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Data de lançamento
16 Nov. 2020Duração
Entre os meses de abril e julho de 2020, os cineastas Davi Mello e Deborah Perrotta trocaram vídeo-cartas. Ele, em São Paulo. Ela, em Turim.
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No auge da pandemia, dias antes de descobrir sobre meu transtorno bipolar, escrevi um texto sobre o livro "É Isto um Homem?", de Primo Levi. Em dado momento do livro, o autor fala de como a comunicação se tornou algo extremo na luta contra a desumanização do campo de concentração. Falar, nomear era importante para que o ser não fosse reduzido a uma espécie de massa amorfa e sem existência autônoma, uma vida nua de sentido.
Quando escrevi isso, eu estava sedento de comunicação motivado, em especial, pelo medicamento estimulante que eu tomava na época. Precisava afirmar minha própria humanidade, sair da rede estímulos e respostas que me fazia enlouquecer a cada dia.
Vi nesse belo filme a necessidade desse esforço de comunicação, de transcender o tempo parado da pandemia para, indo em direção ao outro, fazer o humano virar humano. Não à toa, a maior parte das reflexões postas no curta de pouco mais de 40 minutos é sobre a questão do tempo e a ontologia do ser humano.
A pandemia não nos tornou melhores como alguns seres mais iluminados acreditaram que ocorreria. Mas ela inevitavelmente nos forçou a um encontro conosco mesmos, inclusive na morte em massa que naquele período ocorreu, pois essa morte revelava nossa fragilidade enquanto indivíduos e espécie ao mesmo tempo que não nos deixava esquecer de nossa própria finitude.
O curta é belo por fazer essas reflexões captando o tempo parado da pandemia. É belo também e angustiante por mostrar que o normal ao qual queríamos tanto voltar era por si só algo assustador e a existência, ainda mais no âmbito capitalista, é angustiante demais.
O Davi Mello é apaixonante, não é? E, só pela curiosidade de ver onde ele mora e pela satisfação erótica de ouvi-lo narrando o próprio cotidiano, este filme já seria brilhante e muito efetivo. Entretanto, o projeto é mais ambicioso: trata-se de uma diálogo entre amigos que estão em continentes distintos, mas experimentando aflições similares em termos de confinamento necessário. As memórias de ambos interseccionam-se, bem como os anseios literários. O Davi dá o primeiro passo: fala da infância, do espaço sideral, das festas de aniversário (é capricorniano que nem eu), das paixões de infância, das influências cinematográficas... Há muito de Agnès Varda em seu relato ensaístico, bem como de Eugène Green e Chis Marker (há uma seqüência idêntica ao fotograma mais famoso de SEM SOL!). A Deborah, por sua vez, é mais literata: mostra bastante, mas prefere falar do instante, e daquilo que a conduziu até aquele instante. Virginia Woolf é presença recorrente, bem como os fantasmas imagéticos eternizados à la Roland Barthes. À medida que o compartilhamento de experiências avança, conhecemos mais aqueles personagens reais, e os amamos. O média-metragem termina de maneira abrupta, pois queremos mais e mais. É ótimo. E inevitavelmente atravessado por questões e condições classistas, que foi o que atrasou a minha imersão. Nada que prejudique a interação e a alteridade, entretanto: é uma declaração de amor, uma ode à amizade e um agradecimento supremo à Arte! (WPC>)