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Data de lançamento
14 Ago. 2024Duração
Quatro meninas se preparam para uma dança especial com seus pais encarcerados, como parte de um programa de paternidade em uma prisão de Washington, D.C.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Não me agrada a forma do documentário, aquele padrão Netflix de ser com pianos chorosos em uma tentativa apelativa de emocionar, acaba que o principal momento do filme que é o encontro pré-baile é estragado por esta trilha horrenda. No geral me entristece demais que estas meninas tenham tido estes pais, um pecado, por outro lado o documentário foi assertivo em não levantar bandeiras, demonstrou o projeto e deixou a cargo do espectador julgá-lo.
Alguns filmes nos lembram que o cinema, antes de tudo, é uma janela para a humanidade. “Daughters”, co-dirigido por Angela Patton e Natalie Rae, é um desses. O documentário não se limita a ser um retrato das “Daddy Daughter Dances” organizadas por Patton em prisões. Ele é um estudo profundamente comovente sobre reconexão, vulnerabilidade e a busca por redenção, contado com a sensibilidade que apenas histórias tão pessoais merecem.
A narrativa é centrada em quatro meninas e suas jornadas emocionais com pais que estão atrás das grades. Patton e Rae têm o cuidado de não tratar as meninas apenas como vítimas das circunstâncias: elas são apresentadas como indivíduos complexos, com sonhos, medos e uma resiliência que desafia suas idades. Aubrey, por exemplo, impressiona com sua inteligência precoce e obsessão por números, que ela usa para tentar entender quanto tempo falta para rever o pai. Já Santana, com apenas 10 anos, carrega o peso de ser “o pai” da família, enquanto Ja’Ana e Raziah, em idades diferentes, lidam com a ausência paterna de maneiras que vão da dor crua ao cinismo ressentido.
O documentário, no entanto, não se contenta em apenas capturar as histórias dessas meninas. Ele também dá voz aos pais, homens que, mesmo em um ambiente punitivo, estão tentando reescrever suas narrativas. Um dos momentos mais impactantes é a preparação para o baile, quando os pais trocam seus uniformes laranja por ternos e gravatas. Esse ato simples ganha um simbolismo poderoso: é mais do que vestir-se bem, é um gesto de dignidade, um lembrete do que significa ser visto como algo além de um número de identificação ou de um erro do passado.
A decisão de não explorar os crimes que levaram esses homens à prisão é acertada. O foco aqui não é julgá-los, mas mostrar sua humanidade. Como uma fala memorável no documentário sugere, “Ninguém é tão ruim quanto no seu pior dia”. E o filme acredita nisso com firmeza. O que importa é o que acontece quando eles estão com suas filhas, ainda que por algumas horas: um espaço onde vulnerabilidades se tornam forças, onde a reconexão parece possível e onde tanto pais quanto filhas têm permissão para serem, por um momento, apenas família.
A estética de “Daughters” também é um ponto alto. A fotografia de Michael Fernandez adota uma abordagem lírica, com leves efeitos de câmera lenta que capturam a inocência das meninas e o peso emocional do tempo perdido. A trilha sonora complementa perfeitamente o tom do filme, adicionando camadas de profundidade sem jamais parecer manipulativa. É uma escolha visual e sonora que eleva o filme, transformando momentos cotidianos em pequenas epifanias emocionais.
Os momentos de maior impacto, no entanto, estão na interação entre pais e filhas. O documentário nos permite testemunhar essas relações sendo reconstruídas em tempo real. Ver um pai ensinar outro a dar um nó na gravata ou entregar uma flor à filha ao final do baile são gestos carregados de significado, pequenos atos que encapsulam anos de amor não demonstrado e arrependimento profundo. Esses detalhes poderiam facilmente cair na armadilha do sentimentalismo barato, mas Patton e Rae os tratam com delicadeza, permitindo que falem por si mesmos.
Mais do que um filme sobre famílias separadas, “Daughters” é também uma crítica sutil ao sistema carcerário e suas falhas em promover reabilitação e humanidade. O sucesso do programa de paternidade, com uma taxa de reincidência de apenas 5%, é uma prova de que mudanças reais são possíveis quando as pessoas têm a chance de se reconectar com o que realmente importa. E no entanto, o filme também nos lembra das barreiras impostas, como a eliminação de visitas presenciais em favor de chamadas remotas caras e impessoais, que apenas aprofundam as feridas.
No geral, o que fica de “Daughters” é a celebração da força dos laços familiares e a ideia de que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, existe espaço para cura e esperança. O filme nos desafia a enxergar além dos erros e a reconhecer o poder transformador de uma dança, de um abraço, de um momento. Afinal, como um dos pais diz: “Por aquelas seis horas, eu não estava encarcerado”. E essa sensação de liberdade – para pais e filhas – é a verdadeira alma deste documentário extraordinário.
Gosto muito de como usa a montagem pra fazer conexões entre as filhas e os pais, quase como uma conversa, ou mesmo pra demonstrar a passagem do tempo. Não tenho tanta certeza se gosto do que vem depois do baile porque, ao mesmo tempo que estende o que poderia ser o clímax, também faz um fechamento muito positivo sobre o que poderia vir depois dessa grande celebração e personagens tendo que encarar a vida real (algo como o finalzinho de A Primeira Noite de Um Homem), também desenvolve ainda mais o argumento da importância do toque físico, vide a diferença da garotinha (Aubrey, eu acho), que era totalmente carinhosa com o pai na dança e totalmente desinteressada e resignada quando tem que falar com o homem por meio de um celular.
É, acho que, enquanto escrevia, percebi que fez sentido estender um pouco mais. E talvez seja a força do documentário.
É legal pensar.
Aquele conteúdo que faz a gente pensar sobre a nossa vida e reclamações indevidas.Netflix mandando outro super documentário.
>Assistido em 30 de Dezembro de 2024
O perdão é a escolha mais difícil tomada por um ser humano. Achei perfeito o "não julgamento" pelo que quer que esses pais tenham feito. Somo seres humanos, cometemos erros, pagamos por eles, mas um pai nunca deixa de ser pai para sua filha.
Amei, me emocionei e me fez refletir muito sobre a vida.
Assistido 15/12/2024