Em Hollywoodgate, no dia seguinte à retirada dos EUA do Afeganistão, o Talibã imediatamente se move para ocupar o complexo Hollywood Gate, alegadamente uma antiga base da CIA em Cabul. O Talibã encontra o que os militares mais tecnologicamente avançados da história deixaram para trás: aeronaves, armas e equipamentos militares valiosos. Perplexo com a tecnologia, Malawi Mansour, o recém-designado comandante da Força Aérea, ordena que seus soldados inventariem e consertem tudo o que puderem. Mukhtar, motivado a um dia conquistar o mundo, chega ao Hollywood Gate com o objetivo de construir uma carreira militar de alto escalão. Enquanto Malawi Mansour e Mukhtar estão focados em maximizar seus próprios objetivos pessoais, seus camaradas continuam a consertar as armas deixadas para trás no Hollywood Gate. AK-47s que antes eram usados pelos EUA e pela OTAN agora estão nas mãos do Talibã; helicópteros e caças que se pensavam destruídos agora bombardeiam de forma letal a oposição, criando danos colaterais incalculáveis no processo; e o uso de documentaristas internacionais para fins de propaganda está em andamento. Ao longo de um ano, o filme expõe a transformação de uma milícia fundamentalista em um regime militar.
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“Hollywoodgate” é um documentário que captura a transição do Talibã de uma força insurgente para o status de regime governante, e ao mesmo tempo, revela as complexas camadas de propaganda, poder e fragilidade que sustentam essa transformação. Sob a direção de Ibrahim Nash’at, o filme é uma experiência tão desconcertante quanto fascinante, que nos coloca no centro de um momento histórico com acesso raro e uma narrativa que incomoda.
Desde o início, há uma tensão palpável em como Nash’at se posiciona dentro do espaço que está documentando. A antiga base americana, conhecida como Hollywood Gate, funciona como um microcosmo para a nova ordem do Talibã. Logo percebemos que a câmera não é apenas uma ferramenta de registro, mas também um elemento na dinâmica de poder. Os membros do Talibã muitas vezes parecem performar para a câmera, conscientes do impacto de suas palavras e ações. Isso é especialmente evidente em Mawlawi Mansour, o Comandante da Força Aérea, cuja presença dominante beira o teatral. Mansour é apresentado como uma pessoa ambiciosa, mas também cínica, determinado a reconstruir os equipamentos militares deixados pelos americanos, transformando helicópteros desativados em símbolos de força renovada.
O filme equilibra habilmente a banalidade da vida diária na base com momentos de profundo impacto simbólico. Soldados brincando com latas de Red Bull esquecidas no freezer dão lugar a cenas de máquinas de guerra recuperadas, em uma transição que encapsula a transformação do caos em controle, pelo menos na superfície. Essa oscilação entre o mundano e o apocalíptico reforça o desconforto do espectador, que é constantemente lembrado de que aquilo que parece rotina é, na verdade, uma preparação para algo muito maior – e mais perigoso.
Há uma inteligência sutil na escolha de Nash’at em capturar não apenas a reconstrução militar, mas também a dinâmica social e cultural do novo regime. Um dos momentos mais impactantes envolve membros do Talibã discutindo as mudanças nas leis sobre os direitos das mulheres. Enquanto eles assistem às notícias, o contraste entre as suas palavras e a realidade devastadora que essas políticas representam é gritante. A crueldade implícita em sua indiferença é tão poderosa quanto qualquer cena de destruição ou conflito armado.
Narrativamente, o documentário também se destaca por aquilo que decide mostrar – ou omitir. Em seus 92 minutos, Nash’at oferece uma visão concisa, mas abrangente, de um cenário em constante transformação. No entanto, ele não cede à tentação de preencher todas as lacunas, deixando o espectador com uma sensação de inquietação e uma série de perguntas sem resposta. Isso é um mérito, não uma falha, pois reforça a ideia de que a história do Afeganistão sob o Talibã ainda está longe de um desfecho.
O clímax do filme é um lembrete brutal do alcance dessa transição de poder. Em uma exibição de força quase coreografada, helicópteros e armas deixados pelos americanos são apresentados como troféus de uma vitória simbólica. É um momento de terror calculado, projetado não apenas para intimidar inimigos externos, mas também para consolidar o controle interno. Nash’at não precisa pontuar essas cenas com comentários inflamados; a frieza das imagens fala por si.
Ainda assim, “Hollywoodgate” nunca perde de vista o contexto humano. Embora a câmera muitas vezes esteja fixada nos símbolos de poder – os líderes, as armas, os helicópteros – há um senso persistente de tragédia maior. O filme sugere, sem explicitar, as consequências de longo prazo para a população afegã, especialmente as mulheres e as crianças, que continuam enfrentando uma crise humanitária agravada pela fome e pela opressão.
“Hollywoodgate” é um exemplo notável de como fazer jornalismo, mas também uma obra que desafia o espectador a confrontar as nuances do que vê. É, ao mesmo tempo, uma janela para o presente e um presságio do futuro, um lembrete de que o que está sendo construído na base de Hollywood Gate pode ter implicações globais. O desconforto que o filme provoca não é apenas resultado do que é mostrado, mas também do que é intencionalmente deixado para o espectador interpretar. Essa ambiguidade é sua força. No geral, Nash’at entrega uma obra que é tanto um documento quanto um alerta, um reflexo de um momento em que o caos ainda molda o destino de uma nação.