Emilie Muller é uma jovem que vai a sua primeira audição para atuar em um filme. O diretor pede para que ela fale sobre o que tem em sua bolsa. Ela mostra vários objetos (fotografias, livro...) e diz o que eles lhe trazem à memória.
A virada no final é maravilhosa, não só pela surpresa, mas pela forma como segue fazendo sentido e nada do que foi visto antes se perde com a revelação, somente ganha novas cargas. Acho que ainda mais interessante que a virada no final é o depois - tanto o ato de reassistir o filme percebendo novos significados quanto o ato de simplesmente pensar sobre o filme e ir fazendo sentido do que foi visto.
Não sabemos muito sobre ela de verdade, mas ao mesmo tempo sabemos sim. Há um fascínio no olhar, um prazer da vida que - ao menos quando eu assisti - começa a se fazer notável no momento em que ela fala sobre as maçãs na feira, e que então segue nas reflexões sobre cada objeto. Em um momento da entrevista, Emilie diz que ama mais àqueles que se deixam tocar pelas coisas, que sabem se admirar, ser movidos. E me parece que esse é um tema que permeia, mesmo que implicitamente, a entrevista. É um se deixar,tocar pelos objetos da bolsa, deixar que algo se transmita - na voz, no rosto, nas palavras - a partir desse contato.
O final tem algo de cômico e explica algumas pequenas incongruências que vão aparecendo nos relatos, mas ainda assim nada do que ela disse perde seu sentido de realidade, sua força reflexiva. Por quê? Porque nada do que ela conta é falso. Nada. É tudo verdade no momento que surge, assim como um poema não precisa ser fiel aos fatos para dizer de algo muito profundo, assim como uma pintura não precisa falar apenas do vivido e observado. O que importa na arte é uma verdade emocional, é dizer uma mentira que será muitas vezes mais verdade que a verdade, ao expressar algo que reconhecemos em nós, ao tornar sensível o próprio ato de ser tocado. Isso é o fundamental de saber sobre a personagem: ela, enquanto artista, em casa nos objetos alheios como se fossem seus, valoriza aquilo que se deixa mover e, ao se deixar mover, só diz a verdade.
Prequel de Jogo de Cena (2007)
A virada no final é maravilhosa, não só pela surpresa, mas pela forma como segue fazendo sentido e nada do que foi visto antes se perde com a revelação, somente ganha novas cargas. Acho que ainda mais interessante que a virada no final é o depois - tanto o ato de reassistir o filme percebendo novos significados quanto o ato de simplesmente pensar sobre o filme e ir fazendo sentido do que foi visto.
Não sabemos muito sobre ela de verdade, mas ao mesmo tempo sabemos sim. Há um fascínio no olhar, um prazer da vida que - ao menos quando eu assisti - começa a se fazer notável no momento em que ela fala sobre as maçãs na feira, e que então segue nas reflexões sobre cada objeto. Em um momento da entrevista, Emilie diz que ama mais àqueles que se deixam tocar pelas coisas, que sabem se admirar, ser movidos. E me parece que esse é um tema que permeia, mesmo que implicitamente, a entrevista. É um se deixar,tocar pelos objetos da bolsa, deixar que algo se transmita - na voz, no rosto, nas palavras - a partir desse contato.
O final tem algo de cômico e explica algumas pequenas incongruências que vão aparecendo nos relatos, mas ainda assim nada do que ela disse perde seu sentido de realidade, sua força reflexiva. Por quê? Porque nada do que ela conta é falso. Nada. É tudo verdade no momento que surge, assim como um poema não precisa ser fiel aos fatos para dizer de algo muito profundo, assim como uma pintura não precisa falar apenas do vivido e observado. O que importa na arte é uma verdade emocional, é dizer uma mentira que será muitas vezes mais verdade que a verdade, ao expressar algo que reconhecemos em nós, ao tornar sensível o próprio ato de ser tocado. Isso é o fundamental de saber sobre a personagem: ela, enquanto artista, em casa nos objetos alheios como se fossem seus, valoriza aquilo que se deixa mover e, ao se deixar mover, só diz a verdade.