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Gisberta Salce era uma mulher transexual brasileira que vivia como imigrante em Portugal. Ela foi brutalmente assassinada há 10 anos, e desde então se tornou símbolo da luta pelos direitos transexuais. Este documentário constrói um retrato delicado, peça por peça, de uma mulher despedaçada por um mundo indiferente.
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Fugir de padrões incomoda. Existem diversos exemplos da vida cotidiana nos quais o diferente é recebido pela sociedade em geral com espanto, preconceito e, muitas vezes, violência.
Ao estilo de carta, o que primeiro ocorre na abertura do filme A Gis é o estabelecimento de um local é: Portugal, fevereiro de 2006. O diretor Thiago Carvalhaes opta pela exposição de imagens e relatos inicialmente enigmáticos. Não sabemos de quem é o corpo encontrado em um poço, apenas sobre a violência que sofreu. O pouco que nos é fornecido serve como estímulo à curiosidade. Queremos saber quem foi aquela pessoa e como foi parar ali.
Aprende-se que o corpo era de Gisberta, uma mulher trans que se mudou do Brasil para a Europa ilegalmente e, após alguns anos em Portugal, morreu em um longo, doloroso e brutal assassinato. O filme passeia por esses relatos, como se tateasse para descobrir mais da vida e dos sentimentos daquela pessoa. A assistente social fala sobre como as amigas descreviam Gisberta e sobre como a encontrou já enfraquecida pelo abuso de drogas e pela doença que carregava. A pessoa bonita e alegre que lhe descreveram foi tomada por outro ser, combalido e frágil.
Esses relatos são ora acompanhados das sombrias imagens de locais abandonados, ora com imagens que remetem ao cotidiano de Gisberta: as paredes da casa onde costumou viver, a rua de paralelepípedos por onde caminhava com frequência, festas que provavelmente frequentava. A alternância diminui quando ocorre o relato do irmão, que mora em São Paulo. Fotos da infância de Gisberta são mostradas enquanto o irmão fala do comportamento de Gis quando pequena e sobre como ocorreu a mudança para outro continente. Demonstrando ignorância quanto à pessoa que Gisberta era, ele revela que não notou sequer a mudança de gênero nas muitas cartas e cartões-postais enviados por ela, que antes se chamava Gisberto.
Como se pode amar alguém, mas não amar “o que este alguém é”? A complexidade do sentimento carrega na equação um misto de preconceito formado pelo cotidiano e pela sociedade em que sempre se viveu, mas também pelos dogmas religiosos. Não amava o que era porque “era contra o que Deus diz”, ele se justifica.
Poetizando o trágico, mas honrado, caminho da personagem, Maria Betânia canta na música feita em homenagem à Gisberta: “Trouxe pouco, levo menos”. Mais que denúncia protocolar contra os abusos e crimes sofridos por LGBTs no Brasil e em Portugal, a estrutura do filme é de uma sensível homenagem e testemunho de que naquele corpo havia uma pessoa. Uma pessoa que saiu incompreendida, como muitas, do seu local de origem e que foi tentar a sorte em terras distantes. Uma pessoa que era conhecida por ser alegre, bonita, radiante, mas que o irmão, diferente do relato da mãe, se recusava em reconhecer quem ela era: não era só um corpo diferente. Ela era a Gis.
Não consegui acessar o filme para assisti-lo. Queria muito revê-lo. por favor, digam-me o que ocorreu.
Valeu
de partir o coração.
Impressionado! Adentrei a sessão um tanto desconfiado com o excesso de prêmios e elogio que este curta-metragem vem recebendo, mas... Não tem como não se emocionar: o uso da magnífica balada interpretada pela Maria Bethânia, a subversão da noticiabilidade trágica do assassinato da protagonista, o uso da letra da mãe da protagonista para firmar o logotipo nomenclatural do filme, os depoimentos embargados... Tudo neste filme clama por maior visibilidade, num tom que prefere a poesia à denúncia unilateral. Belíssima abordagem documental, tão tradicional quanto efetiva em sua candura melancólica e beleza indelével. Mexeu muitíssimo comigo, lindo! (WPC>)