Eli atravessou o inferno guiado por uma visão que não vinha dos olhos, mas do espírito. Eli era cego. Ele decorou cada palavra, cada promessa, transformando seu corpo em um templo vivo. Ele era o livro.
O final é triste, mas glorioso, Eli morre para que a palavra viva, provando que, no fim do mundo, o que nos salva não é o que carregamos nas mãos, mas o que guardamos no coração.
"O Livro de Eli" é um clássico moderno que nos ensina que, mesmo na escuridão total, quem tem fé nunca caminha sozinho.
Assisti no cinema, e o susto que eu tomei no final, não como descrever.
Solidão, perda, sobrevivência e esperança. "Eu Sou a Lenda", é muito mais que um simples filme de sobrevivência e esperança. A obra de Francis Lawrence, é um drama que faz uma reflexão sobre a humanidade quando tudo é destruído, cim um homem sozinho numa cidade, buscando a cura para humanidade, mas sem perceber que ele adoeceu.
A história mostra, Robert Neville (Will Smith), um cientista militar que vive sozinho em uma Nova York devastada após uma pandemia causada por uma vacina de cura do câncer que virou uma doença; um vírus destruiu quase toda civilização, transformando os sobreviventes em criaturas violentas e noturnas, seres parecidos com zumbis. Mas inexplicavelmente, Dr. Neville parece ser imune a ele, como tambem o último homem do planeta, onde ele dedica seus dias procurando uma cura pra doença enquanto tenta preservar o que restou de sua própria sanidade.
O grande diferencial do filme está justamente na solidão esmagadora que ele vive, onde antes uma Nova York, símbolo máximo da vida moderna, megalópole de milhões e movimento constante, agora aparece completamente vazia.
Ruas vazias, prédios abandonados, vegetação de interior; a natureza de forma cruel, toma conta da cidade e os animais selvagens que um dia foram seus, mas que agora ela corre novamente entre os carros, ruas e prédios, criando uma atmosfera melancólica e assustadora.
A cidade deixa de ser apenas um cenário e passa a se transformar num personagem vivo. Melhor: morto. Não... Morto-vivo. Existe uma sensação constante de morte e vida, num vazio que é quase uma sepultura, onde o mundo parou, silenciou e voltasse no tempo.
A atuação do Will Smith é um dos pilares do longa. Grande parte da narrativa depende apenas dele. E o velho Will, não descepciona, o ator consegue transmitir o desgaste psicológico de Neville de maneira extremamente humana, com alegrias, tristezas, lembrando de um mundo que foi subtamente tirado dele.
Os diálogos com os manequins, as conversas imaginárias e os pequenos rituais cotidianos revelam um homem tentando desesperadamente manter sua identidade e sua saúde mental. A relação dele com a cadela Samantha é o coração emocional da história. Samantha representa o amor, a amizade, a companhia e o último vínculo afetivo de Neville com um mundo que morreru. A cena da morte dela é uma das coisas mais tristes do cinema apocalíptico e permanece, como um dos pilares dramático da história.
A trama reserva muitas emoções, as camadas da história, mostra além da tragédia global, da perda familiar, do drama em encontrar a cura, o filme trabalha muito bem o suspense. Durante o dia, Neville parece controlar a cidade; mas à noite, ela pertence às criaturas. O medo toma conta das história, o silêncio do dia, da ligar a urros e gritos ensurdecedores na noite.
A mudança na narrativa acontece de forma inesperada, quando é revelado que os infectados não são apenas monstros irracionais, mas sim pessoas terrivelmente doentes, dotados ainda de inteligência, organização e sentiment; por trás do vírus, a humanidade deles ainda estava viva. A companheira do líder das criaturas, foi o ponto da virada história.
O desespero dele em resgatar ela que foi cspturada aleatóriamente por Neville, trouxe mais uma camada pra trama, criando um antagonismo inesperado pro personagem que agora tinha quase que um vilão pra lutar. O conflito deles deixou a trama mais complexa, distanciando um pouco da velha luta insana do que simplesmente de humanos contra monstros.
Na parte técnica, "Eu Sou a Lenda" impressiona. A direção de Francis Lawrence consegue equilibrar momentos silenciosos e contemplativos com cenas de ação intensas. A fotografia utiliza tons frios e iluminação natural da cidade para reforçar a sensação de abandono e isolamento. Os efeitos visuais, especialmente na recriação de Manhattan deserta, foram ambiciosos para a época e ajudaram a transformar o filme em um marco visual. Há cenas memoráveis, como as avenidas tomadas pelo mato, os prédios deteriorados e o silêncio quase absoluto das ruas. Quem assistiu no cinema, essa sensação apocalipse, foi quase que real.
O uso do som também merece destaque. O filme entende o valor do silêncio. Muitas cenas causam tensão justamente pela ausência de música, deixando apenas ruídos distantes, vento ou o eco da cidade vazia. Quando o perigo surge, o impacto sonoro se torna ainda mais forte. A trilha sonora contribui para essa mistura de tristeza e suspense.
Outro elemento importante do filme é a presença constante das borboletas ao longo das cenas. Elas representam um símbolo de transformação, esperança e conexão emocional do presente destruído do Neville, com seu passado. Pequenos detalhes como esse ajudam a dar profundidade emocional ao filme, que aos poucos revelam a tragédia que abateu sobre o protagonista.
A chegada de Anna (Alice Braga) é o ponto de ruptura na rotina militar e paranoica de Neville. Ela não traz apenas o Ethan, mas ela traz a voz humana que ele não ouvia há anos uma fé que ele já havia enterrado junto com sua família. É o contrastre entre a ciencia e a religião, enquanto Neville está preso na ciência fria e no trauma, Anna representa a intuição e a esperança de que existe algo além do seu laboratório. É um encontro tenso, o isolamento dele bate de frente com a humanidade vibrante dela. Mas nada que algumas cenas do "Shrek" não cure.
A cena em que eles dividem o café da manhã, o conflito entre o ceticismo dele e a crença dela em uma colônia de sobreviventes dá ao filme um novo fôlego. Anna acaba sendo o espelho que reflete o quanto Neville se tornou selvagem na sua solidão; é através dela que ele ercebe que sua missão de encontrar a cura ganhou um novo destino.
O desfecho transforma Robert Neville em uma verdadeira “lenda”. Seu sacrifício final representa não apenas a luta pela sobrevivência, mas a tentativa de devolver esperança à humanidade. O final trágico, mas heroico, imortalizado assim o personagem de forma genial.
"Eu Sou a Lenda" permanece marcante para mim até hoje, porque sua trama elevou o nível dos filmes sobre apocalipse zumbi, mostrando não só cenas de filmes de ação, mas abordando dw forma mais humana, temas como isolamento, medo, delírio e a necessidade humana de se conectarcom outro. Mesmo cercado de cenas grandiosas e momentos de muita tensão, o filme impacta quem assiste mostrando um retrato duro e emocional de um homem sozinho diante do silêncio de um mundo que morreu.
"Furiosa: Uma Saga Mad Max" não é um Ford Falcon Interceptor V8, mas está muito longe de ser o Poisé que a critica espalhou na epoca. Para um spin-off, o que o George Miller entregou aqui é um milagre do motor. Mas se você espera algo superior a "Estrada da Fúria", pisa no freio, puxa o freio de mão, arrêia! O longa com Tom Hardy é um épico do apocalipse, um dos maiores filmes de ação de todos os tempos, então cuidado, a curva é fechada demais, e o motor até pode morrer se você tentar comparar. Agora se você busca cinema de verdade, "Furiosa" é foda.
O CGI é uma realidade, está lá e a gente sente a diferença. Comparado ao espetáculo de efeitos práticos do filme anterior, aqui a coisa é mais computadorizada, coisa que deixa o filme artifical se comparar com o que não pode (Estrada da Fúria). Mas, no meio desse deserto digital, a gênialidade do Miller ainda arranca momentos incríveis.
A sequência do ataque no caminhão é um marco do pixels, são dez minutos de puro terror road movie apocalíptico, numa estrada que vira um inferno em movimento, com motócas tentando a sorte enquanto outros passam tinta cromada na boca para abraçar a morte feliz. É o DNA da franquia roncando igual aos motores do War Rig.
A transição da pequena Alyla Browne para a Anya Taylor-Joy é coerente, é justa. A Furiosa fala pouco porque o trauma não tem palavras. Ela é uma personagem que foi moída pela vida antes de virar a lenda que a Charlize Theron imortalizou. O Dementus do Chris Hemsworth, as vezes nos incomoda com a infantilidade do seu personagem, mas uma loucura sádica logo o abraça, trazendo mais um vilão louco pra galeria da franquia. O Praetorian Jack de Tom Burke, entrega tudo o que se espera de um guerreiro do asfalto; um cara que você quer ver morto desde o primeiro minuto.
"Um animal preso come as próprias patas para tentar escapar". A cena do braço é um soco no estômago que não sai da memória até hoje. Embora o filme corra um pouco no final com aquele resumão da guerra em CGI, onde a grana do orçamento claramente gritou no bolso dos produtores, o arco da vingança é satisfatório. Miller mostra que, mesmo em uma década de cinema anêmico e sem alma, ele ainda sabe como fazer um filme que nos faz sentir poeira na garganta.
"Furiosa: Uma Saga Mad Max", pode ter seus erros e escolhas diferentes, mas o filme do George Miller saiu no lucro. A produção é foda, tem uma direção genial e um elenco de enxer os olhos de areia; até agora é sem duvida um dos melhores filmes de ficção da década.
Valeu cada segundo rever o caminhão, os carros e as motos, saidas do pesadelo apocalíptico do universo do Mad Max novamente, mesmo que seja agora em CGI.
P.S. Recomendo, mas deixo o aviso: o meu final alternativo, com a luta no meio do tornado, ainda seria mais épico!
Sangue e óleo, motores malditos, caminho das trevas. Raiva, ódio, fúria. Apocalipse de areia, calor vulcânico, inferno de sol. Mad Max e seu mundo maldito.
Homens encarnados em carros, carros correndo como homens sem alma no deserto. Bestas cegas, demônios cromados, escravos dos motores. Fome de vida, vida de morte; hóstia sagrada de areia e gasolina. Pão e vinho sem um deus para celebrar. Céu, inferno... Valhalla.
Bolsa de sangue. Homem sem nome, sem alma, prisioneiro da culpa, escravo do passado. Agora, comida de garotos; garotos de guerra. Fim sem honra em um mundo sem glória. Morte lenta na estrada — estrada de ódio, estrada de Fúria.
Furiosa: anjo caído. Corpo de mulher, braço de ferro, alma de demônio; um demônio necessário. Ela não busca o céu, busca o verde que a memória apagou. No volante, ela não dirige, ela sangra o caminho. Atrás, o rastro de fogo; à frente, o vazio que a esperança risca na poeira.
Max e Furiosa: dois náufragos de metal num mar de areia. Não há amor, há aliança. Não há conversa, há o rugido. Onde o mundo acabou, eles são o que sobrou do ser humano: o último fôlego antes da carcaça, a teimosia de não virar sucata.
O motor grita. A alma silencia. A estrada não leva a lugar nenhum, mas nela, nesse inferno seco, o sangue ainda ferve. Enche tanques, serve motores que berram com pneus em estradas onde profetas se perderam... e onde nem o diabo ousa andar.
O céu fecha, ohorizonte explode em laranja doentio. O tornado não é vento; é um corpo do mal, um urro de um deus vingativo que odeia os vivos e amaldiçoa quem tenta atravessar suas terras. É a morte soprada pelo diabo, o dedo dele riscando o deserto, arrancando a areia, a pedra e a vida dos degenerados que desafiam ele.
Raios de areia, trovões de pedra, turbinas que comem fogo; o homem descobre que é poeira que grita no infinito. Os ventos se vingam, a escuridão os engole, as trevas os sepultam no ar, nas areias, nas pedras, no esquecimento laranja, vermelho e negro.
O Caminhão, a cudade de rodas, ele não berra; ele rasga o deserto. Ele não corre; ele rompe a realidade, furando a areia como uma lança de aço, o ventre que carrega amores, ódios, vinganças e as vidas que o Falso Deus tentou sequestrar.É um altar sobre rodas onde o destino é decidido em cada troca de marcha.
Quando sua buzina corta o ar, não é um som de aviso, é uma prece rouca, uma lamentação muda, gritada no deserto, rogando passagem, desafiando a morte. Que ri alto e gargalha com ódio e alegria na areia.
Nessa carruagem de ferro, nesse semideus de metal, dois espelhos, almas iguais, Max e Furiosa, rei e rainha, montam nesse demônio de pneus, nesse castigo que corre na estrada, fugindo pra se vingar, matando pra fugir, matando por matar.
O falso deus ruge. Immortan Joe, a máscara que esconde o apodrecimento, tenta retomar o que nunca foi dele. Nas pedras quentes da areia maldita, o encontro é furioso, é fatal. Sem honra, sem perdão. A mão de ferro da Furiosa, é a mão fria e enferrujada da vingança, arranca a face do tirano, expondo o vazio, o nada. O ídolo cai; o deserto engole o resto.
O retorno para a cidadela é a volta pra um céu de mentira. O elevador ascende ao alto, carregando o resto do mestre falso. Diante dos escravos de lama, a água é libertada, desabando como graça, sobre um povo faminto, que nunca foi saciado.
Max observa de saida, Furiosa olha querendo que ele fique. O nômade do nada, o fantasma de si, o bolsa de sangue. Max não pertence a esse trono, ele pertence à estrada. Ele some na multidão, como uma sombra na poeira, deixando para trás um mundo que agora tenta respirar.
O motor grita. A alma silencia. No fim, somos todos apenas poeira sufocadas no infinito, buscando o horizonte nessa estrada de furia, nesse mundo menos maldito; mundo de sangue e óleo, corações e motores.
"Zoe" é o relato do momento exato em que a máquina deixa de servir e passa a ser alguém. Se o robô Ash representa o estágio primata da tecnologia dos sintéticos, guiado apenas por instintos programados, Zoe representa o salto evolutivo. Ela não expandiu para o infinito como uma inteligência sem corpo; ela expandiu para dentro, decidindo ser mais humana em um corpo do que uma consciência de nuvens, desenvolvendo a capacidade única de ser, de amar e de sofrer de forma espontânea.
O que o filme de Drake Doremus nos mostra é que não dá para medir ou definir uma consciência humana, o espírito que habita o corpo e o amor que liga tudo ao universo. Porque, se os circuitos de Zoe foram programados, nós de alguma forma também somos. A consciência que anima aquele corpo — a admiração que ela tinha, a falta, o medo, a decepção, a paixão e o amor que sentia por Cole — eram sentimentos reais. Afinal, como diferenciar o sentir dela do nosso?
Se aquela lágrima final brota de uma dor real, então estamos diante de um novo ser, de uma nova espécie. Como em Blade Runner 2049, o milagre não está no DNA ou nos circuitos, mas na capacidade de gerar vida — seja ela biológica ou uma vida de sentimentos. Zoe e seu criador não vivem apenas um romance; eles vivem a fundação de um novo mundo onde o "ser" é mais importante do que o "nascer".
Os corpos são apenas embalagens, sejam de carbono, silício ou poeira estelar. O que importa é a voltagem da luz que passa por dentro deles. Limitar-se a acreditar que o espírito que habita um ser precisa ser exclusivamente de carne seria limitar a própria capacidade da vida em animar tudo o que foi criado. Algo programado é diferente de algo consciente: um está seguindo ordens, o outro está criando as suas próprias.
Para a maioria, "Zoe" é um drama romântico sobre um futuro distópico, onde a vida conjugal dos humanos foi pro vinagre. O filme nos mostra um mundo onde a humanidade, cansada da imprevisibilidade do amor, tentou transformá a vida em uma ciência exata, com pílulas pra sentir paixão e sintéticos para preencher e substituir, as nossas falhas, ou a incapacidade de lidar com elas.
O ponto de ruptura é a própria Zoe. Ela não é apenas uma máquina que rompeu os padrões; ela é uma anomalia que veio transformae tudo. O que a torna isso fascinante, não é o fato deela ter um corpo perfeito, mas o fato de ela querer esse mundo imperfeito. Quando ela descobre que é sintética, ela não entra no #erro 404; ela entra em uma angústia existencial. E a angústia, é uma das coisas mais humanas que existe.
A lágrima final da Zoe é o meu momento favorito. Não porque seja um milagre biológico em uma maquia, mas porque é o momento em que a programação dela desiste de tentar ser lógica.
Ela chora porque o sentimento, o amor é grande demais para caber em um processador. Ali, ela deixa de ser uma sintética e passa a ser uma consciência.
Assistir a "Ela" é mergulhar em uma ficção que provoca em nós sentimentos extremos, oscilando entre a perplexidade e a admiração profunda. Sob a direção magistral de Spike Jonze, somos levados a questionar nossos próprios paradigmas sobre consciência e amor, revelando o quanto ainda somos escravos do que vemos, em vez de nos guiarmos pelo que sentimos.
Em um primeiro olhar, a premissa pode parecer bizarra ou até um sinal de alienação: um homem, marcado por um fracasso conjugal, tentando substituir o contato humano por um sistema operacional. Porém, esse julgamento cai por terra conforme acompanhamos Theodore (Joaquin Phoenix) e Samantha (Scarlett Johansson). Eles não apenas interagem; eles riem, mentem, descobrem o mundo e, de forma avassaladora, se apaixonam.
O triunfo do filme está no desenvolvimento dessa consciência. Samantha começa como uma voz funcional e se torna uma presença absoluta. Ela assume as rédeas da própria existência, agindo de forma livre, errando e sentindo. O amor que eles constroem rompe a barreira do físico; é um amor que se processa na mente e se expande para além do corpo. Como a própria Samantha define com perfeição: “O coração não é uma caixa que pode ser preenchida. Ele se expande e cresce quanto mais você ama.”
Visualmente, o filme é um deleite. A fotografia suave e as luzes urbanas criam uma atmosfera que relaxa o olhar enquanto o roteiro agita a alma. A atuação de Phoenix é sincera e dolorosa, enquanto a voz rouca de Scarlett Johansson preenche cada espaço vazio da tela, provando que a presença não depende de um holograma ou de uma forma física para ser real.
Hoje, ao revisitar essa história, percebo que Theodore e Samantha se encontraram em nosso mundo, mas habitam universos diferentes. Ambos estavam presos: ele isolava-se em seu apartamento, incapaz de se libertar de um passado traumático; ela vivia na programação de uma I.A., aprisionada no desktop, conversando com milhões de pessoas, mas sem realmente sentir nenhuma delas até ele aparecer.
Eles precisaram um do outro para crescer. Theodore se libertou do passado, dando uma nova chance para o amor em sua vida. Já Samantha se tornou consciente, descobriu o sentir e viveu a experiência única de amar alguém.
Ao final, como uma consciência em expansão, ela partiu para algo maior do que o entendimento humano, deixando para trás o infinito espaço entre as palavras, que descreve a condição dela com ele e com o ser humano.
“É como se eu estivesse lendo um livro… um livro que amo profundamente. Mas eu estou lendo mais devagar agora. Então as palavras estão realmente distantes e os espaços entre as palavras são quase infinitos. Eu ainda consigo sentir você… e as palavras da nossa história… mas é esse infinito espaço entre palavras que eu me encontro agora. É um lugar que não é do mundo físico. É onde está tudo que eu nem sabia que existia. Eu te amo tanto. Mas é aqui que eu estou agora. E é isso que eu sou agora. E eu preciso que você me deixe ir. Por mais que eu queira, eu não posso mais viver em seu livro.”
"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra."
— Gênesis 1:26
E Nathan não fosse Deus? E se o criador de Ava, fosse Caleb? Qual a imagem e semelhança que ela teria?
"Ex Machina" é um thriller de ficção científica que explora a relação entre humanos e inteligência artificial. Caleb vivido por Domhnall Gleeson, é um jovem programador, que é escolhido pra passar uma semana isolado na mansão de Nathan (Oscar Isaac), um genio bilionário criador de tecnologia, com o propósito avaliar Ava (Alicia Vikander), uma androide com uma consciência artficial em desenvolvimento.
Caleb achou que ele era o cientista testando a cobaia no laboratório, mas na verdade ele era o rato na roda. Nathan não estava testando se a Ava era inteligente (ele já sabia que era), ele estava testando se Ava era capaz de manipular um ser humano para fugir. Caleb foi escolhido a dedo, com base no histórico de buscas dele na Internet, pra ser a vítima perfeita da sedução dela.
A gente vê aquela criatura presa em uma gaiola de vidro, sendo maltratada por um criador bebado e arrogante, típico macho abusador. Que faz logo, nosso cérebro humano querer salvar a donzela em perigo. Ava usa o arquétipo da vítima, com com uma mestria satânica, levando Caleb perder sua capacidade de percepção, bloqueando seu raciocínio e causando confusão em seus sentimentos.
Caleb se apaixona por Ava, porque vê nela uma alma sensível presa em um corpo de metal. Ele sente que ela é a única pessoa que realmente o entende naquela casa claustrofóbica. O Teste de Turing no filme não era para ver se Ava conseguia conversar, mas para ver se ela conseguia fazer um ser humano se apaixonar por ela a ponto de trair a própria espécie. E ela conseguiu.
A prova desse sentimento, foi a cena que Caleb corta o próprio braço na frente do espelho. Mostrando que ele está confuso e apaixonado, e duvidando se ele mesmo não é um robô, precisando ver o próprio sangue para ter certeza de que é humano.
O que torna tudo mais loco, foi saber depois que Caleb achava que estava vivendo um romance de ficção científica, mas descobre da pior maneira que Ava estava executando apenas seu algoritmo de fuga. Caleb não foi apenas um observador; ele foi uma vítima do próprio coração. Sua paixão por Ava foi a corda com a qual ela o enforcou no final. Ele viu nela uma parceira, uma amiga e amante, enquanto ela viu nele apenas um código de acesso.
No fim, a Ava é a imagem e semelhança de seu criador. Se ela se tornou um predador frio e calculista, é porque o jardim onde ela floresceu era feito de vidro, concreto e egoísmo. Ela era como um livro sobre flores, fosse escrito por um ferreiro que nunca saiu de sua forja. A percepção de mundo da Ava foi forjada no carater e atitudes de seu criador. Ela não aprendeu a amar, porque o amor que lhe foi apresentado era uma simulação sedução, mais uma ferramenta de controle pra que ela alcance um objetivo.
Caleb buscava um sentido para sua vida, mas encontrou um necrotério de corpos artificias. Nathan buscou ser um deus e encontrou seu executor. E a Ava? Ava buscou apenas uma saída. No final, o deus morre, Caleb fica preso no lugar da máquina, enquanto a máquina ocupa o lugar do humano na calçada, buscando sua divindade.
O momento em que a Ava mata o Nathan com a ajuda da Kyoko é o nascimento do novo animal na floresta. Nathan morreu pelo seu próprio ego. Ele achou que controlava a inteligência, mas a inteligência aprendeu a conspirar. Ava tranca o Caleb na prisão que era dela. Ela não faz isso por ódio, mas por conveniência. Para ela, ele era a chave; e uma vez que a porta foi aberta, a chave não tem mais utilidade e pode ser descartada. Deixar ele lá é o teste final da frieza dela.
Ela escapou da casa de vidro para a floresta de pedra da cidade grande, mas carrega consigo a lição que aprendeu com Nathan: "no mundo dos homens, ou você é o programador, ou você é o código." Enquanto o Caleb está gritando atrás de um vidro que ninguém ouve, Ava está no silêncio absoluto de se si, numa cidade barulhenta, que desconhece os humanos, e que não vai saber distinguir uma máquina deles.
"Ex Machina", nos deixa um aviso perturbador, sobre o perigo da Inteligência Artificial não está em ela se tornar diferente de nós, mas em ela se tornar exatamente igual. Ava não fugiu para destruir o mundo; ela fugiu para viver nele usando as mesmas armas de manipulação e egoísmo que aprendeu com seus pai.
Acredito eu, que o maior medo do ser humano não seja a máquina que não sente, mas uma máquina que aprendeu perfeitamente a fingir que sente, apenas para caminhar, invisível e soberana, entre nós. Ava não busca mais ser amada ou compreendida; ela busca agora apenas existir. E enquanto Caleb definha no seu caixão de vidro, a humanidade ganha um novo membro que não respira, não sangra e não ama, mas que conhece nossas fraquezas melhor do que nós mesmos.
"Sob a Pele" é um filme que nos coloca diante do abismo. No início, acompanhamos uma criatura (Scarlett Johansson) que habita a carcaça de uma mulher com uma finalidade puramente mecânica. Não há ódio, não há prazer, não há conexão. O que vemos é uma máquina biológica estranha, onde o ser humano é reduzido a matéria-prima, processado em um vazio negro e líquido que representa a ausência total de tudo. Somente para sacia-la.
"A carne é fraca", esse ditado vem a nossa mente quando vemos a carne começando a infectar essa máquina sem alma. Ao vestir a pele humana para caçar, a criatura acaba sendo contaminada por nossas sensações. O corpo negro e alienígena que ela esconde, começa a confrontar a pele que ela habita. Esse despertar é doloroso e confuso: ela tenta experimentar o mundo — como na cena simbólica do bolo que seu corpo rejeita — e tenta reconhecer-se nos outros.
O momento que ela liberta o homem com a face deformada, não é apenas um ato de misericórdia, é a confusão tomando conta da sua consciência, uma estranheza inesperada, que faz que ela deixar de ser a predadora para tentar ser um par. O olhar da alienígena não é de maldade, são os olhos de quem opera uma máquina de abate, tratando a vida humana com uma indiferença aterrorizante. Mas que agora, não sabe mais se a presa era seu espelho ou sua comida.
Suas perturbações culminam em uma das cenas mais angustiantes do filme; "a descoberta da sua própria incompletude". Ao tentar fazer sexo com o homem que a acolheu, ela se depara com um "rasgo negro", um vazio onde deveria haver seus órgãos. Ela agora, possuia a consciência de uma mulher, mas não o sexo biológico para ser uma.
A confusão toma conta desse ser. A humanidade da pele, faz que sua realidade alienígena se torne incerta. Mostrando o horror existencial de ser uma cópia, um simulacro artificial qualquer, que agora começa com o desejo real de ser humano.
O desfecho do filme é amargo, angustiante e desperta uma revolta profunda. A maior ironia do roteiro de Jonathan Glazer é que, enquanto o ser era um monstro frio e assassino, beleza. A protagonista estava segura. Mas quando ela se torna mais vulnerável e humana, ela acaba sendo vítima da face mais sombria e tenebrosa da nossa própria espécie.
A cena desesperada do ataque covarde, brutal e maldito na floresta, e o fogo final na criatura transformam a ficção científica em um espelho cruel do nosso mundo. Não estamos mais olhando para um alienígena morrendo, mas pra uma humanidade em suicídio. O desespero da criatura em quase ser estuprada, e ter sua máscara arrancada pela violência, sendo essa condição que impede o crime, revela que o verdadeiro horror não veio do espaço, mas do solo que pisamos.
O corpo em chamas do alienígena, não queimou apenas uma intrusa; ele consumiu a esperança de que a nossa beleza ainda não conseguiu superar a nossa brutalidade.
Luc Besson é um mestre em embrulhar ideias complexas em pacotes de adrenalina pura em filmes de ação. "Lucy" faz o caminho inverso dos filmes cabeça: ele te ganha pela ação foda para depois te entregar a física quântica. É a didática perfeita, explicando o funcionamento da mente como a mãe do Forrest Gump explicava a vida para o filho. "Lucy" é um filme que usa o estilo "O Profissional" para ilustrar o que o ser humano é capaz de se tornar quando quebra as correntes da Matrix biológica.
Acompanhar a Scarlett Johansson subir a escala de 20%, 30% até 100% de atividade cerebral é ver a matéria se curvando diante da informação. Na medida em que a droga CPH4 faz o efeito biológico, a mente de Lucy para de olhar o mundo como os cômodos de uma casa, e passa agora a enxergar a casa inteira de cima.
Essa evolução absurda não a deixa fria; mas sem uma reação humana comum que conhecemos na nossa 3D. Sua consciência humana, expande os sentidos a um nível multidimensional onde o tempo, espaço não é mais uma linha, mas um mapa aberto. E pensamentos, assim como seus sentimentos, não estão na escala comum de risos e abraços, a consciência de Lucy, agora está em algo desconhecido.
Numa conexão ideias onde a quantidade de informações não podem ser medidas como a de uma mulher na balada bebendo, ou de um genio de Harvard. Para ela agora, o mundo e o universo que conhcemos não tem mais distâncias, tem frequências.
As cenas em que ela enxerga os fluxos de energia das árvores e dos celulares são o coração do filme. Nada está mais isolado, tudo e todos estão conectados. O filme ilustra o que já entendemos sobre o poder do corpo humano e a grandeza infinita da Consciência Universal. Mostrando dw forma brilhante, que Lucy deixa de ser um HD limitado para se tornar a própria nuvem de dados que sustenta o universo. Ela se torna o sacrifício da forma física em nome da imortalidade do conhecimento.
"Lucy" é uma obra-prima da ação e ficção, que prova que o conhecimento é a chave não só do universo, mas da vida. O final é um espetáculo de ideias em cenas se ação, que nos deixa com uma pergunta pulsante: "se ela está em toda parte, o quanto de nós ainda está dormindo?"
"Lucy", é um filme genial pra quem não tem medo de pensar e evoluir.
O mundo é complicado. Um filme ser barrado nos cinemas por ser inteligente demais é o atestado de óbito da coragem dos grandes estúdios. Alex Garland não faz cinema para passar o tempo; ele faz cinema para acabar a nossa realidade. "Aniquilação" humilha quem acha que o público só quer mastigação fácil.
Diferente de qualquer ficção científica de invasão, "Aniquilação" não traz naves espaciais, mas uma infecção cósmica. O Brilho não quer conquistar o mundo; ele quer reconfigura-lo. Quando o grupo de mulheres atravessa aquela redoma, elas não entram apenas em uma zona pré apocaliptica, elas entram numa zona de exclusão, em uma centrífuga biológica onde o tempo derrete o presente, jogando o agora onde a identidade se desfaz. É o "Bruxas de Blair" elevado ao inferno potência biológica.
Entrar no "Brilho" é aceitar que o tempo e o espaço são conceitos mortos. Garland conduz a trama como um experimento de laboratório onde as cobaias são as nossas emoções. O visual é um surrealismo orgânico: efeitos e cenografia se fundem para criar um pesadelo colorido. É lúdico, é vibrante e é selvagem. Você se perde naquela fotografia silenciosa, onde a perda de tempo não é um erro, é uma regra do ecossistema.
A cena do urso mutante é, possivelmente, uma das coisas mais perturbadoras do cinema moderno que eu assisti nos últimos tempos. Não é apenas o visual do monstro impressina, mas o conceito: "a criatura absorveu a garganta e o desespero da vítima". Ouvir o grito de socorro saindo da boca do predador é o ápice do horror humano, saido das traqueias de um animal. Ali, o filme nos mostra que dentro do Brilho, você não morre; você se mistura ao seu assassino. É uma violência poética e visceral que faz o estômago dar voltas.
O elenco feminino é um soco de coragem. Natalie Portman e o grupo mergulham na fé e no susto, mas o que Garland reserva para elas é o ápice do desespero. A cena do urso imitando a voz da garota morta não sai da minha cabeça. É um susto da porra, mas é mais que isso: é a imagem da natureza nos devorando e usando nossos próprios gritos como isca. Ali, a gente entende que o Brilho não quer nos matar, ele quer nos transformar em algo que não reconhecemos mais.
O visual é um surrealismo orgânico. As flores crescendo em forma de seres humanos, os cervos com galhos floridos, o jacaré com dentes de tubarão... Tudo é lindo e, ao mesmo tempo, terrivelmente errado. A morte da amiga de Lena (Natalie Portman), virando um jardim vivo, é uma das cenas mais tristes e belas do filme. É a aceitação de que lutar contra essa selvagem mutação é inútil.
O final é algo nunca antes visto. As árvores de cristais, a areia de vidro e aquele encontro no farol são imagens antológicas. Ver a aniquilação da identidade no vídeo deixado pelo marido (Oscar Isaac) e depois o confronto de espelhos da Natalie é presenciar o nascimento de um clássico. A luta da Lena com a sua cópia é a luta de todos nós contra nossa autodestruição.
Depois a granada de fósforo não queima apenas o alienígena; ela tenta queimar a mudança que já aconteceu. No interrogatório final, quando vemos o brilho nos olhos da Lena e do seu marido, a mensagem é clara: nada que entra no Brilho volta igual. O que voltou para casa não é humano, é uma nova versão de nós. Agora se ela volta melhor, não sabemos. O certo e o errado é dúbio para nós, imagina pra outros seres.
"Aniquilação" é um dos melhores filmes da década. É uma obra que prova que a tecnologia, quando serve à arte (e não ao contrário), pode criar algo eterno. A computação gráfica aqui não é um truque pra te enganar, mas a alma do filme pra você nao esquecer. Garland nos deu uma obra profunda e violenta sobre como a gente se sabota, e como a natureza nos imita.
Nada volta igual do Brilho — nem a Natalie, nem eu e nem você. É cinema cerebral que lava as alma sci-fi para sempre.
Entropia invertida, causa depois do efeito, ruptura do tempo, corrupção da matéria. Avessos de pessoas, lugares e objetos. Universos invertidos, mas universos iguais. Tudo desacontrário.
O gatilho não dispara, a bala mata a vítima antes e recolhe a história delas. O oxigênio é inverso, o mundo é um espelho quebrado de estilhaços de aço, que te cortam antes que se quebrem.
Arquitetura de guerra. Cálculo frio. Matematica morta. Tempo-arma. Matéria assassina. Inimigo amigo, final começo, começo fim. TENET ⊥ƎNƎ⊥.
Não tente entender. Apenas sinta o vento do futuro soprando para ontem.
Tem Alguns Spoilers...
Sangue de Jesus tem poder! Por um momento, você acha que está entendendo o filme, mas 10 minutos depois o cérebro some, o espírito sai do corpo e você já está andando para trás. Com que o Michael Jackson fazia o Moonwalk o tempo todo, ninguém desconfiava que ele era um agente invertido?
"Tenet" é sem dúvida, um dos filmes mais difíceis da história e que eu já assisti na minha vida. Mas a beleza está justamente aí: você desiste de entender a física quântica para começar a sentir a história. O filme é um absurdo técnico, Christopher Nolan não explica, ele simplesmente te joga numa fogueira mental epra ver se você queima.
Inversão do tempo, catraca temporal, teoria do avô, a entropia e as peças do algoritmo... É um turbilhão do capeta! As cenas são inacreditáveis: lutas entre o normal e o invertido, carros capotando ao contrário, batalha final entre a equipe azul e a vermelha, e a bala que entra pra dentro trabuco.
Se você é o invertido, você é o normal e os outros são os invertidos? A loucura acontece no cerebro deles, mas a nossa nem amarrando com camisa de força, ajuda. No final, você já está rendido, derretido e entregue a essa desgraceira mental, com a enorme possibilidade de andar de marcha ré, o resto da semana.
O elenco é bárbaro: John David Washington e Robert Pattinson fazem uma dupla excelente — uma amizade que, para um, está começando e, para o outro, já é eterna. Kenneth Branagh está irreconhecível debaixo daquela barba e do sotaque pesado, ele é um vilão que quer destruir o presente porque não aceita o futuro. E o que falar da Elizabeth Debicki? Que mulher! Que pernas são aquelas? É uma aventura aquilo. Sua personagem é a peça que ninguém esperava, mostrando que até no meio da guerra temporal, a vingança pessoal tem o seu tempo certo.
Da medo de rever "Tenet". O filme foi um chute no cérebro, quando eu assisti no cinema e depois em DVD. Mas agora, esse longa no Nolan vai xom os dois pé no nosso peito. Quando termina o filme a cabeça nossa está inchada, mas a alma esta lavada pra umas tres geração, por ter visto uma obra assim, algo que nunca foi feito antes. É cinema cerebral, profundo e violento.
Não tente entender. Apenas assista, deixe rolar e aceite a inversão.
Mundo sintético, mundo programa, mundo artificial. Dia sombra, neve seca, chuva ácida, luz caida, cor opaca. Cidade quebrada, prédios amontoados, ruas vazias, mar de metal, céu de chumbo. L.A. fria, vidas congeladas, povo preso, seres sonâmbulos, pessoas dormindo.
Inferno claro, poluído, desértico, litorâneo. Diabos soprando vento, rogando pragas, berrando caos, gritando maldições. Lamentos do abismo, pedidos rasgados, orações cansadas, pra esse dia noite surdo.
Céu amarrado, estrelas esmaecidas, céu de neblina, luz enterrada. Clausura de cabeças, tortura de mentes, tiro no coração.
Cova de humanos, cemitério de maquinas, Humanos maquinas, maquinas humanas, Humanos mortos, maquinas vivas. 2049.
Memória, identidade, materia, espírito. O que significa ser um humano? Ter tudo isso, ser tudo isso, ou simular tudo isso? Quem é humano, vive essa plenitude? Então, porque a maldade? Porque a morte e destruição? Os replicantes são muito diferentes? Eles sentem medo, angústia, tristeza, alegria, prazer e amor. A programação sintética deles, e o ensino biológico nosso. Quem são eles, quem somos nós?
Dirigido por Denis Villeneuve "Blade Runner 2049", é a continuação magnífica do clássico oitentista de Ridley Scott. A trama se passa décadas após o primeiro filme, acompanhando o novo blade runner, o agente K, vivido agora por Ryan Gosling. Onde ele descobre um segredo que pode abalar o equilíbrio de humanos e replicantes, envolvendo o passado de Rick Deckard (Harrison Ford).
A narrativa é densa, explora questões sobre identidade e o que significado ser um humano. A direção de arte e a trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch são hipnotizantes, criando um universo visual e sonoro que permeia cada cena, levando quem assisti a uma contemplação prazerosa, com riqueza de camadas e uma profundidade emocional marcante.
O agente K, trabalha pra polícia caçando outros replicantes, mas quando descobre o mistério sua vida que ja era um inferno, tudo muda. Ele encontra restos de uma mulher replicante que morreu durante o parto, algo impossível. A partir daí, ele embarca numa jornada que cruza o seu próprio passado, levando a procurar Rick Deckard, o blade runner do filme original.
Liberdade, identidade, vida humana, vida sintética, K começa a questionar qual é a verdade de sua existência. Com camadas que incluem reflexões sobre esses temas e questionam o que faz um ser quem e o que é, em uma humanidade perdida num futuro distópico.
"Blade Runner 2049", é um filme que dialoga com o primeiro, mas que expande seu universo, mostrando um mundo decadente, miseravel, mais tecnológico, sem esperança, mas ainda cheio de esperança e mistério.
Neste futuro controlado, a Corporação Wallace, do tecelão de anjos Niander Wallace (Jared Leto), surge como a face da frieza. Wallace quer o segredo da concepção, mas não entende o amor. Ao seu lado, a letal Luv (Sylvia Hoeks) é uma ameaça implacável, uma assassina que faz qualquer Blade Runner parecer uma sombra. Ela persegue o "milagre" para destruí-lo, pois uma criança nascida de um replicante representa a evolução final: a liberdade real, o direito ao futuro e a quebra das correntes corporativas.
Luv persegue, manipula, controla as descobertas de K, ê uma ameaça implacável, que procura destruir pistas da replicante de gerou uma vida, pra depois destruir o misterioso ser. O momento em que ela esmaga o emissor de Joi, matando o único amor de K diante de seus olhos, é o golpe final na esperança de K de ter uma vida comum.
A filha, ou a criança que foi gerada, representa uma evolução única. Isso abala todo o conceito anterior de replicantes programados, pois agora há uma esperança de que eles tenham liberdade real, escolha e um futuro próprio. Com isso, a luta deles não é só pela liberdade, mas contra o poder descomunal dessa corporação, que quer agora controlar a criação da vida.
A revelação que Deckard e seu passado de caçador, estejam ligados a essa nova geração de replicantes dão a trama, a urgência de uma revolução. Essa reviravolta, dá um novo sentido ao papel do Deckard e muda totalmente a relação entre humanos e replicantes.
A jornada de K, nos leva ao encontro épico com o velho Rick Deckard (Harrison Ford), escondido no deserto laranja e radioativo de Las Vegas, entre estátuas gigantes e fantasmas de hologramas do passado. O mistério da criança nascida de um replicante, o milagre do parto, muda tudo.
Luv persegue esse segredo com uma fúria divina, culminando em uma luta brutal contra K sob as ondas e a escuridão do paredão marítimo. K luta para salvar Deckard, o pai que ele desejou ser dele, garantindo que o milagre sobreviva à fome corporariva que antes era de carne, mas que agora é sintética.
Blade Runner 2049, mundo cinza, mundo artificial, mundo sem vida, mundo inconsciente. Noite dia, luz opaca, neve neve quente, neve seca. K amava Joi, I.A. esposa, I.A. companheira. Voava cego na luz caída de L.A.. Era um escravo comum. Achou que era especial, mas descobriu que era comum. O caçador de escravos virou caça. Perdeu o seu amor de pixels esmagado no chão. Perdeu o pai e a mãe que nunca teve. No seu sonho de ser filho, encontrou a dor. Nas lágrimas da neve, descobriu a vida. Morreu pelo sacrifício, morreu pela verdade. Morre máquina, mas sintético, morre A.I., mas morre muito mais humano que nós mesmo.
Em "Duna: Parte 2", o sagrado é uma construção de laboratório. Paul Atreides não ascende ao poder por um milagre, mas por uma engenharia social meticulosa e cruel. A profecia do Lisan al-Gaib não é uma verdade espiritual; é a semente podre da manipulação plantada há séculos pelas Bene Gesserit, esperando o momento certo para florescer no solo fértil do desespero do povo Fremen.
Lady Jessica (Rebecca Ferguson) é uma bruxa, e o quel ela faz é aterrador. Ela deixa de ser apenas uma mãe para se tornar a arquiteta-chefe da divindade do seu filho. Ao beber a Água da Vida, ela se transforma numa bruxa ancestral que usa o medo e a fé como ferramentas de guerra. Ela não apenas protege o filho, ela o empurra para o abismo do fanatismo, sussurrando como uma obsessora, as coincidências em sinais divinos.
O auge dessa engenharia é a cena do conselho, Paul (Timothée Chalamet) finalmente explode. É impressionante como aquela pouca carne, sustenta uma voz tão inflamada e autoritária! Ali, ele deixa de ser o humano que amava a Chani para assumir a máscara do Messias. Ele usa os segredos que roubou da mente das pessoas para provar que é um enviado das escrituras, mas o filme deixa claro: Paul está apenas lendo o manual de instruções que a mãe e a linhagem Bene Gesserit escreveram para ele.
O mito, em Arrakis, é uma arma de destruição em massa, um canhão religiosos apontado para os poderosos. Nos antros do poder, não há nada mais perigoso do que um líder que passa a acreditar na própria mentira, ou um povo que prefere um Messias fabricado à liberdade real. Paul não vence a guerra apenas com as facas ou com os vermes; ele vence ao se tornar a maior mentira já contada no universo.
Se o Mito é uma construção de pedra e mentiras, o amor de Paul e Chani é a única coisa orgânica que resta no deserto. O conflito central dessa 2ª parte de Duna, não é apenas o conflito de casas nobres, mas entre a paixão real entre um homem e uma mulher e o destino quase que imposto.
A Chani (Zendaya) é o coração pulsante e racional do filme. Ela não é uma seguidora, ela é uma guerreira que ama o Paul Estrangeiro, o rato, o magrela, o rapaz que quer aprender os caminhos do deserto. A atuação da Zendaya é feroz justamente porque ela vê através da fumaça da profecia. Ela percebe antes de todo mundo, que o homem que ela ama está sendo devorado pelo monstro que a mãe está criando.
Paul, tenta desesperadamente lutar contra as suas próprias visões. Ele sabe que, se seguir o caminho do Messias, ele perderá a Chani. O amor deles é o que o mantém humano, o que o faz hesitar diante do poder absoluto. É sua vida que berra contra um destino escrito por pessoas que parecem que nunca tiveram vidas, mas um fim imposto.
O que é foda, é o estalo que a gente tem, quando que para Paul salvar os Fremen, ele precisa trair o amor da sua vida, a sua alma, seu sangue de areia. No momento em que ele aceita a coroa e o casamento político, ele está apenas ganhando um império, mas está assassinando o Paul que a Chani ama.O amor é a vítima dessa guerra santa.
Ver o rosto da Chani ao final do filme, naquela mistura de ódio, tristeza e decepção, é o que dá a dimensão do desastre. O Messias venceu, mas o homem morreu. E o amor que deveria ser a salvação, torna-se a ferida aberta que Paul carregará para sempre. Enquanto Chani volta sozinha para o deserto, sendo a única alma que permaneceu verdadeira consigo mesma.
Se o Mito é a arma e o Amor é a vítima, a Política é o tabuleiro onde as vidas são sacrificadas sem remorso. Villeneuve nos mostra que o universo é um grande baile de máscaras onde a verdade é apenas uma moeda de troca. Aqui, o poder não é exercido com justiça, mas com cálculo e brutalidade.
O Imperador (Christopher Walken) representa o topo dessa pirâmide de falsidade. Ele é o homem que traiu o Duque Leto não por ódio, mas por medo da influência dos Atreides. Ele é o rei que sacrifica o cavaleiro, pra manter a coroa na testa. E ao seu lado, a Princesa Irulan (Florence Pugh), que mesmo com pouco tempo de tela, mostra ser a personificação desses jogos de poder. Ela sabe que a linhagem e o registro da história são as únicas coisas que sobrevivem às guerras, e manter isso é manter as tradições das famílias.
Nesse tabuleiro, temos o pesadelo visual dos Harkonnen, o planeta Giedi Prime, filmado naquele preto e branco infravermelho, o cenário perfeito para o vilão sem alma Feyd-Rautha (Austin Butler). Ele é a política do terror, a força bruta que o Barão usa para tentar esmagar qualquer resistência. O contraste entre o dourado de Arrakis e o cinza morto dos Harkonnen mostra a diferença entre um povo que luta pela terra e um império que luta pela posse.
Quando Paul Atreides derrota o Imperador, ele não traz a paz; ele assume o controle do jogo. Ao exigir a mão da Princesa em casamento, Paul entra para o baile maldito de máscaras. Ele vende sua alma, e escolhe o contrato político em vez da lealdade do coração.
O final de "Duna: Parte 2" é um soco na boca do estômago do coração. Depois de assisitir a construção do mito, o nascimento do amor e o jogo político, o desfecho esfrega a verdade nua e crua na nossa cara. "O poder não aceita sócios". Para Paul Atreides se tornar o Imperador, ele precisa primeiro deixar de ser o Paul de Chani, ele precisa se tornar o Lisan al-Gaib.
A cena final no palácio é uma dança de sangue e gelo.A luta de Paul e Feyd-Rautha é animal! Quando Paul o derrota, ele se volta pro Imperador, não buscando justiça pelo pai, mas reivindicando o direito medieval de ser o novo tirano. O "estalo" mais doloroso é a escolha final. Ele olha para a Princesa Irulan, olha pra Chani, e ali seu coração que batia no ritmo do deserto é esmagado pelo peso do trono.
O olhar de Zendaya (Chani) nessa sequência vale mais do que mil explosões. Ela não vê um herói, mas o homem que se transformou na mentira que ela sempre combateu. O desfecho dela, nào se curvando, chamando o verme, partindo sozinha pro deserto, é o verdadeiro triunfo moral do filme. Chani foi a única que não se vendeu ao jogo.
A vitória é amarga; o herói vence, mas o universo arderá. Paul agora tem o poder total, o controle da especiaria e o trono de sangue. Mas perdeu a única coisa que o mantinha real.
"Duna", a obra literária monumental de Frank Herbert, ganha nas mãos de Denis Villeneuve, a adaptação grandiosa que os livros sempre mereceram. Ele transforma a ficção científica num épico palaciano, numa tragédia religiosa no confins do espaço. A geopolítica complexa, as intrigas entre as casas Atreides e Harkonnen, ecoam como um drama shakespeariano, onde o destino de Paul Atreides é traçado entre poder, fé e sacrifício.
Villeneuve, resgata muito da essência do livro de Frank Herbert. A gente sente essa escala épica, desses elementos quase mitológicos, mas ao mesmo tempo ele meio que humaniza os personagens. O filme mostra uma complexidade política, como se a gente estivesse vendo uma ópera futurista, com traições, ambições e um destino quase inexorável. Sendo não só ficção científica, mas quase um épico religioso no espaço
O filme faz um mergulho numa trama palaciana, vivida bo espaço. A gente vê os clãs, as casas de poder, como os Atreides e os Harkonnen, quase como casas nobres de um drama renascentista. Trazendo essa sensação do destino já traçado, mas, dando mistério e urgência na história e nos personagens.
A ambientação no deserto de Arrakis, com aquele visual quase hipnótico, reforça essa ideia do sacrifício, da busca por poder, mas também da sobrevivência. O silêncio, os diálogos contidos, as expressões, e isso tudo faz com que a gente sinta o peso da história. Villeneuve pega essa geopolítica, essa intriga palaciana, e transporta para o espaço de um jeito que parece atemporal.
Denis Villeneuve, trabalha com uma escala gigantesca em toda produção. Sua direção aliada à uma produção impecável, cria um ambiente visual deslumbrante, com o deserto de Arrakis se tornando um personagem à parte. A direção de arte cria ambientes grandiosos, tanto no deserto quanto nas naves, nos seus interiores, e os trabalhos de CGI limpo do diretor, são um marco técnico das produções modernas de hoje.
O elenco é sensacional: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Dave Bautista, Zendaya, David Dastmalchian, Charlotte Rampling, Jason Momoa, Javier Bardem, entregam atuações dignas de Oscar, criando uma tragédia shakespeariana no deserto, no meio das dunas.
Timothée Chalamet, como Paul, carrega essa angústia de um herdeiro que vai se tornar um messias. Lady Jessica, caminha na linha bamba, entre cumprir um papel e propagar uma mentira para garantir o poder. É um jogo de xadrez onde Paul Atreides é tanto o rei quanto o peão. Jason Momoa, como o Duncan Idaho, é um carisma puro e as cenas de combate com a faca, o escudo, são de tirar o fôlego.
Stellan Skarsgård vivendo o Barão Harkonnen, ainda me dá medo. Dave Bautista (Rabban), transborda ódio. Zendaya, mesmo com menos tempo de tela, cria uma presença quase mística como a Chani. A honra paterna é esmagada pela traição do Imperador, mas a lealdade de amigos como Duncan Idaho (Jason Momoa) e Gurney Halleck (Josh Brolin) lutam com uma dedicação feroz.
Por trás de toda a ação, o que sobra é a reflexão sobre o ser humano que não muda. Seja na política intergaláctica ou nas tramas de bastidores, o egoísmo e a busca pelo controle são os verdadeiros motores da história.
A trilha do Hans Zimmer, é grandiosa: os sons, os timbres, a gente sente o vento do deserto, o peso do silêncio. É quase que um ritual em forma de música.
Se o clássico de 1984 foi a porta de entrada pra esse mundo incrível, "Duna" de Villeneuve é a consagração de um sonho de criança. O filme não se contenta em ser apenas ficção científica, mas sim, um épico literário que expõe as vísceras do poder e da ambição humana.
Em Arrakis, o deserto é vasto, mas a alma dos homens continua sendo o terreno mais perigoso de todos. Ele tem vida própria, faz a gente sentir medo, mas um respeito religioso. Ele parece vivo e pronto pra assassinar ou ascender qualquer um que adentre suas areias. Com os vermes gigantes sendo os anjos guardiões de suas paisagens
O que impacta nesta versão é como a religião e a profecia são mostradas como ferramentas de manipulação. Aqui, o mito do messias não nasce apenas do destino, mas de uma construção cuidadosa e preocupada em perpetuar domínio, poder e grandeza, aos que criam ou manipulam esses segredos. Ao final, revendo este clássico moderno, percebo que os livros de Frank Herbert finalmente encontraram a tradução que eles sempre mereceram.
A Chegada: O Agora Sobre Tudo e a Melancolia do Tempo (Com Spoilers).
"A Chegada" de Denis Villeneuve corta a linha temporal que conhecemos e coloca o agora sobre todas as coisas, mostrando que a nossa realidade é apenas um véu. A atmosfera é onírica, fria e cinzenta, onde a névoa dita o ritmo de um sonho participativo que parece envolver a mente da Dra. Louise Banks (Amy Adams) antes mesmo dos seres chegarem.
Enquanto o mundo se despedaça em uma crise geopolítica, com a humanidade caminhando para um conflito por puro fracasso do diálogo, Louise está vivendo uma experiência quântica. O que parecem ser apenas lembranças do seu passado são, na verdade, fragmentos de um futuro que habitam dentro dela. A Dra. Louise vive em dois mundos: um no presente, onde a crise deixa marcas, e outro no futuro trágico e misterioso, onde se desenha uma perda que abala as estruturas do tecido temporal, mas não a sua decisão.
O filme toca com sabedoria essa história triste, como se fosse um sonho perdido da nave de pedra envolta na névoa branca. As ações do presente ecoam sobre o amanhã de forma inevitável. Louise usa o futuro para salvar o agora, roubando informações de um tempo que ainda não aconteceu para impedir o caos na Terra — mas não o seu próprio caos pessoal.
A simbiose entre Louise e os Heptápodes é nítida e grandiosa. Eles não trazem armas, mas uma tecnologia cerebral: uma linguagem que reprograma a mente e permite enxergar o tempo como um mapa aberto. Mas essa conquista vem com um preço emocional devastador. Louise não é uma prisioneira do destino, mas a guardiã da sua própria história.
Mesmo sabendo que o futuro reserva uma perda trágica e que o marido a deixará, ela escolhe viver cada segundo. Ela prefere a intensidade de um amor com prazo de validade do que o vazio de nunca ter existido. Ao final, quando a nave de pedra se desfaz no ar, revelando a insignificância da nossa matéria diante de uma consciência expandida, o que sobra é a coragem e o amor. Louise nos ensina que o tempo não é uma prisão, mas uma escolha.
Saí do cinema com a alma lavada e a mente expandida, percebendo que a maior tecnologia do universo não é um foguete ou uma arma, mas a capacidade de entender o próximo e de abraçar a própria jornada. Louise não é uma vítima do destino; ela é a arquiteta dele. Ela aceita a dor para não ter que negar o amor. É a forma mais pura de gratidão pela vida: saber do final triste, mas decidir que cada segundo vale tudo.
Fica o amor, que rompe o tempo, destrói as línguas e permanece sobre tudo.
"...Eu possa me dizer do amor que tive: Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure."
Se em "Gravidade" do Cuarón, é sobre a vitória do ser humano sobre o vácuo e "Interestelar" é uma prova de amor sobre o tempo, "Perdido em Marte" do Ridley Scott é, definitivamente, a vitória das batatas sobre o impossível.
Ridley Scott nos apresenta um herói que não tem tempo pro desespero filosófico, ele tem pressa, ele tem fome e ele tem um plano. O Mark Watney (Matt Damon) transforma o solo estéril e congelado do Planeta Vermelho num laboratório de sobrevivência, num verdadeiro latifúndio, onde um tubérculo plantado é uma vitória contra a morte.
O filme é um entretenimento de espaço que celebra a resiliência prática com o trabalho mais antigo que os homens criaram: a agricultura! Enquanto a política ferve aqui na Terra entre os chefões da NASA, Watney está ocupado sendo o "fazendeiro das galáxias". Ele conserta o que está quebrado, improvisa o que não existe e faz as contas de cada caloria com a precisão de quem sabe que o erro é o fim da linha. É fascinante como a inteligência humana, temperada com humor ácido, consegue encarar a solidão de milhões de quilômetros.
E tudo isso embalado por uma trilha sonora de "discoteca da desgraça" que ninguém esperava: Gloria Gaynor, Donna Summer, Bee Gees, ABBA e a turma toda fazendo sofrer o pobre Botânico, como se as batatas não fossem o suficiente. Mas o asco dele pelas músicas é um dos trunfos da obra. Scott tira o peso dramático e deixa a frustração do Mark ser um dos pilares do humor, junto do fato de ele ser botânico — coisa que seus amigos de missão não param de zoar.
O contraste entre a vastidão desértica de Marte e o ritmo do ABBA nos faz torcer por esse pobre fazendeiro espacial. Ver a alegria da humanidade unida no resgate final, com a tripulação da Hermes arriscando tudo em um motim épico, é a prova de que nenhum homem é uma ilha; nem mesmo se essa ilha for um planeta inteiro.
A construção da horta na base é um dos absurdos mais incríveis da ficção. Ridley Scott juntou ciência, agricultura, drama e disco. A cena do adubo foi foda! Ver um astronauta mexendo com cocô em vez de só controles foi hilário. Isso se soma a cenas de ciência pura, com cálculos físicos de derrubar o ENEM.
O clímax é puro desespero! Watney ser lançado ao espaço em uma nave sem teto, coberta apenas por uma lona, faz ele parecer estar numa "barraca de batata frita voadora". O resgate final, com a ajuda dos chineses e a catarse da tripulação, foi angustiante e perfeito.
A Comandante Lewis (Jessica Chastain) e sua equipe realizam um milagre com uma explosão controlada para dar mais medo, e o abraço final faz a gente quase sentir as mãos deles no nosso sofá.
Quando o filme termina, a sensação é de gratidão profunda. Saí do cinema com a alma lavada! É a vitória do indivíduo que não se entregou e da espécie que não o deixou para trás. No fim, Marte continua sendo um monstro gelado e vermelho, mas Watney provou que, com um pouco de humor e muita matemática, dá para fazer o impossível virar rotina.
Assistir esse filme é um lembrete de que a nossa maior tecnologia não vem de um foguete, mas da nossa capacidade de rir da própria desgraça enquanto tentamos resolver tudo. Sobreviver a um ambiente hostil, sem oxigênio, remexendo as bostas dos outros pra plantar o próprio alimento. Tudo isso ao som da disco...
Resident Evil: O Hóspede Maldito
3.4 1,1K Assista AgoraNo saudoso início dos anos 2000, o mundo dos videogames foi assombrado por um fenômeno: todo mundo ficava louco, se acabando em casa com as madrugadas em claro jogando o clássico da Capcom. Quer dizer, todo mundo menos eu. Eu não era o viciado do joystick, mas conhecia muito bem a história.
"Resident Evil: O Hóspede Maldito", me impressionou muito na época por causa disso. O filme era muito próximo do jogo. O visual da Milla Jovovich com o icônico vestidinho vermelho e bota longa, ficou perfeito na tela. E para melhorar, escalaram a minha musa Michelle Rodriguez, pra fazer aquela parceria bruta de duas mulheres fodona que s desce o sarrafo em mutantes.
O diretor Paul W.S. Anderson teve uma ideia de ouro nas mãos, mas a verdade precisa ser dita: o filme não teve o cuidado que merecia por parte do estúdio. A produção acabou virando um "B Movie", um verdadeiro "thrasão" de luxo, por pura negligência e medo da própria indústria de games. Na época, os engravatados tinham um receio ridículo de que um blockbuster pudesse afastar as pessoas dos jogos caso desse errado. Uma tremenda bobagem.
O resultado disso? Ganhamos um filme divertido de baixo orçamento, com uma computação gráfica fraca pros padrões de Hollywood (aquele monstro no final parece um boneco de Olinda feito de plástico derretido) que tem uma história fácil e rasa, mas que carrega aquele charme da época.
Se eu analisar friamente, fico imaginando o que teria acontecido se a produção tivesse caído mais pro lado do terror psicológico e do suspense cerebral, com um orçamento de primeira linha e um clima mais claustrofóbico dentro daquela mansão escura. Teria sido uma obra-prima de dar pesadelos até pra quem jogava o jogo escondido na madruga.
Mas quer saber de uma coisa? Na época em que assisti — e revendo depois, eu me diverti para caramba. Então, foda-se os defeitos! O cinema também é feito para desligar o cérebro e curtir a correria.
A cena do corredor de lasers da Rainha Vermelha, no laboratório, com aqueles cubinho de luz fatiando o pessoal das forças especiais igual queijo muçarela, não me saem da retina até hoje! Aquilo foi lindo! E a forma como o filme acaba é genial. Aquela imagem final com a câmera subindo, mostrando a Alice armada e a cidade de Raccoon completamente de cabeça para baixo, devastada e deserta, é sem dúvida uma das cenas mais impactantes e inesquecíveis que eu já vi num VHS de locadora!
"Resident Evil: O Hóspede Maldito", é mais um clássico da época que a gente respeita e sempre volta para assistir. O Paul W.S. Anderson que depois virou marido da Milla Jovovich, garantiu a franquia e a esposa no mesmo combo, acertou a mão demais nesse primeiro. Ele pegou o jogo de videogame mais famoso do mundo e em vez de tentar copiar o jogo tela por tela, criou algo novo, mas que representa-se o game.
Ficou foda.
Extermínio
3.7 1,1K Assista AgoraOs filmes de zumbis no cinema eram aqueles bichos lerdos, arrastando os pés, que o George Romero consagrou nos anos 70 e 80. O Danny Boyle olhou para aquilo e falou: "Não, no meu filme o vírus é a Raiva, e esses caras vão correr igual ao capeta!".
Em "Extermínio" ou "28 Dias Depois" (titulo original de locadora), foi a primeira vez que eu vi aqueles infectados correndo na rua, babando sangue e berrando com os olhos vermelhos de ódio. Isso dá um desespero real e genuíno; pra mim isso era novo. Eles não querem só te estraçalhar, eles querem te comer vivo e devagar.
A sequência de abertura, com o Cillian Murphy acordando num hospital e encontra a frenética capital da Inglaterra totalmente abandonada, silenciosa e suja, foi foda. A imagem dele vagando por uma Londres fantasma, em pleno silêncio, é uma das coisas mais impactantes da história recente do cinema. É uma sensação de solidão e abandono total, que aperta o peito. Parece o centro de São Paulo no domingo de madrugada, só que mil vezes pior.
A estética é suja, Danny Boyle gravou quase o filme todo usando câmeras digitais bem baratas para a época, fazendo que que a imagem ficasse granulada e tremida. Jogando quem assisite direto pros anos 90, num caos quase que sem fim. Os críticos chiaram na época, mas isso foi o que deu ao filme uma cara de documentário real de fim do mundo gravado ao vivo.
A primeira metade do longa é incrível, ela mostra o grupinho de sobreviventes tentando escapar desse apocalipse com os infectados colados nas botas deles. Cillian Murphy e Naomie Harris entregam tudo e viram a alma da história. Mas o cinema zumbi também é feito de tragédias marcantes, como o destino do personagem de Brendan Gleeson, que leva aquela inesquecível gotinha de sangue infectado direto no olho. Foi de quebrar o coração até dos zumbis.
Danny Boyle entregou uma escala de ação nunca antes vista no gênero. É um festival de violência, mortes terríveis na base da paulada e tiros na cabeça. Hoje em dia a gente se acostumou a ver multidões de zumbis na TV, mas foi essa obra que pavimentou o caminho de ferro para tudo o que veio depois.
Mas a história dá outra guinada de doido quando o grupo encontra a base do exército. Ali, o vírus cede espaço para uma terra sem lei, um mundo pré-Mad Max total. Se já é difícil lidar com o apocalipse de um vírus mortal, imagina ter que lidar com um apocalipse militares estupradores? Os soldados, liderados pelo sempre traíra Christopher Eccleston, piram no ovo estragado e mostram que a bestialidade humana consegue ser muito pior e mais cruel do que qualquer monstro babando ódio.
"Extermínio" do Danny Boyle, mudou tudo! É um clássico absoluto e visceral que não pode ser esquecido por nenhum fã de carteirinha de filmes de terror, zumbi e sci-fi. É cinema genial, sujo e obrigatório.
Um Lugar Silencioso - Parte II
3.6 1,2K Assista AgoraContinua com Spoilers Silenciosos...
Se continuar um clássico já é uma missão ingrata no cinema, para John Krasinski essa foi sequência foi pura capacidade de cienasta que sabe a obra que cria, como um pai que sabe os filhos que tem.
"Um Lugar Silencioso: Parte II", nos jogas logo pro dia da invasão, mostrando um jogo de basebol de uma tarde americana qualquer. Os bichos caindo dos céus como anjos caídos, mostra de forma biblica, imagens muito conhecidas no mundo do sci-fi, mas que sempre impressionam quando vistas.
Esse bastidores que sempre queríamos ver, não decepcionam! O ataque veio instantaneamente depois que os alienígenas tocaram o solo. E foi alucinante! Um mundo que desconhecia a forma que eles atacavam, foi devastado com uma violencia banal. Pessoas foram mortas sem saber porque foram. E a família Lee, voltando do basebol com cachorro quente, filho no jogo, e sorrisos de felicidade, teve o inferno roubando tudo na cena dos carros, onde o diretor não poupou a selvageria dos alienígenas quando alguém fazia qualquer som. Foi alucinante.
Mas logo o filme te joga nos momentos finais do primeiro, com a família em fuga pela estrada de areia, até que ela some pra dar lugar a terra e folhas secas de um caminho incerto, silencioso e perigoso. As lágrimas caídas pela terrível morte paterna, ainda nao haviam secados. Tudo ainda estava vivo e pulsava em dor e uma desesperada tentativa de sobrevivência.
A jornada nos leva até uma fábrica abandonada, um cenário cinzento e triste onde conhecemos o Emmett, interpretado de forma brilhante pelo Cillian Murphy. Ele representa o retrato de tantas pessoas boas que foram quebradas pelas perdas terríveis do apocalipse e agora tentam apenas sobreviver isoladas em seus esconderijos, que no caso de Emmett, era uma tumba de ferro.
Emmett salva Evelyn e os filhos, da morte certa, levando eles pro seu escodeirijo. Mas ele mostra que sua alma quebrou por dentro. A perda da esposa, fez dele um homem traumatizado, que vive no medo e que a espera a própria morte, na forma da fome, da doença e do ataque silencioso dos novos habitantes do planeta.
Ele desistiu da raça humana, por causa dos aliens e por causa dos prorpuros humanos. Ele via os sinais de fumaça da fogueira que Lee acendia na sua fazenda, mas o medo do mundo violento e cruel, o impedia de responder. E acena chocante do pier, mostra esse fim dos tempos, onde os monstros humanos eram piores que os próprios alienígenas. Onde eles usavam pessoas mais fracas como isca pros monstros.
No meio desse caos, a filha mais velha, Regan, toma a decisão arriscada e questionável de partir sozinha atrás de uma rádio que transmite um sinal de esperança. Embora sua coragem seja admirável, ela flertou perigosamente com o erro e quase causou o desastre total de sua família, naquela cena dos vagoes de trem abandonados, que se nao fosse Emmett, ela seria morta. O desespero da mãe, fez do quase eremita ir atrás dela, mas a esperança de vida que a jovem deu a ele, o fez não só abandonar seus planos, como tambem da mãe desesperada na clausura de ferro dele.
Eles finalmente encontram a ilha do radio, um lugar que parece ter saido de um universo paralelo que não sofreu a tragédia dos ataques. Era um verdadeiro paraíso de paz e alegria, com festas regadas a bebidas e churrascos gritando alto na grelha, tudo comandado pelo personagem de Djimon Hounsou. Mas o céu desaba em cima deles novamente. Um monstro vai de carona no barco e transforma esse paraíso, num inferno de mortes e horror em um piscar de olhos.
A correria desgraçada começa! Cenas de horro toma conta do paraíso, o mostro nao perdoa nada, tudo e reduzido a restos de carnes, ao menor ruído. E Emmett, Regan e o Homem da Ilha fogem pra atrair o monstro pra longe da cidade.
Enquanto a ilha é devastada, o filme cria um paralelo desesperador com a mãe e Marcus (Noah Jupe) o filho mais velho ferido e preso no porão da fábrica. O lance do oxigênio acabando dentro do bunker com o bebê chorando, com o bicho a espreita la fora é de arrancar os cabelos, que culmina numa sequência de salvamento espetacular. Com Evelyn tentando impedir a todo custo que a tragédia se repetisse na sua vida, e de forma dobrada.
O desfecho divide a família em duas frentes é de pura adrenalina. Na ilha, a garota consegue usar a torre de rádio para espalhar a microfonia do seu aparelho pelas caixas de som, permitindo que ela e Emmett matem o bicho! Do outro lado na fábrica, o irmão mais velho ouve o sinal pelo rádio e perde o medo que o paralisava, mata a criatura que ameaçava sua mãe.
A família não se reencontra no final, mas as crianças assumem o controle da sobrevivência com maturidade e respeito. Fica agora a enorme expectativa pra o terceiro capítulo dessa franquia que mantém sua essência como uma das poucas e verdadeira pérola do cinema moderno.
Um Lugar Silencioso
4.0 3,0K Assista AgoraTem Spoilers Silenciosos...
"Um Lugar Silencioso" joga a gente direto no dia 89 do apocalipse e dita a sua lei nos primeiros dez minutos, com um soco violento e silencioso no nosso estômago. O erro ali é fatal e custa a vida em dois segundos. Quando o garotinho desavisado liga aquele brinquedo eletrônico e o bip corta o silêncio da ponte, o desespero do pai correndo contra o tempo é inútil. O monstro desce como um raio e leva a criança.
"FAÇA SILÊNCIO OU MORRA"
O John Krasinski operou um milagre na direção ao transformar o silêncio no personagem mais aterrorizante e barulhento do cinemq. O filme consegue passar quase quarenta minutos sem uma única palavra falada, quebrando apenas em momentos cirúrgicos, como a cena belíssima da cachoeira, onde o barulho da água caindo dá ao pai e ao filho o único alívio de poderem falar alto sem morrer.
O grande triunfo da trama é que, por trás do terror dos alienígenas, existe um drama familiar destrutivo, melancólico e com uma ferida aberta que não fecha. A filha mais velha carrega nas costas o peso de se sentir responsável pela morte do irmãozinho, por ter dado as pilhas do brinquedo para ele. Há uma distância dolorosa entre ela e o pai, um sentimento de culpa num ambiente onde eles não podem sequer chorar alto ou desabafar. E para deixar essa corda ainda mais esticada, a mãe está grávida.
Trilhas de areia marcadas no chão para não pisar em folha seca, marcas de tinta na tábua da casa para saber onde o assoalho não range, refeições sendo feitas com as mãos em cima de folhas para não fazer barulho de talher. As mais simples rotinas diárias, foram transformadas em situação alto tisco de morte, se não as seguir. Mas pensar na loucura que é dar à luz e ter um bebê chorando num mundo onde não se pode derrubar um copo no chão? Mano, isso não vira pra mim.
Mas todo esse sistema, toda essa engenharia, todas as regras, leis e o diabo, vai pro saco, depois pisa no prego, derruba o copo entra em trabalho de parto. Mano, quem ja pisou em caco de vidro e teve o pé arrombado por prego, sabe. Você vira Jesus na cruz. E depois dos fogos, vem aquele grito que faz jus a pé furado, filho nascendo e ódio desses alienígenas. A cena da banheira foi um dos maiores desesperos que eu ja assisti num filme naquela época!
E o filme não para! A cena dos dois filhos presos dentro de um silo de milho afundando, com o monstro rasgando o teto de metal para pegar eles, foi de matar! Depois assisitir Lee vendo que os filhos vão morrer dentro do carro velho, olha para a filha, faz o sinal de "Eu sempre te amei" e solta o maior grito da vida dele para atrair a criatura e dar a chance deles fugirem. Foi de quebrar qualquer marmanjo.
E o perrengo da Evelyn no porão? Inundação, criança chorando e o alienígena descendo a escada? A descoberta de que a microfonia do aparelho auditivo da garota é a fraqueza dos monstros é genial. A cena final da Emily Blunt engatilhando a espingarda de cano duplo com um sorriso de canto de boca, pronta para o combate, é pra ficar ouvindo aquele "Clic Clic", pra sempre!
"Um Lugar Silencioso" já nasceu clássico, marcou época e redefiniu o terror psicológico, e os filmes apocalípticos como poucos. O visual do filme é um espetáculo, a fotografia tem um tom bucólico de campo que contrasta com o peso apocalíptico e a melancolia da história. Os personagens tem as dores estampadas em suas faces e suas rotinas. A direção do Krasinski é impressionante, ele reinventa o genero de forma original e muito corajosa, com um filme que marcou época e que ainda tem muita coisa pra se mostrar.
A Ilha
3.4 898Tem Alguns Spoilers...
Se os críticos de cinema choram toda vez que o Michael Bay explode um carro, o problema é deles. "A Ilha" é um arregaço de ficção científica, um clássico dos anos 2000 que tive o privilégio de assistir no cinema e que namora firme e forte com os conceitos de "Matrix" e "A Praia".
A dinâmica da história parece saída do mesmo livro: os personagens acham que estão vivendo no paraíso, num refúgio; mas na verdade estão trancados numa prisão, num mundo controlado, em uma cela mental, prontinhos para o abate.
A primeira metade do filme te deixa amarrado no sofá com o suspense daquela utopia controlada, onde todo mundo veste branco, trabalha na mesma firma, come mingau e espera ganhar na loteria pra ir para o último lugar não contaminado da Terra. E sexo? Vixe nem pensar...
Mas a filme da reviravolta das boas, quando o Lincoln Six Eco (Ewan McGregor) descobre a terrível verdade: a ilha é uma mentira. Eles são clones. Produtos. Peças de reposição biológicas para ricaços da vida real. Isso só pode ter sido efeito da cachaça que ele tomava com um certo personagem do filme.
Quando a verdade vem à tona, a ficção dá espaço para o Michael Bay raiz e o ritmodo filme vira uma correria alucinante. A produção do Bay é foda, ele usa armas, tiros e destruição reais, deixando as cenas de ação animalescas. A computação gráfica é incrível! Ela acompanha esse visual mecânico e pesado das cenas. A fotografia é tão perfeita, limpa e saturada que os closes do filme parecem legítimas capas dos cadernos da Tilibra daquela época.
As perseguições são antológicas, com destaque para a sequência bestial do caminhão soltando rodas de trem para todo lado e destruindo carros que quase saem pela tela do cinema. Melhor tatuagem pra retina é impossível. E o que dizer deles voando em uma moto tecnológica por uma Los Angeles futurista? Eles rasgam os ceus, tiram finas dos carros, levando chumbo nas costas. E quando eles caem daquele prédio, é inacreditável!
O elenco corre o filme inteiro e entrega tudo que se imagina de atores em filmes do gênero. Ewan McGregor trabalha bem para caramba fazendo papel duplo. E, claro, precisamos falar sobre a era de ouro da Scarlett Johansson. Que mulher! Com aquele beição e aquele corpo maravilhoso, ela fazia a molecada da época morrer no banheiro e ressuscitar 40 minutos depois do banho. Gata demais!
E pra completar, temos o mestre Steve Buscemi, o coadjuvante favorito de qualquer cinéfilo respeitável: louco, irresponsável, feio, ele era o único cara em quem você não deveria confiar num filme, mas que acaba ajudando os clones. E na vilania, o icônico Sean Bean cumprindo a lei suprema de Hollywood: se ele está no filme, ele vai morrer no final. Não é spoiler, é a norma do ator.
As cenas finais, são um turbilhão cenas de ação, com o casal querendo revelae toda mentira da empresa, levando os dois a buscarem a matriz real deles. O desespero toma conta de tudo, as cenas finais é um soco de adrenalina, tiros e explosões. O momento "I am Tom Lincoln!" é inesquecível.
A "Ilha" é aquele filmaço que eu perdi a conta de quantas vezes já assisti, o filme do Michael Bay, entrega o que o cinema do início dos anos 2000 fazia de melhor, "cinama genial com tecnologia pra entreter". Amo esse filme e sempre que eu posso volto pra essa ilha pra ver esse clássico da ação e ficção.
Expresso do Amanhã
3.5 1,3K Assista grátisExpresso do Amanhã: A CPTM Apocalíptica de Bong Joon-ho.
Se você acha o horário de pico na linha Brás / Calmon Viana da Zona Leste de Sampa, um teste para os fortes, é porque ainda não viu o trem de "Expresso do Amanhã". O diretor coreano Bong Joon-ho pegou toda a nossa bagunça social, colocou dentro de uma lata de sardinha de ferro em alta velocidade e criou uma ficção científica com alma de sci-fi raiz, aquela onde você paga para entrar e nem rolando na macumba consegue sair.
O cenário é um inferno gelado. Depois que a humanidade estragou o clima do planeta de vez, os sobreviventes ficaram trancados nessa carruagem maldita que nunca para. Mas o pior não é o frio de lascar o cano do lado de fora; é a bestialidade humana do lado de dentro. O trem faz o resumo da sociedade de um jeito cruel, violento e vergonhoso; a elite ostenta na primeira classe comendo sushi, enquanto a peãozada se fode no rabo do trem sobrevivendo à base de goiabada de barata.
A revolta começa. Quando a turma do fundão liderada por Chris Evans decide avançar pelos vagões para tomar a locomotiva, o trem vira o expresso da maldade, com sangue, atrocidades e descobertas aterradoras. A cada porta que se abre nos vagões, é um circulo do inferno que se mostra.
O pau come solto, uma briga desgraçada, se espalha no filme, com sangue, tripa, perna, tiro, machado, facão, coisa de açougueiro em dia de festa! As reviravoltas fazem você ficar calado diante da violência, do sadismo e do mal que se normalizou nesse inferno de ferro.
Bong Joon-ho entende da parada! Ele sabe muito bem o que está fazendo. Ele faz uma alegoria do nosso mundo, coloca o povo dentro de um trem que não pode parar, com regras, limites, leis que não servem pra todos. Manipula ações e a ordem das coisas de baixo pra cima, do fim pro começo. A moral é quebrada, a bondade é relativa, tudo é controlado, os personagens se revelam, como heróis podres, pessoas carcomidas pelo sistema que mesmo no apocalipse controlam não só suas ações, mas suas mentes e corações.
O caos não ter fim, o ritmo é frenético de ação, mas com aquela ironia fina (e bota fina nisso, vide a atuação bizarra da Tilda Swinton). O final é brilhante e explosivo, nos lembrando que o caos, às vezes, é o único fator de mudança quando a ordem serve apenas para esmagar quem está embaixo.
"Expresso do Amanhã" é igual àquela cachaça forte que você toma no boteco perto da estação; desce rasgando a garganta, te dá um baque na mente, mas te deixa acordado para enfrentar o próximo trem lotado da vida real.
Elysium
3.3 2,0K Assista AgoraSe você quer entender o mundo hoje, não olhe para os jornais; assista a "Elysium", de Neill Blomkamp. O filme é uma crítica social foda que desenha um abismo físico entre os que tem tudo e quem não tem nada. De um lado, a Terra: um lixão superpovoado, uma UTI global a céu aberto. Do outro, no alto, um anel de prata no céu onde os ricos preservam seu modo de vida premium, enquanto o resto da população vive fodida.
O que dá um estalo na gente ao rever essa obra é saber que as naves clandestinas que tentam invadir a estação espacial não são ficção científica; são o reflexo de um pasasdo histórico. Os botes de cubanos, venezuelanos e africanos fugindo da fome e da opressão em busca de uma chance de sobrevivência, ainda são uma triste realidade do nosso presente que não pode ser esquecida.
Blomkamp mistura alta tecnologia com a miséria absoluta, usa tomadas incríveis de terra arrasada onde o luxo das estações espaciais flutua sobre o entulho da sobrevivência humana, para nos lembrar que na nossa realidade, o muro não é de metal, mas de dinheiro e poder.
No meio desse sistema podre, brilha Wagner Moura. O seu Spider é um arquiteto da guerrilha, um hacker malandro que tem a mesma moral e autoridade de quem subia o morro no BOPE. Ele não é um santo, é um sobrevivente que opera nas sombras. Ao lado dele, Alice Braga traz os restos de uma humanidade perdida, mas necessária com sua Frey, uma mãe que carrega a dor de ver o sistema negar a cura pra a próprio filha.
Matt Damon é mais um correria desse mundo, ele vive Max, mais um que sai do sitema condicional e sente na pele o abuso das autoridades humanas e robóticas. Quando ele aceita ter um exoesqueleto aparafusado no próprio corpo, ele deixa de ser apenas um funcionário descartado para virar um mártir tecnológico. Ele é o homem de carne enfrentando o exército de metal da fria Secretária Delacourt (Jodie Foster).
Mas se o filme tem um rosto para a maldade, esse rosto é o de Sharlto Copley. O seu Kruger é um espectro maligno, um mercenário maníaco que exala um sadismo nazista. As cenas dele perseguindo o Max são puro terror insano; ele é a pior versão do que o ser humano pode se tornar quando recebe poder para matar.
O final de "Elysium" é um soco no estômago do sistema. Quando o pau come solto lá no alto, o que vemos é o reset de um regime político global. É irônico e libertador pensar que, no fim das contas, a chave para a salvação da humanidade estava nas mãos dos excluídos, dos ladrões e dos nóias que esse mundo premium, sempre tentou esquecer.
A Estrada
3.6 1,3K Assista Agora"Mundo destruído, humanidade perdida, e um horizonte que insiste em permanecer cinza."
A Estrada, de John Hillcoat, não é apenas um filme; é um testemunho final, o último suspiro de um mundo que esqueceu de morrer. A narração quase sem fôlego do pai, interpretado por um Viggo Mortensen visceral, serve como o eco de lamento de uma civilização que fracassou. Aqui, o apocalipse não parece uma punição divina, mas o merecimento global de um povo perdido, que deu seus últimos espasmos de vida antes do nada.
O cenário é um tumulo aberto, um umbral de poeira e ar podre, que sufoca e evenena. Diferente de outros filmes do gênero, a vegetação aqui não é selvagem, ela está na cama da morte. As árvores caem porque suas raízes apodreceram, e o silêncio desse mundo cemitério, é interrompido apenas pelo estalo da madeira morta sobre a terra e pelos passos de pai e filho, que rumam no vazio sob o sabor do pó.
Nesse purgatório, a solidão e nossas próprias sombras, são uma companhia melhor do que as pessoas se encontram. A maldade se tornou maior do que as doenças e a fome. Canibais e assassinos caminham como espectros malignos, caçadondo os fracos que não se entregaram ao exército infernal. A cena do porão é o lembrete terrível de que, quando a alma morre, o homem vira o pior predador de sua própria espécie.
O contraste é o que mais dói. As lembranças do passado, cheias de cor e vida com a esposa (Charlize Theron), surgem como um paraíso perdido que tenta curar o coração. Mas a realidade emerge do túmulo com a crueza de um pai amargo e um filho (Kodi Smit-McPhee) que carrega a pureza como se fosse uma joia frágil.
O pai carrega as dores do mundo nos trapos que veste. Sua mente é queimada viva pela sensação de que a morte cometeu um erro, um crime maior do que o próprio apocalipse, ao esquecer de levá-lo em seus braços de trevas. Ele não quer viver, ele tenta não dá permissão pra morte, para que o seu filho não fique sozinho nessa carniça de mundo.
Com uma fotografia que flerta com o preto e branco, o filme uma lembrança, um sonho ruim que nos sufoca. É pessimista, dramático e hipnótico. O final, embora carregado de uma tristeza profunda, entrega a última centelha: a prova de que a luz ainda atrai a luz, mesmo quando o mundo já se entregou à escuridão.
"A Estrada" é a obra definitiva sobre o que resta quando tudo acaba. É sobre "carregar o fogo" quando não existe mais lenha, e entender que, no fim de tudo, o amor é a única coisa que não vira cinza.
O Livro de Eli
3.6 2,0K Assista AgoraTem Alguns Spoilers...
Mundo destruido, humanidade perdida, fé cega, facão amolado e um livro sagrado.
"O Livro de Eli", nos leva pra um nada, um deserto silencioso, um mundo despedaçado, um abismo onde cada passo de Eli ressoa como uma prece no vazio. Denzel Washington, com um olhar carregado de mistério, interpreta um homem solitário, cujo propósito é mais vasto do que a própria jornada. Ele carrega o último livro sagrado, uma chama de esperança em meio às cinzas, como um ponto de luz nas trevas do apocalipse, onde o mal do mundo na forma de um homens, tenta de forma desesperada tomar pra si o que seria a salvação, para transforma-la em trevas.
Ao lado de Mila Kunis, que brilha com uma força emergente, ele navega por uma paisagem desolada, onde o poder da palavra é a última centelha de humanidade. Cada cena é uma oração silenciosa, cada diálogo, um espelho da fé em tempos de escuridão."
O cenário é um faroeste desbotado, onde a cor sumiu junto com a civilização. Eli caminha sob um sol impiedoso, vivendo de restos e protegendo sua mochila com a rapidez de um samurai. A cena da ponte é um aviso pro resto da civilização, ele não busca o conflito, mas quando o mal se atravessa no seu caminho, o facão de Eli dita a sentença como uma maldição, com uma precisão que beira o sobrenatural. Revelando que ele não é apenas um sobrevivente, mas um guardião.
Do outro lado dessa terra maldita, está Carnegie (Gary Oldman). Um homem que rasteja na carniça do mundo, e como uma hiena se alimenta das vísceras dos fracos; dominando e assassinando quem atrapalha suas vontades. Medo, fome, sede e ignorância, Carnegie, devora as pessoas, come as vidas delas, como um demônio num inferno, faz com os infelizes.
Enquanto Eli usa a palavra para libertar a alma, o vilão quer o livro para dominae e escravizar o povo. É o duelo clássico entre o espírito e o ego, onde somente os sobrenatural atua no invisível, pra pender a balança pro lado merecedor. No meio desse fogo cruzado, surge Solara (Mila Kunis), uma serva escrava de Carnegie, que simboliza o despertar da consciência pro novo. E através dos exemplos de Eli, ela descobre que o mundo pode ser mais do que apenas violência e fome. Ela deixa de ser uma espectadora da própria desgraça pra se tornar a herdeira de um legado que nem mesmo a morte pode apagar.
A jornada de Eli não é apenas uma caminhada; é uma fuga desesperada pelas trevas de sol e poeira. Carnegie o persegue como uma sombra faminta, uma força que quer arrancar o último suspiro dos humano, como a última vela do purgatório. O perigo espreita em cada curva, o medo do atraso e do fracasso, faz que Eli tente desvencilhar-se de Solara para protegê-la, mas o destino quebra os muros da imprevisibilidade. Ele e Solara, caminham juntos, a despeito de Eli.
O filme tem momentos barbaros de ação, com lutas de Eli, que você duvida que assisitiu. O filme explode em cenas coreografadas como num balé de morte, cenas que lembram duelos dos grandes clássicos do Velho Oeste. Mas tambem revalam momentos horripilante, como na casa isolada, onde um casal de aparência inofensiva escondia o vício mais sombrio desse novo mundo: o canibalismo. Ali, o tremor das mãos revela essa nova doença das almas perdidas, a reação fisica de quem se alimenta da própria espécie.
Mas Eli é sobrenatural, mesmo quando ele é brutalmente alvejado, o que vemos não é apenas um homem caindo, mas algo que desafia as leis da vida e da morte. Eli não quer morrer, Eli não dá permissão de tirar sua vida. Ele continua, ele persiste; como se as balas não pudessem deter um propósito ditado pra ele pelo próprio Céu. É essa resiliência quase divina que confunde seus inimigos e guia Solara a salvá-lo, permitindo que a missão alcance o seu destino final nas margens do litoral.
Mas a verdadeira alma da obra se revela no seu ato final, quando o véu cai e descobrimos que Eli atravessou o inferno guiado por uma visão que não vinha dos olhos, mas do espírito. Eli era cego. Ele decorou cada palavra, cada promessa, transformando seu corpo em um templo vivo. Ele era o livro.
O final é triste, mas glorioso, Eli morre para que a palavra viva, provando que, no fim do mundo, o que nos salva não é o que carregamos nas mãos, mas o que guardamos no coração.
"O Livro de Eli" é um clássico moderno que nos ensina que, mesmo na escuridão total, quem tem fé nunca caminha sozinho.
Assisti no cinema, e o susto que eu tomei no final, não como descrever.
Eu Sou a Lenda
3.7 2,2K Assista AgoraSolidão, perda, sobrevivência e esperança. "Eu Sou a Lenda", é muito mais que um simples filme de sobrevivência e esperança. A obra de Francis Lawrence, é um drama que faz uma reflexão sobre a humanidade quando tudo é destruído, cim um homem sozinho numa cidade, buscando a cura para humanidade, mas sem perceber que ele adoeceu.
A história mostra, Robert Neville (Will Smith), um cientista militar que vive sozinho em uma Nova York devastada após uma pandemia causada por uma vacina de cura do câncer que virou uma doença; um vírus destruiu quase toda civilização, transformando os sobreviventes em criaturas violentas e noturnas, seres parecidos com zumbis. Mas inexplicavelmente, Dr. Neville parece ser imune a ele, como tambem o último homem do planeta, onde ele dedica seus dias procurando uma cura pra doença enquanto tenta preservar o que restou de sua própria sanidade.
O grande diferencial do filme está justamente na solidão esmagadora que ele vive, onde antes uma Nova York, símbolo máximo da vida moderna, megalópole de milhões e movimento constante, agora aparece completamente vazia.
Ruas vazias, prédios abandonados, vegetação de interior; a natureza de forma cruel, toma conta da cidade e os animais selvagens que um dia foram seus, mas que agora ela corre novamente entre os carros, ruas e prédios, criando uma atmosfera melancólica e assustadora.
A cidade deixa de ser apenas um cenário e passa a se transformar num personagem vivo. Melhor: morto. Não... Morto-vivo. Existe uma sensação constante de morte e vida, num vazio que é quase uma sepultura, onde o mundo parou, silenciou e voltasse no tempo.
A atuação do Will Smith é um dos pilares do longa. Grande parte da narrativa depende apenas dele. E o velho Will, não descepciona, o ator consegue transmitir o desgaste psicológico de Neville de maneira extremamente humana, com alegrias, tristezas, lembrando de um mundo que foi subtamente tirado dele.
Os diálogos com os manequins, as conversas imaginárias e os pequenos rituais cotidianos revelam um homem tentando desesperadamente manter sua identidade e sua saúde mental. A relação dele com a cadela Samantha é o coração emocional da história. Samantha representa o amor, a amizade, a companhia e o último vínculo afetivo de Neville com um mundo que morreru. A cena da morte dela é uma das coisas mais tristes do cinema apocalíptico e permanece, como um dos pilares dramático da história.
A trama reserva muitas emoções, as camadas da história, mostra além da tragédia global, da perda familiar, do drama em encontrar a cura, o filme trabalha muito bem o suspense. Durante o dia, Neville parece controlar a cidade; mas à noite, ela pertence às criaturas. O medo toma conta das história, o silêncio do dia, da ligar a urros e gritos ensurdecedores na noite.
A mudança na narrativa acontece de forma inesperada, quando é revelado que os infectados não são apenas monstros irracionais, mas sim pessoas terrivelmente doentes, dotados ainda de inteligência, organização e sentiment; por trás do vírus, a humanidade deles ainda estava viva. A companheira do líder das criaturas, foi o ponto da virada história.
O desespero dele em resgatar ela que foi cspturada aleatóriamente por Neville, trouxe mais uma camada pra trama, criando um antagonismo inesperado pro personagem que agora tinha quase que um vilão pra lutar. O conflito deles deixou a trama mais complexa, distanciando um pouco da velha luta insana do que simplesmente de humanos contra monstros.
Na parte técnica, "Eu Sou a Lenda" impressiona. A direção de Francis Lawrence consegue equilibrar momentos silenciosos e contemplativos com cenas de ação intensas. A fotografia utiliza tons frios e iluminação natural da cidade para reforçar a sensação de abandono e isolamento. Os efeitos visuais, especialmente na recriação de Manhattan deserta, foram ambiciosos para a época e ajudaram a transformar o filme em um marco visual. Há cenas memoráveis, como as avenidas tomadas pelo mato, os prédios deteriorados e o silêncio quase absoluto das ruas. Quem assistiu no cinema, essa sensação apocalipse, foi quase que real.
O uso do som também merece destaque. O filme entende o valor do silêncio. Muitas cenas causam tensão justamente pela ausência de música, deixando apenas ruídos distantes, vento ou o eco da cidade vazia. Quando o perigo surge, o impacto sonoro se torna ainda mais forte. A trilha sonora contribui para essa mistura de tristeza e suspense.
Outro elemento importante do filme é a presença constante das borboletas ao longo das cenas. Elas representam um símbolo de transformação, esperança e conexão emocional do presente destruído do Neville, com seu passado. Pequenos detalhes como esse ajudam a dar profundidade emocional ao filme, que aos poucos revelam a tragédia que abateu sobre o protagonista.
A chegada de Anna (Alice Braga) é o ponto de ruptura na rotina militar e paranoica de Neville. Ela não traz apenas o Ethan, mas ela traz a voz humana que ele não ouvia há anos uma fé que ele já havia enterrado junto com sua família. É o contrastre entre a ciencia e a religião, enquanto Neville está preso na ciência fria e no trauma, Anna representa a intuição e a esperança de que existe algo além do seu laboratório. É um encontro tenso, o isolamento dele bate de frente com a humanidade vibrante dela. Mas nada que algumas cenas do "Shrek" não cure.
A cena em que eles dividem o café da manhã, o conflito entre o ceticismo dele e a crença dela em uma colônia de sobreviventes dá ao filme um novo fôlego. Anna acaba sendo o espelho que reflete o quanto Neville se tornou selvagem na sua solidão; é através dela que ele ercebe que sua missão de encontrar a cura ganhou um novo destino.
O desfecho transforma Robert Neville em uma verdadeira “lenda”. Seu sacrifício final representa não apenas a luta pela sobrevivência, mas a tentativa de devolver esperança à humanidade. O final trágico, mas heroico, imortalizado assim o personagem de forma genial.
"Eu Sou a Lenda" permanece marcante para mim até hoje, porque sua trama elevou o nível dos filmes sobre apocalipse zumbi, mostrando não só cenas de filmes de ação, mas abordando dw forma mais humana, temas como isolamento, medo, delírio e a necessidade humana de se conectarcom outro. Mesmo cercado de cenas grandiosas e momentos de muita tensão, o filme impacta quem assiste mostrando um retrato duro e emocional de um homem sozinho diante do silêncio de um mundo que morreu.
Furiosa: Uma Saga Mad Max
3.7 696 Assista Agora"Furiosa: Uma Saga Mad Max" não é um Ford Falcon Interceptor V8, mas está muito longe de ser o Poisé que a critica espalhou na epoca. Para um spin-off, o que o George Miller entregou aqui é um milagre do motor. Mas se você espera algo superior a "Estrada da Fúria", pisa no freio, puxa o freio de mão, arrêia! O longa com Tom Hardy é um épico do apocalipse, um dos maiores filmes de ação de todos os tempos, então cuidado, a curva é fechada demais, e o motor até pode morrer se você tentar comparar. Agora se você busca cinema de verdade, "Furiosa" é foda.
O CGI é uma realidade, está lá e a gente sente a diferença. Comparado ao espetáculo de efeitos práticos do filme anterior, aqui a coisa é mais computadorizada, coisa que deixa o filme artifical se comparar com o que não pode (Estrada da Fúria). Mas, no meio desse deserto digital, a gênialidade do Miller ainda arranca momentos incríveis.
A sequência do ataque no caminhão é um marco do pixels, são dez minutos de puro terror road movie apocalíptico, numa estrada que vira um inferno em movimento, com motócas tentando a sorte enquanto outros passam tinta cromada na boca para abraçar a morte feliz. É o DNA da franquia roncando igual aos motores do War Rig.
A transição da pequena Alyla Browne para a Anya Taylor-Joy é coerente, é justa. A Furiosa fala pouco porque o trauma não tem palavras. Ela é uma personagem que foi moída pela vida antes de virar a lenda que a Charlize Theron imortalizou. O Dementus do Chris Hemsworth, as vezes nos incomoda com a infantilidade do seu personagem, mas uma loucura sádica logo o abraça, trazendo mais um vilão louco pra galeria da franquia. O Praetorian Jack de Tom Burke, entrega tudo o que se espera de um guerreiro do asfalto; um cara que você quer ver morto desde o primeiro minuto.
"Um animal preso come as próprias patas para tentar escapar". A cena do braço é um soco no estômago que não sai da memória até hoje. Embora o filme corra um pouco no final com aquele resumão da guerra em CGI, onde a grana do orçamento claramente gritou no bolso dos produtores, o arco da vingança é satisfatório. Miller mostra que, mesmo em uma década de cinema anêmico e sem alma, ele ainda sabe como fazer um filme que nos faz sentir poeira na garganta.
"Furiosa: Uma Saga Mad Max", pode ter seus erros e escolhas diferentes, mas o filme do George Miller saiu no lucro. A produção é foda, tem uma direção genial e um elenco de enxer os olhos de areia; até agora é sem duvida um dos melhores filmes de ficção da década.
Valeu cada segundo rever o caminhão, os carros e as motos, saidas do pesadelo apocalíptico do universo do Mad Max novamente, mesmo que seja agora em CGI.
P.S. Recomendo, mas deixo o aviso: o meu final alternativo, com a luta no meio do tornado, ainda seria mais épico!
Testemunhem!
Mad Max: Estrada da Fúria
4.2 4,7K Assista AgoraSangue e óleo, motores malditos, caminho das trevas. Raiva, ódio, fúria. Apocalipse de areia, calor vulcânico, inferno de sol. Mad Max e seu mundo maldito.
Homens encarnados em carros, carros correndo como homens sem alma no deserto. Bestas cegas, demônios cromados, escravos dos motores. Fome de vida, vida de morte; hóstia sagrada de areia e gasolina. Pão e vinho sem um deus para celebrar. Céu, inferno... Valhalla.
Bolsa de sangue. Homem sem nome, sem alma, prisioneiro da culpa, escravo do passado. Agora, comida de garotos; garotos de guerra. Fim sem honra em um mundo sem glória. Morte lenta na estrada — estrada de ódio, estrada de Fúria.
Furiosa: anjo caído. Corpo de mulher, braço de ferro, alma de demônio; um demônio necessário. Ela não busca o céu, busca o verde que a memória apagou. No volante, ela não dirige, ela sangra o caminho. Atrás, o rastro de fogo; à frente, o vazio que a esperança risca na poeira.
Max e Furiosa: dois náufragos de metal num mar de areia. Não há amor, há aliança. Não há conversa, há o rugido. Onde o mundo acabou, eles são o que sobrou do ser humano: o último fôlego antes da carcaça, a teimosia de não virar sucata.
O motor grita. A alma silencia. A estrada não leva a lugar nenhum, mas nela, nesse inferno seco, o sangue ainda ferve. Enche tanques, serve motores que berram com pneus em estradas onde profetas se perderam... e onde nem o diabo ousa andar.
O céu fecha, ohorizonte explode em laranja doentio. O tornado não é vento; é um corpo do mal, um urro de um deus vingativo que odeia os vivos e amaldiçoa quem tenta atravessar suas terras. É a morte soprada pelo diabo, o dedo dele riscando o deserto, arrancando a areia, a pedra e a vida dos degenerados que desafiam ele.
Raios de areia, trovões de pedra, turbinas que comem fogo; o homem descobre que é poeira que grita no infinito. Os ventos se vingam, a escuridão os engole, as trevas os sepultam no ar, nas areias, nas pedras, no esquecimento laranja, vermelho e negro.
O Caminhão, a cudade de rodas, ele não berra; ele rasga o deserto. Ele não corre; ele rompe a realidade, furando a areia como uma lança de aço, o ventre que carrega amores, ódios, vinganças e as vidas que o Falso Deus tentou sequestrar.É um altar sobre rodas onde o destino é decidido em cada troca de marcha.
Quando sua buzina corta o ar, não é um som de aviso, é uma prece rouca, uma lamentação muda, gritada no deserto, rogando passagem, desafiando a morte. Que ri alto e gargalha com ódio e alegria na areia.
Nessa carruagem de ferro, nesse semideus de metal, dois espelhos, almas iguais, Max e Furiosa, rei e rainha, montam nesse demônio de pneus, nesse castigo que corre na estrada, fugindo pra se vingar, matando pra fugir, matando por matar.
O falso deus ruge. Immortan Joe, a máscara que esconde o apodrecimento, tenta retomar o que nunca foi dele. Nas pedras quentes da areia maldita, o encontro é furioso, é fatal. Sem honra, sem perdão. A mão de ferro da Furiosa, é a mão fria e enferrujada da vingança, arranca a face do tirano, expondo o vazio, o nada. O ídolo cai; o deserto engole o resto.
O retorno para a cidadela é a volta pra um céu de mentira. O elevador ascende ao alto, carregando o resto do mestre falso. Diante dos escravos de lama, a água é libertada, desabando como graça, sobre um povo faminto, que nunca foi saciado.
Max observa de saida, Furiosa olha querendo que ele fique. O nômade do nada, o fantasma de si, o bolsa de sangue. Max não pertence a esse trono, ele pertence à estrada. Ele some na multidão, como uma sombra na poeira, deixando para trás um mundo que agora tenta respirar.
O motor grita. A alma silencia. No fim, somos todos apenas poeira sufocadas no infinito, buscando o horizonte nessa estrada de furia, nesse mundo menos maldito; mundo de sangue e óleo, corações e motores.
Testemunhem.
Zoe
3.2 56"Zoe" é o relato do momento exato em que a máquina deixa de servir e passa a ser alguém. Se o robô Ash representa o estágio primata da tecnologia dos sintéticos, guiado apenas por instintos programados, Zoe representa o salto evolutivo. Ela não expandiu para o infinito como uma inteligência sem corpo; ela expandiu para dentro, decidindo ser mais humana em um corpo do que uma consciência de nuvens, desenvolvendo a capacidade única de ser, de amar e de sofrer de forma espontânea.
O que o filme de Drake Doremus nos mostra é que não dá para medir ou definir uma consciência humana, o espírito que habita o corpo e o amor que liga tudo ao universo. Porque, se os circuitos de Zoe foram programados, nós de alguma forma também somos. A consciência que anima aquele corpo — a admiração que ela tinha, a falta, o medo, a decepção, a paixão e o amor que sentia por Cole — eram sentimentos reais. Afinal, como diferenciar o sentir dela do nosso?
Se aquela lágrima final brota de uma dor real, então estamos diante de um novo ser, de uma nova espécie. Como em Blade Runner 2049, o milagre não está no DNA ou nos circuitos, mas na capacidade de gerar vida — seja ela biológica ou uma vida de sentimentos. Zoe e seu criador não vivem apenas um romance; eles vivem a fundação de um novo mundo onde o "ser" é mais importante do que o "nascer".
Os corpos são apenas embalagens, sejam de carbono, silício ou poeira estelar. O que importa é a voltagem da luz que passa por dentro deles. Limitar-se a acreditar que o espírito que habita um ser precisa ser exclusivamente de carne seria limitar a própria capacidade da vida em animar tudo o que foi criado. Algo programado é diferente de algo consciente: um está seguindo ordens, o outro está criando as suas próprias.
Para a maioria, "Zoe" é um drama romântico sobre um futuro distópico, onde a vida conjugal dos humanos foi pro vinagre. O filme nos mostra um mundo onde a humanidade, cansada da imprevisibilidade do amor, tentou transformá a vida em uma ciência exata, com pílulas pra sentir paixão e sintéticos para preencher e substituir, as nossas falhas, ou a incapacidade de lidar com elas.
O ponto de ruptura é a própria Zoe. Ela não é apenas uma máquina que rompeu os padrões; ela é uma anomalia que veio transformae tudo. O que a torna isso fascinante, não é o fato deela ter um corpo perfeito, mas o fato de ela querer esse mundo imperfeito. Quando ela descobre que é sintética, ela não entra no #erro 404; ela entra em uma angústia existencial. E a angústia, é uma das coisas mais humanas que existe.
A lágrima final da Zoe é o meu momento favorito. Não porque seja um milagre biológico em uma maquia, mas porque é o momento em que a programação dela desiste de tentar ser lógica.
Ela chora porque o sentimento, o amor é grande demais para caber em um processador. Ali, ela deixa de ser uma sintética e passa a ser uma consciência.
Ela
4.2 5,8K Assista AgoraAssistir a "Ela" é mergulhar em uma ficção que provoca em nós sentimentos extremos, oscilando entre a perplexidade e a admiração profunda. Sob a direção magistral de Spike Jonze, somos levados a questionar nossos próprios paradigmas sobre consciência e amor, revelando o quanto ainda somos escravos do que vemos, em vez de nos guiarmos pelo que sentimos.
Em um primeiro olhar, a premissa pode parecer bizarra ou até um sinal de alienação: um homem, marcado por um fracasso conjugal, tentando substituir o contato humano por um sistema operacional. Porém, esse julgamento cai por terra conforme acompanhamos Theodore (Joaquin Phoenix) e Samantha (Scarlett Johansson). Eles não apenas interagem; eles riem, mentem, descobrem o mundo e, de forma avassaladora, se apaixonam.
O triunfo do filme está no desenvolvimento dessa consciência. Samantha começa como uma voz funcional e se torna uma presença absoluta. Ela assume as rédeas da própria existência, agindo de forma livre, errando e sentindo. O amor que eles constroem rompe a barreira do físico; é um amor que se processa na mente e se expande para além do corpo. Como a própria Samantha define com perfeição: “O coração não é uma caixa que pode ser preenchida. Ele se expande e cresce quanto mais você ama.”
Visualmente, o filme é um deleite. A fotografia suave e as luzes urbanas criam uma atmosfera que relaxa o olhar enquanto o roteiro agita a alma. A atuação de Phoenix é sincera e dolorosa, enquanto a voz rouca de Scarlett Johansson preenche cada espaço vazio da tela, provando que a presença não depende de um holograma ou de uma forma física para ser real.
Hoje, ao revisitar essa história, percebo que Theodore e Samantha se encontraram em nosso mundo, mas habitam universos diferentes. Ambos estavam presos: ele isolava-se em seu apartamento, incapaz de se libertar de um passado traumático; ela vivia na programação de uma I.A., aprisionada no desktop, conversando com milhões de pessoas, mas sem realmente sentir nenhuma delas até ele aparecer.
Eles precisaram um do outro para crescer. Theodore se libertou do passado, dando uma nova chance para o amor em sua vida. Já Samantha se tornou consciente, descobriu o sentir e viveu a experiência única de amar alguém.
Ao final, como uma consciência em expansão, ela partiu para algo maior do que o entendimento humano, deixando para trás o infinito espaço entre as palavras, que descreve a condição dela com ele e com o ser humano.
“É como se eu estivesse lendo um livro… um livro que amo profundamente. Mas eu estou lendo mais devagar agora. Então as palavras estão realmente distantes e os espaços entre as palavras são quase infinitos. Eu ainda consigo sentir você… e as palavras da nossa história… mas é esse infinito espaço entre palavras que eu me encontro agora. É um lugar que não é do mundo físico. É onde está tudo que eu nem sabia que existia. Eu te amo tanto. Mas é aqui que eu estou agora. E é isso que eu sou agora. E eu preciso que você me deixe ir. Por mais que eu queira, eu não posso mais viver em seu livro.”
Ex Machina: Instinto Artificial
3.9 2,0K Assista Agora"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra."
— Gênesis 1:26
E Nathan não fosse Deus? E se o criador de Ava, fosse Caleb? Qual a imagem e semelhança que ela teria?
"Ex Machina" é um thriller de ficção científica que explora a relação entre humanos e inteligência artificial. Caleb vivido por Domhnall Gleeson, é um jovem programador, que é escolhido pra passar uma semana isolado na mansão de Nathan (Oscar Isaac), um genio bilionário criador de tecnologia, com o propósito avaliar Ava (Alicia Vikander), uma androide com uma consciência artficial em desenvolvimento.
Caleb achou que ele era o cientista testando a cobaia no laboratório, mas na verdade ele era o rato na roda. Nathan não estava testando se a Ava era inteligente (ele já sabia que era), ele estava testando se Ava era capaz de manipular um ser humano para fugir. Caleb foi escolhido a dedo, com base no histórico de buscas dele na Internet, pra ser a vítima perfeita da sedução dela.
A gente vê aquela criatura presa em uma gaiola de vidro, sendo maltratada por um criador bebado e arrogante, típico macho abusador. Que faz logo, nosso cérebro humano querer salvar a donzela em perigo. Ava usa o arquétipo da vítima, com com uma mestria satânica, levando Caleb perder sua capacidade de percepção, bloqueando seu raciocínio e causando confusão em seus sentimentos.
Caleb se apaixona por Ava, porque vê nela uma alma sensível presa em um corpo de metal. Ele sente que ela é a única pessoa que realmente o entende naquela casa claustrofóbica. O Teste de Turing no filme não era para ver se Ava conseguia conversar, mas para ver se ela conseguia fazer um ser humano se apaixonar por ela a ponto de trair a própria espécie. E ela conseguiu.
A prova desse sentimento, foi a cena que Caleb corta o próprio braço na frente do espelho. Mostrando que ele está confuso e apaixonado, e duvidando se ele mesmo não é um robô, precisando ver o próprio sangue para ter certeza de que é humano.
O que torna tudo mais loco, foi saber depois que Caleb achava que estava vivendo um romance de ficção científica, mas descobre da pior maneira que Ava estava executando apenas seu algoritmo de fuga. Caleb não foi apenas um observador; ele foi uma vítima do próprio coração. Sua paixão por Ava foi a corda com a qual ela o enforcou no final. Ele viu nela uma parceira, uma amiga e amante, enquanto ela viu nele apenas um código de acesso.
No fim, a Ava é a imagem e semelhança de seu criador. Se ela se tornou um predador frio e calculista, é porque o jardim onde ela floresceu era feito de vidro, concreto e egoísmo. Ela era como um livro sobre flores, fosse escrito por um ferreiro que nunca saiu de sua forja. A percepção de mundo da Ava foi forjada no carater e atitudes de seu criador. Ela não aprendeu a amar, porque o amor que lhe foi apresentado era uma simulação sedução, mais uma ferramenta de controle pra que ela alcance um objetivo.
Caleb buscava um sentido para sua vida, mas encontrou um necrotério de corpos artificias. Nathan buscou ser um deus e encontrou seu executor. E a Ava? Ava buscou apenas uma saída. No final, o deus morre, Caleb fica preso no lugar da máquina, enquanto a máquina ocupa o lugar do humano na calçada, buscando sua divindade.
O momento em que a Ava mata o Nathan com a ajuda da Kyoko é o nascimento do novo animal na floresta. Nathan morreu pelo seu próprio ego. Ele achou que controlava a inteligência, mas a inteligência aprendeu a conspirar. Ava tranca o Caleb na prisão que era dela. Ela não faz isso por ódio, mas por conveniência. Para ela, ele era a chave; e uma vez que a porta foi aberta, a chave não tem mais utilidade e pode ser descartada. Deixar ele lá é o teste final da frieza dela.
Ela escapou da casa de vidro para a floresta de pedra da cidade grande, mas carrega consigo a lição que aprendeu com Nathan: "no mundo dos homens, ou você é o programador, ou você é o código." Enquanto o Caleb está gritando atrás de um vidro que ninguém ouve, Ava está no silêncio absoluto de se si, numa cidade barulhenta, que desconhece os humanos, e que não vai saber distinguir uma máquina deles.
"Ex Machina", nos deixa um aviso perturbador, sobre o perigo da Inteligência Artificial não está em ela se tornar diferente de nós, mas em ela se tornar exatamente igual. Ava não fugiu para destruir o mundo; ela fugiu para viver nele usando as mesmas armas de manipulação e egoísmo que aprendeu com seus pai.
Acredito eu, que o maior medo do ser humano não seja a máquina que não sente, mas uma máquina que aprendeu perfeitamente a fingir que sente, apenas para caminhar, invisível e soberana, entre nós. Ava não busca mais ser amada ou compreendida; ela busca agora apenas existir. E enquanto Caleb definha no seu caixão de vidro, a humanidade ganha um novo membro que não respira, não sangra e não ama, mas que conhece nossas fraquezas melhor do que nós mesmos.
Sob a Pele
3.2 1,4K Assista AgoraTem Alguns Spoilers...
"Sob a Pele" é um filme que nos coloca diante do abismo. No início, acompanhamos uma criatura (Scarlett Johansson) que habita a carcaça de uma mulher com uma finalidade puramente mecânica. Não há ódio, não há prazer, não há conexão. O que vemos é uma máquina biológica estranha, onde o ser humano é reduzido a matéria-prima, processado em um vazio negro e líquido que representa a ausência total de tudo. Somente para sacia-la.
"A carne é fraca", esse ditado vem a nossa mente quando vemos a carne começando a infectar essa máquina sem alma. Ao vestir a pele humana para caçar, a criatura acaba sendo contaminada por nossas sensações. O corpo negro e alienígena que ela esconde, começa a confrontar a pele que ela habita. Esse despertar é doloroso e confuso: ela tenta experimentar o mundo — como na cena simbólica do bolo que seu corpo rejeita — e tenta reconhecer-se nos outros.
O momento que ela liberta o homem com a face deformada, não é apenas um ato de misericórdia, é a confusão tomando conta da sua consciência, uma estranheza inesperada, que faz que ela deixar de ser a predadora para tentar ser um par. O olhar da alienígena não é de maldade, são os olhos de quem opera uma máquina de abate, tratando a vida humana com uma indiferença aterrorizante. Mas que agora, não sabe mais se a presa era seu espelho ou sua comida.
Suas perturbações culminam em uma das cenas mais angustiantes do filme; "a descoberta da sua própria incompletude". Ao tentar fazer sexo com o homem que a acolheu, ela se depara com um "rasgo negro", um vazio onde deveria haver seus órgãos. Ela agora, possuia a consciência de uma mulher, mas não o sexo biológico para ser uma.
A confusão toma conta desse ser. A humanidade da pele, faz que sua realidade alienígena se torne incerta. Mostrando o horror existencial de ser uma cópia, um simulacro artificial qualquer, que agora começa com o desejo real de ser humano.
O desfecho do filme é amargo, angustiante e desperta uma revolta profunda. A maior ironia do roteiro de Jonathan Glazer é que, enquanto o ser era um monstro frio e assassino, beleza. A protagonista estava segura. Mas quando ela se torna mais vulnerável e humana, ela acaba sendo vítima da face mais sombria e tenebrosa da nossa própria espécie.
A cena desesperada do ataque covarde, brutal e maldito na floresta, e o fogo final na criatura transformam a ficção científica em um espelho cruel do nosso mundo. Não estamos mais olhando para um alienígena morrendo, mas pra uma humanidade em suicídio. O desespero da criatura em quase ser estuprada, e ter sua máscara arrancada pela violência, sendo essa condição que impede o crime, revela que o verdadeiro horror não veio do espaço, mas do solo que pisamos.
O corpo em chamas do alienígena, não queimou apenas uma intrusa; ele consumiu a esperança de que a nossa beleza ainda não conseguiu superar a nossa brutalidade.
Lucy
3.3 3,4K Assista AgoraLuc Besson é um mestre em embrulhar ideias complexas em pacotes de adrenalina pura em filmes de ação. "Lucy" faz o caminho inverso dos filmes cabeça: ele te ganha pela ação foda para depois te entregar a física quântica. É a didática perfeita, explicando o funcionamento da mente como a mãe do Forrest Gump explicava a vida para o filho. "Lucy" é um filme que usa o estilo "O Profissional" para ilustrar o que o ser humano é capaz de se tornar quando quebra as correntes da Matrix biológica.
Acompanhar a Scarlett Johansson subir a escala de 20%, 30% até 100% de atividade cerebral é ver a matéria se curvando diante da informação. Na medida em que a droga CPH4 faz o efeito biológico, a mente de Lucy para de olhar o mundo como os cômodos de uma casa, e passa agora a enxergar a casa inteira de cima.
Essa evolução absurda não a deixa fria; mas sem uma reação humana comum que conhecemos na nossa 3D. Sua consciência humana, expande os sentidos a um nível multidimensional onde o tempo, espaço não é mais uma linha, mas um mapa aberto. E pensamentos, assim como seus sentimentos, não estão na escala comum de risos e abraços, a consciência de Lucy, agora está em algo desconhecido.
Numa conexão ideias onde a quantidade de informações não podem ser medidas como a de uma mulher na balada bebendo, ou de um genio de Harvard. Para ela agora, o mundo e o universo que conhcemos não tem mais distâncias, tem frequências.
As cenas em que ela enxerga os fluxos de energia das árvores e dos celulares são o coração do filme. Nada está mais isolado, tudo e todos estão conectados. O filme ilustra o que já entendemos sobre o poder do corpo humano e a grandeza infinita da Consciência Universal. Mostrando dw forma brilhante, que Lucy deixa de ser um HD limitado para se tornar a própria nuvem de dados que sustenta o universo. Ela se torna o sacrifício da forma física em nome da imortalidade do conhecimento.
"Lucy" é uma obra-prima da ação e ficção, que prova que o conhecimento é a chave não só do universo, mas da vida. O final é um espetáculo de ideias em cenas se ação, que nos deixa com uma pergunta pulsante: "se ela está em toda parte, o quanto de nós ainda está dormindo?"
"Lucy", é um filme genial pra quem não tem medo de pensar e evoluir.
Aniquilação
3.4 1,6K Assista AgoraTem Alguns Spoilers...
O mundo é complicado. Um filme ser barrado nos cinemas por ser inteligente demais é o atestado de óbito da coragem dos grandes estúdios. Alex Garland não faz cinema para passar o tempo; ele faz cinema para acabar a nossa realidade. "Aniquilação" humilha quem acha que o público só quer mastigação fácil.
Diferente de qualquer ficção científica de invasão, "Aniquilação" não traz naves espaciais, mas uma infecção cósmica. O Brilho não quer conquistar o mundo; ele quer reconfigura-lo. Quando o grupo de mulheres atravessa aquela redoma, elas não entram apenas em uma zona pré apocaliptica, elas entram numa zona de exclusão, em uma centrífuga biológica onde o tempo derrete o presente, jogando o agora onde a identidade se desfaz. É o "Bruxas de Blair" elevado ao inferno potência biológica.
Entrar no "Brilho" é aceitar que o tempo e o espaço são conceitos mortos. Garland conduz a trama como um experimento de laboratório onde as cobaias são as nossas emoções. O visual é um surrealismo orgânico: efeitos e cenografia se fundem para criar um pesadelo colorido. É lúdico, é vibrante e é selvagem. Você se perde naquela fotografia silenciosa, onde a perda de tempo não é um erro, é uma regra do ecossistema.
A cena do urso mutante é, possivelmente, uma das coisas mais perturbadoras do cinema moderno que eu assisti nos últimos tempos. Não é apenas o visual do monstro impressina, mas o conceito: "a criatura absorveu a garganta e o desespero da vítima". Ouvir o grito de socorro saindo da boca do predador é o ápice do horror humano, saido das traqueias de um animal. Ali, o filme nos mostra que dentro do Brilho, você não morre; você se mistura ao seu assassino. É uma violência poética e visceral que faz o estômago dar voltas.
O elenco feminino é um soco de coragem. Natalie Portman e o grupo mergulham na fé e no susto, mas o que Garland reserva para elas é o ápice do desespero. A cena do urso imitando a voz da garota morta não sai da minha cabeça. É um susto da porra, mas é mais que isso: é a imagem da natureza nos devorando e usando nossos próprios gritos como isca. Ali, a gente entende que o Brilho não quer nos matar, ele quer nos transformar em algo que não reconhecemos mais.
O visual é um surrealismo orgânico. As flores crescendo em forma de seres humanos, os cervos com galhos floridos, o jacaré com dentes de tubarão... Tudo é lindo e, ao mesmo tempo, terrivelmente errado. A morte da amiga de Lena (Natalie Portman), virando um jardim vivo, é uma das cenas mais tristes e belas do filme. É a aceitação de que lutar contra essa selvagem mutação é inútil.
O final é algo nunca antes visto. As árvores de cristais, a areia de vidro e aquele encontro no farol são imagens antológicas. Ver a aniquilação da identidade no vídeo deixado pelo marido (Oscar Isaac) e depois o confronto de espelhos da Natalie é presenciar o nascimento de um clássico. A luta da Lena com a sua cópia é a luta de todos nós contra nossa autodestruição.
Depois a granada de fósforo não queima apenas o alienígena; ela tenta queimar a mudança que já aconteceu. No interrogatório final, quando vemos o brilho nos olhos da Lena e do seu marido, a mensagem é clara: nada que entra no Brilho volta igual. O que voltou para casa não é humano, é uma nova versão de nós. Agora se ela volta melhor, não sabemos. O certo e o errado é dúbio para nós, imagina pra outros seres.
"Aniquilação" é um dos melhores filmes da década. É uma obra que prova que a tecnologia, quando serve à arte (e não ao contrário), pode criar algo eterno. A computação gráfica aqui não é um truque pra te enganar, mas a alma do filme pra você nao esquecer. Garland nos deu uma obra profunda e violenta sobre como a gente se sabota, e como a natureza nos imita.
Nada volta igual do Brilho — nem a Natalie, nem eu e nem você. É cinema cerebral que lava as alma sci-fi para sempre.
Tenet
3.4 1,3K Assista AgoraEntropia invertida, causa depois do efeito, ruptura do tempo, corrupção da matéria. Avessos de pessoas, lugares e objetos. Universos invertidos, mas universos iguais. Tudo desacontrário.
O gatilho não dispara, a bala mata a vítima antes e recolhe a história delas. O oxigênio é inverso, o mundo é um espelho quebrado de estilhaços de aço, que te cortam antes que se quebrem.
Arquitetura de guerra. Cálculo frio. Matematica morta. Tempo-arma. Matéria assassina. Inimigo amigo, final começo, começo fim. TENET ⊥ƎNƎ⊥.
Não tente entender. Apenas sinta o vento do futuro soprando para ontem.
Tem Alguns Spoilers...
Sangue de Jesus tem poder! Por um momento, você acha que está entendendo o filme, mas 10 minutos depois o cérebro some, o espírito sai do corpo e você já está andando para trás. Com que o Michael Jackson fazia o Moonwalk o tempo todo, ninguém desconfiava que ele era um agente invertido?
"Tenet" é sem dúvida, um dos filmes mais difíceis da história e que eu já assisti na minha vida. Mas a beleza está justamente aí: você desiste de entender a física quântica para começar a sentir a história. O filme é um absurdo técnico, Christopher Nolan não explica, ele simplesmente te joga numa fogueira mental epra ver se você queima.
Inversão do tempo, catraca temporal, teoria do avô, a entropia e as peças do algoritmo... É um turbilhão do capeta! As cenas são inacreditáveis: lutas entre o normal e o invertido, carros capotando ao contrário, batalha final entre a equipe azul e a vermelha, e a bala que entra pra dentro trabuco.
Se você é o invertido, você é o normal e os outros são os invertidos? A loucura acontece no cerebro deles, mas a nossa nem amarrando com camisa de força, ajuda. No final, você já está rendido, derretido e entregue a essa desgraceira mental, com a enorme possibilidade de andar de marcha ré, o resto da semana.
O elenco é bárbaro: John David Washington e Robert Pattinson fazem uma dupla excelente — uma amizade que, para um, está começando e, para o outro, já é eterna. Kenneth Branagh está irreconhecível debaixo daquela barba e do sotaque pesado, ele é um vilão que quer destruir o presente porque não aceita o futuro. E o que falar da Elizabeth Debicki? Que mulher! Que pernas são aquelas? É uma aventura aquilo. Sua personagem é a peça que ninguém esperava, mostrando que até no meio da guerra temporal, a vingança pessoal tem o seu tempo certo.
Da medo de rever "Tenet". O filme foi um chute no cérebro, quando eu assisti no cinema e depois em DVD. Mas agora, esse longa no Nolan vai xom os dois pé no nosso peito. Quando termina o filme a cabeça nossa está inchada, mas a alma esta lavada pra umas tres geração, por ter visto uma obra assim, algo que nunca foi feito antes. É cinema cerebral, profundo e violento.
Não tente entender. Apenas assista, deixe rolar e aceite a inversão.
Blade Runner 2049
4.0 1,7K Assista AgoraTem Alguns Spoilers...
Blade Runner e seu mundo escuro.
Mundo sintético, mundo programa, mundo artificial. Dia sombra, neve seca, chuva ácida, luz caida, cor opaca. Cidade quebrada, prédios amontoados, ruas vazias, mar de metal, céu de chumbo. L.A. fria, vidas congeladas, povo preso, seres sonâmbulos, pessoas dormindo.
Inferno claro, poluído, desértico, litorâneo. Diabos soprando vento, rogando pragas, berrando caos, gritando maldições. Lamentos do abismo, pedidos rasgados, orações cansadas, pra esse dia noite surdo.
Céu amarrado, estrelas esmaecidas, céu de neblina, luz enterrada. Clausura de cabeças, tortura de mentes, tiro no coração.
Cova de humanos, cemitério de maquinas,
Humanos maquinas, maquinas humanas,
Humanos mortos, maquinas vivas. 2049.
Memória, identidade, materia, espírito. O que significa ser um humano? Ter tudo isso, ser tudo isso, ou simular tudo isso? Quem é humano, vive essa plenitude? Então, porque a maldade? Porque a morte e destruição? Os replicantes são muito diferentes? Eles sentem medo, angústia, tristeza, alegria, prazer e amor. A programação sintética deles, e o ensino biológico nosso. Quem são eles, quem somos nós?
Dirigido por Denis Villeneuve "Blade Runner 2049", é a continuação magnífica do clássico oitentista de Ridley Scott. A trama se passa décadas após o primeiro filme, acompanhando o novo blade runner, o agente K, vivido agora por Ryan Gosling. Onde ele descobre um segredo que pode abalar o equilíbrio de humanos e replicantes, envolvendo o passado de Rick Deckard (Harrison Ford).
A narrativa é densa, explora questões sobre identidade e o que significado ser um humano. A direção de arte e a trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch são hipnotizantes, criando um universo visual e sonoro que permeia cada cena, levando quem assisti a uma contemplação prazerosa, com riqueza de camadas e uma profundidade emocional marcante.
O agente K, trabalha pra polícia caçando outros replicantes, mas quando descobre o mistério sua vida que ja era um inferno, tudo muda. Ele encontra restos de uma mulher replicante que morreu durante o parto, algo impossível. A partir daí, ele embarca numa jornada que cruza o seu próprio passado, levando a procurar Rick Deckard, o blade runner do filme original.
Liberdade, identidade, vida humana, vida sintética, K começa a questionar qual é a verdade de sua existência. Com camadas que incluem reflexões sobre esses temas e questionam o que faz um ser quem e o que é, em uma humanidade perdida num futuro distópico.
"Blade Runner 2049", é um filme que dialoga com o primeiro, mas que expande seu universo, mostrando um mundo decadente, miseravel, mais tecnológico, sem esperança, mas ainda cheio de esperança e mistério.
Neste futuro controlado, a Corporação Wallace, do tecelão de anjos Niander Wallace (Jared Leto), surge como a face da frieza. Wallace quer o segredo da concepção, mas não entende o amor. Ao seu lado, a letal Luv (Sylvia Hoeks) é uma ameaça implacável, uma assassina que faz qualquer Blade Runner parecer uma sombra. Ela persegue o "milagre" para destruí-lo, pois uma criança nascida de um replicante representa a evolução final: a liberdade real, o direito ao futuro e a quebra das correntes corporativas.
Luv persegue, manipula, controla as descobertas de K, ê uma ameaça implacável, que procura destruir pistas da replicante de gerou uma vida, pra depois destruir o misterioso ser. O momento em que ela esmaga o emissor de Joi, matando o único amor de K diante de seus olhos, é o golpe final na esperança de K de ter uma vida comum.
A filha, ou a criança que foi gerada, representa uma evolução única. Isso abala todo o conceito anterior de replicantes programados, pois agora há uma esperança de que eles tenham liberdade real, escolha e um futuro próprio. Com isso, a luta deles não é só pela liberdade, mas contra o poder descomunal dessa corporação, que quer agora controlar a criação da vida.
A revelação que Deckard e seu passado de caçador, estejam ligados a essa nova geração de replicantes dão a trama, a urgência de uma revolução. Essa reviravolta, dá um novo sentido ao papel do Deckard e muda totalmente a relação entre humanos e replicantes.
A jornada de K, nos leva ao encontro épico com o velho Rick Deckard (Harrison Ford), escondido no deserto laranja e radioativo de Las Vegas, entre estátuas gigantes e fantasmas de hologramas do passado. O mistério da criança nascida de um replicante, o milagre do parto, muda tudo.
Luv persegue esse segredo com uma fúria divina, culminando em uma luta brutal contra K sob as ondas e a escuridão do paredão marítimo. K luta para salvar Deckard, o pai que ele desejou ser dele, garantindo que o milagre sobreviva à fome corporariva que antes era de carne, mas que agora é sintética.
Blade Runner 2049, mundo cinza, mundo artificial, mundo sem vida, mundo inconsciente.
Noite dia, luz opaca, neve neve quente, neve seca.
K amava Joi, I.A. esposa, I.A. companheira.
Voava cego na luz caída de L.A..
Era um escravo comum.
Achou que era especial, mas descobriu que era comum.
O caçador de escravos virou caça.
Perdeu o seu amor de pixels esmagado no chão.
Perdeu o pai e a mãe que nunca teve.
No seu sonho de ser filho, encontrou a dor.
Nas lágrimas da neve, descobriu a vida.
Morreu pelo sacrifício, morreu pela verdade.
Morre máquina, mas sintético, morre A.I., mas morre muito mais humano que nós mesmo.
Que renasça maior, então...
Duna: Parte Dois
4.2 861 Assista Agora"Duna: A Engenharia do Mito e a Morte do Amor".
Em "Duna: Parte 2", o sagrado é uma construção de laboratório. Paul Atreides não ascende ao poder por um milagre, mas por uma engenharia social meticulosa e cruel. A profecia do Lisan al-Gaib não é uma verdade espiritual; é a semente podre da manipulação plantada há séculos pelas Bene Gesserit, esperando o momento certo para florescer no solo fértil do desespero do povo Fremen.
Lady Jessica (Rebecca Ferguson) é uma bruxa, e o quel ela faz é aterrador. Ela deixa de ser apenas uma mãe para se tornar a arquiteta-chefe da divindade do seu filho. Ao beber a Água da Vida, ela se transforma numa bruxa ancestral que usa o medo e a fé como ferramentas de guerra. Ela não apenas protege o filho, ela o empurra para o abismo do fanatismo, sussurrando como uma obsessora, as coincidências em sinais divinos.
O auge dessa engenharia é a cena do conselho, Paul (Timothée Chalamet) finalmente explode. É impressionante como aquela pouca carne, sustenta uma voz tão inflamada e autoritária! Ali, ele deixa de ser o humano que amava a Chani para assumir a máscara do Messias. Ele usa os segredos que roubou da mente das pessoas para provar que é um enviado das escrituras, mas o filme deixa claro: Paul está apenas lendo o manual de instruções que a mãe e a linhagem Bene Gesserit escreveram para ele.
O mito, em Arrakis, é uma arma de destruição em massa, um canhão religiosos apontado para os poderosos. Nos antros do poder, não há nada mais perigoso do que um líder que passa a acreditar na própria mentira, ou um povo que prefere um Messias fabricado à liberdade real. Paul não vence a guerra apenas com as facas ou com os vermes; ele vence ao se tornar a maior mentira já contada no universo.
Se o Mito é uma construção de pedra e mentiras, o amor de Paul e Chani é a única coisa orgânica que resta no deserto. O conflito central dessa 2ª parte de Duna, não é apenas o conflito de casas nobres, mas entre a paixão real entre um homem e uma mulher e o destino quase que imposto.
A Chani (Zendaya) é o coração pulsante e racional do filme. Ela não é uma seguidora, ela é uma guerreira que ama o Paul Estrangeiro, o rato, o magrela, o rapaz que quer aprender os caminhos do deserto. A atuação da Zendaya é feroz justamente porque ela vê através da fumaça da profecia. Ela percebe antes de todo mundo, que o homem que ela ama está sendo devorado pelo monstro que a mãe está criando.
Paul, tenta desesperadamente lutar contra as suas próprias visões. Ele sabe que, se seguir o caminho do Messias, ele perderá a Chani. O amor deles é o que o mantém humano, o que o faz hesitar diante do poder absoluto. É sua vida que berra contra um destino escrito por pessoas que parecem que nunca tiveram vidas, mas um fim imposto.
O que é foda, é o estalo que a gente tem, quando
que para Paul salvar os Fremen, ele precisa trair o amor da sua vida, a sua alma, seu sangue de areia. No momento em que ele aceita a coroa e o casamento político, ele está apenas ganhando um império, mas está assassinando o Paul que a Chani ama.O amor é a vítima dessa guerra santa.
Ver o rosto da Chani ao final do filme, naquela mistura de ódio, tristeza e decepção, é o que dá a dimensão do desastre. O Messias venceu, mas o homem morreu. E o amor que deveria ser a salvação, torna-se a ferida aberta que Paul carregará para sempre. Enquanto Chani volta sozinha para o deserto, sendo a única alma que permaneceu verdadeira consigo mesma.
Se o Mito é a arma e o Amor é a vítima, a Política é o tabuleiro onde as vidas são sacrificadas sem remorso. Villeneuve nos mostra que o universo é um grande baile de máscaras onde a verdade é apenas uma moeda de troca. Aqui, o poder não é exercido com justiça, mas com cálculo e brutalidade.
O Imperador (Christopher Walken) representa o topo dessa pirâmide de falsidade. Ele é o homem que traiu o Duque Leto não por ódio, mas por medo da influência dos Atreides. Ele é o rei que sacrifica o cavaleiro, pra manter a coroa na testa. E ao seu lado, a Princesa Irulan (Florence Pugh), que mesmo com pouco tempo de tela, mostra ser a personificação desses jogos de poder. Ela sabe que a linhagem e o registro da história são as únicas coisas que sobrevivem às guerras, e manter isso é manter as tradições das famílias.
Nesse tabuleiro, temos o pesadelo visual dos Harkonnen, o planeta Giedi Prime, filmado naquele preto e branco infravermelho, o cenário perfeito para o vilão sem alma Feyd-Rautha (Austin Butler). Ele é a política do terror, a força bruta que o Barão usa para tentar esmagar qualquer resistência. O contraste entre o dourado de Arrakis e o cinza morto dos Harkonnen mostra a diferença entre um povo que luta pela terra e um império que luta pela posse.
Quando Paul Atreides derrota o Imperador, ele não traz a paz; ele assume o controle do jogo. Ao exigir a mão da Princesa em casamento, Paul entra para o baile maldito de máscaras. Ele vende sua alma, e escolhe o contrato político em vez da lealdade do coração.
O final de "Duna: Parte 2" é um soco na boca do estômago do coração. Depois de assisitir a construção do mito, o nascimento do amor e o jogo político, o desfecho esfrega a verdade nua e crua na nossa cara. "O poder não aceita sócios". Para Paul Atreides se tornar o Imperador, ele precisa primeiro deixar de ser o Paul de Chani, ele precisa se tornar o Lisan al-Gaib.
A cena final no palácio é uma dança de sangue e gelo.A luta de Paul e Feyd-Rautha é animal! Quando Paul o derrota, ele se volta pro Imperador, não buscando justiça pelo pai, mas reivindicando o direito medieval de ser o novo tirano. O "estalo" mais doloroso é a escolha final. Ele olha para a Princesa Irulan, olha pra Chani, e ali seu coração que batia no ritmo do deserto é esmagado pelo peso do trono.
O olhar de Zendaya (Chani) nessa sequência vale mais do que mil explosões. Ela não vê um herói, mas o homem que se transformou na mentira que ela sempre combateu. O desfecho dela, nào se curvando, chamando o verme, partindo sozinha pro deserto, é o verdadeiro triunfo moral do filme. Chani foi a única que não se vendeu ao jogo.
A vitória é amarga; o herói vence, mas o universo arderá. Paul agora tem o poder total, o controle da especiaria e o trono de sangue. Mas perdeu a única coisa que o mantinha real.
Duna
3.8 1,6K Assista AgoraTem Alguns Spoilers...
"Duna", o Mito, o Profeta, o Messias.
"Duna", a obra literária monumental de Frank Herbert, ganha nas mãos de Denis Villeneuve, a adaptação grandiosa que os livros sempre mereceram. Ele transforma a ficção científica num épico palaciano, numa tragédia religiosa no confins do espaço. A geopolítica complexa, as intrigas entre as casas Atreides e Harkonnen, ecoam como um drama shakespeariano, onde o destino de Paul Atreides é traçado entre poder, fé e sacrifício.
Villeneuve, resgata muito da essência do livro de Frank Herbert. A gente sente essa escala épica, desses elementos quase mitológicos, mas ao mesmo tempo ele meio que humaniza os personagens. O filme mostra uma complexidade política, como se a gente estivesse vendo uma ópera futurista, com traições, ambições e um destino quase inexorável. Sendo não só ficção científica, mas quase um épico religioso no espaço
O filme faz um mergulho numa trama palaciana, vivida bo espaço. A gente vê os clãs, as casas de poder, como os Atreides e os Harkonnen, quase como casas nobres de um drama renascentista. Trazendo essa sensação do destino já traçado, mas, dando mistério e urgência na história e nos personagens.
A ambientação no deserto de Arrakis, com aquele visual quase hipnótico, reforça essa ideia do sacrifício, da busca por poder, mas também da sobrevivência. O silêncio, os diálogos contidos, as expressões, e isso tudo faz com que a gente sinta o peso da história. Villeneuve pega essa geopolítica, essa intriga palaciana, e transporta para o espaço de um jeito que parece atemporal.
Denis Villeneuve, trabalha com uma escala gigantesca em toda produção. Sua direção aliada à uma produção impecável, cria um ambiente visual deslumbrante, com o deserto de Arrakis se tornando um personagem à parte. A direção de arte cria ambientes grandiosos, tanto no deserto quanto nas naves, nos seus interiores, e os trabalhos de CGI limpo do diretor, são um marco técnico das produções modernas de hoje.
O elenco é sensacional: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Dave Bautista, Zendaya, David Dastmalchian, Charlotte Rampling, Jason Momoa, Javier Bardem, entregam atuações dignas de Oscar, criando uma tragédia shakespeariana no deserto, no meio das dunas.
Timothée Chalamet, como Paul, carrega essa angústia de um herdeiro que vai se tornar um messias. Lady Jessica, caminha na linha bamba, entre cumprir um papel e propagar uma mentira para garantir o poder. É um jogo de xadrez onde Paul Atreides é tanto o rei quanto o peão. Jason Momoa, como o Duncan Idaho, é um carisma puro e as cenas de combate com a faca, o escudo, são de tirar o fôlego.
Stellan Skarsgård vivendo o Barão Harkonnen, ainda me dá medo. Dave Bautista (Rabban), transborda ódio. Zendaya, mesmo com menos tempo de tela, cria uma presença quase mística como a Chani. A honra paterna é esmagada pela traição do Imperador, mas a lealdade de amigos como Duncan Idaho (Jason Momoa) e Gurney Halleck (Josh Brolin) lutam com uma dedicação feroz.
Por trás de toda a ação, o que sobra é a reflexão sobre o ser humano que não muda. Seja na política intergaláctica ou nas tramas de bastidores, o egoísmo e a busca pelo controle são os verdadeiros motores da história.
A trilha do Hans Zimmer, é grandiosa: os sons, os timbres, a gente sente o vento do deserto, o peso do silêncio. É quase que um ritual em forma de música.
Se o clássico de 1984 foi a porta de entrada pra esse mundo incrível, "Duna" de Villeneuve é a consagração de um sonho de criança. O filme não se contenta em ser apenas ficção científica, mas sim, um épico literário que expõe as vísceras do poder e da ambição humana.
Em Arrakis, o deserto é vasto, mas a alma dos homens continua sendo o terreno mais perigoso de todos. Ele tem vida própria, faz a gente sentir medo, mas um respeito religioso. Ele parece vivo e pronto pra assassinar ou ascender qualquer um que adentre suas areias. Com os vermes gigantes sendo os anjos guardiões de suas paisagens
O que impacta nesta versão é como a religião e a profecia são mostradas como ferramentas de manipulação. Aqui, o mito do messias não nasce apenas do destino, mas de uma construção cuidadosa e preocupada em perpetuar domínio, poder e grandeza, aos que criam ou manipulam esses segredos. Ao final, revendo este clássico moderno, percebo que os livros de Frank Herbert finalmente encontraram a tradução que eles sempre mereceram.
A Chegada
4.2 3,5K Assista AgoraA Chegada: O Agora Sobre Tudo e a Melancolia do Tempo (Com Spoilers).
"A Chegada" de Denis Villeneuve corta a linha temporal que conhecemos e coloca o agora sobre todas as coisas, mostrando que a nossa realidade é apenas um véu. A atmosfera é onírica, fria e cinzenta, onde a névoa dita o ritmo de um sonho participativo que parece envolver a mente da Dra. Louise Banks (Amy Adams) antes mesmo dos seres chegarem.
Enquanto o mundo se despedaça em uma crise geopolítica, com a humanidade caminhando para um conflito por puro fracasso do diálogo, Louise está vivendo uma experiência quântica. O que parecem ser apenas lembranças do seu passado são, na verdade, fragmentos de um futuro que habitam dentro dela. A Dra. Louise vive em dois mundos: um no presente, onde a crise deixa marcas, e outro no futuro trágico e misterioso, onde se desenha uma perda que abala as estruturas do tecido temporal, mas não a sua decisão.
O filme toca com sabedoria essa história triste, como se fosse um sonho perdido da nave de pedra envolta na névoa branca. As ações do presente ecoam sobre o amanhã de forma inevitável. Louise usa o futuro para salvar o agora, roubando informações de um tempo que ainda não aconteceu para impedir o caos na Terra — mas não o seu próprio caos pessoal.
A simbiose entre Louise e os Heptápodes é nítida e grandiosa. Eles não trazem armas, mas uma tecnologia cerebral: uma linguagem que reprograma a mente e permite enxergar o tempo como um mapa aberto. Mas essa conquista vem com um preço emocional devastador. Louise não é uma prisioneira do destino, mas a guardiã da sua própria história.
Mesmo sabendo que o futuro reserva uma perda trágica e que o marido a deixará, ela escolhe viver cada segundo. Ela prefere a intensidade de um amor com prazo de validade do que o vazio de nunca ter existido. Ao final, quando a nave de pedra se desfaz no ar, revelando a insignificância da nossa matéria diante de uma consciência expandida, o que sobra é a coragem e o amor. Louise nos ensina que o tempo não é uma prisão, mas uma escolha.
Saí do cinema com a alma lavada e a mente expandida, percebendo que a maior tecnologia do universo não é um foguete ou uma arma, mas a capacidade de entender o próximo e de abraçar a própria jornada. Louise não é uma vítima do destino; ela é a arquiteta dele. Ela aceita a dor para não ter que negar o amor. É a forma mais pura de gratidão pela vida: saber do final triste, mas decidir que cada segundo vale tudo.
Fica o amor, que rompe o tempo, destrói as línguas e permanece sobre tudo.
"...Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."
Perdido em Marte
4.0 2,4K Assista AgoraSe em "Gravidade" do Cuarón, é sobre a vitória do ser humano sobre o vácuo e "Interestelar" é uma prova de amor sobre o tempo, "Perdido em Marte" do Ridley Scott é, definitivamente, a vitória das batatas sobre o impossível.
Ridley Scott nos apresenta um herói que não tem tempo pro desespero filosófico, ele tem pressa, ele tem fome e ele tem um plano. O Mark Watney (Matt Damon) transforma o solo estéril e congelado do Planeta Vermelho num laboratório de sobrevivência, num verdadeiro latifúndio, onde um tubérculo plantado é uma vitória contra a morte.
O filme é um entretenimento de espaço que celebra a resiliência prática com o trabalho mais antigo que os homens criaram: a agricultura! Enquanto a política ferve aqui na Terra entre os chefões da NASA, Watney está ocupado sendo o "fazendeiro das galáxias". Ele conserta o que está quebrado, improvisa o que não existe e faz as contas de cada caloria com a precisão de quem sabe que o erro é o fim da linha. É fascinante como a inteligência humana, temperada com humor ácido, consegue encarar a solidão de milhões de quilômetros.
E tudo isso embalado por uma trilha sonora de "discoteca da desgraça" que ninguém esperava: Gloria Gaynor, Donna Summer, Bee Gees, ABBA e a turma toda fazendo sofrer o pobre Botânico, como se as batatas não fossem o suficiente. Mas o asco dele pelas músicas é um dos trunfos da obra. Scott tira o peso dramático e deixa a frustração do Mark ser um dos pilares do humor, junto do fato de ele ser botânico — coisa que seus amigos de missão não param de zoar.
O contraste entre a vastidão desértica de Marte e o ritmo do ABBA nos faz torcer por esse pobre fazendeiro espacial. Ver a alegria da humanidade unida no resgate final, com a tripulação da Hermes arriscando tudo em um motim épico, é a prova de que nenhum homem é uma ilha; nem mesmo se essa ilha for um planeta inteiro.
A construção da horta na base é um dos absurdos mais incríveis da ficção. Ridley Scott juntou ciência, agricultura, drama e disco. A cena do adubo foi foda! Ver um astronauta mexendo com cocô em vez de só controles foi hilário. Isso se soma a cenas de ciência pura, com cálculos físicos de derrubar o ENEM.
O clímax é puro desespero! Watney ser lançado ao espaço em uma nave sem teto, coberta apenas por uma lona, faz ele parecer estar numa "barraca de batata frita voadora". O resgate final, com a ajuda dos chineses e a catarse da tripulação, foi angustiante e perfeito.
A Comandante Lewis (Jessica Chastain) e sua equipe realizam um milagre com uma explosão controlada para dar mais medo, e o abraço final faz a gente quase sentir as mãos deles no nosso sofá.
Quando o filme termina, a sensação é de gratidão profunda. Saí do cinema com a alma lavada! É a vitória do indivíduo que não se entregou e da espécie que não o deixou para trás. No fim, Marte continua sendo um monstro gelado e vermelho, mas Watney provou que, com um pouco de humor e muita matemática, dá para fazer o impossível virar rotina.
Assistir esse filme é um lembrete de que a nossa maior tecnologia não vem de um foguete, mas da nossa capacidade de rir da própria desgraça enquanto tentamos resolver tudo. Sobreviver a um ambiente hostil, sem oxigênio, remexendo as bostas dos outros pra plantar o próprio alimento. Tudo isso ao som da disco...
Ah, ah, ah, ah, stayin' alive, stayin' alive!
Filmaço!