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Uma greve de serralheiros é deflagrada em Ceilândia (DF), cidade próxima à Capital Federal. Neste período, muito mais do que um possível despertar para uma consciência de classe, os grevistas redescobrem uma cidade e um tempo que não mais lhes pertencem.
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Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita
Vontades, sonhos e desejos de uma classe de operários em meia a uma greve mal sucessida. Prática de pequenos prazeres, vontades e, vivência de decepções e sofrimentos. A vida do proletário nua e crua, vinho e futebol. Adirley iniciando na ficção verdade.
Iniciando no cinema de Adirley Queirós e me é inevitável algumas lembranças de Leon Hirszman, pois é o cinema brasileiro, político, transiente entre o documental e o ficcional, que ocupa suas lentes com trabalhadores e que enxerga na consciência de classe o estopim para o que veio mostrar. Pensar na rima temática e visual entre "Dias de Greve" com "ABC da greve" é interessantíssimo e a elipse histórica e cinematográfica presente entre o filme de 1990 e esse de 2009 diz muito por si só. O filme de Hirszman mitifica o movimento do proletariado e encontra em Lula a força motriz das suas imagens, líder do movimento e do otimismo que poderia sair daquilo. O de Queirós, quase 20 anos depois, é o inverso, curiosamente (ou não) na periferia da Brasília comandada pelo mesmo Lula. A Ceilândia do diretor não tem um líder tão icônico quanto os trabalhadores do ABC, é mesquinho e falho em conseguir a união do sindicato, o grupo parece despreparado e sem uma aliança consistente para levar a greve adiante. Não há expectativa de melhora nem inflamação de luta ao final. Queirós capta a tomada de consciência e o ódio de classe - me lembro de "Arábia" -, e capta o Carnaval de maneira ambígua. É ao mesmo tempo a alforria daquela gente, assim como "Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar", como também outro motivo de ódio; chefe e operário na mesma avenida, a falsa noção de igualdade e a visão da festa como mais um anestésico mediante a rotina angustiante.
Adorei!! O filme aborda diversas questões que se relacionam e que são muitas vezes esquecidas no discurso politizador. Trouxe de uma maneira perfeita a relação vertical de poder entre empregados e patrões, a dificuldade de se organizar e "bater o pé" da parte dos empregados devido as necessidades diárias, mostrando de uma forma muito delicada e ao mesmo tempo muito explícita que não existe negociação entre esses dois sujeitos, não há barganha para negociações, a relação é vertical por si só. Outra coisa que gostei muito foi a maneira insistente e sutil de abordar a questão da deficiência física e suas implicações na vida do indivíduo, que precisa continuar trabalhando para se sustentar. Enfim, daria pra falar horas sobre como as coisas foram tratadas e o quão bem isso foi feito, ainda mais pra um filme de 20 minutos, adirley mandou muito bem, gostei muito muito mesmo.
Admito que, politicamente, em termos de análise da cadência da consciência de classe nos dias hodiernos, o filme é muito efetivo. Mas os desempenhos fracos do elenco incomodaram-me. O desfecho é angustiante em seu realismo desolador. Interessantíssimo enquanto estudo de caso, ainda que irregular enquanto peça cinematográfica. (WPC>)
"Conjuctura é teu rabo, Zé!"