Orin, cega de nascimento e sem família, é levada por um viajante para uma casa onde moram várias mulheres cegas. Lá ela aprenderá a ser atriz itinerante e também descobrirá a difícil vida das mulheres cegas, cheia de tabus e proibições.
Filme que exala poesia tanto nas imagens quanto nas palavras. "Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo". Essa frase gera reflexões e, diante do desenrolar da trama, escancara o fato de que o inferno não necessita ser visto para ser vivido ou sentido, e que a cegueira consequentemente priva de enxergar as belezas do mundo, mas esta mesma beleza pode ser sentida também. "Eu não o vi, mas eu vi o coração dele, tão belo e tão bondoso como nenhum outro."
O pensamento budista envolto na narrativa é nitidamente irritante. Parece que o diretor não gosta da própria personagem (e olha que a protagonista é esposa dele). Tudo que Orin passa sempre tem uma certa justificativa que, ora ou outra, é verbalizada em alguma frase de efeito. "Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo". Os olhos chegam a revirar, rs.
Enfim... as cores são vivas (nem parece algo de 1977), a carismática protagonista Orin (a lindíssima Shima Iwashita, hoje com 82 anos) tem um grande amadurecimento no decorrer das duas horas. O ritmo é lento, mas não atrapalha em nada. Só exige muita paciência mesmo.
Não foi triste e uma sequência de tragédias como eu imaginava, mesmo que seja um drama e sobre uma vida sofrida. Levando em consideração que a protagonista viaja durante anos sozinho, durante a década de 1910, fazendo o trabalho que fazia de artista solitária itinerante, até que não abusaram muito dela. E até por ela preferir não ter uma vida de santa ela até pôde se divertir um pouco nesse período.
https://i.imgur.com/bMVySmT.jpg
Sobre comparar com Sopyonje, só mesmo o fato da protagonista ser uma artista cega, e o período, fora isso não tem muito o que comentar. Difícil ver algum comentário relevante na história além de um específico dito quase que explicitamente lá pelo final do filme sobre os soldados que viveram o período imperialista do Japão, e como o sistema de alistamento explorava os mais pobres para fazer e morrer nessa missão. A Orin como artista marginalizada também era explorada por aquela sociedade, porém em um outro nível, e querendo havia alternativa, era possível tentar sair daquela vida, diferente do soltado convocado que era obrigado e a recusa significava a morte. Talvez tenha algo sobre budismo aqui, porque há vários momentos de menção e recitação de mantra budista, a Orin e as outras Gozé como ela são consagradas a Buda, as solitárias e itinerantes como ela sempre tem que se abrigar em cabanas abandonadas e templos, e a "Madame" líder da trupe passa o pensamento de que "buda misericordioso as fez cegas para não ver o inferno do mundo". Só que se levar em consideração que poucas tragédias são mostradas e que em grande parte das situações em que homens tiram vantagem das personagens elas poucos resistem e em vários casos desejam... talvez o de mais infernal naquele mundo no momento sejam as infinitas guerras em que o país está metido, situação que a Orin quase que ignora completamente, mas podemos ver afetando indireta e diretamente as vidas de vários personagens, como a menina cega que a Orin e a amiga recusam adotar e o próprio Tsurukawa. Fica a dúvida.
Fora isso não tenho muito mais a dizer sobre esse filme, o maior elogio considerando minha expectativa antes de assistir é que não é tão triste e dramático, que vejo como positivo. Para um filme daquele ano as cores são bonitas. Digo isso porque pelo menos na década de 1960 alguns diretores usavam filme Agfa e eu não gosto muito das cores desse filme naquela época, elas não são legais, não são naturais. Em alguns filmes até que cai bem, como em Floating Weed do Ozu, mas já estou desviando do assunto. Se o filme é bonito não é apenas pelas cores, é pela fotografia e direção de arte também, há algumas imagens bastante delicadas.
Um dos filmes mais lindos que já vi, além de tornar-se o meu favorito do Masahiro Shinoda!! Filme de uma sensibilidade incrível. Enquanto assistia ao nomadismo das mulheres cegas, lembrava-me muito daquilo que um velho crítico literário, Alfredo Bosi, chamou de 'fenomenologia do olhar', ou uma fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito. Muito me interessa o tema da cegueira porque o poeta é aquele que (como as gozes) vê, sente e experiencia na escuridão. Tanto os poetas quanto as mulheres cegas operam por modulações do olhar. Uma fala de uma das gozes é belíssima (daquelas frases que escreveria na parede do quarto):
"Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo"..
. O encontro deste filme com o pensamento budista é muito forte. Lembro sempre das palavras de um crítico francês do Budismo, Fabrice Midal, em um livro "Quel Bouddhisme pour l'ocident" (2006), que chama atenção para “a crítica do budismo [que] deve ser primeiro uma crítica do olhar”. Ou o "Não-olhar", já que o Budismo é um desafio ao pensamento pelo "Não-pensamento". E como as gozes deste filme corporalizam o Zen-budismo..... As gozes corporalizam ainda o que o mesmo Fabrice Midal chamou o Budismo Zen de "liberdade de abertura para o mundo". Mundo sofrível (como diz a fala da goze). Não foi o sofrimento a primeira identificação do Buda histórico (Dukka) perante a realidade? Diante do sofrimento do mundo (que não há como fugir dele), é que este filme e o pensamento budista se encontram, se enlaçam, um espaço muito rico de convergências. Fiquei fã de Shinoda.
Filme que exala poesia tanto nas imagens quanto nas palavras. "Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo". Essa frase gera reflexões e, diante do desenrolar da trama, escancara o fato de que o inferno não necessita ser visto para ser vivido ou sentido, e que a cegueira consequentemente priva de enxergar as belezas do mundo, mas esta mesma beleza pode ser sentida também. "Eu não o vi, mas eu vi o coração dele, tão belo e tão bondoso como nenhum outro."
O pensamento budista envolto na narrativa é nitidamente irritante. Parece que o diretor não gosta da própria personagem (e olha que a protagonista é esposa dele). Tudo que Orin passa sempre tem uma certa justificativa que, ora ou outra, é verbalizada em alguma frase de efeito. "Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo". Os olhos chegam a revirar, rs.
Enfim... as cores são vivas (nem parece algo de 1977), a carismática protagonista Orin (a lindíssima Shima Iwashita, hoje com 82 anos) tem um grande amadurecimento no decorrer das duas horas. O ritmo é lento, mas não atrapalha em nada. Só exige muita paciência mesmo.
Nota: 8/10
Alguém poderia me dizer onde posso encontrar esse filme para assistir? Agradeço desde já! Forte abraço!
Não foi triste e uma sequência de tragédias como eu imaginava, mesmo que seja um drama e sobre uma vida sofrida. Levando em consideração que a protagonista viaja durante anos sozinho, durante a década de 1910, fazendo o trabalho que fazia de artista solitária itinerante, até que não abusaram muito dela. E até por ela preferir não ter uma vida de santa ela até pôde se divertir um pouco nesse período.
https://i.imgur.com/bMVySmT.jpg
Sobre comparar com Sopyonje, só mesmo o fato da protagonista ser uma artista cega, e o período, fora isso não tem muito o que comentar.
Difícil ver algum comentário relevante na história além de um específico dito quase que explicitamente lá pelo final do filme sobre os soldados que viveram o período imperialista do Japão, e como o sistema de alistamento explorava os mais pobres para fazer e morrer nessa missão. A Orin como artista marginalizada também era explorada por aquela sociedade, porém em um outro nível, e querendo havia alternativa, era possível tentar sair daquela vida, diferente do soltado convocado que era obrigado e a recusa significava a morte.
Talvez tenha algo sobre budismo aqui, porque há vários momentos de menção e recitação de mantra budista, a Orin e as outras Gozé como ela são consagradas a Buda, as solitárias e itinerantes como ela sempre tem que se abrigar em cabanas abandonadas e templos, e a "Madame" líder da trupe passa o pensamento de que "buda misericordioso as fez cegas para não ver o inferno do mundo". Só que se levar em consideração que poucas tragédias são mostradas e que em grande parte das situações em que homens tiram vantagem das personagens elas poucos resistem e em vários casos desejam... talvez o de mais infernal naquele mundo no momento sejam as infinitas guerras em que o país está metido, situação que a Orin quase que ignora completamente, mas podemos ver afetando indireta e diretamente as vidas de vários personagens, como a menina cega que a Orin e a amiga recusam adotar e o próprio Tsurukawa.
Fica a dúvida.
https://i.imgur.com/CKn0nOv.jpg
https://i.imgur.com/aBZ1xgS.jpg
Fora isso não tenho muito mais a dizer sobre esse filme, o maior elogio considerando minha expectativa antes de assistir é que não é tão triste e dramático, que vejo como positivo.
Para um filme daquele ano as cores são bonitas. Digo isso porque pelo menos na década de 1960 alguns diretores usavam filme Agfa e eu não gosto muito das cores desse filme naquela época, elas não são legais, não são naturais. Em alguns filmes até que cai bem, como em Floating Weed do Ozu, mas já estou desviando do assunto. Se o filme é bonito não é apenas pelas cores, é pela fotografia e direção de arte também, há algumas imagens bastante delicadas.
Um dos filmes mais lindos que já vi, além de tornar-se o meu favorito do Masahiro Shinoda!! Filme de uma sensibilidade incrível. Enquanto assistia ao nomadismo das mulheres cegas, lembrava-me muito daquilo que um velho crítico literário, Alfredo Bosi, chamou de 'fenomenologia do olhar', ou uma fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito. Muito me interessa o tema da cegueira porque o poeta é aquele que (como as gozes) vê, sente e experiencia na escuridão. Tanto os poetas quanto as mulheres cegas operam por modulações do olhar. Uma fala de uma das gozes é belíssima (daquelas frases que escreveria na parede do quarto):
"Mas Buda, misericordiosamente, nos fez cegas para que não pudéssemos ver o inferno deste mundo"..
O encontro deste filme com o pensamento budista é muito forte. Lembro sempre das palavras de um crítico francês do Budismo, Fabrice Midal, em um livro "Quel Bouddhisme pour l'ocident" (2006), que chama atenção para “a crítica do budismo [que] deve ser primeiro uma crítica do olhar”. Ou o "Não-olhar", já que o Budismo é um desafio ao pensamento pelo "Não-pensamento". E como as gozes deste filme corporalizam o Zen-budismo..... As gozes corporalizam ainda o que o mesmo Fabrice Midal chamou o Budismo Zen de "liberdade de abertura para o mundo". Mundo sofrível (como diz a fala da goze). Não foi o sofrimento a primeira identificação do Buda histórico (Dukka) perante a realidade? Diante do sofrimento do mundo (que não há como fugir dele), é que este filme e o pensamento budista se encontram, se enlaçam, um espaço muito rico de convergências. Fiquei fã de Shinoda.