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No início do século XX, após um alegre Natal na família Ekdahl, o pai de um casal de crianças vem a falecer. Deste momento em diante Alexander (Bertil Guve), o menino, passa a ver o fantasma do pai freqüentemente. Tempos depois Emilie (Ewa Fröling), sua mãe, casa-se com um extremamente rígido religioso e as crianças são obrigadas a deixar a casa da avó paterna, onde foram muito felizes, e passam a viver com a família do padrasto de hábitos severos, onde são tratados como prisioneiros. Na casa do padrasto o menino passa a ver o fantasma da primeira esposa dele e suas filhas, que haviam morrido tentando escapar dele. Decorrido algum tempo, a mãe se conscientiza da real personalidade do marido e de quanto seus filhos sofrem naquela casa, assim planeja um modo de tirá-los daquele lugar e levá-los de volta à casa da avó.
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Desde que comecei a ler e ouvir Camille Paglia, fiquei fascinado pela ideia de que muitas famílias, inclusive as mais profundamente tradicionais, são organizadas emocionalmente em torno das mulheres. O poder que elas exercem — aquilo que Paglia chama de “ctônico” — é quase intangível, invisível, difícil de formalizar, mas ao mesmo tempo onipresente e inquestionável dentro do próprio ambiente doméstico. Certas vertentes do feminismo moderno às vezes têm dificuldade de compreender esse tipo de influência porque ela nem sempre se manifesta através de autoridade explícita, status público ou confronto direto. Em Fanny e Alexander, do Bergman, essa força emocional feminina existe de maneira muito clara, mesmo dentro de uma estrutura familiar burguesa extremamente específica, moldada por hierarquia, ritual, empregados domésticos, cultura herdada e papéis tradicionais.
Uma cena em particular ficou gravada na minha cabeça. A avó observa fotografias antigas do marido falecido enquanto a família conversa casualmente sobre as infidelidades dele. Não existe explosão melodramática, nem a sensação de que aquelas traições tenham envenenado espiritualmente a casa para sempre. Ela sorri levemente, quase com uma ironia afetuosa, como quem relembra uma falha que fazia parte da própria vida. Em seguida, a conversa passa naturalmente para o caso do filho dela com uma das empregadas da casa, que agora está grávida. O que mais me impressionou foi o tom da cena. O filho admite abertamente que sempre teve uma fraqueza por mulheres, e as mulheres ao redor dele praticamente dão risadinhas diante da confissão. Elas não tratam a infidelidade como algo glamouroso ou romântico. Tratam como fraqueza. Uma espécie de tolice masculina. Por alguns instantes, ele quase parece um menino constrangido pela própria falta de disciplina.
Eu sinceramente nunca tinha visto a infidelidade ser enquadrada dessa forma. Sempre associei isso instintivamente à degradação do lar, à corrupção moral se espalhando pela vida familiar. Bergman apresenta algo muito mais complicado e muito mais humano. A família Ekdahl convive com casos extraconjugais, silêncios, concessões, acordos discretos, e ainda assim a casa permanece cheia de calor, ternura, humor, sensualidade, cultura, vida. O verdadeiro horror do filme vem de outro lugar.
A casa do bispo é que se torna espiritualmente insuportável. Tudo ali é disciplinado, ordenado, moralmente rígido, desprovido de suavidade. A violência emocional daquele ambiente me marcou muito mais profundamente do que as infidelidades da família Ekdahl em qualquer momento. Bergman parece profundamente desconfiado de pessoas que sacrificam ternura, misericórdia e inteligência emocional no altar da verdade e da moralidade.
Essa inteligência emocional pertence sobretudo e inequivocadamente às mulheres do filme. Elas compreendem vaidade, fraqueza, desejo, concessão. Parecem mais fortes que os homens justamente porque conseguem enxergar a imperfeição humana sem cair no cinismo. Elas preservam quase instintivamente a continuidade emocional da família.
O que torna tudo isso ainda mais fascinante é que o filme nunca soa ideologicamente moderno. A casa dos Ekdahl depende de hierarquia, ritual, cultura herdada, empregados, estrutura familiar. O calor daquela família existe dentro dessa estabilidade social. Bergman entende que permissividade sem estrutura facilmente se transforma em caos. Tudo naquela casa possui forma: os jantares, as celebrações, o teatro, os rituais da vida cotidiana. Até a sensualidade possui etiqueta.
No começo, eu não entendia completamente o que o filme estava fazendo. Achei a primeira metade excessivamente doméstica e lenta. Quando terminou, percebi que Bergman estava nos permitindo habitar aquele mundo por inteiro antes de revelar o quão frágil ele era. O filme se torna emocionalmente devastador justamente porque a casa dos Ekdahl parece tão viva. É um dos interiores mais bonitos que já vi no cinema. A luz das velas, os tecidos, os tons vermelhos e dourados, a atmosfera de inverno, os cômodos abarrotados de objetos e memórias — tudo parece habitado.
Houve momentos em que deixei de sentir que estava assistindo a um filme e comecei a sentir como se, de alguma maneira, eu me lembrasse daquela casa da minha própria infância. As cenas das crianças correndo pelos corredores, conversando com a avó, ouvindo fragmentos das conversas dos adultos, vagando pelos quartos à noite — Bergman captura a sensação da infância com uma precisão assustadora. Você se lembra de texturas, sombras, sons, quartos aquecidos durante o inverno, vozes distantes de adultos. Você se lembra das casas quase como seres vivos.
Talvez isso também explique por que fiquei obcecado com um detalhe minúsculo durante uma cena de tempestade. Primeiro vemos o clarão do relâmpago; só depois o trovão chega. Fisicamente correto. Um detalhe tão pequeno, mas que mudou completamente a sensação da cena para mim. A maioria dos filmes comprime a realidade em nome do efeito dramático. Aqui, Bergman e Sven Nykvist preservam o atraso natural entre luz e som, e de repente o mundo parece completamente real. Detalhes assim vão se acumulando ao longo do filme até mesmo os elementos sobrenaturais — fantasmas, visões, momentos de conto de fadas — adquirirem uma credibilidade estranha.
E o filme realmente se transforma em algo próximo de um conto de fadas. O bispo cruel, as crianças aprisionadas, o resgate misterioso, o antiquário que parece quase mágico, os fantasmas que vagam pela memória e pelos espaços da casa. Ainda assim, nada disso rompe o realismo emocional da narrativa. Bergman transita entre intimidade doméstica e terror metafísico com tanta naturalidade que as duas dimensões começam a se fundir. Essa fusão entre cotidiano concreto e irrupção espiritual me lembrou muito o Jean-Claude Brisseau, quando o místico/sobrenatural parece emergir organicamente da experiência emocional e sensorial dos personagens, sem jamais destruir a materialidade do mundo. Fantasia, trauma, arte, visão espiritual e memória permanecem suspensos juntos o tempo inteiro, sem que o filme force uma explicação definitiva.
Quando terminou, tive a sensação de ter assistido a algo quase impossivelmente completo. Pouquíssimos filmes conseguem criar um universo emocional tão rico, com um tecido tão vivo, permanecendo ao mesmo tempo tão íntimos, tão belos e tão estranhos. Desde já o meu Bergman favorito.
Tive a coragem e o privilégio, de assistir à versão mais longa de Fanny & Alexander, com 5h21min de duração. Essa é a montagem mais fiel ao propósito de Ingmar Bergman. Para o cinema, cortaram cerca de duas horas, e sinceramente: faz diferença. Sim, é muito tempo? É. Mas não é cansativo. Assisti num único dia, totalmente imerso, e quando terminou, senti que poderia continuar naquele universo facilmente.
Bergman nos introduz lentamente ao mundo dos Ekdahl, uma família burguesa sueca do início do século XX (1907-1909), época marcada pelo fim da Era Vitoriana e início da modernização europeia. Esse contexto é importante: o filme conversa com o conflito entre tradição e modernidade, fé e arte, disciplina e liberdade, tensões típicas do período.
Aos poucos, sem pressa e com uma câmera íntima, Bergman nos faz sentir parte daquela casa: rimos com seus excessos, reconhecemos suas contradições, e nos aproximamos emocionalmente dos personagens. É cinema puro e raro, não somos apenas espectadores, somos convidados a entrar na sala, sentar ao lado da família e observá-la respirar.
O diretor explora o existencial como só ele consegue: longas conversas, discussões filosóficas e diálogos que revelam certezas, medos, traumas e desejos profundos. Não há pressa, não há atalhos, Bergman constrói um olhar humano, que mistura poesia, espiritualidade, psicanálise, fantasia e crueldade cotidiana.
O contraste entre dois mundos é brutal: de um lado, a liberdade artística e calorosa dos Ekdahl; do outro, a frieza religiosa do bispo. É como se Bergman colocasse a vida e a morte em confronto. A arte e a repressão. A infância e a perda da inocência.
No final, sobra aquele sentimento raro de que acompanhamos uma vida inteira: infância, família, amor, violência psicológica, luto, memória e imaginação.
É um filme monumental. Uma obra que exige entrega, mas devolve profundidade. Para quem ama cinema existencial, Fanny e Alexander não é apenas um filme é uma experiência.
O filme é um clássico, a série consegue aprofundar ainda mais, vemos mais interações dos irmãos Gustav e Carl, a cena do sótão do Alexander que é digna de filme de terror, e também cenas extras do teatro da Emilie.