Uma jornada espiritual nas montanhas de Harar, imersa nos rituais do khat, uma folha que os muçulmanos sufistas mastigavam durante séculos para meditações religiosas - e a safra de dinheiro mais lucrativa da Etiópia hoje.
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Uma pessoa normal/comum nunca conseguiria ver esse filme até o final.
Poesia visual com foco na sutileza e na imaginação da diretora. Um trabalho muito delicado que remete bastante em alguns pontos ao estilo do Abbas Kiarostami.
Faya Dayi é um documentário diferente. É um filme que a princípio trata da relação de um povo, os Oromos, com a produção e consumo da folha de khat na Etiópia; mas não há muito preâmbulo, não há entrevistas, e toda a informação que conseguimos assimilar vem das falas das pessoas ou mesmo de efeitos de edição, muitas vezes sutis (um caminhão acidentado, cartas sendo queimadas). Sua construção parece mais de um filme ficcional com narrativa elíptica. Ao ponto que algumas cenas e falas parecem e devem ter sido fabricadas, ainda que não duvide que sejam fruto de experiências verídicas. É elusivo, um tanto difícil de acompanhar de início, mas esteticamente tão belo, com uma construção sonora imersiva, abstraída na maior parte de trilha sonora - exceto por música ambiente e drone a cargo de William Basinski e outros artistas - em favor de sons naturais, e uma estupenda fotografia em preto e branco que remete ao irreal e onírico, que não consegui tirar o olho da tela. Lembra muito a estética dos filmes de Lav Diaz. É também um filme profundamente melancólico como os do diretor filino. A diretora Jessica Beshir não te leva pela mão, mas o convida para se entremear no tecido social de desilusão desse povo, tangenciando nas disputas políticas que o afeta e nos mitos folclóricos e religiosos relacionados à folha de khat. A produção dessa folha é a maior ou talvez única saída da miséria econômica dentro do lugar onde vivem. Ou isso ou uma incerta e perigosa procura por oportunidades no exterior. Eu não fazia ideia do quão imensa é a produção, consumo e dependência desse produto. Se mastiga a folha para dar algum ânimo, com efeito psicoativo, já que o consumo de álcool é proibido no islamismo. Também é interessante perceber como seu uso, ainda que indiscriminado entre toda a população, é diferenciado dentro dela: há aqueles que usam a folha em ritos espirituais, aqueles que usam como meio de se conectar a seus semelhantes em rodas sociais, e aqueles que estão tão mergulhados no vício e desilusão, que vivem somente para o consumo individual, ao ponto de se isolarem e se tornarem abusivos com seus familiares. Apesar disso, o filme não parece condenar o consumo de khat (ainda que haja estudos sobre seus malefícios), mas nos permite ver como a relação de um povo com essa planta molda a própria percepção individual e relação humana entre seus pares. Seu consumo é apenas uma muleta psicológica à angústia pessoal fruto de um sistema político de opressão e de poucas oportunidades. Há muitas declarações desalentadoras, olhares tristes e perdidos, mas, pelo menos enquanto estão trabalhando na extração e condicionamento do produto para a venda, as pessoas riem e parecem felizes. Há ânimo pelo menos enquanto trabalham. O final do filme, entretanto, não oferece esperança ou dá alguma resposta. Um impressionante longa de estreia de Jessica Beshir.