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Duração
O sentido do poder e da palavra em crise situam o homem que os manipula numa idêntica crise pessoal, humana. A farsa do discurso de intenção humanista é total e absoluta. Um ditador num momento de uma grave crise nacional, institucional, confrontado na cidade e no campo por revoltas e guerrilha, na busca de uma paz ilusória, faz um longo pronunciamento pela televisão. Mas a realidade impõe-se à sua ficção e o controle da situação escapa-lhe das mãos. Sobra-lhe uma patética confissão antes de ser tirado do ar.
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faço minhas as palavras de Dorival:
"MILICO E M3RDA PRA MIM É A MESMA COISA!"
Se o primeiro filme de Tonacci - "Olho por Olho" de 1966 - começava a registrar um Brasil tensionado, com nervos a flor da pele e ideias odiosas sendo proclamadas por jovens incomodados com a realidade política e cultural a sua volta, neste "Blablablá", apenas 2 anos depois, o diretor se vê em um país já bem diferente. Ao mesmo tempo que tem sua aura poética, mesclando discursos, trazendo frases de impacto e rupturas na forma, é direto, confronta a opressão e deixa pouco nas entrelinhas.
É dos melhores usos de imagens históricas que já vi, dilui seu filme por toda a História e evidencia a atemporalidade do que retrata. Tudo está na montagem.
Como o título já diz, um blá blá blá sobre a política corrupta e totalitária brasileira (mas não exclusiva nossa) e todos os grupos que surgem na intenção de derruba-la. O filme da década de 60, com discursos atualissimos de todas as partes, o que nos leva a crer que vivemos uma espécie de ciclo indestrutível formados por um monte de blá blá blá!
A história foca um discurso da autoridade máxima (Paulo Gracindo) de um país. O delírio totalitário e belicista, no entanto, encerra com momentos finais de lucidez em que não há “verdades” a proclamar. O bla-bla-blá, sugerido no título é uma clara alusão às tentativas do regime militar, instalado no Brasil em 1964, de iludir a população por meio de pronunciamentos oficiais. A transmissão feita por rede de TV mostra que a mídia está a serviço da suprema autoridade do país.
O ditador informa ter chegado ao fim a ambiguidade do poder revolucionário. O propósito é combater a crise política provocada pelo que resta de oposição. A ideia é reforçar a parceria de parte da população que foi às ruas apoiar o golpe: “Estivemos juntos em momentos de vitória e momentos de tensão. Nesta hora dramática, não podemos ocultar fato de estarmos enfrentando nesses últimos dias uma séria crise interna, mas estou confiante de que juntos todos cheguemos a superar em curto prazo nossa difícil situação. Necessitamos de paciência e coragem. Antes de tudo, cumpre que olhemos para o passado buscando acompanhar e compreender os fatos que nos levaram a esse impasse.”
Ressalta a ameaça da conspiração contra o governo e afirmações nesse sentido já são de conhecimento público. Em off: “Nessa hora é meu dever não aceitar isso em silêncio.”
Com o rosto dele focado em plano médio curto, afirma: “Estamos num momento crítico em que um golpe poderia estar se desfechando contra nós em qualquer direção e a qualquer momento. Essa é uma hora de ação e não de tristeza.” Durante a fala, cenas mostram o descontentamento de facções “radicais e demagógicas, que ambicionam o poder”, segundo o ditador, em luta nas ruas contra a forças repressoras. Com o apoio do exército, agem em nome da “segurança e da unidade nacional”, inclusive com expurgos nas próprias Forças Armadas. Alega que sem a democracia social, a democracia política não existe e que cometeu o erro de fazer as pazes com a oposição, o que revela o recrudescimento do regime e a centralização do poder.
A câmera acompanha, às vezes inquieta, as mudanças de humor do ditador. Fica evidente o uso de táticas extremistas para combater o extremismo. Ao lado dele estariam as forças do povo, feito para obedecer, e o exército para afastar a ameaça da oposição de transformar o império celeste num “bordel totalitário”. Não há mais condições de manter a ordem, a não ser pela força, sentencia, ao mesmo tempo em que, emocionado, parece não acreditar nas próprias convicções.
A oposição, simbolizada em dois expoentes do Cinema Novo: Irma Alvarez (Porto das Caixas, 1962) e Nelson Xavier (Os Fuzis, 1964), demonstra fragilidade e pessimismo. Acredita que o regime irá cair, mas reclama da opinião pública, dos ideais que serviram para o triunfo do massacre, do nacionalismo, das desculpas. “Todos obedientes e servis como uma multidão de covardes”, diz o personagem de Nelson Xavier. “Só o sangue conta na vida dos povos.” A paz e a guerra se confundem no jogo de palavras da situação e da oposição. “O colapso do Brasil. Nós batizamos o futuro com nossas últimas lágrimas”, finaliza Irma Alvarez.
Blablablá, argumento e direção de Andrea Tonacci, está na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Em Brasília, 1968, recebeu o prêmio do “Office Catholique Internacional du Cinemá” (OCIC) de melhor curta-metragem.
a censura aprovou na época?
totalmente contestador, é até assustador como ainda é atual no discurso do personagem a favor de violência. a cena da entrevista com o BLA BLA BLA representa demais um sentimento que acontece em discursos de certos presidentes (e relacionados) de hoje. a edição deu um ritmo curioso pro que tava acontecendo