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Dava tudo para ser uma mera divulgação turística dos Lençóis Maranhenses, se não fosse a poética documental explorada com atores e população local, que sugere uma imersão etnográfica da equipe de produção e do diretor que já realizou um curta sobre a parteira que inspira a personagem principal. Em alguns momentos, lembrou-me o maravilhoso Girimunho (2012), de Helvécio Marins Jr., Clarissa Campolina. O filme retrata vários dramas do povoado e região (a falta de energia elétrica, que força a conservação dos alimentos com sal, o aliciamento de menores pela facção criminosa 10T, o avanço neopentecostal, o aquecimento global que afeta as dunas, o lixo oceânico que reduz o pescado), embalados pela musicalidade maranhense nas radiolas, nos cantos ancestrais, no tambor de crioula ou nos sons de matraca, pandeirão, tambor-onça, zabumba e maracá típicos do bumba-meu-boi do Maranhão. Não é romantização da precariedade resiliente da cultura popular e nem só exaltação da riqueza cultural do Estado: é sensibilização, como pode ser depreendido da fala do diretor, em entrevista para o Portal Exibidor:
"A duna que desvia o rio que destrói casas em um povoado isolado é o prenúncio de uma tragédia climática que está batendo na porta de todo mundo. O sal que matou o marido de Betânia é, de certa forma, a representação da má gestão da pandemia que matou tantos brasileiros. A revolta de Dona Betânia é a nossa revolta. Mas, assim como as flores que surgem nos Lençóis na época da seca, Betânia e sua família renascem"
Uma fotografia e sequências fabulosas, como a de ''roda viva'' tocada no pátio superior ao redor da balaustrada, além de toda essa evocação fiel à estética da época, à fotografia de Mário Carneiro ou a atmosfera de filmes como a presente em Manhã Cinzenta (Olney São Paulo) e em O Desafio (Saraceni).
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Seria mais um clichê, a constatação de o filme funcionar como 'um soco no estômago', em sua narrativa documental e de denúncia da impunidade em relação à violência estatal e praticada pelas forças armadas contra civis.
No entanto, a força do filme reside não na insistência em continuar denunciando a impunidade, mas na forma como é feito, refletida na persistência das diretoras, especialmente a Gizela, cria da Maré, como ela se autodenomina. Em sua obstinada continuidade que acompanhou a situação da ocupação pelas UPPs ao longo de 10 anos e as vítimas da violência, pelo material reunido, que permitiu a ela compor um filme-arma (como os shots expostos na montagem o assinalam).
É um filme-arma que insiste, resiste, em continuar manifestando sua indignação diante desses crimes, apesar do mais-do-mesmo incessante exposto na mídia jornalística, como Gizele mesmo constata: ''democracia não chegou na favela em 1985, continuamos na ditadura". Assim como os povos originários diuturnamente ameaçados pela ocupação criminosa de seu território, a favela resiste e sangra.
A duração da exposição aos eventos relatados, pode fazer indolentes os que acompanham de longe, mas quem vive isso, pode extrair uma força de sobrevivência que consegue criar diante da precariedade, da vida danificada. Fiquei sem reação ao terminar de assistir ao filme, pois confesso, foi mais uma raiva recepcionada sem alarde, depois de muitas já sentidas e acumuladas, no absurdo sociopata capitalista neoliberal colonial em que vivemos. Mas antes de pensar em sensibilidade ou emoções, eu penso em minha consciência, em estar atento (e forte). É isso que o filme traz, entre a força ou a sensibilização: é salutar que tenhamos armas e nossa consciência diante do absurdo (e que bom que o Braga Netto tá preso!).