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A obra parte de rolos de filmes fotográficos esquecidos encontrados em uma lixeira. A diretora decide reconstituir, dramatizar e dar contexto às fotografias de pessoas desconhecidas, criando um híbrido curioso entre documentário e ficção.
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Uma grata surpresa descobrir esse filme experimental (que é um documentário com ficção) no Festival Olhar de Cinema – ele teve duas sessões apenas, nos dias 05 e 06/06, na seção Novos Olhares, dedicada a filmes de linguagem experimental). Parte de uma premissa curiosa: a diretora letã (nascida na Letônia) Laila Pakalnina encontrou no lixo de um condomínio 36 rolos de negativos não-revelados, captados por uma câmera profissional antiga. Ao fazer a revelação, encontrou imagens em preto-e-branco de um vilarejo rural, datadas entre as décadas de 60 e 80, de um fotografo anônimo. A partir de uma pesquisa para encontrar aquele lugar, a cineasta reimaginou uma história como se fosse a dela, já que o vilarejo parado no tempo e as pessoas das fotos remetiam a memórias de sua infância na Letônia, um país no Mar Báltico que integrou a extinta União Soviética (URSS). O filme escrito e dirigido por ela mistura documentário com ficção no seguinte sentido: ela grava uma história ficcionalizada, de uma família humilde do campo em seus afazeres, em que encena pessoas da própria sociedade que lembram as figuras reais daquelas fotos antigas. A fotografia de um gato aparece (a foto real revelada) e em seguida ela monta como seria a história daquele animal naquela família. A diretora grava tudo em preto-e-branco, seguindo o padrão das fotografias, faz uma seleção de cerca de 40 imagens e recria essas cenas rurais. Uma galinha correndo alvoroçada, uma idosa bebendo licor, uma competição de corrida de caminhões num terreno arenoso, soldados olhando para a câmera, a neve rigorosa cobrindo plantações e por aí vai. Desse fotógrafo desconhecido, Laila revê suas reminiscências, de um lugar próximo ao que viveu na infância e juventude. Detalhe: todas as fotos reveladas apresentam uma interferência, provavelmente proposital, como objetos na frente, transição em wipe, desfoque, reflexos de espelhos, luzes que atravessam alguém (o que indicia que aquilo era um processo altamente criativo do fotógrafo sem nome). Diretora veterana, hoje com 64 anos, Laila Pakalnina já teve seus filmes concorrendo em festivais como Berlim, Veneza, Locarno e Cannes, tanto longas quanto curtas (no Brasil, muitos de seus docs foram exibidos no festival “É Tudo Verdade”). Agora ela apresenta um novo filme, misterioso, instigante, uma obra cult a ser conhecida. Sem mais sessões no Olhar de Cinema, o filme pode estrear em breve nos cinemas brasileiros. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom