⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Em 2015, a Paramount e a Hasbro cismaram de transformar Transformers num universo compartilhado no estilo Marvel. O estúdio trancou uma turma de roteiristas pra parir ideias pra mais dez anos de franquia. O resultado desse experimento de laboratório foi esse: Rei Arthur bunda mole, Merlin bêbado, robôs nazistas, Anthony Hopkins com mordomo psicopata, uma garotinha sabichona com seu robô bobo e o Mark Wahlberg explicando física quântica enquanto segura a bandeira americana ao pôr do sol.
"Transformers: O Último Cavaleiro" é o ápice do "Suco de Michael Bay". O filme tinha tudo pra fechar a franquia com chave de metal raro, mas escorregou no próprio óleo. O erro grotesco não foi a falta de grana pro orçamento, foi a escolha bisonha de enredo. Socar a mitologia medieval e sociedades secretas na franquia poluiu a trama e tirou o foco do que realmente importa nesse filme, que é a ação e a pancadaria sem limites.
Mas se o roteiro é meio bizarro, a direção de ação do Michael Bay é um rolo compressor que não pede desculpas. A produção desse filme é monstruosa. Enquanto a Marvel hoje entope a tela com fundo verde lavado e bonecos digitais sem vida, Bay filma destruição com tanques de verdade, escala de IMAX visceral e um peso de metal na tela que você sente a poeira e o cheiro de graxa saindo da TV. As cenas de perseguição e o confronto final são foda! São uma aula de montagem e ritmo que poucos diretores no mundo conseguem assinar.
Apesar da maionese do roteiro, o elenco ainda tenta segurar o rojão com dignidade. O Mark Wahlberg entrega aquele tipo de herói durão que só o Bay sabe filmar, fazendo uma boa dupla com a Laura Haddock no meio da correria, enquanto o Sir Anthony Hopkins passeia em cena com uma classe absurda — acompanhado do Cogman, o mordomo robótico sociopata que rouba todas as cenas em que aparece. Eles funcionam como o respiro cômico e charmoso no meio de uma estrutura de ação cavalar. Perto de desastres do cinema de entretenimento — como "Morbius", "Thor: Amor e Trovão", "Quantumania" ou a leva recente de filmes de super-herói sem sal —, "O Último Cavaleiro" entrega uma experiência infinitamente mais robusta. Ele peca no enredo, mas dá uma aula de entretenimento caótico e escala visual na tela.
Foi uma escolha de enredo completamente equivocada que acabou selando o fim da Era Michael Bay à frente dos Transformers. O diretor se despediu da franquia do jeito mais "Bayhem" possível: com um espetáculo de destruição megalomaníaco, barulhento e atropelado. Não é o melhor filme da saga, passa longe de ter o equilíbrio dos primeiros, mas para quem é fã de metal retorcido, explosão real e pancadaria sem freio, "Transformers: O Último Cavaleiro" ainda é um puta entretenimento que dá uma surra no marasmo do cinema comercial atual.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Existe um nódulo maligno na história americana que ainda não foi tratado. Uma ferida aberta que ainda não cicatrizou. A Guerra Civil Americana (1861–1865) permanece como o conflito mais sangrento da história dos Estados Unidos, somando mais mortes americanas do que a Primeira e a Segunda Guerra Mundial juntas. A questão racial, a escravidão e a fratura entre o Norte industrializado e o Sul separatista deixaram marcas profundas no tecido social do país até hoje. O conflito deixou ressentimentos regionais e raciais que foram empurrados para debaixo do tapete e herdados por gerações.
"Republicanos x Democratas", ficção recorre a esse tema porque a sensação de divisão nos EUA é real. A fixação de Hollywood com esse tema não é um fetiche distópico; é o fantasma de história real o povo ainda não aceitou oor completo e que ganha força toda vez que o país se polariza ao extremo.
"Guerra Civil", dirigido por Alex Garland, é uma pancada seca no estômago que passa longe dos clichês ideológicos do cinema. Em vez de entregar um debate panfletário entre democratas e republicanos, o longa ignora os discursos de gabinete pra focar no horror cru da barbárie e na visão do jornalismo de guerra.
A trama acompanha a vida de uma equipe de correspondentes cruzando um país devastado rumo a Washington D.C., onde o Presidente, agora ditador de terceiro mandato, está prestes a ser deposto. O grupo é liderado por Lee (Kirsten Dunst), uma fotógrafa consagrada e anestesiada pelo trauma, e Joel (Wagner Moura), um repórter movido à adrenalina do front. Somam-se o experiente Sammy (Stephen McKinley Henderson), atuando como bússola moral veterana, e a jovem Jessie (Cailee Spaeny), garota que força sua presença na viagem em busca do batismo de fogo no fotojornalismo.
A construção das cenas é magnífica. Alex Garland joga a gente pra dentro do carro, nos levando pra uma América dividida, destruida e devastada. A atmosfera de apocalipse é intensa, o clima de medo aumenta a casa cena, com sequências de ação tensas, dramáticas e realistas, onde o horror e as atrocidades de uma guerra ganham mais veracidade por causa da presença jornalística. A cena dos atiradores de elite ocultos numa propriedade rural evoca a frieza dos grandes clássicos de guerra, naqueles momentos onde um silêncio eterno sempre antecede a morte. Enquanto a sequência em alta velocidade — onde os jornalistas trocam de carro em movimento na estrada — entrega uma rara descontração antes do colapso total. É essa insensatez que os lança diretamente no pesadelo orquestrado por Jesse Plemons: um soldado de óculos vermelhos que, ao lado de uma cova comum, executa friamente quem não responde adequadamente à pergunta "Que tipo de americano você é?". O pesadelo nazista vem à tona. O horror do holocausto vem a mente e faz o nosso sangue congelar. A banalização do mal, o terror psicológico da herança fascista ganha a tela numa cena inacreditável que a gente quer esquecer depois, mas não consegue.
A virada central da história reside entre Lee e Jessie. Um rito de passagem e término de uma carreira, acontece como as histórias de guerra são: dramáticas e trágicas. Enquanto a veterana recupera gradativamente a humanidade a ponto de se sacrificar, a jovem aprendiz faz o caminho inverso: anestesia-se diante da violência para garantir a foto definitiva da missão. Acontece de tudo de forma seca, fria rápida. Um tiro, uma bala define o desfecho do filme.
Com um design de som ensurdecedor, atuações irretocáveis de Dunst e Moura, uma produção realista, momentos de tensão, medo e loucura, e um plano-sequência final em Washington que figura entre os mais incríveis dos últimos anos no cinema, "Guerra Civil" não romantiza o conflito. O longa de Alex Garland expõe o custo humano de um país consumido pelo próprio ódio, provando que a maior distopia é a perda da pátria para ideologia e interesses políticos. Enquanto jovens se matam nas ruas, o colarinho branco contam o dinheiro.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
É Golpi! "O Mundo Depois de Nós" é um verdadeiro estelionato de marketing, mais um golpe aplicado pelo algoritmo da Netflix. Vendido com a pompa de superprodução apocalíptica — com o aval da produtora do casal Obama, direção estilizada de Sam Esmail (Mr. Robot) e um elenco peso-pesado encabeçado por Julia Roberts, Ethan Hawke e Mahershala Ali —, o longa prometia um novo "2012", um "Guerra Mundial Z" ou um suspense apocalíptico. A gente dá o play esperando o quarto selo do Apocalipse se abrindo e recebe duas horas e vinte de DR conjugal, drama passivo-agressivo e aula de sociologia de chaminé.
A trama junta uma família de nova-iorquinos abastados que aluga uma casa de luxo no interior para fugir da rotina. A mãe (Julia Roberts) odeia a humanidade, o pai (Ethan Hawke) é um acadêmico banana que não sabe trocar um pneu sem Wi-Fi, o filho adolescente é um Nutella sem personalidade e a caçula é uma viciada em Friends em crise de abstinência. Quando o apocalipse slin fit começa — com um navio petroleiro encalhando na praia e a internet caindo —, a casa é visitada no meio da noite pelo proprietário, G.H. Scott (Mahershala Ali), e sua filha (Myha'la). A partir daí, o filme decide virar um drama claustrofóbico sobre paranóia racial e discussão de classes.
O diretor Sam Esmail até entrega sequências isoladas visualmente geniais — como o ataque dos carros autônomos da Tesla se esborrachando sozinhos na estrada e o avião caindo na praia —, mas o roteiro usa essas cenas apenas como uma cortina de fumaça. O filme empilha alegorias bizarras sem explicação real como: flamingos invasores na piscina, cervos com olhar julgador na floresta, ruídos sônicos que fazem os dentes do garoto caírem do nada e drones jogando panfletos em árabe. Em vez de amarrar os pontos de um colapso tecnológico ou militar, a produção prefere deixar a interpretação aberta pra quem assisite.
O auge do deboche vem na conclusão: enquanto o mundo ao redor desmorona em bombas e caos, a garotinha encontra o bunker do vizinho, e simplesmente ignora a família e o fim dos tempos para dar o play no último episódio de "Friends". A metáfora sobre a alienação da sociedade moderna é clara, mas a sensação de ter sido enrolado por mais de duas horas pra ver uma historia sem desfecho é um pouco frustrante.
Se "O Mundo Depois de Nós" fosse vendido honestamente como um drama psicológico sobre família, sociedade e sobre a fragilidade humana diante do incerto, ele teria seu valor. Mas ter sido embalado como o grande blockbuster de catástrofe do ano, ele não passou de uma maquete linda com um roteiro vazio por dentro. Parece um trailer de um filme que nunca existiu.
Se você assisitir o filme sem as expectativas que a gente teve quando foi enganado pela Netflix, você vai curtir muito. Mas se assisitir o longa achando que ele vai tirar o 8ª selo do Apocalipse é melhor assisitir o "Friends"
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Aí, pra fechar a noite, você resolve assistir a um cine catástrofe, um cine desgraça da Netflix... "A Grande Inundação", um filme de enchente, filme coreano, pra combinar com a chuvarada lá de fora. Salgadinhos a postos, cervejinha no ponto, sofá no jeito, você dá o play e começa o apocalipse. A premissa é a clássica: pânico, corre-corre, fim de mundo e tudo se acabando em água. Na trana uma inundação bíblica toma conta do planeta, o povo dentro de um complexo de apartamentos sai correndo pelas escadas, e uma mãe com filho no colo foge às pressas da água que está começando a bater na sua bunda.
O problema é que o drama de mãe já começa errado. O moleque é um verdadeiro 누텔라 (Nutella, em coreano) — o oceano engolindo o prédio, a água subindo pelo elevador e o mimado querendo brincar na piscina e se esconder. Em vez de sentir pena, você passa os primeiros vinte minutos torcendo pro meteoro. E a mãe não fica atrás: no meio do caos, com a água no pescoço, a mulher simplesmente ignora uma grávida dando à luz pedindo socorro do lado dela! Isso é o sumo do egoísmo mascarado de instinto materno. E de repente, do nada, a virada acontece...
Que porra é essa? O apocalipse some, o mar, os prédios e as pessoas viram um monte de caracteres de Matrix pra enfiar um papo de simulação de IA, cientista do governo, Homens de Preto, criança fatiada em laboratório e nave no espaço. Sem explicar nada, confundindo tudo e entregando zero impacto. O filme abandona a destruição, o medo da morte e a claustrofobia física pra ser um experimento de Windows? Não, Coreiaflix, não faz isso comigo!
E a angústia não para: o filme descarrega uma overdose de melodrama do inferno tão apelativo que a gente quase desenvolve uma diabete só de assistir. É aquele choro mecânico coreano no volume máximo, rasgado, com música alta no fundo tentando te arrancar lágrima na marra e na violência. Eles querem que você chore pela mãe, chore pelo robô, chore pela onda, chore pelo apocalipse, chore pela simulação e chore pela IA, mas a única coisa que dá vontade de chorar é pelo tempo de vida que eu perdi assistindo a essa calda de pudim feita na tela.
O que prometia ser um suspense claustrofóbico de sobrevivência, pânico e morte na água, se transforma num dorama triste no espaço, onde nada faz sentido, nada engaja e ninguém se importa. Nada salva nesse apocalipse coreano: nem o Aquaman, nem o Namor e nem o Moisés abrindo as águas pra esse povo molhado. Você não consegue jogar uma boia pra esse filme do Byung-woo Kim. Ele deve ter deixado cair o Game Boy no box do chuveiro quando era pequeno, porque não tem explicação. Misturar cine enchente com espaço e simulação louca de laboratório NÃO FUNCIONA.
Mas Iemanjá salva! Põe num barquinho, enche de flor e lança no mar.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"O Silêncio" não é apenas um filme ruim; é um atestado de ruindade intelectual emitido pela fábrica de salsichas da Netflix. Dirigido por John R. Leonetti — cara que aparentemente ganha a vida tentando adivinhar como se faz cinema de horror —, o longa é uma cópia descarada, desalmada e vagabunda do classico moderno "Um Lugar Silencioso". A diferença é que, enquanto o filme do John Krasinski usa o silêncio para criar tensão claustrofóbica, esta tralha usa o barulho para esconder a total incompetência de seu roteiro.
A premissa é a clássica indústria chupa-chupa pega o sucesso do vizinho, troca o monstro do espaço por morcegos pré-históricos de caverna e bota uma família pra fugir de carro. Stanley Tucci, Miranda Otto e Kiernan Shipka coitados, parecem ter aceitado o papel só pra pagar a fatura do cartão. Eles entram no modo de sobrevivência contra os "Vesps", mas a verdadeira ameaça da trama é a estupidez crônica dos próprios protagonistas.
Mas o cérebro deles evapora, a jumentice atinge o topo quando a família chega na casa da idosa. A velha transformou a propriedade num bunker com arame farpado e alarme atrai-bicho, só pra ela virar janta da própria armadilha numa cena patética, pro roteiro sem razão abrir as portas do refúgio pra familia. O melhor vem depois: após a família entrar na casa e se acomodar, eles simplesmente não fecham os portões, não trancam a porta da frente e nem lacraram a grade do túnel. Eles ficaram ali quietinhos, acho que assistindo a Netflix, esperando a morte vir ali, sentar a bunda na sala e levar eles depois.
E quando você acha que o roteiro já bateu no fundo do poço, ele encontra um alçapão: surge do nada o "Culto dos Sem-Língua". Em menos de quatro dias de apocalipse, um padre local em tempo recorde arrebanhou dezenas de malucos, passou a peixeira na língua deles e decidiu sequestrar a garota surda (Kiernan Shipka) porque ela é fértil. Qual o critério que esse cara usou? De onde que ele tirou essa porra? Ninguém sabe. Mas é de uma logística religiosa invejável pra quem teve apenas três dias de apocalipse.
E fica a dúvida: se o silêncio é sagrado, o que acontece quando alguém do culto tem uma crise de espirro ou solta um peido alto? Amputam o tóba do coitado? E pra fechar essa desgraça, os fanáticos decidem invadir a casa colando iPhones com fita crepe nas janelas tocando alarme. Assassinar por Bluetooth é a nova fronteira do terror. Caramba... pra comprar celular agora vai ser preciso tirar porte se arma.
Historicamente, Hollywood sempre teve essa tara infeliz de lançar clones baratos de grandes ideias — vide o que fizeram na época de "O Segredo do Abismo" do Cameron. Mas a Netflix elevou o plágio à categoria de arte descartável. "O Silêncio" é um filme que não merece análise séria, apenas o escárnio. Não vale nem o ódio. É o tipo de ruindade que a única utilidade real da obra é nos fazer aplaudir a coragem do cara que deu o "Play" na câmera.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corre daqui. Mas se você valoriza a saúde das suas córneas, continue correndo!
"Per Aspera Ad Astra", título em latim que, se traduzir, fica algo tipo "Caminhos Difíceis Até as Estrelas". Lindo... Que promessa de filme! Mas só depois que eu assisti foi que me lembrei por que os produtos vendidos no Paraguai nos anos 80 eram chamados de "Ching Ling".
"Per Aspera Ad Astra" é um plágio desgraçado! Pegaram o enredo de "Passageiros", bateram no liquidificador com "A Origem", tentaram temperar com as dobras de realidade de "Doutor Estranho" e serviram no estilo daquele horror do "Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo". O resultado é um Frankenstein sci-fi chinês sem pé nem cabeça, sustentado por um elenco que parece ter sido recruited à força na fila do pão.
De um lado, um protagonista masculino sem expressividade real alguma, mas no módulo histérico de 5ª série; do outro, uma atriz com cara de 40 anos tentando se passar por adolescente séria. E pra coroar essa maldição, surge o vilão: um sujeito espalhafatoso, vestido e atuando como um boneco de posto de gasolina drogado, que passa o filme todo rindo, pulando e gritando, numa das atuações mais pavorosas e constrangedoras que eu já assisti nessa minha quase cinquentenária vida cinéfila.
Você reza por um meteoro atingir a nave, reza por um buraco negro sugar todo mundo pro inferno, e reza pra um alien invadir e se entubar na tripulação pra depois devorar geral. Você reza por tudo! É um horror! Isso aqui não é um filme, é uma macumba feita pra acabar com a tua noite. Não há criatividade, não há inteligência e muito menos dinheiro. Mas há uma coragem do cão pra jogar um estrume desse nas telas do streaming. Pra efeitos de comparação, acho que só a novela "Os Mutantes" da TV Record serve de referência visual e narrativa — serve inclusive pra você convencer até os seus piores inimigos a passarem longe disso daqui!
É uma das piores, senão a pior história de nave com tripulação na criogenia, revolta de IA e nuvem de meteoro do cinema recente. Usaram como base a premissa de "Passageiros" (do Morten Tyldum, com a Jennifer Lawrence e o Chris Pratt, que é uma das melhores comédias românticas de espaço que eu conheço). As cenas são um assalto descarado a esse e a todos os outros filmes que citei. Mas a maior ruindade de todas foi tentar fazer esse pastel de pé de frango ser vendido como picanha de rodízio.
A computação gráfica parece trabalho de aluno do primeiro semestre de propaganda & marketing: é ruim, cafona e um genérico rasteiro de coisa famosa. O único talento da equipe foi bater todas as referências roubadas no liquidificador e jogar na tela pra gente engolir. A sequência final é um dos maiores desesperos visuais da história: uma maçaroca de:
"Passageiros + Origem + Doutor Estranho + Tudo ao Mesmo Tempo Agora + Matrix"
Comprimida em dez minutos que pareceram semanas de tortura. Quando acaba, você quase vomita pelas córneas. E tudo isso pra quê? Depois de encarar todo o perrengue no espaço, toda a falha na nave e toda a traição ridícula da IA só pra recomeçar a vida num planeta mais desértico e feio que as pedras de Marte.
"Per Aspera Ad Astra", do diretor Han Yan, é um teste de sobrevivência nível militar pra cabeça, olhos e ouvidos. Esse filme resume tudo o que há de mais preguiçoso no entretenimento recente. Acho que o cinema nem precisa mais produzir ficção científica por uma década, porque esse roteiro já roubou tudo o que existia. E desconfio que as escolas de dramaturgia na China vão fechar as portas depois de assistirem o nível de atuação desses protagonistas.
Pra mim foi uma experiência pavorosa, mas cinema é igual a restaurante: tem gente que prefere pizza, churrasco, macarronada, feijoada e o infalivel arroz com feijão e carne assada... e tem gente que prefere comer lesma frita e gafanhoto crocante. Nada contra. Beleza, vai na paz, Jesus te ama.
Mas desculpe, o cinema claramente desistiu de você.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Sabe o meme clássico da Renata Sorrah confusa, cheia de fórmulas matemáticas, raízes quadradas e equações flutuando ao redor da cabeça? "Anon" é basicamente a transformação desse meme em um longa-metragem.
Dirigido por Andrew Niccol, o filme nos joga em uma sociedade futurista onde a privacidade foi pro vinagre. Tudo o que as pessoas veem é gravado em tempo real em um banco de dados do governo. Não existe anonimato, e a visão de todo mundo parece uma tela de computador flutuante, onde o sistema calcula e exibe o nome, a profissão e os dados de qualquer um que passa na rua.
Visualmente, o filme é um velório sem fim. É tudo cinza, preto, morto e fúnebre. Você perde até a fé no mundo de tão depressivas que são as pessoas na rua. A estética é tão gélida que parece que aquele monte de gente na tela está a caminho de um enterro — só esqueceram de avisar de quem é o defunto.
No meio dessa Weltschmerz life, o detetive Sal Frieland — vivido por um Clive Owen opera no módulo zero em cena, precisando urgentemente de três xícaras de café puro com pó de guaraná pra acordar — investiga esses assassinatos misteriosos. O problema é que o assassino hackeia a visão "Renata Sorrah" das vítimas antes de puxar o gatilho. É aí que surge a "Anon" (Amanda Seyfried), uma hacker fantasma sem registro no sistema que atua gelada mandando bala nos outros. Ela aparece esporadicamente, quase dizendo um "oi" nas cenas, mas deixa sua marca na gente. E como manda a regra não escrita dos filmes do Clive Owen, claro que não podia faltar aquela pitada de sexo pro seu personagem.
Apesar do ritmo lento e do clima de depressão profunda, o filme não é ruim. Ele engata bons momentos de suspense investigativo e traz um conceito instigante sobre o controle total da informação e o fim da intimidade. O problema é que o roteiro perde o bafo na reta final e entrega um desfecho previsível, desenhando pra gente quem era o culpado muito antes dos créditos subirem.
Como filme de catálogo da Netflix, "Anon" cumpre o seu papel: distrai e entretém, entregando um mistério razoável, que faz a gente pensar mais sobre essas novas tecnologias que surgem por aí.
P.S. Vou pensar duas vezes antes de comprar os óculos com IA Renata Sorrah...
⚠️ Alerta de Spoiler: Tem alguns spoilers, mas se você ainda não viu esse pastel de abacaxi, parabéns! Você economizou 1h:40 de vida e muita raiva.
O cinema sul-coreano é uma máquina de fazer filmes antológicos, isso todo mundo sabe. Os caras são monstros no terror, suspense, thriller psicológico, policial, vingança, monstros e até comédia. Mas quando resolvem meter a mão na ficção científica, misericórdia! "Jung_E" é um horror, um atestado de falência criativa, um testes de paciência grátis que a plataforma da Netflix disponibiliza em seu catálogo. E acredite, o filme saiu das mãos de Yeon Sang-ho — o mesmo que assinou a"Invasão Zumbi". O sujeito saiu de um respeitado filme de zumbi pra entregar um protetor de tela genérico misturado com dorama triste de robô.
A premissa tenta enganar no papel, com o velho e infalível clichê: futuro distópico destruído, colônias espaciais, robôs pra todo lado e uma lendária guerreira que neste caso esta mais pra lá do que prá cá. Jung Yi (Kang Soo-youn) está em coma e tem o cérebro clonado para virar a IA de um robô de combate definitivo. A execução é uma tragédia, o filme inteiro se resume a uma cientista num laboratório cinza assistindo à mãe quase robô morrer repetidamente numa simulação virtual idêntica. É repetição do nada, sem parar, que deixa a gente doido. Uma preguiça de roteiro do inferno que tenta enfiar na marra um melodrama barato pra gente assistir. É robô chorando, robô com crise existencial, robô com flashback de filha, robô ensino médio, é um intestino inflamado de narrativa que faz qualquer um tomar um laxante pra esquecer.
Para piorar o pesadelo, as atuações são um vexame. A atriz que faz a filha da cientista no laboratório passa duas horas travada: ou está fazendo bico de susto ou está arregalando o olho para o monitor de computador. Só! Um manequim no Brás, passa mais emoção que essa mulher. Já o sujeito que interpreta o diretor do laboratório, puta que pariu. Cara, mimado, muleque, histérico, que não saiu da quinta série que toma energético demais. Ele grita, faz firula, dá pulinho, dá risada idiota. Como um cara desse comanda uma corporação militar? Os dois são uma dupla sem química, sem talento e sem direção.
Visualmente, o filme parece um videogame antigo de computador com fundo verde lavado e sem vida. E quando você acha que não dá para piorar, o poço é mais fundo e abre uma tampa pra fossa. O roteiro descamba pra um final bizarro e apelativo, onde a empresa decide transformar a imagem da maior guerreira da humanidade em uma boneca sexual. Uma apelação rasa e sem propósito.
"Jung_E" é a prova cabal de que a Coreia do Sul precisa passar longe dos filmes de ficção científica espacial. O filme do Yeon Sang-ho é arrastado, mal atuado, cafona e profundamente chato. São 20 bilhões de wons sul-coreanos que convertido pro dólar gira em torno de $16,3 milhões. "Ex Machina" do Alex Garland custou 15.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu, corre daqui.
"Vida", de Daniel Espinosa, carrega uma das maiores ironias do cinema de ficção científica recente. Vendido como um aperitivo para a celebração dos 40 anos da franquia Alien e pra chegada de "Alien: Covenant", o filme atropelou a megaprodução de Ridley Scott e entregou, sem alarde, o horror espacial visceral que todo mundo queria ver no filme do grande diretor inglês.
O trunfo de Espinosa foi recusar a pretensão. Enquanto Scott se afundava em dilemas filosóficos vazios, robôs poetas e uma mitologia inchada que ninguém pediu, "Vida" voltou às raízes do cinema sci-fi de sobrevivência. A premissa não inventa nada, mas é executada com uma brutalidade cirúrgica mostrando um alienígena faminto que janta todo mundo no espaço. O filme mostra uma equipe de astronautas que resgata uma amostra biológica viva de Marte — que ganha o nome de Calvin — e testemunham a rápida transição da histórica descoberta pra um predador perfeito, que se alimenta de tudo que aparece pela frente.
A direção de arte e a computação gráfica constroem uma tensão sufocante dentro da Estação Espacial. O elenco de peso liderado por Rebecca Ferguson, Jake Gyllenhaal e Ryan Reynolds, não serve como escudo de roteiro. O filme não tem piedade de seus astros, estabelecendo logo no primeiro ato que não há espaço para heroísmo quando a biologia de um alienígena mais real toma a frente.
Mas "Vida" acaba escancarando a "Morte" das ideias, a falência criativa de hoje dos grandes estúdios. O filme do Espinosa replica a fórmula de alienígena na nave de forma muito competente, fazendo aquilo que os fãs de horror espacial paga o ingresso pra ver no cinema. Filme de alien que tenta se reexplicar toda hora acaba comendo o próprio rabo. O que o gênero exige é atmosfera, medo real, crueldade física e o desespero cru da sobrevivência, coisa que esse filme fez de modo bem higiênico, bem limpinho, e no padrão sci-fi mainstream de hoje.
Se fosse nos anos 80, eu venderia meus irmãos pra ver a massa moldável flutuando dentro da Estação. Meu Deus... e daria meu cachorro de brinde.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"Settlers" é um faroeste bruto e implacável que se passa no solo vermelho de Marte. Esqueça as batalhas espaciais, Wyatt Rockefeller pega os dois gêneros, e com um orçamento enxuto, transforma numa obra surpreendente, um filme rústico, claustrofóbico e de um peso dramático esmagador. É o tipo de sci-fi que prova que o gênero muitas vezes atinge seu ápice quando o foco é o lado mais sombrio da natureza humana.
A trama coloca a visceralidade do western na mesa: uma família isolada na fronteira marciana tentando proteger o básico — terra, ar, água, comida. Tudo desmorona quando um invasor surge reivindicando a posse do lugar, instaurando um jogo psicológico doentio de dominação e invasão de domicílio. Sofia Boutella e Ismael Cruz Córdova entregam atuações afiadas, carregadas de tensão, onde a dor da perda e o instinto de preservação se chocam o tempo todo. O contraponto de humanidade fica na garota Remmy (vivida na infância por Brooklynn Prince e na fase adulta por Nell Tiger Free) e sua relação com Steve, um robô utilitário enferrujado que parece saído de um clássico dos anos 80.
A grande sacada do filme é como ele usa o tempo para manipular a nossa percepção. O filme cria uma falsa sensação de redenção, fazendo a gente quase acreditar na formação de um abrigo seguro, para logo em seguida dar uma rasteira seca e cruel. O mito do herói tradicional se desintegra por completo, em um mundo destruído, sem governo e sem leis, o homem que tem a arma e a força não quer salvar ninguém; ele quer apenas ser dono de tudo, inclusive das pessoas. O confinamento no rancho se revela um lugar muito mais perverso que o deserto irrespirável do lado de fora.
"Settlers" é um cinema B de respeito, indigesto e incômodo. É um faroeste que usa a casca da ficção científica para entregar uma amostra sobre a escuridão da alma humana, mostrando que às vezes os verdadeiros monstros não estão escondidos nas sombras, mas que estão sentados do seu lado na mesa de jantar.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"Ash: Planeta Parasita" não é um filme pra você assistir no macio do sofá comendo pipoca; é uma surra mental que te arrasta direto pro esgoto da insanidade, onde só a pinga alivia. Enquanto a ficção científica engomada de streaming parece feita pra não assustar ninguém, Flying Lotus mete o pé na porta, liga a motosserra e entrega um body horror tétrico, cru e totalmente pirado.
O filme não quer te contar uma historinha bonitinha. Ele quer te infectar. A graça aqui é a insanidade, a perplexidade pura: você acorda junto com a protagonista numa estação destruída, cercado de carne moída, sangue espalhado nas paredes e com a cabeça queimando. A partir daí, é um pesadelo alucinatório sem freio. O roteiro te desgraça a cabeça jogando flashbacks desconexos, visões bizarras e uma paranoia sufocante onde você não sabe se a mulher (Eiza González) tá doida, se matou os próprios companheiros no cacete ou se tem algo nojento rastejando no cérebro dela.
O visual é uma agressão aos olhos. A fotografia te espanca com uma iluminação neon pesadíssima em vermelho e azul, criando um clima sufocante onde olhar pela janela do planeta Ash dá vontade de enlouquecer. É nojeira oitentista de primeira linha, com gosma, mutilação e efeito prático que faz o estômago dar nó. É um tributo aos clássicos do Cine Trash e do horror oitentista, recheado de nojeira, gore e mutilação de fazer escorrer chorume dos olhos dos fãs.
Quando entra em cena a figura bizarra do Brion (Aaron Paul), você não sabe o que é real, quem é o monstro, se ela enlouqueceu ou se foi a responsável pela sangria. A revelação de quem era o salvador quebra nossas pernas, o baque é seco. Você se sente tão sujo e perturbado que parece que o filme acontece com você dentro.
É cinema B bruto, violento e sem vergonha na cara. "Ash: Planeta Parasita" te joga numa espiral de horror visceral e claustrofobia que pouquíssimos diretores hoje têm culhão pra fazer. É um chute forte no saco do estômago, um filme misterioso, surreal e violento, do jeito que o mundo trash gosta.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"A Presença" é aquele tipo de sci-fi independente de baixo custo que divide opiniões, mas que merece ser aplaudido pela coragem de arriscar. Dirigido por Eric Demeusy (especialista em efeitos visuais), o longa é claramente feito para o streaming e não tem medo de mostrar suas limitações de produção e elenco. Porém, cobrar atuações de peso de uma produção enxuta é bobagem; o verdadeiro valor aqui está na proposta e no amor pelo gênero.
O filme entrega uma atmosfera noventista chapante de paranoia no melhor estilo Arquivo X. Acompanhar o drama de Isaac (Ryan Masson) — um jovem engenheiro que filma sua própria abdução, mas é ridicularizado na TV e vira vítima da indústria da desinformação — funciona muito bem. A trama ganha tração quando a perseguição governamental entra em cena, revelando os Homens de Preto, ciborgues e instalações secretas, levando o protagonista a se aliar a Sarah (Highdee Kuan), outra abduzida, numa fuga pra encontrar outro homem que viveu a abdução décadas atrás e que precisa viver escondido do governo.
O grande trunfo do filme, que me pegou de surpresa, é a sua virada conceitual no final. Em vez do clichê batido dos aliens invasores querendo exterminar a humanidade, o roteiro revela que esses seres altamente tecnológicos cruzaram o universo em busca de algo que não possuem: a consciência e a mensagem espiritual de Jesus Cristo. Isso é de um conceito espiritual e filosófico ousado, que certamente seria apagado se o filme caísse nas mãos de um grande estúdio de Hollywood — que provavelmente trocaria a ideia por explosões, tiros, gritaria e o Tom Cruise fugindo do governo e dos alienígenas pelas ruas.
Apesar de ter suas falhas, "A Presença" cumpre seu papel com louvor. É um sci-fi B de luxo que consegue criar um clima de mistério genuíno com ótimos efeitos práticos e digitais, trazendo uma trama que nos faz refletir sobre o lugar da humanidade no universo e sobre alienígenas que nem sempre precisam ser definidos como uma ameaça, mas sim como seres em busca de conhecimento e evolução.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Maquetes, cenografia, CGI mínimo. "Lunar", de Duncan Jones, é uma aula de como fazer ficção científica B de altíssimo nível. Com uma estética seca, desértica e praticamente monocromática, o longa aposta pesado em efeitos práticos e o resultado é aquele visual tátil e claustrofóbico que dá gosto de ver. É o espaço funcionando como o espaço deve ser: frio, escuro e indiferente.
O motor do filme é a jornada sufocante de Sam Bell (Sam Rockwell). Faltando apenas três semanas para encerrar um contrato de três anos minerando Hélio-3 na Lua, ele está no limite da sanidade, roído pela saudade da família e contando as horas para voltar para casa. Mas não há nada de ruim que não possa piorar. Após sofrer um acidente de rover na extração, ele acorda na enfermaria com a presença de um segundo Sam Bell no local. Situação essa que causa uma espiral de paranoia, expondo a triste verdade sobre sua própria existência.
A grande força do roteiro está na dinâmica entre as duas cópias. A princípio, o choque gera rejeição, raiva e negação; afinal, um clone não deveria ter acordado antes da hora. Mas, aos poucos, essa rivalidade dá lugar a uma empatia profunda e trágica. Ver o outro definhando, descobrindo que o corpo tá morrendo e que as memórias de esposa e filha nunca foram suas faz com que eles se enxerguem não como rivais, mas como vítimas da mesma engrenagem. O acolhimento humano nasce justamente da dor compartilhada.
"Lunar" é uma ficção científica densa, melancólica e indigesta. Um filme que usa a casca do cinema B espacial para entregar um estudo sobre solidão e identidade, confrontando a dignidade humana contra a frieza do lucro. A empresa vende para a Terra o slogan bonito de energia limpa, enquanto esconde no subsolo da Lua uma gaveta fria cheia de carne humana clonada pra ser usada até estragar pra depois ser descartada. Fato esse que conhecemos bem aqui com empresas que vendem saúde, beleza e cuidado, mas usam os meios sórdidos na produção em países pobres: trabalho escravo, poluição, propina e a puta que pariu.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Senta que lá vem a história...
"O Homem da Terra" é a prova viva de que a verdadeira ficção científica não precisa de naves espaciais, tiro, CGI ou efeitos visuais. Richard Schenkman pegou o roteiro brilhante de Jerome Bixby — lenda do gênero que assina episódios de "Jornada nas Estrelas", a ideia original de "Viagem Fantástica" e o roteiro de "O Fantasma do Planeta Vermelho" (que inspirou Alien) —, que o autor concluiu em seu leito de morte. Com um orçamento de miséria de US$ 200 mil, a produção entregou uma aula de narrativa. O filme parece uma peça teatral barata dos anos 90 feita para a TV, se passando inteiramente dentro de uma sala de estar, mas o texto é uma bomba-relógio.
Na trama, o professor John Oldman (David Lee Smith) reúne seus amigos acadêmicos para se despedir e solta a bomba de que é um homem de Cro-Magnon com 14 mil anos de idade que nunca envelhece. O choque é total. Ceticismo, fascínio e conversa pra boi dormir tomam conta da sala deles e da nossa. É um jogo intelectual incrível em que ele rebate perguntas de biólogos, historiadores e psicólogos com uma lógica impecável, descrevendo desde a convivência com Buda até o presente de um quadro original direto das mãos de Van Gogh.
Mas a polêmica atinge o ápice quando o roteiro cutuca a ferida religiosa da velha igreja, ao falar que ele foi Jesus Cristo. Aí a sua vó, sua tia e sua sogra, se forem católicas apostólicas romanas ou evangélicas fervorosas, podem cometer um filmocídio se você abrir o bico perto delas sobre esse filme. Tem que ter coragem pra falar aquilo! Deve ser por isso que ele precisa mudar de cidade a cada dez anos, e não apenas para as pessoas não desconfiarem de sua aparência.
Deslumbre, drama, tensão (até um revólver sacaram na sala), o palco vira um campo minado até que, do nada, o "Jesus" solta que inventou tudo aquilo, que sua história não passava de uma brincadeira para que pudesse ir embora. Porém, para surpresa minha — quando eu finalmente achava que poderia indicar esse filme pro pessoal da igreja —, no final ele faz uma revelação que me jogaria direto pro mármore do inferno! O final é trágico e triste, escancarando o peso e a solidão de alguém que vive para sempre.
Sem gastar um centavo com explosões, tiros e máquinas do tempo, "O Homem da Terra" aluga um apartamento na cabeça de quem assiste usando apenas a força do diálogo. Um clássico cult, provocativo, rústico e inesquecível.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Eu não sou fã do Adam Sandler, gostei de alguns filmes dele, mas geralmente corro de tudo que ele faz. Quem diria que um dos papéis mais profundos e tristes da carreira dele seria conversando com uma aranha gigante no meio do nada? Pra quem não engole o estilo escrachado e bobalhão (que nem eu) do ator, "O Astronauta" surge como uma rasteira argentina. Acompanhado por um elenco de peso — Carey Mulligan, Isabella Rossellini e a voz hipnotizante de Paul Dano —, Sandler carrega o filme nas costas mostrando um homem desmoronando em vida, num papel cru, dramático e intimista.
Pode esquecer a ficção científica de aventura ou corre-corre espacial. O diretor Johan Renck pega a experiência de "Chernobyl", constrói uma nave com estética pesada de bloco soviético, onde a claustrofobia e o mofo mental da velha cortina de ferro ditam o tom. De um lado, a burocracia fria do Estado (vivida por Rossellini) exigindo resultados; do outro na Terra, a esposa (Mulligan) tem uma vida humilde, sofrida e abandonada, tendo somente o silêncio e a perda como companhia. E no meio desse deserto cósmico onde Jakub Procházka (Sandler) está, surge Hanuš: uma aranha milenar que não é alucinação, mas sim um psicólogo alienígena educadíssimo, sincero e implacável.
A dinâmica não é de monstro contra humano, mas de paciente contra terapeuta, o famoso médico (monstro) e monstro (homem). O alienígena confronta a covardia do astronauta, desmontando a casca de herói falsa para expor um homem que se esconde atrás dos próprios traumas. Essa conexão funciona de forma impressionante por conta do trabalho impecável de CGI: a aranha tem uma textura tátil que dá medo, com pelos finos, pele seca e sem aquele brilho falso de plástico que a Netflix costuma entregar. A cena em que esse ser gigante segura um pote de creme de avelã com uma delicadeza infantil é o ponto de virada que transforma o pavor em empatia. Quando o filme entra no seu clímax, o visual atinge seu ápice na nuvem Chopra, com as cenas dramáticas dos momentos finais da criatura, amarrando a dor da perda com uma amizade inesperada e sincera nos confins do espaço.
Aquele ser que causa repulsa em qualquer um vira a única salvação da alma do protagonista. Foi preciso ir até o fim do universo e encarar uma aranha gigante para que Jakub finalmente enxergasse o egoísmo de suas escolhas e a dor sufocada — como o luto velado pela perda do filho — que ele nunca teve a coragem de dividir com a esposa. A despedida tem um sabor amargo e melancólico, mas a transformação do personagem é gigante. É a história de um homem que precisou se perder na imensidão do espaço para conseguir encontrar o caminho de volta para casa e pedir perdão.
"O Astronauta" passa longe de ser uma jornada nas estrelas tradicional: é um filme denso, introspectivo e rústico sobre culpa, solidão e a beleza dolorosa da reconciliação. Coisa russa.
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não viu esse filme, corre daqui!
Pra quem espera que "A Astronauta" seja uma ficção científica espacial, pode tirar a espaçonave da chuva. O filme vende a ideia de filme de espaço, mas entrega um thriller de invasão doméstica e quarentena no meio do mato. De astronauta, a protagonista não tem quase nada: o roteiro prefere transformar a Kate Mara numa dona de casa enclausurada e traumatizada, trancada numa propriedade isolada enquanto tenta processar o que raios aconteceu lá no alto.
A diretora Jess Varley dá uma rasteira na gente e troca a imensidão do espaço por uma paranoia louca de casa de campo. No começo, essa ilusão até funciona. A sensação de ter algo rondando a residência, tentando invadir e espiando pelas janelas constrói um suspense tático dos bons. Um mistério rústico que prende na dúvida: é alucinação, paranoia ou tem o capeta na mata? Quando o filme finalmente se revela e abraça de vez o alienígena, o clima muda e o troço vira um terror B com um ET de CGI meio duvidoso, mas que dá pro gasto.
Laurence Fishburne e Kate Mara entregam atuações burocráticas, que funcionam no piloto automático absoluto do início ao fim. Laurence Fishburne no módulo militar severo, e Kate Mara passa o filme inteiro com a mesma expressão de choque, paranoia e dor de dente. Ninguém brilha, mas ninguém passa vergonha. A revelação final é bacana, mas passa raspando do abismo do açúcar de festa. Se você esquecer que foi enganado pelo título e aceitar a proposta de um suspense doméstico, a decepção vira distração, acaba entretendo e salva o sábado.
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Viva os filmes de baixo custo! "Eclipse Mortal" é a prova suprema de que os filmes B podem se tornar clássicos cult inesquecíveis. Quem pegou essa pedrada na época, na imagem analógica do Cineband, viu que estava diante de algo totalmente fora da curva. Em vez da ficção científica comportada dos anos 90, o diretor David Twohy entregou um ficção horror de ritmo urgente, claustrofóbico e sem piedade.
Riddick não veio de HQs; ele nasceu no cinema e ganhou o mundo na pele de Vin Diesel. A imagem dele é magnética: assassino frio, anti-herói bruto e de moral duvidosa. O prisioneiro Riddick se torna a esperança de sobrevivência de um grupo de passageiros num planeta hostil depois de um acidente. A tensão é constante, pois todos os personagens estão no limite da ética: o suposto policial é um viciado em drogas sem caráter, a pilota Fry começa a trama tentando sacrificar passageiros pra salvar a própria pele, um religioso com filhos revela uma fé fraca e há um garoto misterioso. São passageiros que sobrevivem à queda, mas que por dentro já estavam quase mortos.
David Twohy fez milagres com o orçamento PP, usando filtros de luz fortíssimos pra transformar o deserto numa frigideira alienígena. Quando o alinhamento de três sóis provoca um eclipse total, o planeta claro vira um inferno de sombras dominado por nuvens criaturas carnívoras e violentas. Os efeitos visuais são basicos, mas são de uma competência absurda; a computação gráfica humilde pros padrões de hoje, funcionam demais porque a produção aposta na maquiagem prática, no clima e nas sensações do medo do escuro, na iluminação saturada e no uso genial dos olhos mutantes de Riddick. As cenas de fuga até a nave no breu total são pura adrenalina, culminando num desfecho dramático, violento e com cheiro de suvaco de redenção.
"Eclipse Mortal" é uma aula de cinema de ficção científica independente dos anos 2000. O filme de David Twohy tem a garra, a coragem e a alma que os grandes filmes de hoje perderam. História afiada, direção raçuda, produção rústica, efeitos competentes e um personagem que conquistou o público. Autêntico, tenso e obrigatório para o acervo. Cinema cult de verdade.
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Durante boa parte dos anos 2000 eu esperei uma continuação de "A Batalha de Riddick", mas o que veio foi um filme covarde e descartável. Em vez de dar sequência à mitologia gigante, o diretor David Twohy e o Vin Diesel tremeram na base e meteram um remake genérico disfarçado de "Eclipse Mortal", pensando que a gente é besta.
Em vez de explorar as conspirações, as revoltas e a grandiosidade daquele império espacial único, a dupla jogou tudo no lixo por falta de verba e medo de arriscar. Nos primeiros quinze minutos, o filme faz uma gambiarra inacreditável para tirar o Riddick do trono dos Necromongers, joga-o num planeta de pedra desértico e finge que o império espacial nunca existiu. De repente, a saga barroca espacial vira uma novela B de como sobreviver com um cachorro alienígena contra um bando de mercenários burros.
A produção economizou tanto que o longa virou um festival de CGI de estúdio, com fundo azul escancarado e uma fotografia amarela e alaranjada tão forte que a gente fica daltônico de tanto cansaço nas vistas. Minha mãe fala que esse filme é o "Riddick do cachorro". O sujeito passa metade da trama num planeta desértico adestrando pet alienígena e lutando contra cobras de lama, enrolando a gente até aparecerem os mercenários.
Quando eles finalmente chegam, o filme sai do "módulo pet" e afunda a coisa de vez nos clichês de ação. A trama tenta transformar o Riddick num ser supremo imbatível, que surge das sombras matando o bando como se fosse o John Wick. A apelação é tanta que a tensão foge mais rápido que a nave que o Riddick estava tentando roubar na história. Você fica despreocupado com a trama, porque sabe que ele vai aparecer do nada, matar alguém, roubar as coisas e dizer alguma frase de efeito com aquela voz de motor antes de ir embora. O elenco de apoio roda no piloto automático: Dave Bautista, Katee Sackhoff, Bokeem Woodbine, Jordi Mollà e Matt Nable parecem bonecos de videogame, servindo apenas de bucha de canhão pra alimentar o ego do protagonista. Quando a chuva cai, a noite chega e as criaturas do lamaçal atacam, ele precisa negociar com os sobreviventes para escapar na nave. Você assiste a um remake safado e fraco de "Eclipse Mortal" tomar a tela, sem medo e sem vergonha.
Trocar uma saga espacial autêntica e grandiosa como foi "As Crônicas de Riddick" por um remake genérico, com CGI alaranjado e um cachorro de estimação, foi foda. "Riddick 3" não é apenas uma sequência fraca e horrorosa; é o enterro melancólico de um universo que tinha tudo para arrebentar nas telas do cinema.
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A premissa era perfeita para um puta filme de ficção e ação: Adam Driver interpretando um piloto espacial armado com fuzil a laser, caindo na Terra há 65 milhões de anos, enfrentando dinossauros famintos e correndo contra o relógio do lendário meteoro do fim do mundo. Tinha tudo para ser um massacre visceral de sobrevivência. No entanto, os caras tiveram a façanha de pegar esse prato cheio de ideias e entupir de xarope dramático até estragar.
"65: Ameaça Pré-Histórica" tenta abraçar duas propostas e erra feio no tom ao derramar o açucareiro no roteiro. Em vez de focar na tensão bruta e no pavor do território hostil, os caras apelaram para a velha muleta de Hollywood: a criança em perigo. Adam Driver passa o filme inteiro com a sua clássica cara de choro e angústia, fazendo o papel do pai amargurado que perdeu a filha e tenta se redimir salvando uma garotinha perdida na floresta. Faltou pouco para colocarem um cachorro pulando feliz entre os gêiseres e dinossauros para completar o pacote completo do clichê de domingo à tarde.
O CGI entrega aquela estética chapa-branca de streaming que tentam normalizar nas telas de cinema. Só que a gente não é bobo! Os dinossauros parecem tirados de videogame, sem peso, sem massa e sem o terror real de um Jurassic Park. A urgência do meteoro rasgando o céu até cria momentos decentes de ação, como a perseguição de criaturas, do réptil gigante e o confronto final, mas a narrativa amarra essa pedra de açúcar aos pés dos personagens até o final. A cada dez minutos de corrida, o filme para para choramingar as lembranças do Adam Driver.
"65: Ameaça Pré-Histórica" entrega boas cenas isoladas para distrair, mas acaba enjaulado nesse nicho batido de "pai triste resgata criança perdida". Um filme que poderia ter sido um puta sci-fi de sobrevivência escolheu ser só uma produção mediana: você assiste, se distrai com o corre-corre e com as rajadas de laser, e esquece que existiu dez minutos depois que rolam os créditos.
⚠️ Alerta de spoiler: Se você você não viu esse filme, corra daqui.
Direto para as prateleiras da Blockbuster e dos supermercados, "O Homem Sem Sombra 2" (2006) é dessas pragas ruins de sequência que a gente precisa tomar cuidado até para comentar. Com a direção de comercial de açougue do Claudio Fäh, o filme pega as partes ruins da obra do Verhoeven e injeta doses cavalares de pura merda visual. Transformaram a invisibilidade — que no clássico de H.G. Wells é uma metáfora sobre a corrupção e o poder — num truque de mágica barato, em um roteiro que parece ter sido escrito no papel higiênico de banheiro de bar.
Christian Slater — que devia estar devendo o aluguel do mês — aceita virar um soldado invisível do governo. Só que o soro do capeta tem um efeito colateral: ele mata o sujeito em dor agonizante se não tomar um tal de "estabilizador". Aí o filme vira um corre-corre de orçamento de fome, gravado tudo de noite para economizar no cenário, com o Slater caçando uma médica e sendo perseguido por um detetive genérico com cara de quem errou o estúdio de gravação.
O troço é tão vagabundo que o Slater nem precisou dar as caras no set direito, já que o personagem passa 90% do tempo invisível. E o CGI? Ah, meu amigo... se o primeiro filme do Verhoeven tentou revolucionar nos anos 2000, essa aberração de 2006 usa uns efeitos gráficos que parecem feitos no PlayStation 2. A luta final na chuva são dois bonecos de massa borrada se batendo no escuro.
Para coroar a desgraça, o detetive se injeta com o soro para lutar pau a pau e o resultado é apavorante. "O Homem Sem Sombra 2" é um filme tão fuleiro, tão descartável e tão murcho que você não precisa nem ver o final. Acho que não é nem certo dizer que esse filme é um caça-níqueis. "O Homem Sem Sombra 2" é um pré-filme, uma produção guia, desses testes que o diretor apresenta pro estúdio aprovar. Mas de forma misteriosa, sem querer, acabou sendo lançado pelo estagiário — que só podia estar completamente bêbado.
Ignorado pela crítica, com 0% de aprovação no Rotten Tomatoes, piada na roda de fãs de filmes B, horror da prateleira de baixo nas locadoras e R$ 9,90 no cesto de liquidação das Casas Bahia.
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Campeão das prateleiras das locadoras, febre nas noites de sábado do Supercine, "O Homem Sem Sombra" fez a gente perder as unhas na frente da TV no início dos anos 2000. O mestre Paul Verhoeven pegou o clássico "Homem Invisível" de H.G. Wells (imortalizado pela Universal nos anos 30) e envelopou com o que havia de mais moderno na computação gráfica na época. O resultado foi um espetáculo de computação by Windows Me, que deixou todo mundo de queixo caído, com efeitos que mostravam a anatomia humana desaparecendo camada por camada na nossa frente.
O filme conta a história do arrogante cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon) que, junto com sua equipe dentro de um laboratório financiado pelo governo, cria um soro de invisibilidade. Como todo cientista maluco, ele testa em si mesmo. O processo dá certo, mas o efeito reverso falha e ele fica desconjuntado!
"Se você tivesse o poder de ficar invisível, o que você faria?".
A resposta do filme é nua e crua: Sebastian vira um monstro, um psicopata, um louco de pedra. Ele sai na surdina fazendo maldade, volta pro laboratório e fica de boa. Suspense, mistério, ação e uma tensão sexual na medida, elevada pela trilha sonora espetacular de Jerry Goldsmith. O longa parecia caminhar para ser um thriller psicológico irretocável. Verhoeven fez a gente tremer na época com a insanidade de um homem deformado por dentro e por fora, sem que ninguém o veja. Mas o filme desanda...
Do meio para o fim, a trama abre mão do suspense pra virar um slasher genérico de corredor. O roteiro descamba para um desfile de clichês com correria, explosões, macaco furioso e um vilão que parece feito de aço — tudo recheado com cenas forçadas e personagens emburrecidos que parecem pedir para serem mortos. Por outro lado, o trabalho de CGI até hoje impressiona. Mesmo com o mínimo de recursos da época, o talento movido pela paixão entrega momentos que fazem a gente procurar em vão por algo parecido hoje em dia, mesmo com toda a tecnologia que temos.
Kevin Bacon está sensacional no papel; ele transborda arrogância mesmo quando só sobra a sua voz em cena. Elisabeth Shue e Josh Brolin entregam atuações firmes que seguram o peso do mistério, da tensão sexual e da claustrofobia dentro do laboratório. Já as cenas finais são um corre-corre desgraçado, com o cientista invisível parecendo quase um mutante dos X-Men, fazendo coisas que só os vilões dos anos 90 faziam.
"O Homem Sem Sombra" fez miséria nas salas de cinema no começo dos anos 2000. Quando o filme acabou, todo mundo falou: "Maaano... quero ficar invisível!". Lembro que corri pro meu Windows Me pra ver algum site que mostrasse o efeito dos órgãos, veias e do esqueleto humano flutuando na tela igual ao filme. Achei e fiquei sonhando kkkk...
Revendo hoje, velho, crítico e chato, vejo que o filme escorrega feio no terceiro ato. Fiquei sabendo que Hollywood (sempre ela) pressionou Verhoeven para transformar a trama num slasher estilo Sexta-Feira 13 no laboratório fechado. E conseguiu. "O Homem Sem Sombra" pode ser um dos pontos mais irregulares da filmografia do Verhoeven, mas mantém um valor nostálgico absurdo. Valeu assistir pelo impacto visual que marcou uma época e pelas atuações do elenco, mesmo que o filme hoje seja quase invisível.
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"O Projeto Adam" cumpre sem vergonha o seu papel de catálogo de luxo. É o tipo de produção criada em linha de montagem para entreter por duas horas, lavar a mente e ser sumariamente esquecida no fundo da prateleira digital.
O diretor Shawn Levy (Stranger Things) pega a estética de nostalgia dos anos 80, tempera com a fórmula de "De Volta para o Futuro" e entrega uma Sessão da Tarde plastificada. O trunfo aqui é que o filme não tenta fingir que é um sci-fi revolucionário: ele se apoia no carisma do elenco e no Ryan Reynolds — que, valei-me minha nossa senhora, dá uma leve brecada no modo Deadpool e entrega uma atuação um pouco mais contida, mesmo que continue interpretando a si mesmo.
A Netflix não tem dó do nosso dinheiro. Ela gasta uma fortuna em CGI, junta um elenco estelar — com Mark Ruffalo, Zoe Saldana e Catherine Keener — para entregar apenas um roteiro raso, com regras de viagem no tempo ridículas e uma vilã genérica. Vendem o filme como se fosse o novo grande épico de viagem no tempo, quando na verdade é só mais um produto descartável para ocupar espaço no catálogo.
"O Projeto Adam" distrai e até salva o domingo, mas não entrega absolutamente nada de novo. É um desperdício charmoso de orçamento alto que evapora da memória assim que os créditos sobem.
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Do diretor do classico moderno "Rogue One", "Resistência" tinha tudo para ser um épico. O que ele entregou, foi um espetáculo de vergonha alheia. O filme tenta misturar guerra de máquinas, inteligência artificial e espiritualidade budista, mas o resultado é uma maçaroca pretensiosa, chata e mal executada que me fez contar os minutos para acabar e beber alguma coisa forte pra esquecer.
O de Gareth Edwards mostra Joshua (John David Washington), um agente inflitrado que está numa missão para destruir uma superarma criada pela IA do Oriente. A partir daí, o longa abandona vira uma colcha de retalhos de clichês de mangá ruim: robôs pacifistas vivendo em cabanas na praia, comunidades ribeirinhas de lataria tomando banho de sol e uma criança androide fazendo carinha de coitada para desativar tecnologia com o pensamento, que aliásé a tal da arma superpoderosa, que na realidade parece mais o pequeno Buda de bateria Moura.
A tal da "guerra contra os robôs" é uma piada. Os Estados Unidos passeiam com uma estação espacial gigantesca pelo céu da Ásia soltando mísseis como se o espaço aéreo fosse bagunça, enquanto as IAs, ditas superinteligentes, agem com a ingenuidade de um monte de inocentes. O clímax com o moleque correndo dentro da nave espacial é constrangedor de tão previsível. Nada passa tensão, a história não tem carne e o miolo do roteiro é um bocejo arrastado.
"Resistência" do Gareth Edwards, é o típico filme que se esconde atrás de um visual clean e efeitos bonitinhos que serve apenas para mascarar a falta absoluta de alma e profundidade. Pega conceitos que já vimos mil vezes em séries e quadrinhos, coloca um filtro oriental por cima e entrega uma historinha rasa, genérica e chata de doer.
Saudades dos filmes de supercomputadores, inteligência artificial, ciborgues assassinos e máquinas mortais dos anos 70, 80 e 90. Era uma guerra que dava gosto de ver a gente lutar e morrer.
⚠️ Alerta de spoiler: Se você não viu o filme, corre daqui.
"Mãe x Androids" tinha nas mãos a premissa perfeita para um suspense de sobrevivência dos bons. Revolução das máquinas, a ameaça da extinção humana e uma atriz do calibre de Chloë Grace Moretz não conseguiram fazer a história bombar. O resultado é uma caminhada arrastada e genérica pela floresta, que troca o peso metálico de um "Exterminador do Futuro" por briguinhas de namoro e os Tesla querendo matar.
A história mostra Georgia (Moretz), grávida de nove meses, e seu namorado Sam (Algee Smith) tentando cruzar os EUA devastados por I.A.s domésticas que simplesmente surtam e decidem exterminar seus donos. O problema é que a tal "guerra contra os robôs" não passa tensão alguma. O ritmo é lento, a dinâmica do casal é besta e os androides variam entre um Brainiac e uma batedeira da Shopee. Tem cena em que o robô corre igual a um doido; em outra, parece que tá esperando a cena acabar para tomar um café.
O filme até ensaia momentos interessantes quando entra em cena o tal "salvador" com uma roupa estranha de camuflagem. A revelação de que o sujeito era, na verdade, uma inteligência artificial disfarçada de humano é a única ideia genuinamente assustadora do longa. Mas o roteiro descarta esse suspense psicológico em cinco minutos para descambar num final constrangedor.
Depois de todo o corre-corre, tiros, explosões e o sacrifício na floresta, o clímax no porto vira uma despedida xaroposa digna de novela de fim de tarde. Entregar a criança para os soldados no navio tentando arrancar uma lágrima seca da gente à força é o atestado definitivo de que o filme não tinha a menor ideia de como fechar sua história.
"Mãe x Androids", do Mattson Tomlin, é mais um produto de catálogo limpinho, sem alma e sem peso. Pega a premissa de um "Um Lugar Silencioso" com revolução das máquinas e entrega uma ação fraca, com um melodrama borocochô sobre gravidez no meio do mato.
Transformers: O Último Cavaleiro
2.6 513 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Em 2015, a Paramount e a Hasbro cismaram de transformar Transformers num universo compartilhado no estilo Marvel. O estúdio trancou uma turma de roteiristas pra parir ideias pra mais dez anos de franquia. O resultado desse experimento de laboratório foi esse: Rei Arthur bunda mole, Merlin bêbado, robôs nazistas, Anthony Hopkins com mordomo psicopata, uma garotinha sabichona com seu robô bobo e o Mark Wahlberg explicando física quântica enquanto segura a bandeira americana ao pôr do sol.
"Transformers: O Último Cavaleiro" é o ápice do "Suco de Michael Bay". O filme tinha tudo pra fechar a franquia com chave de metal raro, mas escorregou no próprio óleo. O erro grotesco não foi a falta de grana pro orçamento, foi a escolha bisonha de enredo. Socar a mitologia medieval e sociedades secretas na franquia poluiu a trama e tirou o foco do que realmente importa nesse filme, que é a ação e a pancadaria sem limites.
Mas se o roteiro é meio bizarro, a direção de ação do Michael Bay é um rolo compressor que não pede desculpas. A produção desse filme é monstruosa. Enquanto a Marvel hoje entope a tela com fundo verde lavado e bonecos digitais sem vida, Bay filma destruição com tanques de verdade, escala de IMAX visceral e um peso de metal na tela que você sente a poeira e o cheiro de graxa saindo da TV. As cenas de perseguição e o confronto final são foda! São uma aula de montagem e ritmo que poucos diretores no mundo conseguem assinar.
Apesar da maionese do roteiro, o elenco ainda tenta segurar o rojão com dignidade. O Mark Wahlberg entrega aquele tipo de herói durão que só o Bay sabe filmar, fazendo uma boa dupla com a Laura Haddock no meio da correria, enquanto o Sir Anthony Hopkins passeia em cena com uma classe absurda — acompanhado do Cogman, o mordomo robótico sociopata que rouba todas as cenas em que aparece. Eles funcionam como o respiro cômico e charmoso no meio de uma estrutura de ação cavalar. Perto de desastres do cinema de entretenimento — como "Morbius", "Thor: Amor e Trovão", "Quantumania" ou a leva recente de filmes de super-herói sem sal —, "O Último Cavaleiro" entrega uma experiência infinitamente mais robusta. Ele peca no enredo, mas dá uma aula de entretenimento caótico e escala visual na tela.
Foi uma escolha de enredo completamente equivocada que acabou selando o fim da Era Michael Bay à frente dos Transformers. O diretor se despediu da franquia do jeito mais "Bayhem" possível: com um espetáculo de destruição megalomaníaco, barulhento e atropelado. Não é o melhor filme da saga, passa longe de ter o equilíbrio dos primeiros, mas para quem é fã de metal retorcido, explosão real e pancadaria sem freio, "Transformers: O Último Cavaleiro" ainda é um puta entretenimento que dá uma surra no marasmo do cinema comercial atual.
Guerra Civil
3.5 656 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Existe um nódulo maligno na história americana que ainda não foi tratado. Uma ferida aberta que ainda não cicatrizou. A Guerra Civil Americana (1861–1865) permanece como o conflito mais sangrento da história dos Estados Unidos, somando mais mortes americanas do que a Primeira e a Segunda Guerra Mundial juntas. A questão racial, a escravidão e a fratura entre o Norte industrializado e o Sul separatista deixaram marcas profundas no tecido social do país até hoje. O conflito deixou ressentimentos regionais e raciais que foram empurrados para debaixo do tapete e herdados por gerações.
"Republicanos x Democratas", ficção recorre a esse tema porque a sensação de divisão nos EUA é real. A fixação de Hollywood com esse tema não é um fetiche distópico; é o fantasma de história real o povo ainda não aceitou oor completo e que ganha força toda vez que o país se polariza ao extremo.
"Guerra Civil", dirigido por Alex Garland, é uma pancada seca no estômago que passa longe dos clichês ideológicos do cinema. Em vez de entregar um debate panfletário entre democratas e republicanos, o longa ignora os discursos de gabinete pra focar no horror cru da barbárie e na visão do jornalismo de guerra.
A trama acompanha a vida de uma equipe de correspondentes cruzando um país devastado rumo a Washington D.C., onde o Presidente, agora ditador de terceiro mandato, está prestes a ser deposto. O grupo é liderado por Lee (Kirsten Dunst), uma fotógrafa consagrada e anestesiada pelo trauma, e Joel (Wagner Moura), um repórter movido à adrenalina do front. Somam-se o experiente Sammy (Stephen McKinley Henderson), atuando como bússola moral veterana, e a jovem Jessie (Cailee Spaeny), garota que força sua presença na viagem em busca do batismo de fogo no fotojornalismo.
A construção das cenas é magnífica. Alex Garland joga a gente pra dentro do carro, nos levando pra uma América dividida, destruida e devastada. A atmosfera de apocalipse é intensa, o clima de medo aumenta a casa cena, com sequências de ação tensas, dramáticas e realistas, onde o horror e as atrocidades de uma guerra ganham mais veracidade por causa da presença jornalística. A cena dos atiradores de elite ocultos numa propriedade rural evoca a frieza dos grandes clássicos de guerra, naqueles momentos onde um silêncio eterno sempre antecede a morte. Enquanto a sequência em alta velocidade — onde os jornalistas trocam de carro em movimento na estrada — entrega uma rara descontração antes do colapso total. É essa insensatez que os lança diretamente no pesadelo orquestrado por Jesse Plemons: um soldado de óculos vermelhos que, ao lado de uma cova comum, executa friamente quem não responde adequadamente à pergunta "Que tipo de americano você é?". O pesadelo nazista vem à tona. O horror do holocausto vem a mente e faz o nosso sangue congelar. A banalização do mal, o terror psicológico da herança fascista ganha a tela numa cena inacreditável que a gente quer esquecer depois, mas não consegue.
A virada central da história reside entre Lee e Jessie. Um rito de passagem e término de uma carreira, acontece como as histórias de guerra são: dramáticas e trágicas. Enquanto a veterana recupera gradativamente a humanidade a ponto de se sacrificar, a jovem aprendiz faz o caminho inverso: anestesia-se diante da violência para garantir a foto definitiva da missão. Acontece de tudo de forma seca, fria rápida. Um tiro, uma bala define o desfecho do filme.
Com um design de som ensurdecedor, atuações irretocáveis de Dunst e Moura, uma produção realista, momentos de tensão, medo e loucura, e um plano-sequência final em Washington que figura entre os mais incríveis dos últimos anos no cinema, "Guerra Civil" não romantiza o conflito. O longa de Alex Garland expõe o custo humano de um país consumido pelo próprio ódio, provando que a maior distopia é a perda da pátria para ideologia e interesses políticos. Enquanto jovens se matam nas ruas, o colarinho branco contam o dinheiro.
O Mundo Depois de Nós
3.2 996 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
É Golpi! "O Mundo Depois de Nós" é um verdadeiro estelionato de marketing, mais um golpe aplicado pelo algoritmo da Netflix. Vendido com a pompa de superprodução apocalíptica — com o aval da produtora do casal Obama, direção estilizada de Sam Esmail (Mr. Robot) e um elenco peso-pesado encabeçado por Julia Roberts, Ethan Hawke e Mahershala Ali —, o longa prometia um novo "2012", um "Guerra Mundial Z" ou um suspense apocalíptico. A gente dá o play esperando o quarto selo do Apocalipse se abrindo e recebe duas horas e vinte de DR conjugal, drama passivo-agressivo e aula de sociologia de chaminé.
A trama junta uma família de nova-iorquinos abastados que aluga uma casa de luxo no interior para fugir da rotina. A mãe (Julia Roberts) odeia a humanidade, o pai (Ethan Hawke) é um acadêmico banana que não sabe trocar um pneu sem Wi-Fi, o filho adolescente é um Nutella sem personalidade e a caçula é uma viciada em Friends em crise de abstinência. Quando o apocalipse slin fit começa — com um navio petroleiro encalhando na praia e a internet caindo —, a casa é visitada no meio da noite pelo proprietário, G.H. Scott (Mahershala Ali), e sua filha (Myha'la). A partir daí, o filme decide virar um drama claustrofóbico sobre paranóia racial e discussão de classes.
O diretor Sam Esmail até entrega sequências isoladas visualmente geniais — como o ataque dos carros autônomos da Tesla se esborrachando sozinhos na estrada e o avião caindo na praia —, mas o roteiro usa essas cenas apenas como uma cortina de fumaça. O filme empilha alegorias bizarras sem explicação real como: flamingos invasores na piscina, cervos com olhar julgador na floresta, ruídos sônicos que fazem os dentes do garoto caírem do nada e drones jogando panfletos em árabe. Em vez de amarrar os pontos de um colapso tecnológico ou militar, a produção prefere deixar a interpretação aberta pra quem assisite.
O auge do deboche vem na conclusão: enquanto o mundo ao redor desmorona em bombas e caos, a garotinha encontra o bunker do vizinho, e simplesmente ignora a família e o fim dos tempos para dar o play no último episódio de "Friends". A metáfora sobre a alienação da sociedade moderna é clara, mas a sensação de ter sido enrolado por mais de duas horas pra ver uma historia sem desfecho é um pouco frustrante.
Se "O Mundo Depois de Nós" fosse vendido honestamente como um drama psicológico sobre família, sociedade e sobre a fragilidade humana diante do incerto, ele teria seu valor. Mas ter sido embalado como o grande blockbuster de catástrofe do ano, ele não passou de uma maquete linda com um roteiro vazio por dentro. Parece um trailer de um filme que nunca existiu.
Se você assisitir o filme sem as expectativas que a gente teve quando foi enganado pela Netflix, você vai curtir muito. Mas se assisitir o longa achando que ele vai tirar o 8ª selo do Apocalipse é melhor assisitir o "Friends"
A Grande Inundação
2.7 169 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Aí, pra fechar a noite, você resolve assistir a um cine catástrofe, um cine desgraça da Netflix... "A Grande Inundação", um filme de enchente, filme coreano, pra combinar com a chuvarada lá de fora. Salgadinhos a postos, cervejinha no ponto, sofá no jeito, você dá o play e começa o apocalipse. A premissa é a clássica: pânico, corre-corre, fim de mundo e tudo se acabando em água. Na trana uma inundação bíblica toma conta do planeta, o povo dentro de um complexo de apartamentos sai correndo pelas escadas, e uma mãe com filho no colo foge às pressas da água que está começando a bater na sua bunda.
O problema é que o drama de mãe já começa errado. O moleque é um verdadeiro 누텔라 (Nutella, em coreano) — o oceano engolindo o prédio, a água subindo pelo elevador e o mimado querendo brincar na piscina e se esconder. Em vez de sentir pena, você passa os primeiros vinte minutos torcendo pro meteoro. E a mãe não fica atrás: no meio do caos, com a água no pescoço, a mulher simplesmente ignora uma grávida dando à luz pedindo socorro do lado dela! Isso é o sumo do egoísmo mascarado de instinto materno. E de repente, do nada, a virada acontece...
Que porra é essa? O apocalipse some, o mar, os prédios e as pessoas viram um monte de caracteres de Matrix pra enfiar um papo de simulação de IA, cientista do governo, Homens de Preto, criança fatiada em laboratório e nave no espaço. Sem explicar nada, confundindo tudo e entregando zero impacto. O filme abandona a destruição, o medo da morte e a claustrofobia física pra ser um experimento de Windows? Não, Coreiaflix, não faz isso comigo!
E a angústia não para: o filme descarrega uma overdose de melodrama do inferno tão apelativo que a gente quase desenvolve uma diabete só de assistir. É aquele choro mecânico coreano no volume máximo, rasgado, com música alta no fundo tentando te arrancar lágrima na marra e na violência. Eles querem que você chore pela mãe, chore pelo robô, chore pela onda, chore pelo apocalipse, chore pela simulação e chore pela IA, mas a única coisa que dá vontade de chorar é pelo tempo de vida que eu perdi assistindo a essa calda de pudim feita na tela.
O que prometia ser um suspense claustrofóbico de sobrevivência, pânico e morte na água, se transforma num dorama triste no espaço, onde nada faz sentido, nada engaja e ninguém se importa. Nada salva nesse apocalipse coreano: nem o Aquaman, nem o Namor e nem o Moisés abrindo as águas pra esse povo molhado. Você não consegue jogar uma boia pra esse filme do Byung-woo Kim. Ele deve ter deixado cair o Game Boy no box do chuveiro quando era pequeno, porque não tem explicação. Misturar cine enchente com espaço e simulação louca de laboratório NÃO FUNCIONA.
Mas Iemanjá salva! Põe num barquinho, enche de flor e lança no mar.
O Silêncio
2.5 628 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"O Silêncio" não é apenas um filme ruim; é um atestado de ruindade intelectual emitido pela fábrica de salsichas da Netflix. Dirigido por John R. Leonetti — cara que aparentemente ganha a vida tentando adivinhar como se faz cinema de horror —, o longa é uma cópia descarada, desalmada e vagabunda do classico moderno "Um Lugar Silencioso". A diferença é que, enquanto o filme do John Krasinski usa o silêncio para criar tensão claustrofóbica, esta tralha usa o barulho para esconder a total incompetência de seu roteiro.
A premissa é a clássica indústria chupa-chupa pega o sucesso do vizinho, troca o monstro do espaço por morcegos pré-históricos de caverna e bota uma família pra fugir de carro. Stanley Tucci, Miranda Otto e Kiernan Shipka coitados, parecem ter aceitado o papel só pra pagar a fatura do cartão. Eles entram no modo de sobrevivência contra os "Vesps", mas a verdadeira ameaça da trama é a estupidez crônica dos próprios protagonistas.
Mas o cérebro deles evapora, a jumentice atinge o topo quando a família chega na casa da idosa. A velha transformou a propriedade num bunker com arame farpado e alarme atrai-bicho, só pra ela virar janta da própria armadilha numa cena patética, pro roteiro sem razão abrir as portas do refúgio pra familia. O melhor vem depois: após a família entrar na casa e se acomodar, eles simplesmente não fecham os portões, não trancam a porta da frente e nem lacraram a grade do túnel. Eles ficaram ali quietinhos, acho que assistindo a Netflix, esperando a morte vir ali, sentar a bunda na sala e levar eles depois.
E quando você acha que o roteiro já bateu no fundo do poço, ele encontra um alçapão: surge do nada o "Culto dos Sem-Língua". Em menos de quatro dias de apocalipse, um padre local em tempo recorde arrebanhou dezenas de malucos, passou a peixeira na língua deles e decidiu sequestrar a garota surda (Kiernan Shipka) porque ela é fértil. Qual o critério que esse cara usou? De onde que ele tirou essa porra? Ninguém sabe. Mas é de uma logística religiosa invejável pra quem teve apenas três dias de apocalipse.
E fica a dúvida: se o silêncio é sagrado, o que acontece quando alguém do culto tem uma crise de espirro ou solta um peido alto? Amputam o tóba do coitado? E pra fechar essa desgraça, os fanáticos decidem invadir a casa colando iPhones com fita crepe nas janelas tocando alarme. Assassinar por Bluetooth é a nova fronteira do terror. Caramba... pra comprar celular agora vai ser preciso tirar porte se arma.
Historicamente, Hollywood sempre teve essa tara infeliz de lançar clones baratos de grandes ideias — vide o que fizeram na época de "O Segredo do Abismo" do Cameron. Mas a Netflix elevou o plágio à categoria de arte descartável. "O Silêncio" é um filme que não merece análise séria, apenas o escárnio. Não vale nem o ódio. É o tipo de ruindade que a única utilidade real da obra é nos fazer aplaudir a coragem do cara que deu o "Play" na câmera.
Per Aspera ad Astra
3.4 3
⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corre daqui. Mas se você valoriza a saúde das suas córneas, continue correndo!
"Per Aspera Ad Astra", título em latim que, se traduzir, fica algo tipo "Caminhos Difíceis Até as Estrelas". Lindo... Que promessa de filme! Mas só depois que eu assisti foi que me lembrei por que os produtos vendidos no Paraguai nos anos 80 eram chamados de "Ching Ling".
"Per Aspera Ad Astra" é um plágio desgraçado! Pegaram o enredo de "Passageiros", bateram no liquidificador com "A Origem", tentaram temperar com as dobras de realidade de "Doutor Estranho" e serviram no estilo daquele horror do "Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo". O resultado é um Frankenstein sci-fi chinês sem pé nem cabeça, sustentado por um elenco que parece ter sido recruited à força na fila do pão.
De um lado, um protagonista masculino sem expressividade real alguma, mas no módulo histérico de 5ª série; do outro, uma atriz com cara de 40 anos tentando se passar por adolescente séria. E pra coroar essa maldição, surge o vilão: um sujeito espalhafatoso, vestido e atuando como um boneco de posto de gasolina drogado, que passa o filme todo rindo, pulando e gritando, numa das atuações mais pavorosas e constrangedoras que eu já assisti nessa minha quase cinquentenária vida cinéfila.
Você reza por um meteoro atingir a nave, reza por um buraco negro sugar todo mundo pro inferno, e reza pra um alien invadir e se entubar na tripulação pra depois devorar geral. Você reza por tudo! É um horror! Isso aqui não é um filme, é uma macumba feita pra acabar com a tua noite. Não há criatividade, não há inteligência e muito menos dinheiro. Mas há uma coragem do cão pra jogar um estrume desse nas telas do streaming. Pra efeitos de comparação, acho que só a novela "Os Mutantes" da TV Record serve de referência visual e narrativa — serve inclusive pra você convencer até os seus piores inimigos a passarem longe disso daqui!
É uma das piores, senão a pior história de nave com tripulação na criogenia, revolta de IA e nuvem de meteoro do cinema recente. Usaram como base a premissa de "Passageiros" (do Morten Tyldum, com a Jennifer Lawrence e o Chris Pratt, que é uma das melhores comédias românticas de espaço que eu conheço). As cenas são um assalto descarado a esse e a todos os outros filmes que citei. Mas a maior ruindade de todas foi tentar fazer esse pastel de pé de frango ser vendido como picanha de rodízio.
A computação gráfica parece trabalho de aluno do primeiro semestre de propaganda & marketing: é ruim, cafona e um genérico rasteiro de coisa famosa. O único talento da equipe foi bater todas as referências roubadas no liquidificador e jogar na tela pra gente engolir. A sequência final é um dos maiores desesperos visuais da história: uma maçaroca de:
"Passageiros + Origem + Doutor Estranho + Tudo ao Mesmo Tempo Agora + Matrix"
Comprimida em dez minutos que pareceram semanas de tortura. Quando acaba, você quase vomita pelas córneas. E tudo isso pra quê? Depois de encarar todo o perrengue no espaço, toda a falha na nave e toda a traição ridícula da IA só pra recomeçar a vida num planeta mais desértico e feio que as pedras de Marte.
"Per Aspera Ad Astra", do diretor Han Yan, é um teste de sobrevivência nível militar pra cabeça, olhos e ouvidos. Esse filme resume tudo o que há de mais preguiçoso no entretenimento recente. Acho que o cinema nem precisa mais produzir ficção científica por uma década, porque esse roteiro já roubou tudo o que existia. E desconfio que as escolas de dramaturgia na China vão fechar as portas depois de assistirem o nível de atuação desses protagonistas.
Pra mim foi uma experiência pavorosa, mas cinema é igual a restaurante: tem gente que prefere pizza, churrasco, macarronada, feijoada e o infalivel arroz com feijão e carne assada... e tem gente que prefere comer lesma frita e gafanhoto crocante. Nada contra. Beleza, vai na paz, Jesus te ama.
Mas desculpe, o cinema claramente desistiu de você.
Anon
2.8 270 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Sabe o meme clássico da Renata Sorrah confusa, cheia de fórmulas matemáticas, raízes quadradas e equações flutuando ao redor da cabeça? "Anon" é basicamente a transformação desse meme em um longa-metragem.
Dirigido por Andrew Niccol, o filme nos joga em uma sociedade futurista onde a privacidade foi pro vinagre. Tudo o que as pessoas veem é gravado em tempo real em um banco de dados do governo. Não existe anonimato, e a visão de todo mundo parece uma tela de computador flutuante, onde o sistema calcula e exibe o nome, a profissão e os dados de qualquer um que passa na rua.
Visualmente, o filme é um velório sem fim. É tudo cinza, preto, morto e fúnebre. Você perde até a fé no mundo de tão depressivas que são as pessoas na rua. A estética é tão gélida que parece que aquele monte de gente na tela está a caminho de um enterro — só esqueceram de avisar de quem é o defunto.
No meio dessa Weltschmerz life, o detetive Sal Frieland — vivido por um Clive Owen opera no módulo zero em cena, precisando urgentemente de três xícaras de café puro com pó de guaraná pra acordar — investiga esses assassinatos misteriosos. O problema é que o assassino hackeia a visão "Renata Sorrah" das vítimas antes de puxar o gatilho. É aí que surge a "Anon" (Amanda Seyfried), uma hacker fantasma sem registro no sistema que atua gelada mandando bala nos outros. Ela aparece esporadicamente, quase dizendo um "oi" nas cenas, mas deixa sua marca na gente. E como manda a regra não escrita dos filmes do Clive Owen, claro que não podia faltar aquela pitada de sexo pro seu personagem.
Apesar do ritmo lento e do clima de depressão profunda, o filme não é ruim. Ele engata bons momentos de suspense investigativo e traz um conceito instigante sobre o controle total da informação e o fim da intimidade. O problema é que o roteiro perde o bafo na reta final e entrega um desfecho previsível, desenhando pra gente quem era o culpado muito antes dos créditos subirem.
Como filme de catálogo da Netflix, "Anon" cumpre o seu papel: distrai e entretém, entregando um mistério razoável, que faz a gente pensar mais sobre essas novas tecnologias que surgem por aí.
P.S. Vou pensar duas vezes antes de comprar os óculos com IA Renata Sorrah...
Jung_E
2.6 66 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoiler: Tem alguns spoilers, mas se você ainda não viu esse pastel de abacaxi, parabéns! Você economizou 1h:40 de vida e muita raiva.
O cinema sul-coreano é uma máquina de fazer filmes antológicos, isso todo mundo sabe. Os caras são monstros no terror, suspense, thriller psicológico, policial, vingança, monstros e até comédia. Mas quando resolvem meter a mão na ficção científica, misericórdia! "Jung_E" é um horror, um atestado de falência criativa, um testes de paciência grátis que a plataforma da Netflix disponibiliza em seu catálogo. E acredite, o filme saiu das mãos de Yeon Sang-ho — o mesmo que assinou a"Invasão Zumbi". O sujeito saiu de um respeitado filme de zumbi pra entregar um protetor de tela genérico misturado com dorama triste de robô.
A premissa tenta enganar no papel, com o velho e infalível clichê: futuro distópico destruído, colônias espaciais, robôs pra todo lado e uma lendária guerreira que neste caso esta mais pra lá do que prá cá. Jung Yi (Kang Soo-youn) está em coma e tem o cérebro clonado para virar a IA de um robô de combate definitivo. A execução é uma tragédia, o filme inteiro se resume a uma cientista num laboratório cinza assistindo à mãe quase robô morrer repetidamente numa simulação virtual idêntica. É repetição do nada, sem parar, que deixa a gente doido. Uma preguiça de roteiro do inferno que tenta enfiar na marra um melodrama barato pra gente assistir. É robô chorando, robô com crise existencial, robô com flashback de filha, robô ensino médio, é um intestino inflamado de narrativa que faz qualquer um tomar um laxante pra esquecer.
Para piorar o pesadelo, as atuações são um vexame. A atriz que faz a filha da cientista no laboratório passa duas horas travada: ou está fazendo bico de susto ou está arregalando o olho para o monitor de computador. Só! Um manequim no Brás, passa mais emoção que essa mulher. Já o sujeito que interpreta o diretor do laboratório, puta que pariu. Cara, mimado, muleque, histérico, que não saiu da quinta série que toma energético demais. Ele grita, faz firula, dá pulinho, dá risada idiota. Como um cara desse comanda uma corporação militar? Os dois são uma dupla sem química, sem talento e sem direção.
Visualmente, o filme parece um videogame antigo de computador com fundo verde lavado e sem vida. E quando você acha que não dá para piorar, o poço é mais fundo e abre uma tampa pra fossa. O roteiro descamba pra um final bizarro e apelativo, onde a empresa decide transformar a imagem da maior guerreira da humanidade em uma boneca sexual. Uma apelação rasa e sem propósito.
"Jung_E" é a prova cabal de que a Coreia do Sul precisa passar longe dos filmes de ficção científica espacial. O filme do Yeon Sang-ho é arrastado, mal atuado, cafona e profundamente chato. São 20 bilhões de wons sul-coreanos que convertido pro dólar gira em torno de $16,3 milhões. "Ex Machina" do Alex Garland custou 15.
Vida
3.4 1,3K Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu, corre daqui.
"Vida", de Daniel Espinosa, carrega uma das maiores ironias do cinema de ficção científica recente. Vendido como um aperitivo para a celebração dos 40 anos da franquia Alien e pra chegada de "Alien: Covenant", o filme atropelou a megaprodução de Ridley Scott e entregou, sem alarde, o horror espacial visceral que todo mundo queria ver no filme do grande diretor inglês.
O trunfo de Espinosa foi recusar a pretensão. Enquanto Scott se afundava em dilemas filosóficos vazios, robôs poetas e uma mitologia inchada que ninguém pediu, "Vida" voltou às raízes do cinema sci-fi de sobrevivência. A premissa não inventa nada, mas é executada com uma brutalidade cirúrgica mostrando um alienígena faminto que janta todo mundo no espaço. O filme mostra uma equipe de astronautas que resgata uma amostra biológica viva de Marte — que ganha o nome de Calvin — e testemunham a rápida transição da histórica descoberta pra um predador perfeito, que se alimenta de tudo que aparece pela frente.
A direção de arte e a computação gráfica constroem uma tensão sufocante dentro da Estação Espacial. O elenco de peso liderado por Rebecca Ferguson, Jake Gyllenhaal e Ryan Reynolds, não serve como escudo de roteiro. O filme não tem piedade de seus astros, estabelecendo logo no primeiro ato que não há espaço para heroísmo quando a biologia de um alienígena mais real toma a frente.
Mas "Vida" acaba escancarando a "Morte" das ideias, a falência criativa de hoje dos grandes estúdios. O filme do Espinosa replica a fórmula de alienígena na nave de forma muito competente, fazendo aquilo que os fãs de horror espacial paga o ingresso pra ver no cinema. Filme de alien que tenta se reexplicar toda hora acaba comendo o próprio rabo. O que o gênero exige é atmosfera, medo real, crueldade física e o desespero cru da sobrevivência, coisa que esse filme fez de modo bem higiênico, bem limpinho, e no padrão sci-fi mainstream de hoje.
Se fosse nos anos 80, eu venderia meus irmãos pra ver a massa moldável flutuando dentro da Estação. Meu Deus... e daria meu cachorro de brinde.
Settlers
2.5 26⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"Settlers" é um faroeste bruto e implacável que se passa no solo vermelho de Marte. Esqueça as batalhas espaciais, Wyatt Rockefeller pega os dois gêneros, e com um orçamento enxuto, transforma numa obra surpreendente, um filme rústico, claustrofóbico e de um peso dramático esmagador. É o tipo de sci-fi que prova que o gênero muitas vezes atinge seu ápice quando o foco é o lado mais sombrio da natureza humana.
A trama coloca a visceralidade do western na mesa: uma família isolada na fronteira marciana tentando proteger o básico — terra, ar, água, comida. Tudo desmorona quando um invasor surge reivindicando a posse do lugar, instaurando um jogo psicológico doentio de dominação e invasão de domicílio. Sofia Boutella e Ismael Cruz Córdova entregam atuações afiadas, carregadas de tensão, onde a dor da perda e o instinto de preservação se chocam o tempo todo. O contraponto de humanidade fica na garota Remmy (vivida na infância por Brooklynn Prince e na fase adulta por Nell Tiger Free) e sua relação com Steve, um robô utilitário enferrujado que parece saído de um clássico dos anos 80.
A grande sacada do filme é como ele usa o tempo para manipular a nossa percepção. O filme cria uma falsa sensação de redenção, fazendo a gente quase acreditar na formação de um abrigo seguro, para logo em seguida dar uma rasteira seca e cruel. O mito do herói tradicional se desintegra por completo, em um mundo destruído, sem governo e sem leis, o homem que tem a arma e a força não quer salvar ninguém; ele quer apenas ser dono de tudo, inclusive das pessoas. O confinamento no rancho se revela um lugar muito mais perverso que o deserto irrespirável do lado de fora.
"Settlers" é um cinema B de respeito, indigesto e incômodo. É um faroeste que usa a casca da ficção científica para entregar uma amostra sobre a escuridão da alma humana, mostrando que às vezes os verdadeiros monstros não estão escondidos nas sombras, mas que estão sentados do seu lado na mesa de jantar.
Ash: Planeta Parasita
2.1 69 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"Ash: Planeta Parasita" não é um filme pra você assistir no macio do sofá comendo pipoca; é uma surra mental que te arrasta direto pro esgoto da insanidade, onde só a pinga alivia. Enquanto a ficção científica engomada de streaming parece feita pra não assustar ninguém, Flying Lotus mete o pé na porta, liga a motosserra e entrega um body horror tétrico, cru e totalmente pirado.
O filme não quer te contar uma historinha bonitinha. Ele quer te infectar. A graça aqui é a insanidade, a perplexidade pura: você acorda junto com a protagonista numa estação destruída, cercado de carne moída, sangue espalhado nas paredes e com a cabeça queimando. A partir daí, é um pesadelo alucinatório sem freio. O roteiro te desgraça a cabeça jogando flashbacks desconexos, visões bizarras e uma paranoia sufocante onde você não sabe se a mulher (Eiza González) tá doida, se matou os próprios companheiros no cacete ou se tem algo nojento rastejando no cérebro dela.
O visual é uma agressão aos olhos. A fotografia te espanca com uma iluminação neon pesadíssima em vermelho e azul, criando um clima sufocante onde olhar pela janela do planeta Ash dá vontade de enlouquecer. É nojeira oitentista de primeira linha, com gosma, mutilação e efeito prático que faz o estômago dar nó. É um tributo aos clássicos do Cine Trash e do horror oitentista, recheado de nojeira, gore e mutilação de fazer escorrer chorume dos olhos dos fãs.
Quando entra em cena a figura bizarra do Brion (Aaron Paul), você não sabe o que é real, quem é o monstro, se ela enlouqueceu ou se foi a responsável pela sangria. A revelação de quem era o salvador quebra nossas pernas, o baque é seco. Você se sente tão sujo e perturbado que parece que o filme acontece com você dentro.
É cinema B bruto, violento e sem vergonha na cara. "Ash: Planeta Parasita" te joga numa espiral de horror visceral e claustrofobia que pouquíssimos diretores hoje têm culhão pra fazer. É um chute forte no saco do estômago, um filme misterioso, surreal e violento, do jeito que o mundo trash gosta.
A Presença
2.2 58 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
"A Presença" é aquele tipo de sci-fi independente de baixo custo que divide opiniões, mas que merece ser aplaudido pela coragem de arriscar. Dirigido por Eric Demeusy (especialista em efeitos visuais), o longa é claramente feito para o streaming e não tem medo de mostrar suas limitações de produção e elenco. Porém, cobrar atuações de peso de uma produção enxuta é bobagem; o verdadeiro valor aqui está na proposta e no amor pelo gênero.
O filme entrega uma atmosfera noventista chapante de paranoia no melhor estilo Arquivo X. Acompanhar o drama de Isaac (Ryan Masson) — um jovem engenheiro que filma sua própria abdução, mas é ridicularizado na TV e vira vítima da indústria da desinformação — funciona muito bem. A trama ganha tração quando a perseguição governamental entra em cena, revelando os Homens de Preto, ciborgues e instalações secretas, levando o protagonista a se aliar a Sarah (Highdee Kuan), outra abduzida, numa fuga pra encontrar outro homem que viveu a abdução décadas atrás e que precisa viver escondido do governo.
O grande trunfo do filme, que me pegou de surpresa, é a sua virada conceitual no final. Em vez do clichê batido dos aliens invasores querendo exterminar a humanidade, o roteiro revela que esses seres altamente tecnológicos cruzaram o universo em busca de algo que não possuem: a consciência e a mensagem espiritual de Jesus Cristo. Isso é de um conceito espiritual e filosófico ousado, que certamente seria apagado se o filme caísse nas mãos de um grande estúdio de Hollywood — que provavelmente trocaria a ideia por explosões, tiros, gritaria e o Tom Cruise fugindo do governo e dos alienígenas pelas ruas.
Apesar de ter suas falhas, "A Presença" cumpre seu papel com louvor. É um sci-fi B de luxo que consegue criar um clima de mistério genuíno com ótimos efeitos práticos e digitais, trazendo uma trama que nos faz refletir sobre o lugar da humanidade no universo e sobre alienígenas que nem sempre precisam ser definidos como uma ameaça, mas sim como seres em busca de conhecimento e evolução.
Lunar
3.8 690 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Maquetes, cenografia, CGI mínimo. "Lunar", de Duncan Jones, é uma aula de como fazer ficção científica B de altíssimo nível. Com uma estética seca, desértica e praticamente monocromática, o longa aposta pesado em efeitos práticos e o resultado é aquele visual tátil e claustrofóbico que dá gosto de ver. É o espaço funcionando como o espaço deve ser: frio, escuro e indiferente.
O motor do filme é a jornada sufocante de Sam Bell (Sam Rockwell). Faltando apenas três semanas para encerrar um contrato de três anos minerando Hélio-3 na Lua, ele está no limite da sanidade, roído pela saudade da família e contando as horas para voltar para casa. Mas não há nada de ruim que não possa piorar. Após sofrer um acidente de rover na extração, ele acorda na enfermaria com a presença de um segundo Sam Bell no local. Situação essa que causa uma espiral de paranoia, expondo a triste verdade sobre sua própria existência.
A grande força do roteiro está na dinâmica entre as duas cópias. A princípio, o choque gera rejeição, raiva e negação; afinal, um clone não deveria ter acordado antes da hora. Mas, aos poucos, essa rivalidade dá lugar a uma empatia profunda e trágica. Ver o outro definhando, descobrindo que o corpo tá morrendo e que as memórias de esposa e filha nunca foram suas faz com que eles se enxerguem não como rivais, mas como vítimas da mesma engrenagem. O acolhimento humano nasce justamente da dor compartilhada.
"Lunar" é uma ficção científica densa, melancólica e indigesta. Um filme que usa a casca do cinema B espacial para entregar um estudo sobre solidão e identidade, confrontando a dignidade humana contra a frieza do lucro. A empresa vende para a Terra o slogan bonito de energia limpa, enquanto esconde no subsolo da Lua uma gaveta fria cheia de carne humana clonada pra ser usada até estragar pra depois ser descartada. Fato esse que conhecemos bem aqui com empresas que vendem saúde, beleza e cuidado, mas usam os meios sórdidos na produção em países pobres: trabalho escravo, poluição, propina e a puta que pariu.
O Homem da Terra
4.0 464 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Senta que lá vem a história...
"O Homem da Terra" é a prova viva de que a verdadeira ficção científica não precisa de naves espaciais, tiro, CGI ou efeitos visuais. Richard Schenkman pegou o roteiro brilhante de Jerome Bixby — lenda do gênero que assina episódios de "Jornada nas Estrelas", a ideia original de "Viagem Fantástica" e o roteiro de "O Fantasma do Planeta Vermelho" (que inspirou Alien) —, que o autor concluiu em seu leito de morte. Com um orçamento de miséria de US$ 200 mil, a produção entregou uma aula de narrativa. O filme parece uma peça teatral barata dos anos 90 feita para a TV, se passando inteiramente dentro de uma sala de estar, mas o texto é uma bomba-relógio.
Na trama, o professor John Oldman (David Lee Smith) reúne seus amigos acadêmicos para se despedir e solta a bomba de que é um homem de Cro-Magnon com 14 mil anos de idade que nunca envelhece. O choque é total. Ceticismo, fascínio e conversa pra boi dormir tomam conta da sala deles e da nossa. É um jogo intelectual incrível em que ele rebate perguntas de biólogos, historiadores e psicólogos com uma lógica impecável, descrevendo desde a convivência com Buda até o presente de um quadro original direto das mãos de Van Gogh.
Mas a polêmica atinge o ápice quando o roteiro cutuca a ferida religiosa da velha igreja, ao falar que ele foi Jesus Cristo. Aí a sua vó, sua tia e sua sogra, se forem católicas apostólicas romanas ou evangélicas fervorosas, podem cometer um filmocídio se você abrir o bico perto delas sobre esse filme. Tem que ter coragem pra falar aquilo! Deve ser por isso que ele precisa mudar de cidade a cada dez anos, e não apenas para as pessoas não desconfiarem de sua aparência.
Deslumbre, drama, tensão (até um revólver sacaram na sala), o palco vira um campo minado até que, do nada, o "Jesus" solta que inventou tudo aquilo, que sua história não passava de uma brincadeira para que pudesse ir embora. Porém, para surpresa minha — quando eu finalmente achava que poderia indicar esse filme pro pessoal da igreja —, no final ele faz uma revelação que me jogaria direto pro mármore do inferno! O final é trágico e triste, escancarando o peso e a solidão de alguém que vive para sempre.
Sem gastar um centavo com explosões, tiros e máquinas do tempo, "O Homem da Terra" aluga um apartamento na cabeça de quem assiste usando apenas a força do diálogo. Um clássico cult, provocativo, rústico e inesquecível.
Testa a fé e assista.
O Astronauta
2.9 146 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Eu não sou fã do Adam Sandler, gostei de alguns filmes dele, mas geralmente corro de tudo que ele faz. Quem diria que um dos papéis mais profundos e tristes da carreira dele seria conversando com uma aranha gigante no meio do nada? Pra quem não engole o estilo escrachado e bobalhão (que nem eu) do ator, "O Astronauta" surge como uma rasteira argentina. Acompanhado por um elenco de peso — Carey Mulligan, Isabella Rossellini e a voz hipnotizante de Paul Dano —, Sandler carrega o filme nas costas mostrando um homem desmoronando em vida, num papel cru, dramático e intimista.
Pode esquecer a ficção científica de aventura ou corre-corre espacial. O diretor Johan Renck pega a experiência de "Chernobyl", constrói uma nave com estética pesada de bloco soviético, onde a claustrofobia e o mofo mental da velha cortina de ferro ditam o tom. De um lado, a burocracia fria do Estado (vivida por Rossellini) exigindo resultados; do outro na Terra, a esposa (Mulligan) tem uma vida humilde, sofrida e abandonada, tendo somente o silêncio e a perda como companhia. E no meio desse deserto cósmico onde Jakub Procházka (Sandler) está, surge Hanuš: uma aranha milenar que não é alucinação, mas sim um psicólogo alienígena educadíssimo, sincero e implacável.
A dinâmica não é de monstro contra humano, mas de paciente contra terapeuta, o famoso médico (monstro) e monstro (homem). O alienígena confronta a covardia do astronauta, desmontando a casca de herói falsa para expor um homem que se esconde atrás dos próprios traumas. Essa conexão funciona de forma impressionante por conta do trabalho impecável de CGI: a aranha tem uma textura tátil que dá medo, com pelos finos, pele seca e sem aquele brilho falso de plástico que a Netflix costuma entregar. A cena em que esse ser gigante segura um pote de creme de avelã com uma delicadeza infantil é o ponto de virada que transforma o pavor em empatia. Quando o filme entra no seu clímax, o visual atinge seu ápice na nuvem Chopra, com as cenas dramáticas dos momentos finais da criatura, amarrando a dor da perda com uma amizade inesperada e sincera nos confins do espaço.
Aquele ser que causa repulsa em qualquer um vira a única salvação da alma do protagonista. Foi preciso ir até o fim do universo e encarar uma aranha gigante para que Jakub finalmente enxergasse o egoísmo de suas escolhas e a dor sufocada — como o luto velado pela perda do filho — que ele nunca teve a coragem de dividir com a esposa. A despedida tem um sabor amargo e melancólico, mas a transformação do personagem é gigante. É a história de um homem que precisou se perder na imensidão do espaço para conseguir encontrar o caminho de volta para casa e pedir perdão.
"O Astronauta" passa longe de ser uma jornada nas estrelas tradicional: é um filme denso, introspectivo e rústico sobre culpa, solidão e a beleza dolorosa da reconciliação. Coisa russa.
A Astronauta
2.3 53 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não viu esse filme, corre daqui!
Pra quem espera que "A Astronauta" seja uma ficção científica espacial, pode tirar a espaçonave da chuva. O filme vende a ideia de filme de espaço, mas entrega um thriller de invasão doméstica e quarentena no meio do mato. De astronauta, a protagonista não tem quase nada: o roteiro prefere transformar a Kate Mara numa dona de casa enclausurada e traumatizada, trancada numa propriedade isolada enquanto tenta processar o que raios aconteceu lá no alto.
A diretora Jess Varley dá uma rasteira na gente e troca a imensidão do espaço por uma paranoia louca de casa de campo. No começo, essa ilusão até funciona. A sensação de ter algo rondando a residência, tentando invadir e espiando pelas janelas constrói um suspense tático dos bons. Um mistério rústico que prende na dúvida: é alucinação, paranoia ou tem o capeta na mata? Quando o filme finalmente se revela e abraça de vez o alienígena, o clima muda e o troço vira um terror B com um ET de CGI meio duvidoso, mas que dá pro gasto.
Laurence Fishburne e Kate Mara entregam atuações burocráticas, que funcionam no piloto automático absoluto do início ao fim. Laurence Fishburne no módulo militar severo, e Kate Mara passa o filme inteiro com a mesma expressão de choque, paranoia e dor de dente. Ninguém brilha, mas ninguém passa vergonha. A revelação final é bacana, mas passa raspando do abismo do açúcar de festa. Se você esquecer que foi enganado pelo título e aceitar a proposta de um suspense doméstico, a decepção vira distração, acaba entretendo e salva o sábado.
Eclipse Mortal
3.3 234⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Viva os filmes de baixo custo! "Eclipse Mortal" é a prova suprema de que os filmes B podem se tornar clássicos cult inesquecíveis. Quem pegou essa pedrada na época, na imagem analógica do Cineband, viu que estava diante de algo totalmente fora da curva. Em vez da ficção científica comportada dos anos 90, o diretor David Twohy entregou um ficção horror de ritmo urgente, claustrofóbico e sem piedade.
Riddick não veio de HQs; ele nasceu no cinema e ganhou o mundo na pele de Vin Diesel. A imagem dele é magnética: assassino frio, anti-herói bruto e de moral duvidosa. O prisioneiro Riddick se torna a esperança de sobrevivência de um grupo de passageiros num planeta hostil depois de um acidente. A tensão é constante, pois todos os personagens estão no limite da ética: o suposto policial é um viciado em drogas sem caráter, a pilota Fry começa a trama tentando sacrificar passageiros pra salvar a própria pele, um religioso com filhos revela uma fé fraca e há um garoto misterioso. São passageiros que sobrevivem à queda, mas que por dentro já estavam quase mortos.
David Twohy fez milagres com o orçamento PP, usando filtros de luz fortíssimos pra transformar o deserto numa frigideira alienígena. Quando o alinhamento de três sóis provoca um eclipse total, o planeta claro vira um inferno de sombras dominado por nuvens criaturas carnívoras e violentas. Os efeitos visuais são basicos, mas são de uma competência absurda; a computação gráfica humilde pros padrões de hoje, funcionam demais porque a produção aposta na maquiagem prática, no clima e nas sensações do medo do escuro, na iluminação saturada e no uso genial dos olhos mutantes de Riddick. As cenas de fuga até a nave no breu total são pura adrenalina, culminando num desfecho dramático, violento e com cheiro de suvaco de redenção.
"Eclipse Mortal" é uma aula de cinema de ficção científica independente dos anos 2000. O filme de David Twohy tem a garra, a coragem e a alma que os grandes filmes de hoje perderam. História afiada, direção raçuda, produção rústica, efeitos competentes e um personagem que conquistou o público. Autêntico, tenso e obrigatório para o acervo. Cinema cult de verdade.
Riddick 3
3.0 413 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corre daqui.
Durante boa parte dos anos 2000 eu esperei uma continuação de "A Batalha de Riddick", mas o que veio foi um filme covarde e descartável. Em vez de dar sequência à mitologia gigante, o diretor David Twohy e o Vin Diesel tremeram na base e meteram um remake genérico disfarçado de "Eclipse Mortal", pensando que a gente é besta.
Em vez de explorar as conspirações, as revoltas e a grandiosidade daquele império espacial único, a dupla jogou tudo no lixo por falta de verba e medo de arriscar. Nos primeiros quinze minutos, o filme faz uma gambiarra inacreditável para tirar o Riddick do trono dos Necromongers, joga-o num planeta de pedra desértico e finge que o império espacial nunca existiu. De repente, a saga barroca espacial vira uma novela B de como sobreviver com um cachorro alienígena contra um bando de mercenários burros.
A produção economizou tanto que o longa virou um festival de CGI de estúdio, com fundo azul escancarado e uma fotografia amarela e alaranjada tão forte que a gente fica daltônico de tanto cansaço nas vistas. Minha mãe fala que esse filme é o "Riddick do cachorro". O sujeito passa metade da trama num planeta desértico adestrando pet alienígena e lutando contra cobras de lama, enrolando a gente até aparecerem os mercenários.
Quando eles finalmente chegam, o filme sai do "módulo pet" e afunda a coisa de vez nos clichês de ação. A trama tenta transformar o Riddick num ser supremo imbatível, que surge das sombras matando o bando como se fosse o John Wick. A apelação é tanta que a tensão foge mais rápido que a nave que o Riddick estava tentando roubar na história. Você fica despreocupado com a trama, porque sabe que ele vai aparecer do nada, matar alguém, roubar as coisas e dizer alguma frase de efeito com aquela voz de motor antes de ir embora.
O elenco de apoio roda no piloto automático: Dave Bautista, Katee Sackhoff, Bokeem Woodbine, Jordi Mollà e Matt Nable parecem bonecos de videogame, servindo apenas de bucha de canhão pra alimentar o ego do protagonista. Quando a chuva cai, a noite chega e as criaturas do lamaçal atacam, ele precisa negociar com os sobreviventes para escapar na nave. Você assiste a um remake safado e fraco de "Eclipse Mortal" tomar a tela, sem medo e sem vergonha.
Trocar uma saga espacial autêntica e grandiosa como foi "As Crônicas de Riddick" por um remake genérico, com CGI alaranjado e um cachorro de estimação, foi foda. "Riddick 3" não é apenas uma sequência fraca e horrorosa; é o enterro melancólico de um universo que tinha tudo para arrebentar nas telas do cinema.
65: Ameaça Pré-Histórica
2.4 342 Assista Agora⚠️ Alerta de Spoilers: Se você ainda não viu esse filme, corre daqui.
A premissa era perfeita para um puta filme de ficção e ação: Adam Driver interpretando um piloto espacial armado com fuzil a laser, caindo na Terra há 65 milhões de anos, enfrentando dinossauros famintos e correndo contra o relógio do lendário meteoro do fim do mundo. Tinha tudo para ser um massacre visceral de sobrevivência. No entanto, os caras tiveram a façanha de pegar esse prato cheio de ideias e entupir de xarope dramático até estragar.
"65: Ameaça Pré-Histórica" tenta abraçar duas propostas e erra feio no tom ao derramar o açucareiro no roteiro. Em vez de focar na tensão bruta e no pavor do território hostil, os caras apelaram para a velha muleta de Hollywood: a criança em perigo. Adam Driver passa o filme inteiro com a sua clássica cara de choro e angústia, fazendo o papel do pai amargurado que perdeu a filha e tenta se redimir salvando uma garotinha perdida na floresta. Faltou pouco para colocarem um cachorro pulando feliz entre os gêiseres e dinossauros para completar o pacote completo do clichê de domingo à tarde.
O CGI entrega aquela estética chapa-branca de streaming que tentam normalizar nas telas de cinema. Só que a gente não é bobo! Os dinossauros parecem tirados de videogame, sem peso, sem massa e sem o terror real de um Jurassic Park. A urgência do meteoro rasgando o céu até cria momentos decentes de ação, como a perseguição de criaturas, do réptil gigante e o confronto final, mas a narrativa amarra essa pedra de açúcar aos pés dos personagens até o final. A cada dez minutos de corrida, o filme para para choramingar as lembranças do Adam Driver.
"65: Ameaça Pré-Histórica" entrega boas cenas isoladas para distrair, mas acaba enjaulado nesse nicho batido de "pai triste resgata criança perdida". Um filme que poderia ter sido um puta sci-fi de sobrevivência escolheu ser só uma produção mediana: você assiste, se distrai com o corre-corre e com as rajadas de laser, e esquece que existiu dez minutos depois que rolam os créditos.
O Homem Sem Sombra 2
2.1 98 Assista Agora⚠️ Alerta de spoiler: Se você você não viu esse filme, corra daqui.
Direto para as prateleiras da Blockbuster e dos supermercados, "O Homem Sem Sombra 2" (2006) é dessas pragas ruins de sequência que a gente precisa tomar cuidado até para comentar. Com a direção de comercial de açougue do Claudio Fäh, o filme pega as partes ruins da obra do Verhoeven e injeta doses cavalares de pura merda visual. Transformaram a invisibilidade — que no clássico de H.G. Wells é uma metáfora sobre a corrupção e o poder — num truque de mágica barato, em um roteiro que parece ter sido escrito no papel higiênico de banheiro de bar.
Christian Slater — que devia estar devendo o aluguel do mês — aceita virar um soldado invisível do governo. Só que o soro do capeta tem um efeito colateral: ele mata o sujeito em dor agonizante se não tomar um tal de "estabilizador". Aí o filme vira um corre-corre de orçamento de fome, gravado tudo de noite para economizar no cenário, com o Slater caçando uma médica e sendo perseguido por um detetive genérico com cara de quem errou o estúdio de gravação.
O troço é tão vagabundo que o Slater nem precisou dar as caras no set direito, já que o personagem passa 90% do tempo invisível. E o CGI? Ah, meu amigo... se o primeiro filme do Verhoeven tentou revolucionar nos anos 2000, essa aberração de 2006 usa uns efeitos gráficos que parecem feitos no PlayStation 2. A luta final na chuva são dois bonecos de massa borrada se batendo no escuro.
Para coroar a desgraça, o detetive se injeta com o soro para lutar pau a pau e o resultado é apavorante. "O Homem Sem Sombra 2" é um filme tão fuleiro, tão descartável e tão murcho que você não precisa nem ver o final. Acho que não é nem certo dizer que esse filme é um caça-níqueis. "O Homem Sem Sombra 2" é um pré-filme, uma produção guia, desses testes que o diretor apresenta pro estúdio aprovar. Mas de forma misteriosa, sem querer, acabou sendo lançado pelo estagiário — que só podia estar completamente bêbado.
Ignorado pela crítica, com 0% de aprovação no Rotten Tomatoes, piada na roda de fãs de filmes B, horror da prateleira de baixo nas locadoras e R$ 9,90 no cesto de liquidação das Casas Bahia.
O Homem Sem Sombra
2.9 422⚠️ Alerta de spoiler: Se você não viu o filme, corre daqui.
Campeão das prateleiras das locadoras, febre nas noites de sábado do Supercine, "O Homem Sem Sombra" fez a gente perder as unhas na frente da TV no início dos anos 2000. O mestre Paul Verhoeven pegou o clássico "Homem Invisível" de H.G. Wells (imortalizado pela Universal nos anos 30) e envelopou com o que havia de mais moderno na computação gráfica na época. O resultado foi um espetáculo de computação by Windows Me, que deixou todo mundo de queixo caído, com efeitos que mostravam a anatomia humana desaparecendo camada por camada na nossa frente.
O filme conta a história do arrogante cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon) que, junto com sua equipe dentro de um laboratório financiado pelo governo, cria um soro de invisibilidade. Como todo cientista maluco, ele testa em si mesmo. O processo dá certo, mas o efeito reverso falha e ele fica desconjuntado!
"Se você tivesse o poder de ficar invisível, o que você faria?".
A resposta do filme é nua e crua: Sebastian vira um monstro, um psicopata, um louco de pedra. Ele sai na surdina fazendo maldade, volta pro laboratório e fica de boa. Suspense, mistério, ação e uma tensão sexual na medida, elevada pela trilha sonora espetacular de Jerry Goldsmith. O longa parecia caminhar para ser um thriller psicológico irretocável. Verhoeven fez a gente tremer na época com a insanidade de um homem deformado por dentro e por fora, sem que ninguém o veja. Mas o filme desanda...
Do meio para o fim, a trama abre mão do suspense pra virar um slasher genérico de corredor. O roteiro descamba para um desfile de clichês com correria, explosões, macaco furioso e um vilão que parece feito de aço — tudo recheado com cenas forçadas e personagens emburrecidos que parecem pedir para serem mortos. Por outro lado, o trabalho de CGI até hoje impressiona. Mesmo com o mínimo de recursos da época, o talento movido pela paixão entrega momentos que fazem a gente procurar em vão por algo parecido hoje em dia, mesmo com toda a tecnologia que temos.
Kevin Bacon está sensacional no papel; ele transborda arrogância mesmo quando só sobra a sua voz em cena. Elisabeth Shue e Josh Brolin entregam atuações firmes que seguram o peso do mistério, da tensão sexual e da claustrofobia dentro do laboratório. Já as cenas finais são um corre-corre desgraçado, com o cientista invisível parecendo quase um mutante dos X-Men, fazendo coisas que só os vilões dos anos 90 faziam.
"O Homem Sem Sombra" fez miséria nas salas de cinema no começo dos anos 2000. Quando o filme acabou, todo mundo falou: "Maaano... quero ficar invisível!". Lembro que corri pro meu Windows Me pra ver algum site que mostrasse o efeito dos órgãos, veias e do esqueleto humano flutuando na tela igual ao filme. Achei e fiquei sonhando kkkk...
Revendo hoje, velho, crítico e chato, vejo que o filme escorrega feio no terceiro ato. Fiquei sabendo que Hollywood (sempre ela) pressionou Verhoeven para transformar a trama num slasher estilo Sexta-Feira 13 no laboratório fechado. E conseguiu. "O Homem Sem Sombra" pode ser um dos pontos mais irregulares da filmografia do Verhoeven, mas mantém um valor nostálgico absurdo. Valeu assistir pelo impacto visual que marcou uma época e pelas atuações do elenco, mesmo que o filme hoje seja quase invisível.
O Projeto Adam
3.3 469 Assista Agora⚠️ Alerta de spoiler: Se você não viu o filme, corre daqui.
"O Projeto Adam" cumpre sem vergonha o seu papel de catálogo de luxo. É o tipo de produção criada em linha de montagem para entreter por duas horas, lavar a mente e ser sumariamente esquecida no fundo da prateleira digital.
O diretor Shawn Levy (Stranger Things) pega a estética de nostalgia dos anos 80, tempera com a fórmula de "De Volta para o Futuro" e entrega uma Sessão da Tarde plastificada. O trunfo aqui é que o filme não tenta fingir que é um sci-fi revolucionário: ele se apoia no carisma do elenco e no Ryan Reynolds — que, valei-me minha nossa senhora, dá uma leve brecada no modo Deadpool e entrega uma atuação um pouco mais contida, mesmo que continue interpretando a si mesmo.
A Netflix não tem dó do nosso dinheiro. Ela gasta uma fortuna em CGI, junta um elenco estelar — com Mark Ruffalo, Zoe Saldana e Catherine Keener — para entregar apenas um roteiro raso, com regras de viagem no tempo ridículas e uma vilã genérica. Vendem o filme como se fosse o novo grande épico de viagem no tempo, quando na verdade é só mais um produto descartável para ocupar espaço no catálogo.
"O Projeto Adam" distrai e até salva o domingo, mas não entrega absolutamente nada de novo. É um desperdício charmoso de orçamento alto que evapora da memória assim que os créditos sobem.
Resistência
3.3 313 Assista Agora⚠️ Alerta de spoiler: Se você não viu o filme, corre daqui!
Do diretor do classico moderno "Rogue One", "Resistência" tinha tudo para ser um épico. O que ele entregou, foi um espetáculo de vergonha alheia. O filme tenta misturar guerra de máquinas, inteligência artificial e espiritualidade budista, mas o resultado é uma maçaroca pretensiosa, chata e mal executada que me fez contar os minutos para acabar e beber alguma coisa forte pra esquecer.
O de Gareth Edwards mostra Joshua (John David Washington), um agente inflitrado que está numa missão para destruir uma superarma criada pela IA do Oriente. A partir daí, o longa abandona vira uma colcha de retalhos de clichês de mangá ruim: robôs pacifistas vivendo em cabanas na praia, comunidades ribeirinhas de lataria tomando banho de sol e uma criança androide fazendo carinha de coitada para desativar tecnologia com o pensamento, que aliásé a tal da arma superpoderosa, que na realidade parece mais o pequeno Buda de bateria Moura.
A tal da "guerra contra os robôs" é uma piada. Os Estados Unidos passeiam com uma estação espacial gigantesca pelo céu da Ásia soltando mísseis como se o espaço aéreo fosse bagunça, enquanto as IAs, ditas superinteligentes, agem com a ingenuidade de um monte de inocentes. O clímax com o moleque correndo dentro da nave espacial é constrangedor de tão previsível. Nada passa tensão, a história não tem carne e o miolo do roteiro é um bocejo arrastado.
"Resistência" do Gareth Edwards, é o típico filme que se esconde atrás de um visual clean e efeitos bonitinhos que serve apenas para mascarar a falta absoluta de alma e profundidade. Pega conceitos que já vimos mil vezes em séries e quadrinhos, coloca um filtro oriental por cima e entrega uma historinha rasa, genérica e chata de doer.
Saudades dos filmes de supercomputadores, inteligência artificial, ciborgues assassinos e máquinas mortais dos anos 70, 80 e 90. Era uma guerra que dava gosto de ver a gente lutar e morrer.
Mãe X Androides
2.4 144⚠️ Alerta de spoiler: Se você não viu o filme, corre daqui.
"Mãe x Androids" tinha nas mãos a premissa perfeita para um suspense de sobrevivência dos bons. Revolução das máquinas, a ameaça da extinção humana e uma atriz do calibre de Chloë Grace Moretz não conseguiram fazer a história bombar. O resultado é uma caminhada arrastada e genérica pela floresta, que troca o peso metálico de um "Exterminador do Futuro" por briguinhas de namoro e os Tesla querendo matar.
A história mostra Georgia (Moretz), grávida de nove meses, e seu namorado Sam (Algee Smith) tentando cruzar os EUA devastados por I.A.s domésticas que simplesmente surtam e decidem exterminar seus donos. O problema é que a tal "guerra contra os robôs" não passa tensão alguma. O ritmo é lento, a dinâmica do casal é besta e os androides variam entre um Brainiac e uma batedeira da Shopee. Tem cena em que o robô corre igual a um doido; em outra, parece que tá esperando a cena acabar para tomar um café.
O filme até ensaia momentos interessantes quando entra em cena o tal "salvador" com uma roupa estranha de camuflagem. A revelação de que o sujeito era, na verdade, uma inteligência artificial disfarçada de humano é a única ideia genuinamente assustadora do longa. Mas o roteiro descarta esse suspense psicológico em cinco minutos para descambar num final constrangedor.
Depois de todo o corre-corre, tiros, explosões e o sacrifício na floresta, o clímax no porto vira uma despedida xaroposa digna de novela de fim de tarde. Entregar a criança para os soldados no navio tentando arrancar uma lágrima seca da gente à força é o atestado definitivo de que o filme não tinha a menor ideia de como fechar sua história.
"Mãe x Androids", do Mattson Tomlin, é mais um produto de catálogo limpinho, sem alma e sem peso. Pega a premissa de um "Um Lugar Silencioso" com revolução das máquinas e entrega uma ação fraca, com um melodrama borocochô sobre gravidez no meio do mato.