⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
A ficção científica muitas vezes nos cega com explosões e naves espaciais, esquecendo que as maiores histórias habitam nas frestas da intimidade humana. Dirigido por Garth Davis, o sufocante "Intruso" abandona a pirotecnia para se fincar num cenário bucólico e decadente, que parece um pântano de poeira sufocado pela seca. É num mundo em escassez, sem quase eletricidade e com um calor que faz a pele suar na tela, que um drama apocalíptico ganha vida.
A rotina aparentemente infeliz do casal Hen (Saoirse Ronan) e Junior (Paul Mescal) rui de vez com a chegada de Terrance (Aaron Pierre). Com uma calma gélida e uma autoridade evasiva— que remete à tensão sufocante de um oficial nazista inspecionando a casa —, ele impõe uma presença que faz a gente suar frio de ódio. Medo, tensão, raiva. A vida de Hen e Junior, fica a beira destruição com a presença odiada do funcionário da companhia. Contrato, obrigações, testes, perguntas. Terrence mói a vida de Júnior, aos olhos indignados da furiosa esposa. E nesse clima de desconforto, a trama ainda se instala uma tensão sexual e psicológica avassaladora entre o trio, onde qualquer fagulha vira incendio na casa, e um ataque cardíaco em quem assiste.
O grande trunfo do longa está na virada do seu terço final e na entrega inacreditável do seu elenco. Quando o verdadeiro propósito daquela visita é exposto, o filme entrega uma das sequências mais desesperadoras num sci-fi nos ultimos anos. A atuação de Paul Mescal e Saoirse Ronan nesse clímax é monumental: os gritos, as lágrimas, o horror de ver uma vida inteira ruir em segundos e o apego visceral a um afeto que se mostrou mais real do que a própria realidade. É um desespero humano tão doloroso que é impossível sair ileso da cena.
Sem precisar de um único efeito mirabolante, "Intruso" usa a sua fotografia poeirenta e um trio de atuações magistrais para criar um suspense psicológico devastador. O filme do Garth Davis é uma obra silenciosa, nervosa e perturbadora sobre a solidão e o colapso das relações íntimas num futuro distópico, mas infelizmente não muito distante.
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Às vezes, os filmes de viagem no tempo adoram fritar os neurônios dos nossos cérebros. São horas de diálogos sobre mecânica quântica, buracos de minhoca, maletas, máquinas, carros e exterminadores. É justamente por fugir dessa pirotecnia que o sci-fi britânico "Questão de Tempo", do Richard Curtis, se consolida como uma das obras mais elegantes do gênero nos últimos anos.
Aqui não tem DeLorean atingindo 88 milhas por hora, Skynet, diários de dor e pó mágico. A regra da viagem no tempo na família do jovem Tim (Domhnall Gleeson) é simples: basta entrar no guarda-roupa Marabrás inglês, fechar os olhos, apertar os punhos e pensar no momento exato pra onde quer voltar. Com esse dom na mão, o protagonista tenta resolver o óbvio: consertar as cabaçadas amorosas de Ano Novo, até a paixão de verão pela linda Margot Robbie.
Contudo, o grande mérito do roteiro é não escorregar no quiabo — ou melhor, nos ponteiros do relógio das tramas do gênero. Enquanto a maioria das histórias de viagem temporais se perde em paradoxos gigantescos, com efeitos especiais monstruosos e CGI até a tampa, o filme do Richard Curtis se mantém focado nas miudezas da vida cotidiana, com as pretensões domésticas de um jovem que virou adulto, esposo e pai, e que sonha apenas com uma vida feliz com sua família.
A química de Domhnall Gleeson com Rachel McAdams funciona no timing exato; os dois se dão muito bem em cena, onde misturam drama e um romance agridoce, até que situações difíceis surgem pra tirar a felicidade quase atemporal do longa. É na relação do protagonista com o pai (vivido de forma magistral por Bill Nighy) que o filme encontra sua verdadeira alma. Além da descoberta e dos conselhos de que certas escolhas cobram um preço — das regras biológicas às viagens temporais —, a comédia romântica despretensiosa se transforma num drama profundo sobre o luto e a finitude.
Sem precisar de um único centavo em efeitos digitais mirabolantes, "Questão de Tempo" equilibra de forma brilhante o humor britânico da boa etiqueta com uma melancolia sutil e devastadora. Tudo numa ficção científica humana, precisa e que prova que um bom roteiro e um guarda-roupão escuro valem mais do que qualquer supercomputador louco de Hollywood.
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Uma coisa que a ficção científica moderna nos ensinou é que uma boa premissa visual pode virar uma armadilha mortal nas mãos de um roteiro indeciso. Dirigido pelo argentino Juan Diego Solanas, "Mundos Opostos" tenta erguer um universo grandioso, mas acaba trocando a física e a geopolítica por um romance meloso de banca de jornal que substitui Albert Einstein por Nicholas Sparks.
O conceito até começa instigante: dois mundos gêmeos sobrepostos, colados no mesmo latifúndio cósmico, onde cada um possui sua própria gravidade e realidade social. De um lado, está o mundo cinzento, operário, sujo e infeliz do protagonista Adam (Jim Sturgess); do outro, a metrópole rica, iluminada e corporativa de Éden, interpretada pela dona do "beijo do século dos anos 2000", Kirsten Dunst — que faz milagre para entregar um pouco de dignidade a um papel tão raso. O drama explode quando os dois se apaixonam na juventude e passam anos separados, até Adam ver a amada pela televisão e decidir invadir o mundo de cima a qualquer custo.
A partir daí, a vaca vai pro brejo com força total. Para invadir o mundo de cima, o novinho apela pro contrabando de matéria-prima do planeta vizinho e costura um terno para enganar a gravidade — uma engenhoca estranha que esquenta no corpo até começar a pegar fogo. E a tal geleia rosa? É uma receita mágica da falecida avó dele que equaliza a matéria dos dois mundos, e por causa dela ele arruma um emprego na firma de lá. Para piorar, toda a estética do filme abusa de um CGI apelativo e datado, forçado com excesso de luzes fortes e filtros brilhantes que parecem tinta de placa de anúncio de estrada.
No elenco tem uma turma boa, com destaque pro grande Timothy Spall (eterno Rabicho de "Harry Potter"), que traz um peso como amigo de Adam. Contudo, nada salva a narrativa de virar uma correria maluca dentro de um pote de açúcar, do casal tentando ficar junto, mas a físicaloca não deixa. Só a geleia milagrosa do Nicholas Sparks.
"Mundos Opostos" começa prometendo uma distopia conceitual instigante, mas se esgota rapidamente sob o peso de um CGI artificial, um romance exaggerated e uma geleia que derrete qualquer vestígio de lógica. É uma bomba romântica maquiada de ficção científica pretensiosa.
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Se em dramas existenciais o tempo é um fardo silencioso, em "Mate ou Morra" o looping temporal é uma arena de massacre ininterrupto de sangue, adrenalina e mortes quase sem fim. O diretor Joe Carnahan pega a premissa incrível de "Feitiço do Tempo" e a injeta gasolina e uma estética de videogame frenética, e entrega tregando um dos entretenimentos de viagem no tempo mais loucos, violentos e divertidos dos últimos anos.
No centro do caos está Frank Grillo (Roy Pulver), um ex-agente especial condenado a acordar todos os dias às 7h00 da matina já desviando de um helicóptero e de assassinos dentro do seu quarto. A graça do filme não está em tentar ser profundo, mas na matemática da tentativa e do erro: Roy morre dezenas vezes e de formas grotescas até aprender cada movimento dos seus carrascos. Entre perseguições alucinantes, tiroteios e duelos de espada sensacionais — o treinamento com a lendária Michelle Yeoh para derrotar a ninja cortadora de cabeças é foda —, a narrativa ganha corpo sem nunca perder o ritmo. O elenco ainda conta com Mel Gibson como um vilão corporativo debochado e Naomi Watts dando o suporte científico para a insanidade da máquina, o "Espelho de Osíris".
Por trás de tanta pancadaria, o filme encontra uma camada surpreendente de humanidade no passado de Roy. Homem acostumado à violência e pai ausente, ele percebe no looping a sua única chance de redenção, usando o tempo infinito para se reaproximar do filho que mal conhece. As cenas em que ele simplesmente para de fugir para passar tardes inteiras com o garoto em uma casa de arcade dão mais coração à narrativa, transformando um brucutu em um pai que tenta recuperar os anos perdidos no meio do apocalipse diário.
Quando a história exige o clímax, a produção engata a última marcha numa corrida frenética contra o fim do mundo. Sabendo que tem minutos contados para impedir que a máquina destrua o planeta e salvar a mulher que ama, Roy transforma o aprendizado de centenas de mortes em um balé de violência cirúrgico, enfrentando o exército do vilão em um pico de adrenalina puro.
Com a narração afiada de Frank Grillo, humor ácido, muita violência e uma execução técnica impecável, "Mate ou Morra" entrega um cinema pipoca de alto nível, que sabe usar todos os clichês de ação e de looping temporal pra nos divertir do início ao fim.
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Na esteira do clássico cult "The Quiet Earth", de Geoff Murphy (1985), "Agora Estamos Sozinhos" abandona o ruído dos efeitos especiais e a correria apocalíptica para entregar um estudo de personagem íntimo, silencioso e amargo. Dirigido e fotografado com maestria por Reed Morano, o filme transforma a extinção da humanidade no cenário perfeito pra um tipo de cinema de contenção, onde o silêncio de uma cidade deserta fala mais alto do que uma explosão nuclear.
Aqui não há heroísmo, mas sim uma fuga covarde do passado. O apocalipse se torna o analgésico ideal para dois sobreviventes traumatizados: Del (Peter Dinklage) se tranca em uma reclusão quase doentia, organizando casas de mortos para fingir controle sobre uma vida que já era miserável antes do fim; enquanto Grace (Elle Fanning) surge em uma fuga desesperada, carregando mentiras rasas sobre os pais e traumas que tenta soterrar a todo custo, mas não consegue. São dois tipos de negação colidindo — ele buscando o isolamento absoluto para não ser perturbado, e ela buscando o barulho para não ter que encarar a própria verdade.
A história tem momentos de felicidade contida, alegria breve, mas ganha contornos de uma tensão silenciosa e quase incômoda, até que a chegada de figuras misteriosas do passado de Grace (vividas por Paul Giamatti e Charlotte Gainsbourg), a ilusão desse mundo de vidro sujo se quebra. O filme dá uma virada perturbadora para um thriller psicológico, revelando uma tentativa bizarra de reestruturação social a qualquer custo. O desfecho coloca na mesa um dilema amargo e sem saídas bonitas. No fim do mundo, o que é mais doentio — encarar a dor das lembranças em um mundo vazio e morto ou aceitar a ilusão covarde da felicidade?
"Agora Estamos Sozinhos" é uma ficção científica seca, instigante e que recusa respostas fáceis.
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"Matrix de Gravata que Esqueceu de Entrar na Sombra"
"Agentes do Destino" parte de um conto espetacular do mestre Philip K. Dick, que mostra um grupo de seres nas sombras dos bastidores do mundo moldando nossas escolhas. Mas o diretor George Nolfi preferiu a luz do romance água-com-açúcar ao invés de afundar os pés na lama negra da ficção científica.
Faltou uma atmosfera de sombras, paranóia e claustrofobia de um Dark City (1998), para mostrar esse governo oculto. O filme é curto demais (1h45) para o tamanho do conceito que propõe. Tendo Matt Damon e Emily Blunt com uma química impecável, além de um elenco de apoio formidável (Terrence Stamp, Anthony Mackie), a produção optou pela solução mais rasa e previsível, usando uma corrida romântica fofa que diverte e atende como entretenimento rápido de fim de tarde, mas deixa na boca o amargo do "poderia ter sido um clássico cult inesquecível".
Homens de terno e gravata surgindo por portas ocultas, ameaçando pessoas que saem do roteiro programado... Tudo isso em um confronto tenso entre o determinismo implacável e a força avassaladora de uma paixão. "Agentes do Destino" tinha gasolina de sobra para um suspense avassalador, mas preferiram entregar um passeio no parque.
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Em um verdadeiro mar de produções descartáveis, "Céu Vermelho-Sangue" surge como uma puta surpresa no catálogo da Netflix nos últimos anos. Dirigido pelo alemão Peter Thorwarth, o longa começou me enganando com a carcaça de thriller genérico de sequestro aéreo, apenas pra arrombar as portas do gênero e entregar um terror claustrofóbico, sangrento e, pasmem... original. Falei.
A grande força do longa está no subtexto da maternidade em meio ao drama vampiresco e ao caos do sequestro. Acompanhamos Nadja (Peri Baumeister), uma mãe misteriosamente doente que viaja com o filho pequeno buscando um suposto tratamento nos EUA. Quando o voo é tomado por terroristas, a narrativa revela sua verdadeira e grotesca face: Nadja não está doente, mas sim lutando há anos para reprimir uma maldição vampírica através de medicamentos. Forçada a libertar o monstro para salvar seu filho, o filme abandona a estética romantizada do vampirismo moderno e resgata a figura monstruosa, pálida e bestial no melhor estilo Nosferatu, com uma sanguera desgraçada de dar gosto!
Ainda que o roteiro dê umas pequenas escorregadas nos clichês — como o garoto tomando atitudes irritantes que quase colocam tudo a perder —, a tensão dentro do avião é construída de forma incrível. O confinamento transforma a aeronave num abatedouro claustrofóbico à medida que a luta da mãe vira uma infecção infeliz que se espalha sem controle entre os passageiros e os sequestradores. O desfecho no aeroporto, trágico e sem espaço para milagres, fecha com chave de sangue a jornada de uma mãe que aceitou se tornar o próprio demônio para que o filho pudesse ver a luz do sol. "Céu Vermelho-Sangue" é um filme que eu sempre deixava pra assisitir depois, e fui surpreendido com uma história nervosa, dramática e com cenas frenéticas de ação. Era por filmes com essa pegada autoral e sem medo de arriscar que a gente se apaixonou pelo catálogo da Netflix lá no início.
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Entre sangue, gritos, vísceras expostas, correria histérica e hordas inesgotáveis de mortos-vivos querendo cérebro, o longa "Cargo" surge como um raro sopro de sensibilidade, uma mordida leve na carne dura e quase vencida do gênero.
Produzido pela Netflix e dirigido com as patas firmes da dupla Ben Howling e Yolanda Ramke — adaptado do premiado curta-metragem homônimo —, o filme australiano abandona o barulho do caos global para focar suas lentes em uma jornada dolorosa contra o tempo de um pai infectado para salvar sua filha bebê.
Esqueça as transformações instantâneas e os monstros velocistas estilo "Extermínio". Aqui, o vírus age com uma lentidão cruel e burocrática, dando tempo para que a ficha caia, o desespero se instale e o luto seja processado antes da morte física. Martin Freeman entrega uma atuação marcada pelo seu clássico jeitão polido e contido — a civilidade irritante e educada contra o pavor interno de se transformar naquilo que todos temem —, levando a história através de paisagens áridas e sufocantes da Austrália, que ganham um contorno quase espiritual com a presença e o respeito à cultura aborígene local.
Sem apelar pro cinismo ou para a ação insana, o filme constrói seu drama no limite entre a ternura e a tragédia iminente. A dinâmica com a jovem nativa que cruza seu caminho amplia o peso temático da sobrevivência deles. O resultado é um pós-apocalipse melancólico, maduro e humano, que lembra a atmosfera de tragédias silenciosas como o dramático "Maggie" com o tio Schwarzenegger e sua filha zumbi. O cinema de zumbis moderno não precisa mais te assustar com sustos fáceis, mas sim apertar o seu peito devagar até a última cena.
A jornada de "Cargo" tenta ensinar que a humanidade é mantida em pensamentos e ações por pessoas que a guardam no âmago do coração, mesmo elas estejam perto do fim, e perto de perdê-la, para o mostro zumbi ou para o bicho homem.
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Zack Snyder deu aula de horror zumbi em "Madrugada dos Mortos", mas assistir a "Army of the Dead: Invasão em Las Vegas" é um choque de realidade. O diretor tentou misturar o terror apocalíptico com filme de assalto a banco e o resultado é, sem dúvidas, uma das produções de zumbi mais decepcionantes dos últimos tempos. O cérebro faz força para esquecer, mas o estrago feito com esse filme da Netflix é irreversível.
O roteiro tenta criar um ecossistema bizarro que beira o ridículo: temos zumbi líder (Alfa), zumbi grávido com feto natimorto, tigre de computação gráfica, zumbi com superpoderes, capacete de ferro para blindar tiro na cabeça e até sentimentos humanos. Como se não bastasse, Snyder tenta empurrar a sua visão das coisas — como na cena constrangedora dos zumbis ao redor da piscina seca, simulando uma "Santa Ceia" renascentista. Querendo ser poético em um filme de mercenários, o diretor só entrega uma imagem borrada, cortesia de lentes vintage operadas por ele mesmo que deixam 80% da tela fora de foco, parecendo um CGI de gaveta sem vida.
O elenco é uma vitrine de estereótipos com diálogos de doer a alma. O protagonista vivido por Dave Bautista tenta emplacar um drama de pai arrependido que não combina em nada com o tom do filme. Ao redor dele, o roteiro distribui tipos genéricos: o técnico especialista em cofres histérico e abobado, a guerreira machona e fria, o vilão corporativo infiltrado previsível e a filha do protagonista — uma personagem insuportável que decide fazer uma missão resgate suicida para procurar uma amiga no meio do caos, sendo a responsável direta pela morte de quase todo mundo.
As cenas finais são um pastelão da porra! Uma correria desajeitada no topo do cassino enquanto o Rei Zumbi Alfa busca vingança pela esposa morta, caindo na porrada dentro do helicóptero com o Bautista enquanto uma bomba atômica despenca do céu.
"Army of the Dead" é a prova de que muita liberdade criativa e dinheiro de streaming sem limites geram um monstro caça-níquel, arrastado de 2h30 desnecessárias que você torce para acabar logo, com todo mundo morto ou mordido. Imaginar que o filme deixa uma ponta para uma sequência chega a fazer a massa encefálica da gente ferver de angústia.
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Quando assisti a "Invasão Zumbi" pela primeira vez — no auge da empolgação da onda coreana (Hallyu) —, achei um dos melhores filmes do gênero. O ritmo frenético dentro do trem de alta velocidade rumo a Busan e a ideia dos zumbis furiosos, que se atropelam em ondas contra paredes e ficam cegos no escuro dos túneis, trouxeram um fôlego absurdo para o horror zumbi que estava meio morto.
O filme conta a história de Seok-woo, um sujeito ausente e individualista que tenta levar a filha pequena até Busan. Mas, no meio disso, um vírus desconhecido se espalha pela cidade, levando o país inteiro ao apocalipse. É nesse cenário do capeta que o executivo frio passa por uma transformação brutal, virando a figura paterna que a garota tanto precisava. Ao lado dele, típicos personagens coreanos correm feito o diabo para sobreviver, como o fortão Sang-hwa e sua esposa grávida, e os jovens apaixonados que protagonizam uma das cenas mais coreanas do horror zumbi da cultura deles — digna de virar meme de tão melosa e exagerada.
O filme faz questão de mostrar a podridão humana (no Coreia style) na figura do executivo Yong-suk. Em meio ao pânico, o traste manipula os passageiros, tranca portas e empurra o povo — incluindo o grupo de jovens jogadores de beisebol — para as garras dos monstros, apenas para ganhar mais alguns segundos de vida. É essa tensão entre a compaixão dos sobreviventes e a vilania dos covardes que move o enredo, mostrando que a infecção só escancarou o pior que já existia nas pessoas.
No desfecho final, o diretor resolve jogar todos os doces da Coreia de uma vez só na tela! É uma cena feita para você chorar um açucareiro inteiro: o pai, já infectado, luta contra a própria transformação enquanto se recorda com doçura de quando segurou a filha nos braços pela primeira vez, antes de se atirar do trem em movimento. É o suprassumo do melodrama sul-coreano — emocionante, sim, mas você deixa o pâncreas na sala.
"Invasão Zumbi", do Yeon Sang-ho, continua sendo um marco técnico e uma aula de cinema zumbi dos anos 2010. Ao rever o filme com insulina no sangue e os pés no chão, essa mão pesada no sentimentalismo tira quase toda a aspereza do horror que um filme desse precisa, mas ainda vale demais assistir.
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Se o filme anterior já tinha mostrado uma virada para um apocalipse rústico e quase medieval britânico, "Extermínio: O Templo do Osso" eleva a régua para um nível de angústia e barbárie que eu esperava ver nos zumbis, não nos humanos. É um filme sombrio, doloroso de assistir em vários momentos, mas inteligente ao mostrar que o verdadeiro apocalipse não é o vírus, mas o que sobra do ser humano quando a civilidade vira entulho.
A grande força do roteiro está no contraste brutal entre dois mundos. De um lado, temos o jovem Spike tentando sobreviver após ser arrastado por "Sir Lord" Jimmy Crystal e seu bando de fanáticos. Acompanhar a queda do garoto e a rotina de crueldade e selvageria desse grupo contra os vivos é desesperador. A maldade deles é consciente, metódica e sádica, resgatando diretamente aquela essência do filme original de 2002 — lembrando que a perda da humanidade faz do homem algo muito pior do que qualquer zumbi.
Do outro lado, temos a vida quase bucólica do Dr. Kelson (Ralph Fiennes) e sua relação quase filosófica com o "Zumbi Alfa" Samson, lembrando uma releitura menos trágica de Frankenstein. O Dr. Kelson era um assombro de erudição, ciência e compaixão no meio daquele caos. A direção da Nia DaCosta consegue capturar essa atmosfera pesada com maestria, fazendo o choque entre esses dois mundos culminar em cenas de pura tensão.
A sequência final — com o Dr. Kelson usando a lábia e encenando a figura de Satã ao som de “The Number of the Beast” pra enganar o bando e proteger o garoto — é lofo, mas deu nó na garganta. O desfecho é amargo, mas sela com chave de ouro esse capítulo tão sombrio da franquia. Mesmo com a clareza, cores fortes e a digitalização 4K tirando o medo, a penumbra e o tom cru de 480p/ 720p do clássico de 2002, "Extermínio: O Templo do Osso" é um grande filme, onde pela primeira vez é mostrada uma sequência direta de um dos filmes da franquia.
A direção da Nia DaCosta é extremamente competente; ela consegue de forma brilhante manter o nível do filme anterior do Boyle, com cenas práticas de terror onde a violência alcança um nível de virar o estômago de zumbi. Jimmy Crystal entrega uma atuação que dá medo na gente. Seu personagem chamando o Diabo de pai mostra o nível de moral que o grupo dele tinha.
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Quando saiu a notícia de que Danny Boyle e Alex Garland voltariam para a franquia depois de tanto tempo, eu fiquei descrente. Nunca tinha gostado do segundo filme (até assistir a uma versão foda, com uma edição bem diferente da época). E, décadas depois, o que se pode esperar do gênero?
O título nacional "Extermínio: A Evolução" (28 Years Later) é um porre; deviam ter mantido a tradução fiel " 28 Anos Depois " que mostra a linha original do tempo. Na primeira assistida, eu achei horrível. Esperava algo na pegada urbana e crua do clássico de 2002 e dei de cara com um apocalipse inglês meio Mad Max, num mundo ilhado, em ruínas e quase medieval. Achei estranho. Mas, justiça seja feita: ao rever o filme com a cabeça fria, a obra se revelou um grande filme apocalíptico.
Passados 28 anos do surto inicial, o filme acompanha uma família numa ilha fortificada na Grã-Bretanha. A comunidade sobrevive em ciclos rígidos, aproveitando a maré baixa para cruzar para a terra firme. A virada acontece quando o garoto Spike (Alfie Williams) descobre que o pai (Aaron Taylor-Johnson), que ele tinha como herói, estava traindo sua mãe doente (Jodie Comer), que sofre com um tumor cerebral. Puto e decepcionado, o menino pega a mãe e foge em busca de uma cura, encontrando um mundo doente, mas com um curador no meio dele.
Ralph Fiennes surge como um primata em meio ao apocalipse. Ele vive um médico eremita sobrevivente, isolado num templo feito de ossos. O cara se cobre de mercúrio para afastar contaminações e estuda os zumbis com uma visão quase religiosa e bárbara de honrar os mortos enquanto os analisa. A relação que se cria ali traz um peso dramático e filosófico totalmente novo para a franquia. A humanidade do Dr. Kelson era um assombro luminoso esquecido em meio ao fim da sociedade. A forma como ele lida com o problema do jovem Spike supera qualquer ato de um homem em meio ao caos daquela ilha. Foi triste e, ao mesmo tempo, belo o que ele fez pela mãe do garoto.
O filme entrega sequências de tensão absurdas. A primeira saída do menino com o pai já mostra a correria desesperada contra os infectados, com a introdução do novo "Zumbi Alfa" que eleva o perigo no longa. A cena angustiante em que o garoto dorme de cansaço quando deveria vigiar e a mãe, mesmo debilitada, foi de tirar o meu sono. Também tem o triste fim do soldado esquecido, massacrado pelo Alfa, uma coisa quase trash. Mas o desfecho, unindo o sacrifício da mãe e o aprendizado do garoto com o personagem de Ralph Fiennes, deixa uma marca profunda e inesperada para a franquia, que parecia ser apenas mais uma correria louca de zumbi querendo cérebro.
"Extermínio: A Evolução" pode ter dividido opiniões no lançamento pela mudança drástica de tom, mas é um retorno de respeito de Danny Boyle ao gênero que ele próprio reinventou. O filme dá uma mordida na expectativa clichê do cinema de zumbi de hoje, entregando uma história com algo a mais que as outras estão longe de ter. Que venham mais 28 alguma coisa!
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Quando eu aluguei esse filme, confesso que achei "Extermínio 2" muito inferior ao clássico do Danny Boyle. Parecia meio bobo, com uma pegada genérica. Revi depois e achei pior, mas reassistindo hoje numa versão com um corte totalmente diferente em cenas decisivas, o filme é outro! O filme de Juan Carlos Fresnadillo é espetacular, dramático e de um pessimismo angustiante que poucas coisas do cinema de horror zumbi conseguem entregar.
O início te uma das aberturas mais chocantes e desesperadoras da história do gênero. O prólogo na casa de campo — com o pai (Robert Carlyle) abandonando a própria esposa para trás e correndo como um louco pelo pasto enquanto os infectados aparecem do nada — é uma aula de tensão e covardia humana. A trilha sonora icônica do John Murphy dá o tom do pesadelo que está por vir.
O lance da reconstrução de Londres pelo exército americano é excelente, tudo é perfeito e controlado, mas o colapso da quarentena é inevitável e foda. Os filhos Tammy (Imogen Poots) e Andy (Mackintosh Muggleton) fogem da cidade e encontram a mãe viva, sem saber que ela é portadora do virús, o contágio volta com força brutal depois do beijo maldito do marido. Quando os bichos começam a correr, mano... é a desgraça a 40 km/h! A decisão do comandante (Idris Elba) de decretar código vermelho e mandar os snipers atirarem em todo mundo, civil ou zumbi, transforma a cidade num matadouro a céu aberto.
O elenco segura o drama com maestria. A Rose Byrne como a médica Scarlett e o Jeremy Renner como o atirador Doyle dão alma ao filme tentando proteger as crianças. E que cena marcante a do Jeremy Renner! O sacrifício do personagem dele, empurrando o carro travado no meio da rua enquanto é incinerado pelo lança-chamas do próprio exército para fazer o motor pegar no tranco, é de um heroísmo visceral.
As cenas finais é um massacre no escuro, com a desfecho dramático da Rose Byrne e o pai infectado perseguindo os próprios filhos até o último segundo. O fechamento na França — com a horda de zumbi correndo em direção à Torre Eiffel — é aquele apocalipse morto vivo que a gente sempre sonhava na época. A edição de cinema não ajudou, mas finalmente a obra foi ajustada. "28 Weeks Later" é um filmaço que merecia essa redenção.
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Na primeira assistida, no calor das explosões, eu até curti. Mas reassistir a "Atlas" na Netflix é pra passar raiva do início ao fim. O filme é o puro sumo do fundo de tela, feito por algoritmo, sobre inteligência artificial, apenas para deixar rodando na TV enquanto mexe no celular.
A trama é um reaproveitamento de tudo o que a ficção científica já fez, só que sem charme algum. Num futuro onde uma I.A. doida chamada Harlan (Simu Liu fazendo pose de T-1000) surtou e tentou acabar com o mundo, foge pra um planeta distante. Anos depois, a analista Atlas Shepherd (Jennifer Lopez) — que literalmente criou o vilão na infância — vai junto com uma tropa de elite para zerar o CPF do robô no morro de Andrômeda. A missão dá errado em 5 minutos, todo mundo morre e sobra só a J.Lo sozinha no planeta com um robô gigante.
O filme é um telão azul e verde eterno que dói na retina. Parece que você está assistindo a uma cutscene interativa do PlayStation 3. Tudo é plastificado, a poeira do planeta parece filtro de computador e os cenários são genéricos de sériede streaming. Um fiasco que não entrega textura real alguma.
É preciso honrar a Jennifer Lopez! A gata se entrega na personagem. Ela chora, grita, surta dentro da cabine e tenta dar alma pro texto. O problema é que nem a dedicação dela — e nem o coque desajeitado de quem foi fazer faxina — salvam o fato de que ela passa metade do filme conversando sozinha com uma voz de GPS simpática chamada Smith.
Se tem algo que distrai a cabeça na madruga, é a correria do terço final. O capanga do vilão, com o batizado bizarro de "Casca", entrega um pega-pega genérico, mas divertido. Tem tiro para todo lado, corre corre, falta de oxigênio, nave explodindo, robô de CGI se espancando no meio do nada, e a amizade de uma humana com um software.
"Atlas" é a prova de a Netflix não tem dó do cérebro da gente. O filme promete uma ficção científica profunda sobre os perigos da Inteligência Artificial, mas entrega apenas uma aventura genérica de robô de plástico com cara de comercial de brinquedo. Sou apaixonado pela J.Lo, mas rever esse filme é um ato de coragem.
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"Círculo de Fogo: A Revolta" é um filme sem alma, sem peso e sem vergonha. O que poderia ser uma franquia única no cinema foi transformado num episódio genérico dos "Power Rangers" das 10h da manhã da Globo.
A física do primeiro filme sumiu: os mechas de toneladas agora parecem feitos de isopor e papel alumínio, dando piruetas de menino de farol, saltando prédios em pleno dia e correndo como se fossem bonecos de PS3. Sem a chuva e sem o tom sombrio de Guillermo, as batalhas ensolaradas só expõem o CGI plastificado que parece comercial de brinquedo da Glasslite dos anos 90.
No filme anterior, Guillermo entregou uma verdadeira obra-prima do cinema de robôs e monstros. A obra dele tinha peso, gravidade e alma: quando um Jaeger andava, a terra tremia, quando dava um soco, você sentia o rangido da lata amassando e o impacto da água do oceano. Era um espetáculo escuro, chuvoso e com uma iluminação neon impecável de funilaria pesada.
Essa sequência trata o legado do original com um desrespeito inacreditável. A Mako Mori (Rinko Kikuchi) — a verdadeira alma do primeiro filme — é descartada num acidente de helicóptero medíocre só pra dar motivação pro filho do Pentecost (John Boyega no piloto automático). Raleigh Becket (Charlie Hunnam), esse coitado evaporou da história como nunca houvesse existido. Tudo pra dar lugar a rebelde e inteligente Spaeny (Amara) que vive a cuidadora mirim de robôs; tipo personagem que empesteia os hoje o cinema de ficção. Para completar o circo, colocam uma academia de adolescentes Nutella pilotando robôs de bilhões de dólares com a força de um iPhone e transformam o cientista maluco num vilão de desenho animado ridículo.
"Círculo de Fogo: A Revolta" é a prova cabal de como Hollywood consegue esmagar uma ideia genial sem o menor pudor. Ao trocar a física brutal e a escala monumental do Del Toro por uma trama boba de adolescentes, um vilão idiota, em cenas de luta de boneco de plástico e firula em CGI, o filme destruiu a franquia. Ver no cinema foi vergonhoso. A diferença dos dois filmes é tamanho de um Kaiju categoria 5, pra um boneco de MacLanche feliz.
⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Na virada do milênio, Hollywood surtou com as imagens que a NASA enviava de Marte. Os estúdios acharam que o público estava sedento pelo terrão vermelho do planeta, começando uma corrida maluca nos cinemas. A Disney lançou "Missão: Marte", e a Warner correu para colocar "Planeta Vermelho" nas telonas. O resultado? Um filme pior que o outro.
O roteiro de "Planeta Vermelho" é uma bagunça sem identidade. Em 2056, a Terra está morrendo de poluição e uma missão é enviada para checar a terraformação de Marte, onde algas haviam sido plantadas para gerar oxigênio. Só que tudo dá errado na chegada: a nave de pouso é destruída e a tripulação fica isolada no solo marciano sem comunicação adequada. A partir daí, o filme não sabe o que quer da vida.
É suspense de alga marinha, robô surtado, inseto carnívoro e astronauta psicopata. O diretor Antony Hoffman levou a produção para onde nenhum diretor de blockbuster ainda tinha ido — a não ser na vastidão do mundo trash e do cinema B. "Planeta Vermelho" é quase um surto de ideias num filme só. Enquanto a gente espera uma ficção científica espacial de respeito, o diretor pira com as imagens de Marte e entrega uma aventura ecológica no estilo "Ilha da Fantasia".
O elenco no papel era um esquadrão de elite: Val Kilmer, Carrie-Anne Moss, Tom Sizemore, Simon Baker, Benjamin Bratt e o veterano Terence Stamp — nomes fortíssimos dos anos 80 e 90. Mas a química em cena foi destruída por uma verdadeira guerra civil nos bastidores. Val Kilmer e Tom Sizemore se odiavam tanto que chegaram às vias de fato no set. A briga foi tão feia que a equipe teve que rodar cenas com dublês e ângulos separados para que os dois não precisassem dividir o mesmo espaço. Enquanto isso, Carrie-Anne Moss passou o filme inteiro isolada num cenário de maquete, atuando sozinha como a Comandante Bowman — funcionando quase como um serviço de SAC da NASA pelo rádio enquanto os homens brigavam "também" no deserto.
Os efeitos em CGI envelheceram como leite fora da geladeira. O robô AMEE dando piruetas em slow-motion e a nuvem de insetos parecem gráficos da primeira geração do Nintendo. E para fechar a cadeia com você do lado de dentro, a resolução do problema deles na história é digna das gambiarras das oficinas ao lado dos buracos na estrada! Depois que os astronautas morrem por conta do robô surtado, do inseto carnívoro e do astronauta psicopata, o engenheiro vivido por Val Kilmer precisa achar um módulo soviético abandonado nos anos 70 para fazer uma "chupeta" na bateria com sucata e conseguir se acoplar de volta à nave da Carrie-Anne Moss. Só isso. E ele consegue... afinal, tinha oxigênio em Marte, Posto Ipiranga e baterias Moura. E se não tivesse, bastava um chiclete e uma pilha Duracell para a missão ser cumprida!
"Planeta Vermelho" é o resultado do surto que os estúdios tiveram com o planeta vermelho nos anos 2000. É mais um sci-fi pretensioso e genérico que tomou os cinemas e as locadoras, mas que causou pouco interesse no público. Eu, por exemplo, nem quis alugar na época, e quando passou na TV eu nem raspei os olhos — só fui assistir anos depois na internet. Pena, viu? Gastar uma fortuna para transformar a exploração do espaço numa briga de bar com robô da Estrela e inseto de plástico é demais para a cabeça.
⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Nos anos 2000, Hollywood deu 100 milhões de dólares pro Brian De Palma fazer o seu próprio "2001: Uma Odisséia no Espaço". O resultado foi "Missão: Marte" (Mission to Mars), um mamute orçamentário que reúne Gary Sinise, Tim Robbins, Don Cheadle e Connie Nielsen para fazê-los passar duas horas com cara de paisagem vermelha num filtro de câmera Kodak.
A desgraça começa quando a primeira equipe é atacada por um vórtex alienígena — um tornado de areia em CGI mambembe que parece um liquidificador gigante que tritura os astronautas sem dó. O único sobrevivente é o personagem de Don Cheadle, que fica preso anos sozinho em Marte, morando numa estufa improvisada, cultivando plantas pra conseguir respirar, e trocando ideia com as alfaces da horta que cuida.
No meio do filme a trama descamba pra um melodrama de espaço ridículo, desses clichês brabo que tem até em animação. Na cena da caminhada espacial no vácuo, vendo que a esposa vai abraçar a morte, o personagem de Tim Robbins simplesmente tira o capacete no meio do nada. Né? O sujeito congela na hora, virando um picolé espacial com cara de pânico, enquanto a esposa grita no vácuo sem som, um dramalhão de quinta categoria.
Quando finalmente resgatam o doidão do Don Cheadle na estufa, o filme dá vida de forma mequetrefe às histórias do livro do Erich von Däniken "Eram os Deuses Astronautas?". Eles descobrem que a famosa "Face de Marte" é uma catedral alienígena e conseguem entrar assobiando a sequência do DNA humano — porque a fechadura intergaláctica meio que funciona por reconhecimento de voz igual ao portão eletrônico do condomínio.
Lá dentro, tem um ET em CGI translúcido (acho que é rascunho de algum filtro de tela do Windows 98), que faz um holograma brega da história do mundo, explicando que foram os alienígenas que semearam a vida na Terra e blá-blá-blá. O ápice do ridículo é o Gary Sinise chorando de emoção, entrando num casulo cheio de água de privada espacial e sendo disparado para outra galáxia com um sorriso de noivo no altar.
"Missão: Marte" é a prova de que nem mesmo o talento de Brian De Palma salva um roteiro que mistura ficção científica, terror B de tornado de areia, sobrevivência de alfaces e breguice intergaláctica. Na época eu assisti ainda nas TV de tubo das Telas Quentes da vida. Achei legal, mas foi só. Revendo hoje é preciso ter paciência com as escolhas ruins do Palma. Pelo menos "Missão Marte" ainda distrai um pouco.
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Quem teve a experiência de ver o trailer de "Gravidade" do Alfonso Cuarón no cinema, com a Sandra Bullock sendo lançada no espaço e depois viu o filme, viveu uma página da ficção no cinema. Aquilo era filme de espaço. E depois "Interestelar" do Christopher Nolan fez uma geração inteira olhar para as estrelas, sem ter um sabre de luz nas mãos. A Netflix olhou tudo isso, babou de inveja e resolveu fazer o seu filme de espaço. O resultado? "Passageiro Acidental", uma bomba arrastada que dá saudades da turma do Darth Vader, e de ter o sabre de luz dos dois nas mãos de novo.
O filme do Joe Penna leva três astronautas rumo a Marte — Marina Barnett, Zoe Levenson e David Kim (Toni Collette, Anna Kendrick e Daniel Dae Kim) —, mas logo após a decolagem eles descobrem um quarto passageiro... um técnico de suporte que simplesmente desmaiou e ficou preso no teto do painel antes do lançamento!
Mano, na moral, como uma agência espacial lança um foguete de bilhões de dólares sem checar se tem um cara preso e sangrando nas engrenagens? Só faltou voar com a porta aberta igual aos trens de Sampa nos anos 80 e 90. Para piorar, o infeliz cai exatamente em cima do purificador de ar, destrói o sistema e fode a missão.
A partir daí, o filme vira uma matemática do tédio, onde só tem oxigênio para três pessoas numa viagem que dura dois anos. Em vez de fazer um suspense psicológico afiado e visceral, sobre quem vai ser o boi de piranha, a gente é condenado a acompanhar duas horas de reuniões burocráticas e conversas sussurradas dentro de maquetes baratas de estúdio, de cientistas no ódio puro, mas que disfarçam a desgraça com um sorriso amarelo.
Quando os atores finalmente saem da nave para buscar oxigênio nos tanques externos, a tentativa de simular gravidade zero é patética. A sequência é zero vertigem, zero perigo e zero peso dramático. Zero "0". Parece um ensaio de teatro de faculdade com os atores em slow-motion pendurados por cabos dentro de um tubo de PVC.
"Passageiro Acidental" da Netflix é um tédio claustrofóbico e asséptico. É o puro vácuo narrativo de alguém que não tinha nada para falar e fez um discurso. É um filme arrastado e pretensioso que consegue a proeza de fazer uma viagem a Marte parecer uma reunião de condomínio dentro de vagão de trem. Tenta se vender como uma experiência profunda e humana sobre sacrifício, mas só entrega um vácuo de ritmo, emoção e efeitos visuais.
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"Ficção Científica Volume 1: O Legado de Osíris" é o puro Corote do Cine B rasteiro de fim de noite da Band, só que com a petulância e a arrogância de colocar "Volume 1" no título achando que o filme ia virar o novo Star Wars dos cinemas. Spoiler: o "Volume 2" nunca existiu, e o cinema agradece.
O diretor Shane Abbess tentou fazer o seu próprio "Mad Max" no espaço misturado com "Alien", mas entregou uma salada espacial de clichês. O elenco é basicamente um bando de bonecos de posto de gasolina — liderados por Kellan Lutz (o vampiro genérico de Crepúsculo atuando com a expressividade de um pedaço de pau) — correndo de um lado para o outro no deserto com armas de plástico na mão, fazendo pose e fugindo de monstros que parecem fantasias recicladas dos Power Rangers.
Dividido em "capítulos" bregas para tentar parecer um épico literário, o filme não passa de um tiroteio genérico de laser barato com filtro amarelado, naves de papelão caindo e um dramalhão de pai querendo salvar a filha que não emociona nem porta do banheiro. As poucas cenas de ação e perseguição de naves parecem cutscenes ruins de videogame dos anos 2000.
"O Legado de Osíris" só tem título. É um horror técnico e narrativo cujo legado real foi ter deixado uma promessa de continuação que felizmente virou fumaça. O filme tem um pouco mais de uma hora e meia, mas parece que tem 3:00hrs. Arrastado, raso e pretensioso.
⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme (sorte a sua), corra daqui.
Assisti a "Nova Ordem Espacial" na época do lançamento embalado pelo hype da onda coreana da Netflix e gostei bastante, achei divertido. Mas resolvi reassistir com a guarda alta e a experiência é um horror. Dá uma vontade incontrolável de sair correndo pelado pela rua até ser preso e apanhar na delegacia só para despertar desse transe maldito e apagar da memória que um dia eu gostei disso.
O filme do diretor Jo Sung-hee tenta ser um "Guardiões da Galáxia" do camelô, acompanhando uma tripulação de lixeiros espaciais num ano de 2092 genérico. O resultado é um suplício de duas horas onde os personagens passam a maior parte do tempo gritando, se espancando, chorando ou cobrando dívida. O Tae-ho (Song Joong-ki) vive com cara de coitado lamentando o passado, a Capitã Jang passa o filme de óculos escuros fazendo pose de durona genérica, e o robô de CGI fica jogando arpão para lá e para cá parecendo que está na nóia.
A premissa é um amontoado de clichês rebatizado: a Terra está inabitável (novidade!) e a corporação malvada do CEO Sullivan quer criar uma utopia em Marte só para os ricos. E a grande ameaça que mobiliza a galáxia inteira é uma garotinha robô fofa que é uma bomba ambulante, mas que na verdade só quer desenhar e plantar árvore. Ninguém conversa, mas as vezes surge um arrastão de blá-blá-blá do infeno que não serve pra nada.
A computação gráfica parece uma tela de descanso do Windows no modo demonstração. É um excesso de luzes néon, partículas piscando, naves acelerando e explosões que poluem a tela sem dar um segundo pra gente respirar. Junta isso a lutas, correria e à bagunça dos personagens falando várias línguas através de um tradutor. Resultado? Cansa mais do que entretém.
E o clímax consegue ser o ponto alto dessa balbúrdia: no ato final, o filme vira uma espécie de Star Trash: A Guerra dos Garis, onde a mensagem central é basicamente "Lixeiros unidos jamais serão vencidos!". É uma batalha espacial mambembe de todos os caminhões de lixo da galáxia se juntando contra o Império corporativo, numa gritaria coletiva e caótica que tenta ser épica, mas só dá vontade de jogar o filme no lixo e pôr na rua pra turma da reciclagem ver se salva.
"Nova Ordem Espacial" é o puro suco do blockbuster coreano, feito com água de privada do algoritmo: colorido, barulhento, lotado de efeitos visuais sem alma e com zero substância. É um dramalhão infantilizado disfarçado de ficção científica espacial. Uma bomba ruidosa da Netflix que serve apenas para mostrar que nem todo lixo espacial merece ser reciclado.
⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui. E valorize seus neurônios e seu tempo de vida.
Lançado pela Netflix como o "grande orgulho do sci-fi chinês", "A Terra À Deriva", do diretor Frant Gwo, é uma das experiências mais cansativas, esgotantes e acéfalas que o cinema de ficção científica teve nos últimos tempos. O filme pega uma premissa megalômana e idiota — instalar milhares de motores gigantes na superfície para empurrar o PLANETA INTEIRO fora de órbita — e a transforma num suplício visual e mental de duas horas que faz a gente sentir que foi jogado para Júpiter sem capacete.
A física do filme é jogada no vinagre no primeiro minuto: para viajar pelo espaço, os caras simplesmente param a rotação da Terra (o que destruiria o planeta na hora) e saem pilotando o globo terrestre como se fosse um carrinho de mão. Quando chegam perto da gravidade do planeta, a solução "gênia" do roteiro é explodir a atmosfera do gigante gasoso para dar um "empurrãozinho" para a Terra pegar no tranco. Tudo isso num CGI grotesco e saturado, com terremotos, caminhões no gelo e cenários congelados que parecem tirados diretamente de uma animação barata de videogame do início dos anos 2000.
Para piorar o martírio, o filme é um dramalhão insuportável de gritaria. Ninguém conversa nessa desgraça: os personagens passam o tempo todo urrando, chorando de forma histérica e tomando as decisões mais estúpidas possíveis para forçar sacrifícios heróicos cafonas pelo partido. O roteiro se arrasta num ritmo tão frenético, barulhento e repetitivo que o resultado não é entretenimento — é puramente exaustão.
"A Terra À Deriva" é uma dor de barriga que alguém teve e jogou nas telas. É o puro esvaziamento criativo moderno: barulhento, cheio de efeitos visuais sem alma e zero substância. É uma bomba chata, cafona e profundamente irritante que não vale o tempo de ninguém. Um verdadeiro teste de paciência que não merece nem estar nas caixas de promoções das barraquinhas de DVDs dos camelôs da esquina.
⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
"Os Escolhidos", de Scott Stewart, mescla a fórmula clássica de invasão domiciliar com o subgênero de abdução extraterrestre. Em vez de naves colossais ou batalhas no espaço, o filme aposta na paranoia de uma típica família de subúrbio que vê sua rotina e sua sanidade serem jogadas no vinagre por forças invisíveis.
A trama acompanha o casal Daniel (Josh Hamilton), um pai de família desempregado sob pressão financeira, e Lacy (Keri Russell), que tenta manter a casa em ordem enquanto lidam com os atritos conjugais. A estabilidade do lar começa a ruir quando eventos de exorcista passam a acontecer: latas de comida empilhadas de forma impossível na cozinha, alarmes de segurança disparando sem motivo e revoadas de pássaros se chocando em massa contra as janelas. Para piorar, o filho caçula passa a entrar em transe e a exibir marcas e queimaduras geométricas estranhas pelo corpo.
No desespero, o pai gasta o dinheiro que não tem para instalar câmeras de segurança pela casa. Porém, as gravações entregam estática, interferências e vultos que as autoridades e a polícia simplesmente ignoram, tratando a família como instável ou doida. É aí que o filme traz o lendário J.K. Simmons como Edwin Pollard, um especialista em Ufologia que entrega a pior notícia possível: o processo de marcação dos "Cinzentos" (Greys) já começou, e não existe alarme, tranca ou arma que possa impedir a abdução final.
O longa brilha na construção do clima de isolamento, da crise conjugal e do desespero de não ser creditado por ninguém. Contudo, derrapa no terceiro ato ao ceder a jump scares genéricos num ritmo de thriller de terror mainstream que enfraquece um pouco todo o mistério construído. A revelação de qual dos filhos era o verdadeiro alvo dos alienígenas dá um bom choque, mas não é suficiente para salvar o filme de ir parar naquela estante de locadora junto com dezenas de produções do tipo.
"Os Escolhidos" é um Filme B honesto que acerta na ambientação da paranoia doméstica e no mistério sci-fi, contando com ótimas atuações, mas empaca na falta de coragem para ir além dos clichês de abdução. É um filme que diverte pelo clima de desconforto, mas que não deixa marcas profundas que coloquem a obra em outro patamar. Dá pro gasto...
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Quando o diretor do próprio filme aparece em público para detonar seu trabalho, é porque a coisa é braba. "Missão Babilônia", baseado no romance de Maurice G. Dantec, tinha tudo para ser uma distopia brutal sobre eugenia, religião e controle corporativo, mas foi operado pela própria firma. Nas mãos do diretor francês Mathieu Kassovitz, o projeto prometia. No entanto, o resultado final foi uma aberração cinematográfica tão retalhada e sem nexo que, antes da estreia, Kassovitz foi a público e soltou a língua, dizendo que a Fox transformou sua obra em "uma violência burra, ruim e estúpida".
A trama mostra Toorop (Vin Diesel), um mercenário brutal e entediado que vive quase na miséria num futuro pós-apocalíptico genérico. Ele é contratado por um mafioso russo — vivido por Gérard Depardieu com um nariz postiço (se é que precisa) medonho e sotaque de desenho animado — para uma missão simples: escoltar uma jovem chamada Aurora (Mélanie Thierry) e sua protetora, a Irmã Rebecca (Michelle Yeoh), da Ásia Central até Nova York. O problema é a salada mística que o roteiro tenta engolir: Aurora foi geneticamente modificada por uma seita religiosa futurista, os "Noelitas", e está grávida, virgem e de gêmeos. Sim, o filme tenta emplacar uma versão ciberpunk da "Imaculada Conceição", onde a garota é uma espécie de Messias/computador humano projetado para arrancar dinheiro dos fiéis com a religião.
O elenco é um desfile de desperdícios e atuações no piloto automático. Vin Diesel interpreta a si mesmo com a mesma voz de motor e a carranca de Velozes e Furiosos, tentando se passar por um herói durão enquanto desfila de casaco de pele no gelo e solta frases de efeito saídas direto de biscoito da sorte. A lendária Michelle Yeoh, uma das maiores divas do cinema de artes marciais da história, é reduzida a uma freira genérica que mal tem espaço para dar dois chutes antes de ser morta.
As cenas de ação não têm peso, ritmo ou impacto. Sequências com drones no Alasca, perseguições em nevascas e submarinos parecem colagens de videogames ruins do início dos anos 2000. O clímax do fim meio que dói as vistas! Após um tiroteio do capeta, a garota morre no parto, Vin Diesel vira pai adotivo dos mutantes, solta uma narração cafona sobre o futuro e o filme simplesmente acaba do nada, parecendo que a fita da projeção rasgou no meio.
"Missão Babilônia" é o retrato perfeito do esvaziamento mental e artístico dos estúdios da época. Pegaram o conceito de um sci-fi instigante, rasgaram a visão do diretor e entregaram uma xaropada picotada, frouxa e sem alma. Um verdadeiro lixo ciberpunk que nasceu morto e que nem o próprio criador fez questão de defender.
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"Prometheus", de Ridley Scott, foi uma das obras mais corajosas e instigantes da ficção científica moderna. O filme terminou com uma promessa grandiosa na tela, na qual a Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), movida pela fé, e o androide David (Michael Fassbender), movido pela curiosidade perversa, decolavam em uma nave alienígena rumo ao planeta natal dos Engenheiros para questionar os criadores da humanidade. Mas em "Alien: Covenant", Scott e o estúdio acabaram com tudo. O povo só queria ver o monstro babando na tela de novo, então jogaram fora toda a mitologia expandida para entregar um slasher movie genérico de espaço, repleto de conveniências baratas e personagens estúpidos.
O crime imperdoável do filme é o descarte fácil e absoluto da Elizabeth Shaw. A heroína que encarou uma cesariana alienígena a frio, viu o namorado sendo contaminado e queimado vivo, peitou o dono da corporação e correu de um dos Engenheiros foi exterminada fora de tela de forma miserável. Toda a jornada ao planeta dos criadores — que tinha potencial para ser um puta épico filosófico sem precedentes — foi reduzida a um flashback de trinta segundos onde David simplesmente joga o patógeno preto nos Engenheiros, dizimando uma civilização inteira como quem joga SBP num formigueiro. Encontrar o corpo dissecado e mutilado da Dra. Shaw no laboratório daquele filho da puta foi um tapa na cara de cada espectador que esperou anos para ver aquele encontro.
Para piorar, a escrita dos personagens humanos atinge o Evereste da estupidez biológica e profissional. A nave Covenant, carregando mais de duas mil pessoas em congelamento e milhares de embriões para colonizar um planeta mapeado há anos, decide mudar de rota e arriscar a vida de todo mundo só porque captou um áudio aleatório de alguém cantarolando no espaço. Ao chegarem no planeta desconhecido, a tripulação de "cientistas" desembarca sem capacete, sem máscara, sem terno de isolamento e sem qualquer protocolo biológico. Os caras pisam na lama e cheiram plantas desconhecidas como se fossem um Golden solto no quintal de casa.
A partir daí, o terror da franquia se transforma em comédia involuntária de erros. O desespero da enfermeira no módulo de pouso — que tranca o colega infectado, escorrega em poças de sangue, surta, atira no próprio tanque de combustível e explode a própria nave — é um espetáculo de burrice. Ninguém age como profissional, ninguém raciocina, e todos existem apenas como bucha de canhão para que David possa brincar de "Deus".
O filme tenta se salvar sustentado na atuação de Katherine Waterston (Daniels) e na atuação dupla de Michael Fassbender (David e Walter). Os dois são o único pilar que impede a produção de desabar completamente. No entanto, o roteiro estraga tudo ao forçar uma filosofia rasa sobre criação e arte — numa sessão bizarra de flauta e versos de poesia —, enquanto o Xenomorfo vira projeto de biologia de um robô frustrado, solitário e com complexo de Édipo. E para coroar o vexame, a revelação final na nave é extremamente previsível. A única coisa que salva a cena é o desespero de Daniels logo após ser trancada na câmara de criogenia e descobrir a armadilha em que caiu.
"Alien: Covenant" é decepcionante demais. É um vexame monstro, uma das sequências mais vergonhosas da ficção científica dos últimos anos. Vender essa bagunça como a origem ou a primeira aparição do Xenomorfo foi um insulto ao público e ao legado do cinema de horror. Ridley Scott pegou uma das maiores franquias da história, jogou uma heroína espetacular no lixo, destruiu os Engenheiros e entregou um filme desastroso, covarde e profundamente decepcionante. Tenente Ripley e agora a Dra. Elizabeth Shaw, o Ridley Scott não sabe lhe dar muito bem com as heroínas que cria.
Intruso
3.1 146⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
A ficção científica muitas vezes nos cega com explosões e naves espaciais, esquecendo que as maiores histórias habitam nas frestas da intimidade humana. Dirigido por Garth Davis, o sufocante "Intruso" abandona a pirotecnia para se fincar num cenário bucólico e decadente, que parece um pântano de poeira sufocado pela seca. É num mundo em escassez, sem quase eletricidade e com um calor que faz a pele suar na tela, que um drama apocalíptico ganha vida.
A rotina aparentemente infeliz do casal Hen (Saoirse Ronan) e Junior (Paul Mescal) rui de vez com a chegada de Terrance (Aaron Pierre). Com uma calma gélida e uma autoridade evasiva— que remete à tensão sufocante de um oficial nazista inspecionando a casa —, ele impõe uma presença que faz a gente suar frio de ódio. Medo, tensão, raiva. A vida de Hen e Junior, fica a beira destruição com a presença odiada do funcionário da companhia. Contrato, obrigações,
testes, perguntas. Terrence mói a vida de Júnior, aos olhos indignados da furiosa esposa. E nesse clima de desconforto, a trama ainda se instala uma tensão sexual e psicológica avassaladora entre o trio, onde qualquer fagulha vira incendio na casa, e um ataque cardíaco em quem assiste.
O grande trunfo do longa está na virada do seu terço final e na entrega inacreditável do seu elenco. Quando o verdadeiro propósito daquela visita é exposto, o filme entrega uma das sequências mais desesperadoras num sci-fi nos ultimos anos. A atuação de Paul Mescal e Saoirse Ronan nesse clímax é monumental: os gritos, as lágrimas, o horror de ver uma vida inteira ruir em segundos e o apego visceral a um afeto que se mostrou mais real do que a própria realidade. É um desespero humano tão doloroso que é impossível sair ileso da cena.
Sem precisar de um único efeito mirabolante, "Intruso" usa a sua fotografia poeirenta e um trio de atuações magistrais para criar um suspense psicológico devastador. O filme do Garth Davis é uma obra silenciosa, nervosa e perturbadora sobre a solidão e o colapso das relações íntimas num futuro distópico, mas infelizmente não muito distante.
Questão de Tempo
4.2 4,1K Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Às vezes, os filmes de viagem no tempo adoram fritar os neurônios dos nossos cérebros. São horas de diálogos sobre mecânica quântica, buracos de minhoca, maletas, máquinas, carros e exterminadores. É justamente por fugir dessa pirotecnia que o sci-fi britânico "Questão de Tempo", do Richard Curtis, se consolida como uma das obras mais elegantes do gênero nos últimos anos.
Aqui não tem DeLorean atingindo 88 milhas por hora, Skynet, diários de dor e pó mágico. A regra da viagem no tempo na família do jovem Tim (Domhnall Gleeson) é simples: basta entrar no guarda-roupa Marabrás inglês, fechar os olhos, apertar os punhos e pensar no momento exato pra onde quer voltar. Com esse dom na mão, o protagonista tenta resolver o óbvio: consertar as cabaçadas amorosas de Ano Novo, até a paixão de verão pela linda Margot Robbie.
Contudo, o grande mérito do roteiro é não escorregar no quiabo — ou melhor, nos ponteiros do relógio das tramas do gênero. Enquanto a maioria das histórias de viagem temporais se perde em paradoxos gigantescos, com efeitos especiais monstruosos e CGI até a tampa, o filme do Richard Curtis se mantém focado nas miudezas da vida cotidiana, com as pretensões domésticas de um jovem que virou adulto, esposo e pai, e que sonha apenas com uma vida feliz com sua família.
A química de Domhnall Gleeson com Rachel McAdams funciona no timing exato; os dois se dão muito bem em cena, onde misturam drama e um romance agridoce, até que situações difíceis surgem pra tirar a felicidade quase atemporal do longa. É na relação do protagonista com o pai (vivido de forma magistral por Bill Nighy) que o filme encontra sua verdadeira alma. Além da descoberta e dos conselhos de que certas escolhas cobram um preço — das regras biológicas às viagens temporais —, a comédia romântica despretensiosa se transforma num drama profundo sobre o luto e a finitude.
Sem precisar de um único centavo em efeitos digitais mirabolantes, "Questão de Tempo" equilibra de forma brilhante o humor britânico da boa etiqueta com uma melancolia sutil e devastadora. Tudo numa ficção científica humana, precisa e que prova que um bom roteiro e um guarda-roupão escuro valem mais do que qualquer supercomputador louco de Hollywood.
Mundos Opostos
3.4 609⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Uma coisa que a ficção científica moderna nos ensinou é que uma boa premissa visual pode virar uma armadilha mortal nas mãos de um roteiro indeciso. Dirigido pelo argentino Juan Diego Solanas, "Mundos Opostos" tenta erguer um universo grandioso, mas acaba trocando a física e a geopolítica por um romance meloso de banca de jornal que substitui Albert Einstein por Nicholas Sparks.
O conceito até começa instigante: dois mundos gêmeos sobrepostos, colados no mesmo latifúndio cósmico, onde cada um possui sua própria gravidade e realidade social. De um lado, está o mundo cinzento, operário, sujo e infeliz do protagonista Adam (Jim Sturgess); do outro, a metrópole rica, iluminada e corporativa de Éden, interpretada pela dona do "beijo do século dos anos 2000", Kirsten Dunst — que faz milagre para entregar um pouco de dignidade a um papel tão raso. O drama explode quando os dois se apaixonam na juventude e passam anos separados, até Adam ver a amada pela televisão e decidir invadir o mundo de cima a qualquer custo.
A partir daí, a vaca vai pro brejo com força total. Para invadir o mundo de cima, o novinho apela pro contrabando de matéria-prima do planeta vizinho e costura um terno para enganar a gravidade — uma engenhoca estranha que esquenta no corpo até começar a pegar fogo. E a tal geleia rosa? É uma receita mágica da falecida avó dele que equaliza a matéria dos dois mundos, e por causa dela ele arruma um emprego na firma de lá. Para piorar, toda a estética do filme abusa de um CGI apelativo e datado, forçado com excesso de luzes fortes e filtros brilhantes que parecem tinta de placa de anúncio de estrada.
No elenco tem uma turma boa, com destaque pro grande Timothy Spall (eterno Rabicho de "Harry Potter"), que traz um peso como amigo de Adam. Contudo, nada salva a narrativa de virar uma correria maluca dentro de um pote de açúcar, do casal tentando ficar junto, mas a físicaloca não deixa. Só a geleia milagrosa do Nicholas Sparks.
"Mundos Opostos" começa prometendo uma distopia conceitual instigante, mas se esgota rapidamente sob o peso de um CGI artificial, um romance exaggerated e uma geleia que derrete qualquer vestígio de lógica. É uma bomba romântica maquiada de ficção científica pretensiosa.
Mate ou Morra
3.2 162 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Se em dramas existenciais o tempo é um fardo silencioso, em "Mate ou Morra" o looping temporal é uma arena de massacre ininterrupto de sangue, adrenalina e mortes quase sem fim. O diretor Joe Carnahan pega a premissa incrível de "Feitiço do Tempo" e a injeta gasolina e uma estética de videogame frenética, e entrega tregando um dos entretenimentos de viagem no tempo mais loucos, violentos e divertidos dos últimos anos.
No centro do caos está Frank Grillo (Roy Pulver), um ex-agente especial condenado a acordar todos os dias às 7h00 da matina já desviando de um helicóptero e de assassinos dentro do seu quarto. A graça do filme não está em tentar ser profundo, mas na matemática da tentativa e do erro: Roy morre dezenas vezes e de formas grotescas até aprender cada movimento dos seus carrascos. Entre perseguições alucinantes, tiroteios e duelos de espada sensacionais — o treinamento com a lendária Michelle Yeoh para derrotar a ninja cortadora de cabeças é foda —, a narrativa ganha corpo sem nunca perder o ritmo. O elenco ainda conta com Mel Gibson como um vilão corporativo debochado e Naomi Watts dando o suporte científico para a insanidade da máquina, o "Espelho de Osíris".
Por trás de tanta pancadaria, o filme encontra uma camada surpreendente de humanidade no passado de Roy. Homem acostumado à violência e pai ausente, ele percebe no looping a sua única chance de redenção, usando o tempo infinito para se reaproximar do filho que mal conhece. As cenas em que ele simplesmente para de fugir para passar tardes inteiras com o garoto em uma casa de arcade dão mais coração à narrativa, transformando um brucutu em um pai que tenta recuperar os anos perdidos no meio do apocalipse diário.
Quando a história exige o clímax, a produção engata a última marcha numa corrida frenética contra o fim do mundo. Sabendo que tem minutos contados para impedir que a máquina destrua o planeta e salvar a mulher que ama, Roy transforma o aprendizado de centenas de mortes em um balé de violência cirúrgico, enfrentando o exército do vilão em um pico de adrenalina puro.
Com a narração afiada de Frank Grillo, humor ácido, muita violência e uma execução técnica impecável, "Mate ou Morra" entrega um cinema pipoca de alto nível, que sabe usar todos os clichês de ação e de looping temporal pra nos divertir do início ao fim.
Agora Estamos Sozinhos
2.7 138 Assista grátis⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Na esteira do clássico cult "The Quiet Earth", de Geoff Murphy (1985), "Agora Estamos Sozinhos" abandona o ruído dos efeitos especiais e a correria apocalíptica para entregar um estudo de personagem íntimo, silencioso e amargo. Dirigido e fotografado com maestria por Reed Morano, o filme transforma a extinção da humanidade no cenário perfeito pra um tipo de cinema de contenção, onde o silêncio de uma cidade deserta fala mais alto do que uma explosão nuclear.
Aqui não há heroísmo, mas sim uma fuga covarde do passado. O apocalipse se torna o analgésico ideal para dois sobreviventes traumatizados: Del (Peter Dinklage) se tranca em uma reclusão quase doentia, organizando casas de mortos para fingir controle sobre uma vida que já era miserável antes do fim; enquanto Grace (Elle Fanning) surge em uma fuga desesperada, carregando mentiras rasas sobre os pais e traumas que tenta soterrar a todo custo, mas não consegue. São dois tipos de negação colidindo — ele buscando o isolamento absoluto para não ser perturbado, e ela buscando o barulho para não ter que encarar a própria verdade.
A história tem momentos de felicidade contida, alegria breve, mas ganha contornos de uma tensão silenciosa e quase incômoda, até que a chegada de figuras misteriosas do passado de Grace (vividas por Paul Giamatti e Charlotte Gainsbourg), a ilusão desse mundo de vidro sujo se quebra. O filme dá uma virada perturbadora para um thriller psicológico, revelando uma tentativa bizarra de reestruturação social a qualquer custo. O desfecho coloca na mesa um dilema amargo e sem saídas bonitas. No fim do mundo, o que é mais doentio — encarar a dor das lembranças em um mundo vazio e morto ou aceitar a ilusão covarde da felicidade?
"Agora Estamos Sozinhos" é uma ficção científica seca, instigante e que recusa respostas fáceis.
Os Agentes do Destino
3.5 1,1K Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
"Matrix de Gravata que Esqueceu de Entrar na Sombra"
"Agentes do Destino" parte de um conto espetacular do mestre Philip K. Dick, que mostra um grupo de seres nas sombras dos bastidores do mundo moldando nossas escolhas. Mas o diretor George Nolfi preferiu a luz do romance água-com-açúcar ao invés de afundar os pés na lama negra da ficção científica.
Faltou uma atmosfera de sombras, paranóia e claustrofobia de um Dark City (1998), para mostrar esse governo oculto. O filme é curto demais (1h45) para o tamanho do conceito que propõe. Tendo Matt Damon e Emily Blunt com uma química impecável, além de um elenco de apoio formidável (Terrence Stamp, Anthony Mackie), a produção optou pela solução mais rasa e previsível, usando uma corrida romântica fofa que diverte e atende como entretenimento rápido de fim de tarde, mas deixa na boca o amargo do "poderia ter sido um clássico cult inesquecível".
Homens de terno e gravata surgindo por portas ocultas, ameaçando pessoas que saem do roteiro programado... Tudo isso em um confronto tenso entre o determinismo implacável e a força avassaladora de uma paixão. "Agentes do Destino" tinha gasolina de sobra para um suspense avassalador, mas preferiram entregar um passeio no parque.
Céu Vermelho-Sangue
3.0 493 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Em um verdadeiro mar de produções descartáveis, "Céu Vermelho-Sangue" surge como uma puta surpresa no catálogo da Netflix nos últimos anos. Dirigido pelo alemão Peter Thorwarth, o longa começou me enganando com a carcaça de thriller genérico de sequestro aéreo, apenas pra arrombar as portas do gênero e entregar um terror claustrofóbico, sangrento e, pasmem... original. Falei.
A grande força do longa está no subtexto da maternidade em meio ao drama vampiresco e ao caos do sequestro. Acompanhamos Nadja (Peri Baumeister), uma mãe misteriosamente doente que viaja com o filho pequeno buscando um suposto tratamento nos EUA. Quando o voo é tomado por terroristas, a narrativa revela sua verdadeira e grotesca face: Nadja não está doente, mas sim lutando há anos para reprimir uma maldição vampírica através de medicamentos. Forçada a libertar o monstro para salvar seu filho, o filme abandona a estética romantizada do vampirismo moderno e resgata a figura monstruosa, pálida e bestial no melhor estilo Nosferatu, com uma sanguera desgraçada de dar gosto!
Ainda que o roteiro dê umas pequenas escorregadas nos clichês — como o garoto tomando atitudes irritantes que quase colocam tudo a perder —, a tensão dentro do avião é construída de forma incrível. O confinamento transforma a aeronave num abatedouro claustrofóbico à medida que a luta da mãe vira uma infecção infeliz que se espalha sem controle entre os passageiros e os sequestradores.
O desfecho no aeroporto, trágico e sem espaço para milagres, fecha com chave de sangue a jornada de uma mãe que aceitou se tornar o próprio demônio para que o filho pudesse ver a luz do sol. "Céu Vermelho-Sangue" é um filme que eu sempre deixava pra assisitir depois, e fui surpreendido com uma história nervosa, dramática e com cenas frenéticas de ação. Era por filmes com essa pegada autoral e sem medo de arriscar que a gente se apaixonou pelo catálogo da Netflix lá no início.
Cargo
3.1 463 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Entre sangue, gritos, vísceras expostas, correria histérica e hordas inesgotáveis de mortos-vivos querendo cérebro, o longa "Cargo" surge como um raro sopro de sensibilidade, uma mordida leve na carne dura e quase vencida do gênero.
Produzido pela Netflix e dirigido com as patas firmes da dupla Ben Howling e Yolanda Ramke — adaptado do premiado curta-metragem homônimo —, o filme australiano abandona o barulho do caos global para focar suas lentes em uma jornada dolorosa contra o tempo de um pai infectado para salvar sua filha bebê.
Esqueça as transformações instantâneas e os monstros velocistas estilo "Extermínio". Aqui, o vírus age com uma lentidão cruel e burocrática, dando tempo para que a ficha caia, o desespero se instale e o luto seja processado antes da morte física. Martin Freeman entrega uma atuação marcada pelo seu clássico jeitão polido e contido — a civilidade irritante e educada contra o pavor interno de se transformar naquilo que todos temem —, levando a história através de paisagens áridas e sufocantes da Austrália, que ganham um contorno quase espiritual com a presença e o respeito à cultura aborígene local.
Sem apelar pro cinismo ou para a ação insana, o filme constrói seu drama no limite entre a ternura e a tragédia iminente. A dinâmica com a jovem nativa que cruza seu caminho amplia o peso temático da sobrevivência deles. O resultado é um pós-apocalipse melancólico, maduro e humano, que lembra a atmosfera de tragédias silenciosas como o dramático "Maggie" com o tio Schwarzenegger e sua filha zumbi. O cinema de zumbis moderno não precisa mais te assustar com sustos fáceis, mas sim apertar o seu peito devagar até a última cena.
A jornada de "Cargo" tenta ensinar que a humanidade é mantida em pensamentos e ações por pessoas que a guardam no âmago do coração, mesmo elas estejam perto do fim, e perto de perdê-la, para o mostro zumbi ou para o bicho homem.
Army of the Dead: Invasão em Las Vegas
2.8 959⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Zack Snyder deu aula de horror zumbi em "Madrugada dos Mortos", mas assistir a "Army of the Dead: Invasão em Las Vegas" é um choque de realidade. O diretor tentou misturar o terror apocalíptico com filme de assalto a banco e o resultado é, sem dúvidas, uma das produções de zumbi mais decepcionantes dos últimos tempos. O cérebro faz força para esquecer, mas o estrago feito com esse filme da Netflix é irreversível.
O roteiro tenta criar um ecossistema bizarro que beira o ridículo: temos zumbi líder (Alfa), zumbi grávido com feto natimorto, tigre de computação gráfica, zumbi com superpoderes, capacete de ferro para blindar tiro na cabeça e até sentimentos humanos. Como se não bastasse, Snyder tenta empurrar a sua visão das coisas — como na cena constrangedora dos zumbis ao redor da piscina seca, simulando uma "Santa Ceia" renascentista. Querendo ser poético em um filme de mercenários, o diretor só entrega uma imagem borrada, cortesia de lentes vintage operadas por ele mesmo que deixam 80% da tela fora de foco, parecendo um CGI de gaveta sem vida.
O elenco é uma vitrine de estereótipos com diálogos de doer a alma. O protagonista vivido por Dave Bautista tenta emplacar um drama de pai arrependido que não combina em nada com o tom do filme. Ao redor dele, o roteiro distribui tipos genéricos: o técnico especialista em cofres histérico e abobado, a guerreira machona e fria, o vilão corporativo infiltrado previsível e a filha do protagonista — uma personagem insuportável que decide fazer uma missão resgate suicida para procurar uma amiga no meio do caos, sendo a responsável direta pela morte de quase todo mundo.
As cenas finais são um pastelão da porra! Uma correria desajeitada no topo do cassino enquanto o Rei Zumbi Alfa busca vingança pela esposa morta, caindo na porrada dentro do helicóptero com o Bautista enquanto uma bomba atômica despenca do céu.
"Army of the Dead" é a prova de que muita liberdade criativa e dinheiro de streaming sem limites geram um monstro caça-níquel, arrastado de 2h30 desnecessárias que você torce para acabar logo, com todo mundo morto ou mordido. Imaginar que o filme deixa uma ponta para uma sequência chega a fazer a massa encefálica da gente ferver de angústia.
Invasão Zumbi
4.0 2,1K Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Quando assisti a "Invasão Zumbi" pela primeira vez — no auge da empolgação da onda coreana (Hallyu) —, achei um dos melhores filmes do gênero. O ritmo frenético dentro do trem de alta velocidade rumo a Busan e a ideia dos zumbis furiosos, que se atropelam em ondas contra paredes e ficam cegos no escuro dos túneis, trouxeram um fôlego absurdo para o horror zumbi que estava meio morto.
O filme conta a história de Seok-woo, um sujeito ausente e individualista que tenta levar a filha pequena até Busan. Mas, no meio disso, um vírus desconhecido se espalha pela cidade, levando o país inteiro ao apocalipse. É nesse cenário do capeta que o executivo frio passa por uma transformação brutal, virando a figura paterna que a garota tanto precisava. Ao lado dele, típicos personagens coreanos correm feito o diabo para sobreviver, como o fortão Sang-hwa e sua esposa grávida, e os jovens apaixonados que protagonizam uma das cenas mais coreanas do horror zumbi da cultura deles — digna de virar meme de tão melosa e exagerada.
O filme faz questão de mostrar a podridão humana (no Coreia style) na figura do executivo Yong-suk. Em meio ao pânico, o traste manipula os passageiros, tranca portas e empurra o povo — incluindo o grupo de jovens jogadores de beisebol — para as garras dos monstros, apenas para ganhar mais alguns segundos de vida. É essa tensão entre a compaixão dos sobreviventes e a vilania dos covardes que move o enredo, mostrando que a infecção só escancarou o pior que já existia nas pessoas.
No desfecho final, o diretor resolve jogar todos os doces da Coreia de uma vez só na tela! É uma cena feita para você chorar um açucareiro inteiro: o pai, já infectado, luta contra a própria transformação enquanto se recorda com doçura de quando segurou a filha nos braços pela primeira vez, antes de se atirar do trem em movimento. É o suprassumo do melodrama sul-coreano — emocionante, sim, mas você deixa o pâncreas na sala.
"Invasão Zumbi", do Yeon Sang-ho, continua sendo um marco técnico e uma aula de cinema zumbi dos anos 2010. Ao rever o filme com insulina no sangue e os pés no chão, essa mão pesada no sentimentalismo tira quase toda a aspereza do horror que um filme desse precisa, mas ainda vale demais assistir.
Extermínio: O Templo dos Ossos
3.3 276 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Se o filme anterior já tinha mostrado uma virada para um apocalipse rústico e quase medieval britânico, "Extermínio: O Templo do Osso" eleva a régua para um nível de angústia e barbárie que eu esperava ver nos zumbis, não nos humanos. É um filme sombrio, doloroso de assistir em vários momentos, mas inteligente ao mostrar que o verdadeiro apocalipse não é o vírus, mas o que sobra do ser humano quando a civilidade vira entulho.
A grande força do roteiro está no contraste brutal entre dois mundos. De um lado, temos o jovem Spike tentando sobreviver após ser arrastado por "Sir Lord" Jimmy Crystal e seu bando de fanáticos. Acompanhar a queda do garoto e a rotina de crueldade e selvageria desse grupo contra os vivos é desesperador. A maldade deles é consciente, metódica e sádica, resgatando diretamente aquela essência do filme original de 2002 — lembrando que a perda da humanidade faz do homem algo muito pior do que qualquer zumbi.
Do outro lado, temos a vida quase bucólica do Dr. Kelson (Ralph Fiennes) e sua relação quase filosófica com o "Zumbi Alfa" Samson, lembrando uma releitura menos trágica de Frankenstein. O Dr. Kelson era um assombro de erudição, ciência e compaixão no meio daquele caos. A direção da Nia DaCosta consegue capturar essa atmosfera pesada com maestria, fazendo o choque entre esses dois mundos culminar em cenas de pura tensão.
A sequência final — com o Dr. Kelson usando a lábia e encenando a figura de Satã ao som de “The Number of the Beast” pra enganar o bando e proteger o garoto — é lofo, mas deu nó na garganta. O desfecho é amargo, mas sela com chave de ouro esse capítulo tão sombrio da franquia. Mesmo com a clareza, cores fortes e a digitalização 4K tirando o medo, a penumbra e o tom cru de 480p/ 720p do clássico de 2002, "Extermínio: O Templo do Osso" é um grande filme, onde pela primeira vez é mostrada uma sequência direta de um dos filmes da franquia.
A direção da Nia DaCosta é extremamente competente; ela consegue de forma brilhante manter o nível do filme anterior do Boyle, com cenas práticas de terror onde a violência alcança um nível de virar o estômago de zumbi. Jimmy Crystal entrega uma atuação que dá medo na gente. Seu personagem chamando o Diabo de pai mostra o nível de moral que o grupo dele tinha.
Que venham mais aventuras do jovem Spike!
Extermínio: A Evolução
3.1 575 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Quando saiu a notícia de que Danny Boyle e Alex Garland voltariam para a franquia depois de tanto tempo, eu fiquei descrente. Nunca tinha gostado do segundo filme (até assistir a uma versão foda, com uma edição bem diferente da época). E, décadas depois, o que se pode esperar do gênero?
O título nacional "Extermínio: A Evolução" (28 Years Later) é um porre; deviam ter mantido a tradução fiel " 28 Anos Depois " que mostra a linha original do tempo. Na primeira assistida, eu achei horrível. Esperava algo na pegada urbana e crua do clássico de 2002 e dei de cara com um apocalipse inglês meio Mad Max, num mundo ilhado, em ruínas e quase medieval. Achei estranho. Mas, justiça seja feita: ao rever o filme com a cabeça fria, a obra se revelou um grande filme apocalíptico.
Passados 28 anos do surto inicial, o filme acompanha uma família numa ilha fortificada na Grã-Bretanha. A comunidade sobrevive em ciclos rígidos, aproveitando a maré baixa para cruzar para a terra firme. A virada acontece quando o garoto Spike (Alfie Williams) descobre que o pai (Aaron Taylor-Johnson), que ele tinha como herói, estava traindo sua mãe doente (Jodie Comer), que sofre com um tumor cerebral. Puto e decepcionado, o menino pega a mãe e foge em busca de uma cura, encontrando um mundo doente, mas com um curador no meio dele.
Ralph Fiennes surge como um primata em meio ao apocalipse. Ele vive um médico eremita sobrevivente, isolado num templo feito de ossos. O cara se cobre de mercúrio para afastar contaminações e estuda os zumbis com uma visão quase religiosa e bárbara de honrar os mortos enquanto os analisa. A relação que se cria ali traz um peso dramático e filosófico totalmente novo para a franquia. A humanidade do Dr. Kelson era um assombro luminoso esquecido em meio ao fim da sociedade. A forma como ele lida com o problema do jovem Spike supera qualquer ato de um homem em meio ao caos daquela ilha. Foi triste e, ao mesmo tempo, belo o que ele fez pela mãe do garoto.
O filme entrega sequências de tensão absurdas. A primeira saída do menino com o pai já mostra a correria desesperada contra os infectados, com a introdução do novo "Zumbi Alfa" que eleva o perigo no longa. A cena angustiante em que o garoto dorme de cansaço quando deveria vigiar e a mãe, mesmo debilitada, foi de tirar o meu sono. Também tem o triste fim do soldado esquecido, massacrado pelo Alfa, uma coisa quase trash. Mas o desfecho, unindo o sacrifício da mãe e o aprendizado do garoto com o personagem de Ralph Fiennes, deixa uma marca profunda e inesperada para a franquia, que parecia ser apenas mais uma correria louca de zumbi querendo cérebro.
"Extermínio: A Evolução" pode ter dividido opiniões no lançamento pela mudança drástica de tom, mas é um retorno de respeito de Danny Boyle ao gênero que ele próprio reinventou. O filme dá uma mordida na expectativa clichê do cinema de zumbi de hoje, entregando uma história com algo a mais que as outras estão longe de ter. Que venham mais 28 alguma coisa!
Extermínio 2
3.4 752 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Quando eu aluguei esse filme, confesso que achei "Extermínio 2" muito inferior ao clássico do Danny Boyle. Parecia meio bobo, com uma pegada genérica. Revi depois e achei pior, mas reassistindo hoje numa versão com um corte totalmente diferente em cenas decisivas, o filme é outro! O filme de Juan Carlos Fresnadillo é espetacular, dramático e de um pessimismo angustiante que poucas coisas do cinema de horror zumbi conseguem entregar.
O início te uma das aberturas mais chocantes e desesperadoras da história do gênero. O prólogo na casa de campo — com o pai (Robert Carlyle) abandonando a própria esposa para trás e correndo como um louco pelo pasto enquanto os infectados aparecem do nada — é uma aula de tensão e covardia humana. A trilha sonora icônica do John Murphy dá o tom do pesadelo que está por vir.
O lance da reconstrução de Londres pelo exército americano é excelente, tudo é perfeito e controlado, mas o colapso da quarentena é inevitável e foda. Os filhos Tammy (Imogen Poots) e Andy (Mackintosh Muggleton) fogem da cidade e encontram a mãe viva, sem saber que ela é portadora do virús, o contágio volta com força brutal depois do beijo maldito do marido. Quando os bichos começam a correr, mano... é a desgraça a 40 km/h! A decisão do comandante (Idris Elba) de decretar código vermelho e mandar os snipers atirarem em todo mundo, civil ou zumbi, transforma a cidade num matadouro a céu aberto.
O elenco segura o drama com maestria. A Rose Byrne como a médica Scarlett e o Jeremy Renner como o atirador Doyle dão alma ao filme tentando proteger as crianças. E que cena marcante a do Jeremy Renner! O sacrifício do personagem dele, empurrando o carro travado no meio da rua enquanto é incinerado pelo lança-chamas do próprio exército para fazer o motor pegar no tranco, é de um heroísmo visceral.
As cenas finais é um massacre no escuro, com a desfecho dramático da Rose Byrne e o pai infectado perseguindo os próprios filhos até o último segundo. O fechamento na França — com a horda de zumbi correndo em direção à Torre Eiffel — é aquele apocalipse morto vivo que a gente sempre sonhava na época. A edição de cinema não ajudou, mas finalmente a obra foi ajustada. "28 Weeks Later" é um filmaço que merecia essa redenção.
Atlas
2.9 170 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Na primeira assistida, no calor das explosões, eu até curti. Mas reassistir a "Atlas" na Netflix é pra passar raiva do início ao fim. O filme é o puro sumo do fundo de tela, feito por algoritmo, sobre inteligência artificial, apenas para deixar rodando na TV enquanto mexe no celular.
A trama é um reaproveitamento de tudo o que a ficção científica já fez, só que sem charme algum. Num futuro onde uma I.A. doida chamada Harlan (Simu Liu fazendo pose de T-1000) surtou e tentou acabar com o mundo, foge pra um planeta distante. Anos depois, a analista Atlas Shepherd (Jennifer Lopez) — que literalmente criou o vilão na infância — vai junto com uma tropa de elite para zerar o CPF do robô no morro de Andrômeda. A missão dá errado em 5 minutos, todo mundo morre e sobra só a J.Lo sozinha no planeta com um robô gigante.
O filme é um telão azul e verde eterno que dói na retina. Parece que você está assistindo a uma cutscene interativa do PlayStation 3. Tudo é plastificado, a poeira do planeta parece filtro de computador e os cenários são genéricos de sériede streaming. Um fiasco que não entrega textura real alguma.
É preciso honrar a Jennifer Lopez! A gata se entrega na personagem. Ela chora, grita, surta dentro da cabine e tenta dar alma pro texto. O problema é que nem a dedicação dela — e nem o coque desajeitado de quem foi fazer faxina — salvam o fato de que ela passa metade do filme conversando sozinha com uma voz de GPS simpática chamada Smith.
Se tem algo que distrai a cabeça na madruga, é a correria do terço final. O capanga do vilão, com o batizado bizarro de "Casca", entrega um pega-pega genérico, mas divertido. Tem tiro para todo lado, corre corre, falta de oxigênio, nave explodindo, robô de CGI se espancando no meio do nada, e a amizade de uma humana com um software.
"Atlas" é a prova de a Netflix não tem dó do cérebro da gente. O filme promete uma ficção científica profunda sobre os perigos da Inteligência Artificial, mas entrega apenas uma aventura genérica de robô de plástico com cara de comercial de brinquedo. Sou apaixonado pela J.Lo, mas rever esse filme é um ato de coragem.
Círculo de Fogo: A Revolta
2.8 498 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
"Círculo de Fogo: A Revolta" é um filme sem alma, sem peso e sem vergonha. O que poderia ser uma franquia única no cinema foi transformado num episódio genérico dos "Power Rangers" das 10h da manhã da Globo.
A física do primeiro filme sumiu: os mechas de toneladas agora parecem feitos de isopor e papel alumínio, dando piruetas de menino de farol, saltando prédios em pleno dia e correndo como se fossem bonecos de PS3. Sem a chuva e sem o tom sombrio de Guillermo, as batalhas ensolaradas só expõem o CGI plastificado que parece comercial de brinquedo da Glasslite dos anos 90.
No filme anterior, Guillermo entregou uma verdadeira obra-prima do cinema de robôs e monstros. A obra dele tinha peso, gravidade e alma: quando um Jaeger andava, a terra tremia, quando dava um soco, você sentia o rangido da lata amassando e o impacto da água do oceano. Era um espetáculo escuro, chuvoso e com uma iluminação neon impecável de funilaria pesada.
Essa sequência trata o legado do original com um desrespeito inacreditável. A Mako Mori (Rinko Kikuchi) — a verdadeira alma do primeiro filme — é descartada num acidente de helicóptero medíocre só pra dar motivação pro filho do Pentecost (John Boyega no piloto automático). Raleigh Becket (Charlie Hunnam), esse coitado evaporou da história como nunca houvesse existido. Tudo pra dar lugar a rebelde e inteligente Spaeny (Amara) que vive a cuidadora mirim de robôs; tipo personagem que empesteia os hoje o cinema de ficção. Para completar o circo, colocam uma academia de adolescentes Nutella pilotando robôs de bilhões de dólares com a força de um iPhone e transformam o cientista maluco num vilão de desenho animado ridículo.
"Círculo de Fogo: A Revolta" é a prova cabal de como Hollywood consegue esmagar uma ideia genial sem o menor pudor. Ao trocar a física brutal e a escala monumental do Del Toro por uma trama boba de adolescentes, um vilão idiota, em cenas de luta de boneco de plástico e firula em CGI, o filme destruiu a franquia. Ver no cinema foi vergonhoso. A diferença dos dois filmes é tamanho de um Kaiju categoria 5, pra um boneco de MacLanche feliz.
A Revolta que fica é na gente.
Planeta Vermelho
2.8 95⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Na virada do milênio, Hollywood surtou com as imagens que a NASA enviava de Marte. Os estúdios acharam que o público estava sedento pelo terrão vermelho do planeta, começando uma corrida maluca nos cinemas. A Disney lançou "Missão: Marte", e a Warner correu para colocar "Planeta Vermelho" nas telonas. O resultado? Um filme pior que o outro.
O roteiro de "Planeta Vermelho" é uma bagunça sem identidade. Em 2056, a Terra está morrendo de poluição e uma missão é enviada para checar a terraformação de Marte, onde algas haviam sido plantadas para gerar oxigênio. Só que tudo dá errado na chegada: a nave de pouso é destruída e a tripulação fica isolada no solo marciano sem comunicação adequada. A partir daí, o filme não sabe o que quer da vida.
É suspense de alga marinha, robô surtado, inseto carnívoro e astronauta psicopata. O diretor Antony Hoffman levou a produção para onde nenhum diretor de blockbuster ainda tinha ido — a não ser na vastidão do mundo trash e do cinema B. "Planeta Vermelho" é quase um surto de ideias num filme só. Enquanto a gente espera uma ficção científica espacial de respeito, o diretor pira com as imagens de Marte e entrega uma aventura ecológica no estilo "Ilha da Fantasia".
O elenco no papel era um esquadrão de elite: Val Kilmer, Carrie-Anne Moss, Tom Sizemore, Simon Baker, Benjamin Bratt e o veterano Terence Stamp — nomes fortíssimos dos anos 80 e 90. Mas a química em cena foi destruída por uma verdadeira guerra civil nos bastidores. Val Kilmer e Tom Sizemore se odiavam tanto que chegaram às vias de fato no set. A briga foi tão feia que a equipe teve que rodar cenas com dublês e ângulos separados para que os dois não precisassem dividir o mesmo espaço. Enquanto isso, Carrie-Anne Moss passou o filme inteiro isolada num cenário de maquete, atuando sozinha como a Comandante Bowman — funcionando quase como um serviço de SAC da NASA pelo rádio enquanto os homens brigavam "também" no deserto.
Os efeitos em CGI envelheceram como leite fora da geladeira. O robô AMEE dando piruetas em slow-motion e a nuvem de insetos parecem gráficos da primeira geração do Nintendo. E para fechar a cadeia com você do lado de dentro, a resolução do problema deles na história é digna das gambiarras das oficinas ao lado dos buracos na estrada! Depois que os astronautas morrem por conta do robô surtado, do inseto carnívoro e do astronauta psicopata, o engenheiro vivido por Val Kilmer precisa achar um módulo soviético abandonado nos anos 70 para fazer uma "chupeta" na bateria com sucata e conseguir se acoplar de volta à nave da Carrie-Anne Moss. Só isso. E ele consegue... afinal, tinha oxigênio em Marte, Posto Ipiranga e baterias Moura. E se não tivesse, bastava um chiclete e uma pilha Duracell para a missão ser cumprida!
"Planeta Vermelho" é o resultado do surto que os estúdios tiveram com o planeta vermelho nos anos 2000. É mais um sci-fi pretensioso e genérico que tomou os cinemas e as locadoras, mas que causou pouco interesse no público. Eu, por exemplo, nem quis alugar na época, e quando passou na TV eu nem raspei os olhos — só fui assistir anos depois na internet. Pena, viu? Gastar uma fortuna para transformar a exploração do espaço numa briga de bar com robô da Estrela e inseto de plástico é demais para a cabeça.
Missão: Marte
3.0 154 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Nos anos 2000, Hollywood deu 100 milhões de dólares pro Brian De Palma fazer o seu próprio "2001: Uma Odisséia no Espaço". O resultado foi "Missão: Marte" (Mission to Mars), um mamute orçamentário que reúne Gary Sinise, Tim Robbins, Don Cheadle e Connie Nielsen para fazê-los passar duas horas com cara de paisagem vermelha num filtro de câmera Kodak.
A desgraça começa quando a primeira equipe é atacada por um vórtex alienígena — um tornado de areia em CGI mambembe que parece um liquidificador gigante que tritura os astronautas sem dó. O único sobrevivente é o personagem de Don Cheadle, que fica preso anos sozinho em Marte, morando numa estufa improvisada, cultivando plantas pra conseguir respirar, e trocando ideia com as alfaces da horta que cuida.
No meio do filme a trama descamba pra um melodrama de espaço ridículo, desses clichês brabo que tem até em animação. Na cena da caminhada espacial no vácuo, vendo que a esposa vai abraçar a morte, o personagem de Tim Robbins simplesmente tira o capacete no meio do nada. Né? O sujeito congela na hora, virando um picolé espacial com cara de pânico, enquanto a esposa grita no vácuo sem som, um dramalhão de quinta categoria.
Quando finalmente resgatam o doidão do Don Cheadle na estufa, o filme dá vida de forma mequetrefe às histórias do livro do Erich von Däniken "Eram os Deuses Astronautas?". Eles descobrem que a famosa "Face de Marte" é uma catedral alienígena e conseguem entrar assobiando a sequência do DNA humano — porque a fechadura intergaláctica meio que funciona por reconhecimento de voz igual ao portão eletrônico do condomínio.
Lá dentro, tem um ET em CGI translúcido (acho que é rascunho de algum filtro de tela do Windows 98), que faz um holograma brega da história do mundo, explicando que foram os alienígenas que semearam a vida na Terra e blá-blá-blá. O ápice do ridículo é o Gary Sinise chorando de emoção, entrando num casulo cheio de água de privada espacial e sendo disparado para outra galáxia com um sorriso de noivo no altar.
"Missão: Marte" é a prova de que nem mesmo o talento de Brian De Palma salva um roteiro que mistura ficção científica, terror B de tornado de areia, sobrevivência de alfaces e breguice intergaláctica. Na época eu assisti ainda nas TV de tubo das Telas Quentes da vida. Achei legal, mas foi só. Revendo hoje é preciso ter paciência com as escolhas ruins do Palma. Pelo menos "Missão Marte" ainda distrai um pouco.
Passageiro Acidental
2.7 290⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
Quem teve a experiência de ver o trailer de "Gravidade" do Alfonso Cuarón no cinema, com a Sandra Bullock sendo lançada no espaço e depois viu o filme, viveu uma página da ficção no cinema. Aquilo era filme de espaço. E depois "Interestelar" do Christopher Nolan fez uma geração inteira olhar para as estrelas, sem ter um sabre de luz nas mãos. A Netflix olhou tudo isso, babou de inveja e resolveu fazer o seu filme de espaço. O resultado? "Passageiro Acidental", uma bomba arrastada que dá saudades da turma do Darth Vader, e de ter o sabre de luz dos dois nas mãos de novo.
O filme do Joe Penna leva três astronautas rumo a Marte — Marina Barnett, Zoe Levenson e David Kim (Toni Collette, Anna Kendrick e Daniel Dae Kim) —, mas logo após a decolagem eles descobrem um quarto passageiro... um técnico de suporte que simplesmente desmaiou e ficou preso no teto do painel antes do lançamento!
Mano, na moral, como uma agência espacial lança um foguete de bilhões de dólares sem checar se tem um cara preso e sangrando nas engrenagens? Só faltou voar com a porta aberta igual aos trens de Sampa nos anos 80 e 90. Para piorar, o infeliz cai exatamente em cima do purificador de ar, destrói o sistema e fode a missão.
A partir daí, o filme vira uma matemática do tédio, onde só tem oxigênio para três pessoas numa viagem que dura dois anos. Em vez de fazer um suspense psicológico afiado e visceral, sobre quem vai ser o boi de piranha, a gente é condenado a acompanhar duas horas de reuniões burocráticas e conversas sussurradas dentro de maquetes baratas de estúdio, de cientistas no ódio puro, mas que disfarçam a desgraça com um sorriso amarelo.
Quando os atores finalmente saem da nave para buscar oxigênio nos tanques externos, a tentativa de simular gravidade zero é patética. A sequência é zero vertigem, zero perigo e zero peso dramático. Zero "0". Parece um ensaio de teatro de faculdade com os atores em slow-motion pendurados por cabos dentro de um tubo de PVC.
"Passageiro Acidental" da Netflix é um tédio claustrofóbico e asséptico. É o puro vácuo narrativo de alguém que não tinha nada para falar e fez um discurso. É um filme arrastado e pretensioso que consegue a proeza de fazer uma viagem a Marte parecer uma reunião de condomínio dentro de vagão de trem. Tenta se vender como uma experiência profunda e humana sobre sacrifício, mas só entrega um vácuo de ritmo, emoção e efeitos visuais.
Nem do final eu me lembro.
Ficção Científica Volume 1: O Legado de Osiris
2.5 63 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
"Ficção Científica Volume 1: O Legado de Osíris" é o puro Corote do Cine B rasteiro de fim de noite da Band, só que com a petulância e a arrogância de colocar "Volume 1" no título achando que o filme ia virar o novo Star Wars dos cinemas. Spoiler: o "Volume 2" nunca existiu, e o cinema agradece.
O diretor Shane Abbess tentou fazer o seu próprio "Mad Max" no espaço misturado com "Alien", mas entregou uma salada espacial de clichês. O elenco é basicamente um bando de bonecos de posto de gasolina — liderados por Kellan Lutz (o vampiro genérico de Crepúsculo atuando com a expressividade de um pedaço de pau) — correndo de um lado para o outro no deserto com armas de plástico na mão, fazendo pose e fugindo de monstros que parecem fantasias recicladas dos Power Rangers.
Dividido em "capítulos" bregas para tentar parecer um épico literário, o filme não passa de um tiroteio genérico de laser barato com filtro amarelado, naves de papelão caindo e um dramalhão de pai querendo salvar a filha que não emociona nem porta do banheiro. As poucas cenas de ação e perseguição de naves parecem cutscenes ruins de videogame dos anos 2000.
"O Legado de Osíris" só tem título. É um horror técnico e narrativo cujo legado real foi ter deixado uma promessa de continuação que felizmente virou fumaça. O filme tem um pouco mais de uma hora e meia, mas parece que tem 3:00hrs. Arrastado, raso e pretensioso.
Nova Ordem Espacial
3.6 122⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme (sorte a sua), corra daqui.
Assisti a "Nova Ordem Espacial" na época do lançamento embalado pelo hype da onda coreana da Netflix e gostei bastante, achei divertido. Mas resolvi reassistir com a guarda alta e a experiência é um horror. Dá uma vontade incontrolável de sair correndo pelado pela rua até ser preso e apanhar na delegacia só para despertar desse transe maldito e apagar da memória que um dia eu gostei disso.
O filme do diretor Jo Sung-hee tenta ser um "Guardiões da Galáxia" do camelô, acompanhando uma tripulação de lixeiros espaciais num ano de 2092 genérico. O resultado é um suplício de duas horas onde os personagens passam a maior parte do tempo gritando, se espancando, chorando ou cobrando dívida. O Tae-ho (Song Joong-ki) vive com cara de coitado lamentando o passado, a Capitã Jang passa o filme de óculos escuros fazendo pose de durona genérica, e o robô de CGI fica jogando arpão para lá e para cá parecendo que está na nóia.
A premissa é um amontoado de clichês rebatizado: a Terra está inabitável (novidade!) e a corporação malvada do CEO Sullivan quer criar uma utopia em Marte só para os ricos. E a grande ameaça que mobiliza a galáxia inteira é uma garotinha robô fofa que é uma bomba ambulante, mas que na verdade só quer desenhar e plantar árvore. Ninguém conversa, mas as vezes surge um arrastão de blá-blá-blá do infeno que não serve pra nada.
A computação gráfica parece uma tela de descanso do Windows no modo demonstração. É um excesso de luzes néon, partículas piscando, naves acelerando e explosões que poluem a tela sem dar um segundo pra gente respirar. Junta isso a lutas, correria e à bagunça dos personagens falando várias línguas através de um tradutor. Resultado? Cansa mais do que entretém.
E o clímax consegue ser o ponto alto dessa balbúrdia: no ato final, o filme vira uma espécie de Star Trash: A Guerra dos Garis, onde a mensagem central é basicamente "Lixeiros unidos jamais serão vencidos!". É uma batalha espacial mambembe de todos os caminhões de lixo da galáxia se juntando contra o Império corporativo, numa gritaria coletiva e caótica que tenta ser épica, mas só dá vontade de jogar o filme no lixo e pôr na rua pra turma da reciclagem ver se salva.
"Nova Ordem Espacial" é o puro suco do blockbuster coreano, feito com água de privada do algoritmo: colorido, barulhento, lotado de efeitos visuais sem alma e com zero substância. É um dramalhão infantilizado disfarçado de ficção científica espacial. Uma bomba ruidosa da Netflix que serve apenas para mostrar que nem todo lixo espacial merece ser reciclado.
Terra à Deriva
3.1 121⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui. E valorize seus neurônios e seu tempo de vida.
Lançado pela Netflix como o "grande orgulho do sci-fi chinês", "A Terra À Deriva", do diretor Frant Gwo, é uma das experiências mais cansativas, esgotantes e acéfalas que o cinema de ficção científica teve nos últimos tempos. O filme pega uma premissa megalômana e idiota — instalar milhares de motores gigantes na superfície para empurrar o PLANETA INTEIRO fora de órbita — e a transforma num suplício visual e mental de duas horas que faz a gente sentir que foi jogado para Júpiter sem capacete.
A física do filme é jogada no vinagre no primeiro minuto: para viajar pelo espaço, os caras simplesmente param a rotação da Terra (o que destruiria o planeta na hora) e saem pilotando o globo terrestre como se fosse um carrinho de mão. Quando chegam perto da gravidade do planeta, a solução "gênia" do roteiro é explodir a atmosfera do gigante gasoso para dar um "empurrãozinho" para a Terra pegar no tranco. Tudo isso num CGI grotesco e saturado, com terremotos, caminhões no gelo e cenários congelados que parecem tirados diretamente de uma animação barata de videogame do início dos anos 2000.
Para piorar o martírio, o filme é um dramalhão insuportável de gritaria. Ninguém conversa nessa desgraça: os personagens passam o tempo todo urrando, chorando de forma histérica e tomando as decisões mais estúpidas possíveis para forçar sacrifícios heróicos cafonas pelo partido. O roteiro se arrasta num ritmo tão frenético, barulhento e repetitivo que o resultado não é entretenimento — é puramente exaustão.
"A Terra À Deriva" é uma dor de barriga que alguém teve e jogou nas telas. É o puro esvaziamento criativo moderno: barulhento, cheio de efeitos visuais sem alma e zero substância. É uma bomba chata, cafona e profundamente irritante que não vale o tempo de ninguém. Um verdadeiro teste de paciência que não merece nem estar nas caixas de promoções das barraquinhas de DVDs dos camelôs da esquina.
Os Escolhidos
3.3 972 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu esse filme, corra daqui.
"Os Escolhidos", de Scott Stewart, mescla a fórmula clássica de invasão domiciliar com o subgênero de abdução extraterrestre. Em vez de naves colossais ou batalhas no espaço, o filme aposta na paranoia de uma típica família de subúrbio que vê sua rotina e sua sanidade serem jogadas no vinagre por forças invisíveis.
A trama acompanha o casal Daniel (Josh Hamilton), um pai de família desempregado sob pressão financeira, e Lacy (Keri Russell), que tenta manter a casa em ordem enquanto lidam com os atritos conjugais. A estabilidade do lar começa a ruir quando eventos de exorcista passam a acontecer: latas de comida empilhadas de forma impossível na cozinha, alarmes de segurança disparando sem motivo e revoadas de pássaros se chocando em massa contra as janelas. Para piorar, o filho caçula passa a entrar em transe e a exibir marcas e queimaduras geométricas estranhas pelo corpo.
No desespero, o pai gasta o dinheiro que não tem para instalar câmeras de segurança pela casa. Porém, as gravações entregam estática, interferências e vultos que as autoridades e a polícia simplesmente ignoram, tratando a família como instável ou doida. É aí que o filme traz o lendário J.K. Simmons como Edwin Pollard, um especialista em Ufologia que entrega a pior notícia possível: o processo de marcação dos "Cinzentos" (Greys) já começou, e não existe alarme, tranca ou arma que possa impedir a abdução final.
O longa brilha na construção do clima de isolamento, da crise conjugal e do desespero de não ser creditado por ninguém. Contudo, derrapa no terceiro ato ao ceder a jump scares genéricos num ritmo de thriller de terror mainstream que enfraquece um pouco todo o mistério construído. A revelação de qual dos filhos era o verdadeiro alvo dos alienígenas dá um bom choque, mas não é suficiente para salvar o filme de ir parar naquela estante de locadora junto com dezenas de produções do tipo.
"Os Escolhidos" é um Filme B honesto que acerta na ambientação da paranoia doméstica e no mistério sci-fi, contando com ótimas atuações, mas empaca na falta de coragem para ir além dos clichês de abdução. É um filme que diverte pelo clima de desconforto, mas que não deixa marcas profundas que coloquem a obra em outro patamar. Dá pro gasto...
Missão Babilônia
2.8 298 Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
Quando o diretor do próprio filme aparece em público para detonar seu trabalho, é porque a coisa é braba. "Missão Babilônia", baseado no romance de Maurice G. Dantec, tinha tudo para ser uma distopia brutal sobre eugenia, religião e controle corporativo, mas foi operado pela própria firma. Nas mãos do diretor francês Mathieu Kassovitz, o projeto prometia. No entanto, o resultado final foi uma aberração cinematográfica tão retalhada e sem nexo que, antes da estreia, Kassovitz foi a público e soltou a língua, dizendo que a Fox transformou sua obra em "uma violência burra, ruim e estúpida".
A trama mostra Toorop (Vin Diesel), um mercenário brutal e entediado que vive quase na miséria num futuro pós-apocalíptico genérico. Ele é contratado por um mafioso russo — vivido por Gérard Depardieu com um nariz postiço (se é que precisa) medonho e sotaque de desenho animado — para uma missão simples: escoltar uma jovem chamada Aurora (Mélanie Thierry) e sua protetora, a Irmã Rebecca (Michelle Yeoh), da Ásia Central até Nova York. O problema é a salada mística que o roteiro tenta engolir: Aurora foi geneticamente modificada por uma seita religiosa futurista, os "Noelitas", e está grávida, virgem e de gêmeos. Sim, o filme tenta emplacar uma versão ciberpunk da "Imaculada Conceição", onde a garota é uma espécie de Messias/computador humano projetado para arrancar dinheiro dos fiéis com a religião.
O elenco é um desfile de desperdícios e atuações no piloto automático. Vin Diesel interpreta a si mesmo com a mesma voz de motor e a carranca de Velozes e Furiosos, tentando se passar por um herói durão enquanto desfila de casaco de pele no gelo e solta frases de efeito saídas direto de biscoito da sorte. A lendária Michelle Yeoh, uma das maiores divas do cinema de artes marciais da história, é reduzida a uma freira genérica que mal tem espaço para dar dois chutes antes de ser morta.
As cenas de ação não têm peso, ritmo ou impacto. Sequências com drones no Alasca, perseguições em nevascas e submarinos parecem colagens de videogames ruins do início dos anos 2000. O clímax do fim meio que dói as vistas! Após um tiroteio do capeta, a garota morre no parto, Vin Diesel vira pai adotivo dos mutantes, solta uma narração cafona sobre o futuro e o filme simplesmente acaba do nada, parecendo que a fita da projeção rasgou no meio.
"Missão Babilônia" é o retrato perfeito do esvaziamento mental e artístico dos estúdios da época. Pegaram o conceito de um sci-fi instigante, rasgaram a visão do diretor e entregaram uma xaropada picotada, frouxa e sem alma. Um verdadeiro lixo ciberpunk que nasceu morto e que nem o próprio criador fez questão de defender.
Alien: Covenant
3.0 1,3K Assista Agora⚠️ Aviso de Spoilers: Se você ainda não assistiu a esse filme, corra daqui.
"Prometheus", de Ridley Scott, foi uma das obras mais corajosas e instigantes da ficção científica moderna. O filme terminou com uma promessa grandiosa na tela, na qual a Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), movida pela fé, e o androide David (Michael Fassbender), movido pela curiosidade perversa, decolavam em uma nave alienígena rumo ao planeta natal dos Engenheiros para questionar os criadores da humanidade. Mas em "Alien: Covenant", Scott e o estúdio acabaram com tudo. O povo só queria ver o monstro babando na tela de novo, então jogaram fora toda a mitologia expandida para entregar um slasher movie genérico de espaço, repleto de conveniências baratas e personagens estúpidos.
O crime imperdoável do filme é o descarte fácil e absoluto da Elizabeth Shaw. A heroína que encarou uma cesariana alienígena a frio, viu o namorado sendo contaminado e queimado vivo, peitou o dono da corporação e correu de um dos Engenheiros foi exterminada fora de tela de forma miserável. Toda a jornada ao planeta dos criadores — que tinha potencial para ser um puta épico filosófico sem precedentes — foi reduzida a um flashback de trinta segundos onde David simplesmente joga o patógeno preto nos Engenheiros, dizimando uma civilização inteira como quem joga SBP num formigueiro. Encontrar o corpo dissecado e mutilado da Dra. Shaw no laboratório daquele filho da puta foi um tapa na cara de cada espectador que esperou anos para ver aquele encontro.
Para piorar, a escrita dos personagens humanos atinge o Evereste da estupidez biológica e profissional. A nave Covenant, carregando mais de duas mil pessoas em congelamento e milhares de embriões para colonizar um planeta mapeado há anos, decide mudar de rota e arriscar a vida de todo mundo só porque captou um áudio aleatório de alguém cantarolando no espaço. Ao chegarem no planeta desconhecido, a tripulação de "cientistas" desembarca sem capacete, sem máscara, sem terno de isolamento e sem qualquer protocolo biológico. Os caras pisam na lama e cheiram plantas desconhecidas como se fossem um Golden solto no quintal de casa.
A partir daí, o terror da franquia se transforma em comédia involuntária de erros. O desespero da enfermeira no módulo de pouso — que tranca o colega infectado, escorrega em poças de sangue, surta, atira no próprio tanque de combustível e explode a própria nave — é um espetáculo de burrice. Ninguém age como profissional, ninguém raciocina, e todos existem apenas como bucha de canhão para que David possa brincar de "Deus".
O filme tenta se salvar sustentado na atuação de Katherine Waterston (Daniels) e na atuação dupla de Michael Fassbender (David e Walter). Os dois são o único pilar que impede a produção de desabar completamente. No entanto, o roteiro estraga tudo ao forçar uma filosofia rasa sobre criação e arte — numa sessão bizarra de flauta e versos de poesia —, enquanto o Xenomorfo vira projeto de biologia de um robô frustrado, solitário e com complexo de Édipo. E para coroar o vexame, a revelação final na nave é extremamente previsível. A única coisa que salva a cena é o desespero de Daniels logo após ser trancada na câmara de criogenia e descobrir a armadilha em que caiu.
"Alien: Covenant" é decepcionante demais. É um vexame monstro, uma das sequências mais vergonhosas da ficção científica dos últimos anos. Vender essa bagunça como a origem ou a primeira aparição do Xenomorfo foi um insulto ao público e ao legado do cinema de horror. Ridley Scott pegou uma das maiores franquias da história, jogou uma heroína espetacular no lixo, destruiu os Engenheiros e entregou um filme desastroso, covarde e profundamente decepcionante. Tenente Ripley e agora a Dra. Elizabeth Shaw, o Ridley Scott não sabe lhe dar muito bem com as heroínas que cria.