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Uma equipe de documentaristas visita Lindiomar, uma senhora aposentada de 72 anos, conhecida como Lene. Essa visita é descrita como um encontro introdutório para um futuro projeto documental de temática e intenções nunca plenamente explicadas.
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Ganhou um importantíssimo prêmio numa das seções da Mostra Tiradentes e foi dirigido por um rapaz super gentil e inteligente, o qual tive orgulho de conhecer num festival de cinema alagoano. Dois poderosos chamarizes, mas que não justificariam, per si, a qualidade do filme, visto que láureas são subjetivas e pessoas queridas, às vezes, produzem obras aquém de seus talentos e/ou carismas. Ou seja, a despeito dos imponentes cartões de visita, eu estava com muito mais curiosidade que expectativa, de modo que, ao assistir ao filme, fui arrebatado, fiquei deslumbrado e chocado com o brilhantismo de seu jovem realizador...
Na abertura, uma tiração de onda jazzística, com repetições imagéticas e acenos a um padrão de qualidade hollywoodiano (Woody Allen, talvez). Parecia que seria um documentário típico de estudantes de Cinema, com o retorno esperado à ancestralidade familiar, uma personagem real bastante expressiva e suficiente conhecimento de causa acerca dos conflitos e imposições geracionais. Seria interessante, mesmo assim, mas o seu aguerrido diretor queria mais, nos fez querer mais e entrega muito mais: ele suja a imagem, ele torna ostensivos quaisquer possíveis defeitos de feitura a intenção aparição do aparato sonoro, por exemplo), ele demonstra possuir um incrível conhecimento cinematográfico, militante e teórico. Ao ensaiar a "devolução do olhar" da entrevista, um golpe de suma genialidade: quando vi as imagens de O ATALANTE na tela, não vou mentir, gritei de empolgação!
Pensei bastante em IRMA VEP, ao longo da projeção e, claro, esta referência não foi ignorada: Guilherme Maia realiza um compêndio esplêndido de cenas de filmes famosos (no meio alternativo crítico) e confirma um laudo freireano, que explicava o porquê de ele preferir os camponeses mais simples aos universitários mais talentosos. O trecho da leitura do livro de Lélia Gonzalez é genial ao confrontar a vontade de aprender (e que, assim, ensina-nos bastante) de Lindiomar, acerca de uma conjuntura de luta que é a sua própria, e a pretensão gaguejante de quem esbarra na grafia do advérbio "peremptoriamente" e quer despejar excertos decorados de nomes consagrados do pensamento negro. De maneira sutil e mui divertida, o diretor e sua equipe dão um soco em quem aceita os clichês "ministradores" da juventude elitizada, que finge ouvir o outro apenas para despejar saberes válidos, mas insuficientemente refletidos naquilo que eles deveriam provocar. Trabalho de mestre, surpreendente. A ser ministrado em aulas, como demonstração de sapiência experimental. uau. Estou apaixonado, pura e simplesmente! (WPC>)