“Estação do Diabo“, quando apresentado, foi descrito como um anti-musical, onde não seriam apresentadas músicas incidentais e todos os personagens as cantariam a capela. Chamar o filme de uma antítese musical é um tanto quanto exagerado, pois os elementos característicos e particulares do gênero estão presentes, que se refugia, inclusive, numa mise-en-scène meticulosa, onde personagens ocupam o quadro como num grande número ensaiado, porém de uma forma subversiva, muito mais minimalista.
O filme se inicia com uma narração em off, que além de contextualizar o período político e histórico em que a trama se passa, também serve como uma porta de entrada ao mitológico, que soa, ironicamente, fabular e cru ao mesmo tempo. A contradição entre a fantasia do musical e a austeridade narrativa, com planos longos praticamente estáticos e com uma fotografia em preto e branco, dão ao filme um caráter peculiar, que deixa o espectador envolto de sentimentos confusos. Dificilmente nos desprendermos da realidade cruel que nos é apresentada através dos personagens, embora a suspensão de descrença que permeia os musicais nunca deixe de existir.
É interessante analisar a escolha estilística em que o cineasta se propõe ao subverter um gênero, o que não é exatamente original, óbvio, mas que possui o seu claro aspecto autoral. Como o filme não possui acompanhamento instrumental em suas canções, a diegese alcança outros níveis, o que o torna mais orgânico nas apresentações das músicas, não privando a obra de se tornar também enfadonha em alguns momentos. Outro fator decisivo dentro dessa escolha narrativa, é como as canções surgem, ora na voz dos oprimidos e tantas outras vezes na voz dos opressores. Diaz consegue transmitir muito bem os sentimentos dos personagens através da colocação e da entonação das canções, sem necessariamente se fazer valer por letras.
Os monólogos apresentados, muitas vezes cantados pelos perseguidos, são extremamente solitários, enquanto o coro que mais se repete ao longo da obra é cantarolado com euforia pelos pulmões dos militares. Com consciência das posições de seus personagens dentro das próprias melodias, Diaz brinca com tal elemento, traçando o arco narrativo baseando-se nesta sutil informação. O poeta Hugo Haniway, brilhantemente interpretado por Piolo Pascual, por exemplo, passa por uma dolorosa transformação durante a trama, que pode ser traduzida na forma como seus versos são cantados, que surgem inicialmente como monólogos, passando por um longo e doloroso silêncio, até, por fim, na subversão do coro dos militares – quando Hugo parte para o enfrentamento e a resistência.
Tratando-se de uma obra com mais de 230 minutos de duração, fica difícil manter o interesse do espectador numa constante dentro dessa proposta de musical, mesmo com todo o esmero da fotografia de Larry Manda, que extraí das locações belos planos expressionistas, que servem muito bem para o entorno soturno e fabuloso da obra. Mas a repetição de melodias apresentadas desfavorece o filme, deixando-o mais cansativo do que obras mais longas do próprio cineasta, como “Do Que Vem Antes” (Mula sa kung ano ang noon, 2014), que possui quase 6 horas de duração e que não sofre com o estofo que marca algumas cenas de “Estação do Diabo“.
Porém, o que marca o filme e o que o potencializa em sua força temática, é a necessidade do cineasta em falar sobre o passado de seu país, costurando uma colcha de retalhos histórica, que em tantos momentos parece ser esquecida, abrindo precedentes para que momentos sombrios retornem, algo que vivenciamos também no Brasil, inclusive.
A força discursiva do filme é tão forte, que, mesmo após as longas horas e das diversas melodias apresentadas, uma se sobressai, seja pela sensibilidade da composição, ou pela forte letra, que é o coro daqueles que resistem e cantam para que os oprimidos despertem, os chamando em repetidas vezes de filhos da pátria. Simbólico e contundente.
a poesia se insurge contra os grunhidos das armas: nesta obra, as únicas vozes que transcendem a repetição da canção é o poema inicial e os berros ininteligíveis do ditador Narciso.
Tem méritos na linguagem cinematográfica e estética, a inserção política histórica é atrativa, mas os personagens ficam presos ao maniqueísmo e o desenvolvimento estrutural do tema é… muito… lento.
Minha primeira experiência com o cinema de Lav Diaz não poderia ser de outra forma a não ser numa sala de cinema.
Em Estação do Diabo, Lav Diaz faz um filme em memória àqueles que sofreram com a Lei Marcial nas Filipinas durante a década de 70, contando de maneira extremamente dramática e autoral os excessos de um governo ditatorial que assolou o seu país por anos.
Na história, dois personagens centrais dão o tom: Hugo (Piolo Pascual) tenta descobrir o paradeiro de sua esposa (Shaina Magdayao), levada por um grupo de militares apoiadores do presidente Narciso (Noel Sto. Domingo), e Kwago (Pinky Amador) é uma mulher que vive amargurada após os assassinatos do marido e da filha e por sofrer preconceito na vizinhança.
Como era de se esperar, não é um filme fácil, mas não só por ser um musical filipino em preto e branco com quatro horas de duração, seu tema também é muito pesado e o sofrimento dos personagens é exacerbado com as músicas cantadas à capela.
As músicas acabam deixando o filme mais fácil de ser acompanhado e, embora nem todas funcionem tão bem e, às vezes, se atropelem - há uma sequência em que duas músicas são cantadas uma logo após a outra, sem pausas - deve-se destacar a belíssima voz de Bituin Escalante que tem, de longe, os números mais emocionantes e lindos do filme.
Em contrapartida, é irônico que a música mais chiclete do filme seja cantada pelo grupo de militares, o "lala lala" deles funciona como uma espécie de hino às suas torturas, por isso, a cena em que Hugo o entona, com raiva e desprezo, é de temer por sua vida.
Uma das experiências mais incríveis que tive no cinema e que ficará marcada para sempre. Fácil não é, mas também não deve ter sido nada fácil para aqueles filipinos e Lav Diaz consegue transmitir isso muito bem.
“Estação do Diabo“, quando apresentado, foi descrito como um anti-musical, onde não seriam apresentadas músicas incidentais e todos os personagens as cantariam a capela. Chamar o filme de uma antítese musical é um tanto quanto exagerado, pois os elementos característicos e particulares do gênero estão presentes, que se refugia, inclusive, numa mise-en-scène meticulosa, onde personagens ocupam o quadro como num grande número ensaiado, porém de uma forma subversiva, muito mais minimalista.
O filme se inicia com uma narração em off, que além de contextualizar o período político e histórico em que a trama se passa, também serve como uma porta de entrada ao mitológico, que soa, ironicamente, fabular e cru ao mesmo tempo. A contradição entre a fantasia do musical e a austeridade narrativa, com planos longos praticamente estáticos e com uma fotografia em preto e branco, dão ao filme um caráter peculiar, que deixa o espectador envolto de sentimentos confusos. Dificilmente nos desprendermos da realidade cruel que nos é apresentada através dos personagens, embora a suspensão de descrença que permeia os musicais nunca deixe de existir.
É interessante analisar a escolha estilística em que o cineasta se propõe ao subverter um gênero, o que não é exatamente original, óbvio, mas que possui o seu claro aspecto autoral. Como o filme não possui acompanhamento instrumental em suas canções, a diegese alcança outros níveis, o que o torna mais orgânico nas apresentações das músicas, não privando a obra de se tornar também enfadonha em alguns momentos. Outro fator decisivo dentro dessa escolha narrativa, é como as canções surgem, ora na voz dos oprimidos e tantas outras vezes na voz dos opressores. Diaz consegue transmitir muito bem os sentimentos dos personagens através da colocação e da entonação das canções, sem necessariamente se fazer valer por letras.
Os monólogos apresentados, muitas vezes cantados pelos perseguidos, são extremamente solitários, enquanto o coro que mais se repete ao longo da obra é cantarolado com euforia pelos pulmões dos militares. Com consciência das posições de seus personagens dentro das próprias melodias, Diaz brinca com tal elemento, traçando o arco narrativo baseando-se nesta sutil informação. O poeta Hugo Haniway, brilhantemente interpretado por Piolo Pascual, por exemplo, passa por uma dolorosa transformação durante a trama, que pode ser traduzida na forma como seus versos são cantados, que surgem inicialmente como monólogos, passando por um longo e doloroso silêncio, até, por fim, na subversão do coro dos militares – quando Hugo parte para o enfrentamento e a resistência.
Tratando-se de uma obra com mais de 230 minutos de duração, fica difícil manter o interesse do espectador numa constante dentro dessa proposta de musical, mesmo com todo o esmero da fotografia de Larry Manda, que extraí das locações belos planos expressionistas, que servem muito bem para o entorno soturno e fabuloso da obra. Mas a repetição de melodias apresentadas desfavorece o filme, deixando-o mais cansativo do que obras mais longas do próprio cineasta, como “Do Que Vem Antes” (Mula sa kung ano ang noon, 2014), que possui quase 6 horas de duração e que não sofre com o estofo que marca algumas cenas de “Estação do Diabo“.
Porém, o que marca o filme e o que o potencializa em sua força temática, é a necessidade do cineasta em falar sobre o passado de seu país, costurando uma colcha de retalhos histórica, que em tantos momentos parece ser esquecida, abrindo precedentes para que momentos sombrios retornem, algo que vivenciamos também no Brasil, inclusive.
A força discursiva do filme é tão forte, que, mesmo após as longas horas e das diversas melodias apresentadas, uma se sobressai, seja pela sensibilidade da composição, ou pela forte letra, que é o coro daqueles que resistem e cantam para que os oprimidos despertem, os chamando em repetidas vezes de filhos da pátria. Simbólico e contundente.
Onde vcs veem esse filme?
a poesia se insurge contra os grunhidos das armas: nesta obra, as únicas vozes que transcendem a repetição da canção é o poema inicial e os berros ininteligíveis do ditador Narciso.
Tem méritos na linguagem cinematográfica e estética, a inserção política histórica é atrativa, mas os personagens ficam presos ao maniqueísmo e o desenvolvimento estrutural do tema é… muito… lento.
Minha primeira experiência com o cinema de Lav Diaz não poderia ser de outra forma a não ser numa sala de cinema.
Em Estação do Diabo, Lav Diaz faz um filme em memória àqueles que sofreram com a Lei Marcial nas Filipinas durante a década de 70, contando de maneira extremamente dramática e autoral os excessos de um governo ditatorial que assolou o seu país por anos.
Na história, dois personagens centrais dão o tom: Hugo (Piolo Pascual) tenta descobrir o paradeiro de sua esposa (Shaina Magdayao), levada por um grupo de militares apoiadores do presidente Narciso (Noel Sto. Domingo), e Kwago (Pinky Amador) é uma mulher que vive amargurada após os assassinatos do marido e da filha e por sofrer preconceito na vizinhança.
Como era de se esperar, não é um filme fácil, mas não só por ser um musical filipino em preto e branco com quatro horas de duração, seu tema também é muito pesado e o sofrimento dos personagens é exacerbado com as músicas cantadas à capela.
As músicas acabam deixando o filme mais fácil de ser acompanhado e, embora nem todas funcionem tão bem e, às vezes, se atropelem - há uma sequência em que duas músicas são cantadas uma logo após a outra, sem pausas - deve-se destacar a belíssima voz de Bituin Escalante que tem, de longe, os números mais emocionantes e lindos do filme.
Em contrapartida, é irônico que a música mais chiclete do filme seja cantada pelo grupo de militares, o "lala lala" deles funciona como uma espécie de hino às suas torturas, por isso, a cena em que Hugo o entona, com raiva e desprezo, é de temer por sua vida.
Uma das experiências mais incríveis que tive no cinema e que ficará marcada para sempre. Fácil não é, mas também não deve ter sido nada fácil para aqueles filipinos e Lav Diaz consegue transmitir isso muito bem.