Apesar de seu caráter imensamente militante (é uma espécie de tentativa de reconstruir a imagem arranhada de Edson perante a opinião pública), é impressionante como o filme consegue fugir de todos os estigmas possíveis desse sub-gênero, principalmente ao se colocar lado a lado com os personagens que procura representar. Edson é uma figura central e importante dessa narrativa, mas também são os demais componentes do episódio da desocupação criminosa do Hotel Torre Palace, em Brasília e o roteiro sabe disso, o tempo todo. Se alguns filmes recentes, que buscam fazer uma cobertura robusta, às vezes até elitista, dessa bad trip política em que o Brasil se meteu, "Cadê Edson?" se mantém sempre low profile, dando voz e perseguindo os sujeitos dessa história da ponta da base. Como se estivesse o tempo todo do lado, como uma força a mais em relação a esse movimento.
Se Dácia Ibiapina tenta abarcar coisas demais, evocando diversos temas que se correlacionam na narrativa (o contexto político, diferenças dentro dos próprios movimentos, a saga de Edson ao liderar uma busca pela sobrevivência), a montagem é, o tempo todo, muito esperta em equilibrar esses pontos sem necessariamente priorizar uma linha temporal condizente, ou seja, não tenta, realmente, criar uma experiência agradável e fácil ao ver o filme. Até porque não tem que ser, e ele nem pretende que seja. Esse contraponto ao estilo do documentário, um tanto convencional, é primordial para que o filme funcione como um todo. É como se ele dissesse, em alto e bom tom, que aquela é uma luta só, seja num governo levemente favorável aos movimentos em 2013, durante um processo de golpe constitucional, em 2016, onde há, concomitantemente, uma insatisfação com um país que gasta milhões em Jogos Olímpicos mas não é sequer capaz de dar moradia a seus habitantes, ou numa República que impõe constante medo a essas pessoas, em 2020, e que trabalha incessantemente para desumaniza-los. "Cadê Edson?" ou "O Brasil não é para fracos".
Um amigo bastante confiável disse que, dentre os indicados à seção Aurora da Mostra Tiradentes deste ano, este foi o filme que menos apreciou, em razão de ter ficado incomodado pela tônica militante. Para mim, o efeito foi extremamente inverso: fiquei alucinado, achei que este filme demonstra, em viés documental, a mesma forma que vimos no prévio ERA O HOTEL CAMBRIDGE. No afã por buscar defeitos, seguem alguns: o 'hardcore' que toca nos créditos finais parece descolado da cadência popular dos eventos retratados (mais associados ao impulso religioso de protesto); o pronome interrogativo do título não foi adequadamente respondido pelo filme, já que o líder Edson não está morto nem desaparecido, eventualmente "dissolvendo-se" no fulgor de suas ações; e o desfecho do documentário é abrupto, criando a má impressão de abortar o olhar cuidadosamente histórico (e especular, em relação aos fatos políticos da história recente do País) apresentado até então. Mas, afora isso, o filme é magistral em sua montagem de situações, em seus depoimentos espontâneos e emocionantes, e na valiosa biografia do personagem-título. De minha parte, um filme obrigatório, a ser recomendado de pé! (WPC>)
Gente, onde eu encontro esse doc para assistir? Valeu!
Apesar de seu caráter imensamente militante (é uma espécie de tentativa de reconstruir a imagem arranhada de Edson perante a opinião pública), é impressionante como o filme consegue fugir de todos os estigmas possíveis desse sub-gênero, principalmente ao se colocar lado a lado com os personagens que procura representar. Edson é uma figura central e importante dessa narrativa, mas também são os demais componentes do episódio da desocupação criminosa do Hotel Torre Palace, em Brasília e o roteiro sabe disso, o tempo todo. Se alguns filmes recentes, que buscam fazer uma cobertura robusta, às vezes até elitista, dessa bad trip política em que o Brasil se meteu, "Cadê Edson?" se mantém sempre low profile, dando voz e perseguindo os sujeitos dessa história da ponta da base. Como se estivesse o tempo todo do lado, como uma força a mais em relação a esse movimento.
Se Dácia Ibiapina tenta abarcar coisas demais, evocando diversos temas que se correlacionam na narrativa (o contexto político, diferenças dentro dos próprios movimentos, a saga de Edson ao liderar uma busca pela sobrevivência), a montagem é, o tempo todo, muito esperta em equilibrar esses pontos sem necessariamente priorizar uma linha temporal condizente, ou seja, não tenta, realmente, criar uma experiência agradável e fácil ao ver o filme. Até porque não tem que ser, e ele nem pretende que seja. Esse contraponto ao estilo do documentário, um tanto convencional, é primordial para que o filme funcione como um todo. É como se ele dissesse, em alto e bom tom, que aquela é uma luta só, seja num governo levemente favorável aos movimentos em 2013, durante um processo de golpe constitucional, em 2016, onde há, concomitantemente, uma insatisfação com um país que gasta milhões em Jogos Olímpicos mas não é sequer capaz de dar moradia a seus habitantes, ou numa República que impõe constante medo a essas pessoas, em 2020, e que trabalha incessantemente para desumaniza-los. "Cadê Edson?" ou "O Brasil não é para fracos".
Um amigo bastante confiável disse que, dentre os indicados à seção Aurora da Mostra Tiradentes deste ano, este foi o filme que menos apreciou, em razão de ter ficado incomodado pela tônica militante. Para mim, o efeito foi extremamente inverso: fiquei alucinado, achei que este filme demonstra, em viés documental, a mesma forma que vimos no prévio ERA O HOTEL CAMBRIDGE. No afã por buscar defeitos, seguem alguns: o 'hardcore' que toca nos créditos finais parece descolado da cadência popular dos eventos retratados (mais associados ao impulso religioso de protesto); o pronome interrogativo do título não foi adequadamente respondido pelo filme, já que o líder Edson não está morto nem desaparecido, eventualmente "dissolvendo-se" no fulgor de suas ações; e o desfecho do documentário é abrupto, criando a má impressão de abortar o olhar cuidadosamente histórico (e especular, em relação aos fatos políticos da história recente do País) apresentado até então. Mas, afora isso, o filme é magistral em sua montagem de situações, em seus depoimentos espontâneos e emocionantes, e na valiosa biografia do personagem-título. De minha parte, um filme obrigatório, a ser recomendado de pé! (WPC>)