Sofren, um aspirante a pastor, está noivo de Mari, mas o pai não permitirá o casamento até que o rapaz esteja à frente de uma igreja. Ele é nomeado para uma congregação rural e descobre que, de acordo com os hábitos locais, a viúva do pastor falecido pode se casar com o seu sucessor. A Sra. Margarida, uma senhora que já havia enterrado três maridos, insiste no seu direto de manter-se na casa. Para manter sua verdadeira namorada, Sofren leva Mari à paróquia, alegando tratar-se de sua irmã. O plano dos dois é esperar a morte da Sra. Margarida. Quando tudo indica que isto não acontecerá tão cedo, Sofren começa a aprontar uma série de armadilhas tolas para acelerar a morte da velha. Só que, antes disso, sua dignidade, sabedoria e altruísmo ensinam ao jovem casal uma grande lição sobre humanidade.
A Quarta Aliança da Sra. Margarida foi apontado como "o primeiro filme com a marca Dreyer", já que introduz alguns temas-chave que figurarão em seus trabalhos daí por diante.
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Sobre a Sra Margarida existe um contexto. Em tudo existe um contexto.
Os projetos de Dreyer sempre são nessa pegada e esse aqui vem com um ritmo mais alucinante.A facilidade em que o diretor passeia entre os gêneros é incrível.
>Assistido em 27 de Julho de 2023
Vi poucos filmes do T. Dreyer, mas em todos ele não me desapontou e nesse filme foi a mesma coisa. Um filme bastante sentimental e poético, que alterna entre drama e comédia e flertando com o terror. Vale a pena conferir.
Raríssima fita de Carl Theodor Dreyer (1889–1968), um dos mais respeitados cineastas da Dinamarca, que realizou uma grandiosa fita sombria que joga com gêneros diferentes, a comédia, o drama e o horror inspirado no movimento expressionista, que começava a percorrer a Alemanha. Mudo e preto-e-branco, lançado em 1920, este filme, o segundo da carreira do diretor, abre em um tom reflexivo sobre a natureza, pontua momentos de afeto e comicidade em torno do casal Sofren e Mari e, com a aprição da senhora Margarida, cresce do suspense ao terror, num desfecho com ar existencialista embasada nas ideias do filósofo Kierkegaard. Tanto Dreyer quanto Kierkegaard estudaram e produziram materiais sobre a cristandade, a moralidade e a ética, com metáforas e ironias, cada qual à sua linguagem. Neste filme percebemos tais tratamentos e temas, sob influência da infância maltratada de Dreyer, que foi abandonado pela mãe ainda pequeno e logo adotado por uma família severa, com valores cristãos intrínsecos (por isto seus filmes tratam de fé, moral, opressão, dúvidas e excessos); por ter sido jornalista, Dreyer escrevia os roteiros com minúcias, como aqui, e por ter trabalhado em empresas de montagem de cinema, sabia das técnicas como ninguém e detinha um olhar atencioso. Buscou a naturalidade no trabalho dos atores e no uso dos cenários, métodos de um cinema artesanal que pregou até o final da vida – ele realizou 14 longas num espaço de 45 anos (entre 1919 e 1964).
No final das gravações a atriz sueca Hildur Carlberg, que interpreta a enigmática senhora Margarida, morreu aos 76 anos.
Uma curiosidade: o filme foi rodado na bucólica Lillehammer, comuna norueguesa próxima da capital, Oslo, bastante visitada hoje. Além da Noruega, Dreyer rodou seus filmes na Dinamarca, país natal, na Alemanha e na Suécia.
O filme havia saído no mercado brasileiro pela Magnus Opus e agora pode ser assistido em novo máster pela Obras-Primas do Cinema, que resgatou o diretor num box em disco duplo contendo “Michael” (1924), “A queda do tirano” (1925) e sete curtas-metragens, com extras (entrevistas e vídeos especiais sobre o cineasta). Vem quatro cards colecionáveis, com as capas dos filmes.
Quem curtir pode procurar também as três obras-primas de Dreyer, “A paixão de Joana D’Arc” (1928), “O vampiro” (1932) e “A palavra” (1955), disponíveis em excelentes edições pela Versatil.
POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema na Web
Dryer brinca com gêneros, transforma um suspense em terror e depois em drama existencial que desemboca em um dilema moral de altíssimo nível.