O filme é baseado na gravação musical da famosa ópera de Modest Mussorgsky sobre os trágicos acontecimentos que cercam a decisão do czar russo Boris no início do século 17. A gravação foi feita dois anos antes das filmagens com a participação da Orquestra Sinfônica de Washington (conduzida por Mstislav Rostropovich ) e várias estrelas da ópera (o papel de Marina é cantado por Galina Vishnevskaya). Zulawski fez o filme da mesma forma que estaríamos assistindo a performance teatral. Depois passamos pelo local e, por fim, percebemos a equipe de filmagem. O diretor deliberadamente encheu a imagem com uma abundância de anacronismos fazendo as implicações sobre a história soviética e as outras ditaduras do século 20.
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Controversa adaptação da famosa ópera de Modest Mussorgsky. Puristas acusaram o diretor de desvirtuar a obra original, que, por sinal, tem mais de uma versão no intuito de corrigir "imperfeições", assim consideradas na época - sendo hoje mais aceita a obra tal qual Modest compôs originalmente. Não me incomoda de nenhuma maneira. Essa é a visão do diretor sobre a obra, e ,purismos à parte, é grandiosa e fascinante. Andrzej Zulawski consegue imprimir em tela um espetáculo audiovisual impressionante. As alterações do diretor encurtou a obra, alterou cenas e inclui anacronismos, que poeticamente são válidos e típicos de Zulawski. Em uma cena, por exemplo, é possível ver soldados com armas modernas que remetem aos regimes totalitaristas de nosso tempo. Gostei também como a obra dialoga com o contexto do ato de representação, intimamente ligado ao próprio argumento da ópera, que trata de dissimulações, dualidades, papeis e legitimidade. Pois veja que logo de início nos é apresentado o próprio Mussorgsky como personagem, nervoso na estreia do espetáculo, a sorver sofregamente alguma bebida alcoólica de um cantil. Essa estrutura do teatro é interrompida pela equipe de filmagem, e logo depois a tela do palco é cortada para revelar um cenário grandioso ao ar livre. Essa brincadeira continua durante o filme inteiro, em momentos pontuais, com a equipe de filmagem sendo exposta e pegando o espectador de surpresa. A ideia, ao meu ver, é expor não somente os falsos líderes, mas a própria estrutura político-social como um grande jogo teatral. Acreditar em uma determinada ideologia ou na palavra de um líder é assumir ser um espectador que está pagando por uma representação que pode ser convincente ou não. Uma observação mais atenta e a estrutura por trás de todo o esquema é revelada.
Absolutamente lindo e poderoso.
Como adaptação da ópera homônima já beira a perfeição. Se prestarmos atenção aos detalhes diferentes que Zulawski inseriu, a obra ganha ainda mais força.
Já ganhou um lugar no topo dos filmes de Andrzej Zulawski pra mim. Filmaço!