Data de lançamento
10 Ago. 2020Duração
A grande explosão que devastou boa parte da capital do Líbano, Beirute, completa uma semana nesta terça-feira, 11 de agosto. Para discutir esse assunto e também o futuro do Líbano, o apresentador Sérgio Aguiar conversou com o repórter Herbert Moraes, que foi correspondente no Oriente Médio durante 15 anos, e com o professor e doutor em ciência política da Universidade de São Paulo, especializado em conflitos no Oriente Médio, Samuel Feldberg.
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FATO HISTÓRICO
Neste dia, 18 de janeiro de 1976 — há 50 anos — um dos episódios mais brutais da guerra civil libanesa chocava Beirute. Milícias cristãs atacaram o bairro de Karantina, então habitado majoritariamente por palestinos, muçulmanos libaneses e trabalhadores migrantes, matando entre 600- 1500 pessoas em poucas horas.
O massacre ocorreu nos primeiros meses de um conflito que havia começado em abril de 1975 e que rapidamente transformou o Líbano em um campo de batalha fragmentado por linhas sectárias e ideológicas. Karantina, uma área pobre e densamente povoada no leste de Beirute, era vista por milícias cristãs como uma ameaça estratégica em meio à disputa pelo controle da capital.
O ataque foi executado por grupos armados ligados a partidos cristãos maronitas, que cercaram o bairro e avançaram casa por casa. A violência não poupou civis. O massacre provocou horror dentro e fora do país e alimentou um ciclo imediato de represálias: poucos dias depois, milícias palestinas retaliariam com o massacre de Damour, aprofundando ainda mais a espiral de violência.
Karantina tornou-se um símbolo da normalização da limpeza sectária e da erosão completa das fronteiras entre combatentes e civis. Ao longo dos quinze anos de conflito, o Líbano viveria sucessivos massacres e colapsos institucionais, com um saldo estimado de centenas de milhares de mortos e um país traumatizado.
A guerra civil só chegaria oficialmente ao fim em 1990, após o Acordo de Taif, assinado em 1989, q redesenhou o sistema político do país.
A reação internacional ao longo da guerra foi marcada por envolvimento direto de atores externos, entre eles Síria, Israel e Irã, q passou a apoiar grupos xiitas, contribuindo para o surgimento do Hezbollah. Os EUA e a França intervieram episodicamente, sobretudo na década de 1980. Em vez de conter a violência, isso frequentemente aprofundou a fragmentação do conflito e prolongou a guerra.
5 décadas depois, o massacre de Karantina permanece uma ferida aberta na memória libanesa. Ele lembra que guerras civis não começam com grandes batalhas entre exércitos, mas com a desintegração gradual da convivência social.