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Godard e Gorin desconstroem a fotografia de Joseph Kraft que apareceu na revista L'Express em julho/agosto de 1972, mostrando Jane Fonda no Vietnã do Norte. Na época, Jane Fonda ficou conhe- cida pelo apelido Hanói Jane e foi acusada de ser usada como uma estrela de cinema pelos vietna- mitas. O filme apresenta uma sessão de fotos da atriz em várias situações diferentes e foi consi- derado uma lição de leitura de imagem por Susan Sontag em seu livro Sobre Fotografia. Ele reflete sobre o status da imagem e o papel do intelectual de forma minimalista e critica ironicamente a icono- grafia e o star sistem hollywoodiano.
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Paz no Vietnã! Mas... Paz pra quem? Por quem? De quem?
Todo um "monólogo em dupla" que se fosse feito em texto já seria difícil de ser apreendido, mas que dito pela câmera ganha todo o significado que os dois autores fazem questão de perpassar no início do filme. A necessidade intrínseca de uma onda ininterrupta de choques-questionamentos. Uma essência de contínuos declives no caminhar do pensamento (novas arestas que originam novas respostas para novas perguntas) que explica muito desse fluxo de consciência tão próprio à outras obras do Godard. O "giro do filme", que faz com que o espectador gere essa série de novas indagações para que o autor também possa ocasionar outras novas que complementem o debate.
Sobre buscar a sinceridade ontológica do cinema para, aí sim, poder fazer uma revolução. Afinal, apesar "da verdade ser simples", caso o meio de chegar a ela seja igualmente simples, então é porque tudo já se tornou mentira. Disso, Godard e Gorin fazem a separação da natureza do capitalismo e da natureza revolucionária -- leia-se anticapitalismo. A imagem capitalista que encerra tudo no rosto de Jane Fonda (daí tanto faz se ela ouve na foto, mas a descrição diz que ela pergunta, tudo se encerra no olhar triste que sintetiza "o horror do Vietnã" no star-system dos famosos de esquerda) versus a imagem revolucionária que não quer responder, mas buscar o que a Jane perguntou, o que os vietnamitas responderam, o que eles pensam dessas perguntas, quais perguntas eles querem fazer... Expor toda a problemática que naturalmente a circunda. Ou seja, a correnteza de choques revolucionários da própria "carta-filme" (e talvez de Tout va bien) que contrasta com a fotografia de instrumento capitalista, de passividade encarceradora.
Logo, diante de toda essa robustez ensaística não importa se não se concorda com todas asserções ditas -- eu mesmo acho um pouco ingênuo ambos acreditarem que o rosto isolado do vietnamita, por si só, já possua uma inerente capacidade de conscientização de sua realidade social -- ou se não se pega toda a miríade de referências. O que realmente importa é o fluxo infinito cerebral que se ocasiona em busca da sinceridade ontológica (essencialmente revolucionária). Importa que todos sejam jornalistas e editores de si mesmos e que se permitam adentrar no fogaréu que Godard e Gorin atearam nas filigranas da fotografia de Joseph Kraft.
Segundo Susan Sontag, em seu livro de ensaios, "Sobre Fotografia":
"O que a foto significou — ela mostra Fonda escutando com uma expressão de tristeza e compaixão enquanto uma vietnamita anônima relata os estragos causados pelo bombardeio americano — quando publicada na revista ilustrada francesa L’Express invertia, em certos aspectos, o sentido que tinha para os norte-vietnamitas que a divulgaram. Porém ainda mais decisivo do que o modo como a foto foi alterada por seu novo contexto é o modo como seu valor de uso revolucionário para os norte-vietnamitas foi sabotado por aquilo que L’Express ofereceu a título de legenda".
Esse recado foi MODERADO.
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Equipe Filmow.comGodard não gostou desta foto.Não há nada de errado em você demonstrar compaixão. Mas esta compaixão leva a inércia.Jane foi usada pelo mainstream. A pessoa para quem ela olha não tem rosto, não existe diálogo. O vietnamita ao fundo está desfocado. Somente a estrela brilha. Será que este é o papel de um artista? aparecer como bonzinho e tirar algumas fotos? Isso muda alguma coisa? Num filme, eu gravei o que é a fotografia,acho interessante escrever aqui: "A fotografia não reproduz a realidade. Depende de como a imagem é enquadrada.O que é revelado. O que é escondido. Sua perspectiva é essencial."
Para além de a qualidade discursiva e revolucionária do filme serem incontestáveis, algo naquele discurso me deixou intrigado, algo naqueles questionamentos pertinentes me fizeram refletir sobre o próprio mecanismo de estrutura e recepção do filme ao longo dos anos, redistribuindo para ele os mesmos questionamentos que ele direciona à fotografia-base... Culpa daquela chocante refeitura da experiência de Kuleshov... Um filme genial e polêmico, como só mesmo o ainda incompreendido grupo Dziga vertov poderia criar... (WPC>)