Dirigido por
Data de lançamento
1 Out. 2015Duração
Uma nova perspectiva sobre o significado do envelhecimento. Essa é a proposta do documentário “Envelhescência”, dirigido pelo gaúcho Gabriel Martinez. O filme relata a história de seis pessoas que reinventaram a sua velhice, descartando totalmente as limitações impostas pelo avanço da idade e pelas convenções sociais.Além dos perfis inspiradores de quatro paulistas e um catarinense - plenamente ativos após os 60 anos -, o filme discute os desafios e possibilidades dessa nova geração de idosos.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
O lema dos paraquedistas militares é que "Querer é poder. Se você quer, pode até voar".
Lindo, sensível e um olhar importante sobre o envelhecer! <3
IMPRIMATUR - visto no Youtube em 2021:
Envelhescência é um documentário que tenta ressignificar o envelhecimento pontuando a história de seis pessoas que obstruem os estereótipos da chegada “velhice” por descartarem, acima de tudo, algumas concepções impostas pelas limitações físicas ou por convenções sociais. Para tanto, o diretor Gabriel Martinez se vale de alguns exemplos que serviriam para contrariar justamente essa determinada perspectiva. Assim, apostando numa ruptura imediata de uma padronização comportamental que abranja varias possibilidades, ele usa como amostragem ilustrativa a figura de um adulto idoso maratonista, um surfista, o paraquedista, motociclista, o praticante de aikidô e um estudante - Tudo averiguado em constante diálogo por opiniões/reflexões de especialistas no assunto que está sendo tratado: a atividade humana no seu estágio de vida respeitosamente classificado como a “terceira idade”. Esta, uma nomenclatura quase anacrônica, mas que estaria fundamentada na segregação básica de todas as “coisas” que tem um início, um meio e um fim.
Logo, é preciso entender também que na natureza (cosmológica) a percepção de eternidade ou finitude não existe na irracionalidade, pois isso é um produto derivado da razão humana. E mesmo que tudo que vibre venha ao mundo cingido pela “vontade de viver”, como aclara o senhor Schopenhauer (1788-1860), é a percepção da morte/fim que fomenta no homem sua particularidade - e o que dá a individualidade humana é justamente sua consciência. Entretanto, a finitude da manifestação visível de vida terrestre, ainda que variante em temporalidade e espécies por enquanto permanece inevitável. Por isso, o ciclo de desenvolvimento humano mesmo adicionado da aprendizagem, deve obedecer a um fluxograma imutável: é preciso nascer, crescer (podendo reproduzir) e morrer. Nesse sentido, não se trataria somente daquilo que é, mas da melhor maneira de anteceder, dentro do tangível, o que de inevitavelmente irá acontecer.
Nesse momento o documentário Envelhescência, independentemente de ser uma tentativa de desmistificar possível consenso sobre a desistência de uma praticidade humana na chegada da sua limitação senil, joga muito bem com a atipicidade dos feitios dos personagens numa seleção com devida atenção para não descartar um demonstrativo de gênero, porque o olhar se faz propenso a uma distinção: o homem velho que surfa destoa, mas a mulher idosa surfando, com certeza potencializa a questão – Mesmo assim, é bom deixar claro que existe uma aceitação com ampla naturalidade por quem vive ou assiste (dentro e fora da tela), que indiciaria um novo tipo de tendência para a “velhice” humana como uma demanda que não cabe mais ao descarte. Ninguém duvida que seja nessa fase que a própria estrutura, embora não preencha “o” tudo, ao menos pré-idealiza condições para plenitude dos gozos da senilidade, porque o “velho” teria plena concessão social para todos os seus atos: “Os velhos podem fazer tudo!”, já se afirma o mundo. Curiosamente esse juramento não só aparece no filme e se refere decididamente a tudo dentro da legalidade, mas serve para confirmar que a objetivação do documentário é alavancar o assunto pela perspectiva da positividade. Ou seja, muito longe do perfil largado para a fatalidade.
No entanto, é preciso deixar claro também que o desenvolvimento físico tem expiração na temporalidade, e notadamente chega um momento na vida em que se ocorre uma estabilidade à espera do definhamento - o que pode ou não permanecer contínuo é a atividade mental. Ou seja, superando as questões de saúde, ressalvando a perspectiva adaptativa do ser velho na atualidade recorrida no documentário, infelizmente teria que anular dois exemplos da escolha do diretor: o senhor Ono Sensei de 89 anos e o senhor Edson Gambuggi de 87. Isso porque a situação de ambos não causam a mesma estranheza que as demais. Afinal as artes marciais além de ser um esporte, são conhecidas pela manutenção corriqueira do equilíbrio físico/mental. E no caso do senhor Edson, uma formação continuada estaria dentro de sua própria ambientação visivelmente intelectual, ou seja, não saltaria aos olhos como uma ruptura... Talvez, se fosse uma primeira graduação poderia. Além disso, ambos convergiriam para o mais frutífero sentido funcional da inteligência como um arquétipo inteligível que vislumbre a renovação social. Sabidamente, se como parte integrante de seu itinerário o homem se reproduz, ao menos ele tem um parâmetro biológico de missão cumprida, pois ele não deve a si mesmo uma insistência obrigatória de uma eternidade – só que qualquer coisa que persista nisso sem uma plena objetivação pode ser puro reflexo de um egocentrismo. Provavelmente, como já foi dito, será na prova de uma utilidade por dentro do lacro social frente à negativa da natureza, que a superação não estoica do envelhecimento se enseja institivamente. Daí a razão de ser muito mais fácil constatar um idoso maravilhado com seu deslocamento para ir votar numa eleição, mesmo desobrigado, que um jovem. Melhor, só o jovem de 16 anos demostraria igual fervor quando se trata do seu primeiro voto – se para um o ato pode ser percebido como um rito social de afirmação, para outro, teria a valia de uma reafirmação.
Aliás, Envelhescência, remete involuntariamente a uma explanação que o senhor Erasmo de Rotterdam (1466-1536) pontua em Elogio da Loucura, quando lá ele chama a atenção para a reciprocidade física e intuitiva que os idosos possuem com as crianças quase por conta de uma linguagem aproximada. Lembrar, no entanto, desse acostamento seria parte de um dos problemas de Envelhescência, já que fica nítido nos depoimentos anotados ao longo do filme um perceptível consenso de que apenas comparado ao chamado idoso, só as crianças estariam igualmente livres para viver a plenitude de um gozo. Na verdade isso só é um problema se nesse momento o intuito ressonante de Envelhescência, sobre o estágio de ser velho, queira enquadrar uma vertente positiva para negar o ‘sigelismo’ do viver. Não há problema algum em ser somente o velhinho que joga dominó na praça, que gosta de tricotar, que só observa e prioriza posturas mais brandas - ou pouco importa também quem usaria a velhice para virar um maratonista, surfista, paraquedista ou motociclista, pois toda variação, mesmo que não aparente ser só escapista, tenderá sempre ao mesmo destino.
Na vida talvez só exista uma única cobrança para a velhice como um débito que não poderia ser aferido similarmente a uma criança: a devolução para o mundo de tudo aquilo que lhe foi mensurado. De fato seriam os renovos quem mais interessaria para a natureza, e o desenvolvimento cognitivo humano, mesmo com as limitações da idade, não cessam enquanto existir lucidez. Sendo assim, o valor cíclico ou de reciprocidade social ampara, inclusive, a perspectiva de Vygotsky (1896-1934) sobre a mediação - o adulto que orientou a criança pode persistir como um eterno orientador, da mesma maneira que futuramente ocorra uma inversão de papeis, visto que estaria dentro de uma naturalidade o neto ensinar o avô a mexer em um ‘smartphone’. Nem sempre tudo que aparenta ser chato deve ser descartado e ninguém precisaria deixar de ir ao bingo por querer ser surfista também. Só que talvez tudo seja sempre sobrepujado em realidade como levemente asseverando pelo sexagenário “Rocky Balboa”, no seu filme de 2006. Até se faz redundante, mas não é que ‘A história só acaba quando termina!’ - e realmente acumulamos coisas em nossos porões internos que talvez tenhamos ainda o desejo de botar para fora. Por isso que a exclusividade de uma decisão de desistência, ou não, deve ser particularizada, mas nunca delegada ao descarte por meio de outrem. Afinal, superando-se a eterna liberdade latente da existência em conflito, é bom que se viva e que também se deixe viver.
AVALIAÇÃO EM NOTA: 7.4
Pensei que sairia com uma crise existencial, saí com o coração quentinho! <3
Eu estava prestes a ver porém sem condições nesse momento de pico de pandemia... Vou desabar demais