Juan Desouza está numa corrida, é uma viagem de trabalho de um dia em direção ao interior. Antes de chegar ao seu destino, descobre que o homem que está viajando ao seu lado está morto. Secretamente, decide adotar a identidade do defunto. Ele inventa uma nova profissão pra si e encontra um quarto de hotel para passar alguns dias. Com sua nova liberdade, Juan embarca numa aventura em um novo mundo, na redescoberta de seus sentidos e instintos. Em sua jornada de auto-descoberta, fica claro que a vida que vivia nunca foi sua única opção.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Um personagem estranho com traços psicológicos bipolar e de comportamento indecifrável. .Ou se trata de um ser com "necessidades" de solidão extrema ou, pelo fato de ocupar as identidades de falecidos, um voluntário inconsciente ao suicídio.
Quem nunca deu uma escapada? Hahaha, pra quem nunca deu uma escapada da rotina, só ver esse filme e se influenciar.
Parte de uma ideia interessante, mas que é diluída em um mar de cenas desfocadas e algumas até desnecessárias.
Em El Otro o diretor Ariel Rotter cria uma representação sensorial e poética da solidão, não como um estado de espírito a ser temido, mas como uma necessidade que muitos de nós temos em determinados momentos de nossa vida, quando é preciso que nos afastemos dela a fim de enxergá-la sob uma nova perspectiva.
Na trama acompanhamos Juan Desouza, um homem que antes mesmo de se fazer presente na tela, já demonstra o carinho que tem pela namorada enquanto correm os créditos iniciais. Carinho este também presente no cuidado com que trata o pai idoso, ao ajudá-lo a tomar banho. E apesar da vida pacata que leva, os minutos iniciais já apresentam um ruído de fundo que gera um leve desconforto. Não demoramos muito para descobrir que sua causa é a rotina à qual Juan está preso.
É notável a forma como Rotter passa essa sensação de peso que a mesmice tem sobre o indivíduo, mesmo que sequer conheçamos a vida pregressa de Juan, tudo graças a uma cuidadosa montagem e, o mais importante, à ausência de trilha sonora.
El Otro apoia-se quase inteiramente nas sensações que transmite ao expectador por intermédio dos sons ambientes, como pássaros cantando, o roçar um tecido na pele, a respiração de Juan quando encontra-se sozinho em um lugar onde o silêncio impera. O design de som é espetacular, captando cada pequeno ruído que auxilie na criação de uma atmosfera imersiva para que o espectador sinta-se no lugar de Juan.
Ao lado do protagonista vamos descobrindo indícios de uma angústia e melancolia que ele expressa em olhares compassivos direcionados a idosos que o fazem lembrar do pai, que se encontra na reta final da vida, e o põe diante da eminência cada vez maior de sua própria mortalidade. Isto desperta nele uma vontade de romper consigo mesmo e ir por caminhos imprevistos, mesmo que eles o levem apenas a perseguir uma desconhecida pelas ruas de uma cidade que não é a dele, dormir ao relento, ou trepar numa árvore para comer frutas enquanto sente o frescor do vento matinal no rosto, e a paz que o invade apenas por dar vazão à sua espontaneidade.
Ariel Rotter cria uma experiência mais sensorial do que dramática, e tem ao seu lado o talento de Julio Chávez, cuja atuação é ao mesmo tempo discreta e rica em sensibilidade e sutileza.
O plano final é belíssimo em sua simplicidade, e som que acompanha os créditos finais demonstra a criatividade e a inteligência da direção de Ariel Rotter, que tira proveito de cada elemento deste longa excepcional.