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Dirigido pelo sueco Peter Cohen, o mesmo diretor do brilhante Arquitetura da Destruição, Homo Sapiens 1900 aborda um tema polêmico: a eugenia e as teorias de limpeza racial que deram origem ao Nazismo. Baseado em extensa pesquisa de fotos e cenas raros de arquivo, o filme discute como a eugenia e a limpeza racial foram defendidas como formas de aperfeiçoar a espécie humana e criar um novo homem. Esses conceitos foram pesquisados no decorrer do século XX, com várias tentativas de transformá-los em realidade. Homo Sapiens 1900 é um documento precioso sobre a manipulação biológica como arma para eliminar todos os que não se adaptam ao "padrão racial" imposto por um modelo fascista de ideal humano
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
O documentário de Peter Cohen revelador das tendências assumidas pelas ciências, de maneira mais geral, pelas sociedades europeias, pois arquivos de fotos e filmes utilizados deixam claro o fortalecimento da ideia de que seria possíve,l e desejável, a melhoria da raça humana por meio da ciência desde fins do século XIX até chegar a um ponto extremo com o nazismo e fascismo. De fato é sabido que os europeus sempre resistiram a aceitar que poderia haver outros seres humanos espalhados pelo mundo, extra-europa, que foi forçosamente a admitir quando as grandes navegações os puseram no caminho das grandes descobertas; as populações por eles encontradas, e obviamente diferentes deles nunca foi aceita pelos educados europeus, nem e muito principalmente pela igreja católica. Partindo da teoria darwiniana da evolução das espécies, o inglês Francis Galton seria um dos primeiros a defender a criação de uma ciência que pudesse promover a melhoria da espécie humana aplicando um cruzamento seletivo já aplicado à agricultura e à pecuária: a eugenia (A eugenia foi um conceito criado na Inglaterra em 1883 que se difundiu em diversos países no começo do século 20, especialmente nos Estados Unidos e na Alemanha. Apesar da roupagem científica em torno do termo, o movimento eugenista foi essencialmente social, visando à exclusão de elementos indesejados da sociedade a fim de "melhorar" geneticamente a população. Para isso, teorizava que era preciso "cruzar" pessoas com boas características genéticas...). A vida, a família e a sociedade poderiam ser cultivadas como um jardim em que "ervas daninhas" deviam ser distinguidas de plantas úteis. A eugenia poderia assumir uma forma positiva – ideia disseminada de forma pioneira na Europa do Norte, que consistiria em esforços para incentivar o cruzamento entre seres humanos superiores – e uma forma negativa – evitar a reprodução de seres considerados inferiores e mesmo a eliminação de seres nascidos com defeitos, como defenderam eugenistas mais radicais em diferentes países, como os Estados Unidos e a Alemanha (neste caso, postos nas décadas de 1930 e 40). Algumas décadas antes de 1900 – o autor toma essa data como título para destacar a força que a ideia de eugenia teria no século que se iniciava – as leis de Gregor Mendel são redescobertas. Porém, o fortalecimento desta teoria dá origem a uma controvérsia entre os lamarckistas (o meio ambiente forma a hereditariedade) e os mendelianos, sendo a adesão a cada uma destas correntes relacionada à dinâmica política e social de cada lugar. O termo higiene racial, inventado pelo médio alemão Alfred Beltz, propondo eliminar bebês com problemas, isto é uma eugenia positiva reforçada por uma purgação. Criar ciência nova e abrangente, a Biologia Racial e Social. A ideia de uma “raça pura” torna-se popular na Alemanha já em torno de 1900. Na Suécia, em fins do século XIX e início do XX foram levadas a cabo pesquisas sistemáticas em prisões e institutos penais, cidades e paróquias, com atenção às características étnicas e antropológicas. Ali, as políticas e concepções racistas disseminaram-se paralelamente – e muitas vezes, com alguma associação – ao surgimento de um estado de bem-estar social. Portanto, de alguma maneira há um veio economicista, dado que o estado seria o responsável por prover a população de direitos sociais básicos, como saúde, educação e lazer, para ficarmos nos mais básicos e fazer isso com qualquer um seria inaceitável; então, a utilidade da melhoria da raça, ou a obtenção da raça pura contribuiria para restringir os abençoados e largar à própria sorte, os além mar; os "selvagens" do novo mundo e, principalmente os negros das colonias africanas. Unindo estes elementos aparentemente díspares, a valorização do sangue nórdico, até hoje comemorado como o melhor – incluindo aí uma suposta origem pura comum aos alemães – persistirá mesmo no pós-guerra – evidente nas campanhas de esterilização em massa que só deixaram de ser vistas como razoáveis nos anos 1970.
Medições, comparações e hierarquizações dos diferentes formatos de crânio e biótipos permitiriam descobrir a raiz genética, hereditária (natural; portanto, irrefutável!) das desigualdades sociais no interior de cada “nação” europeia e em entre a “civilização” européia como um todo e as excêntricas “raças” vindas de lugares cada vez mais desconhecidos e “primitivos” do globo. Nesse sentido, “a biologia era essencial para uma ideologia burguesa teoricamente igualitária, pois deslocava a culpa das evidentes desigualdades humanas para a natureza ... [e serviria para a] concentração e incentivo às estirpes humanas de valor (em geral identificadas à burguesia ou a raças adequadamente coloridas, como a ‘nórdica’.” (como bem nos mostrou Eric Hobsbawn em seu excelente livro "Era dos Impérios"). Esse intercâmbio (diria eu: "Esse Conluio") entre eugenia e a nova ciência da “genética” – num quadro geral de diversificação e autonomização das ciências – veio à luz pouco antes de 1900 e continuaria a dar frutos. Portanto, é evidente a relação deste fortalecimento da ideia de higiene racial – não apenas entre elites, mas também entre proporções consideráveis das “massas” de diferentes países – e o processo de expansão do imperialismo e do colonialismo. Os pavilhões coloniais das grandes exposições e feiras internacionais apresentariam, desde as últimas décadas do século XIX, curiosos e exóticos seres humanos vindos de áreas colonizadas e/ou dominadas por alguma parte da Europa “civilizada”. Já os Estados Unidos da América, defensores da “democracia liberal na 2ª Guerra Mundial”, foram palco de campanhas racistas contra negros e imigrantes no período. No ano de 1907, mais de 20 estados norte-americanos possuíam leis de esterilização compulsória, que incidiram sobre dezenas de milhares de pessoas. Competições eugênicas, com testes de inteligência e exames médicos de famílias, em que os vencedores recebiam prêmios por portarem “boa herança”. Hollywood expôs a crescente aceitação da ideia de higiene racial no filme “The Black Stork” (A Cegonha Negra) em que um médico convence uma mãe a abandonar seu bebê recém-nascido com defeitos. Só na 2ª Guerra Mundial, em que os soldados americanos combateriam os alemães em duras batalhas, as ideias eugênicas perdem força, por estarem demasiadamente associadas ao nazismo e ao fascismo; não somente por isso, mas os negros era parte considerável do contingente de soldados dos Estados Unidos em combate da Europa. Na Rússia pré-revolucionária, já havia cientistas e intelectuais defensores de alguma forma de eugenia. Mas é na URSS, desde a morte de Lênin, que a preocupação em definir as características do homem socialista perfeito ganha força. Uma biologia socialista (e lamarckista) passa a ter caráter de “dogma”, com a preocupação de definir os comportamentos (ditados pela interpretação dada pelo Estado ao socialismo) que poderiam levar a uma melhoria genética – tendo como contrapartida a proibição de pesquisas genéticas mendelianas, sendo alguns de seus praticantes presos e mesmo fuzilados. O cérebro de Lênin, como mostrado no documentário, seria colocado ao lado de outros homens inteligentes da burocracia e da intelectualidade russa, para ilustrar as características do cérebro/intelecto superior. O principal objetivo (e maior mérito) do trabalho de Peter Cohen parece ser oferecer uma contrapartida à identificação – recorrente em veículos de comunicação de massa e em documentários – das teorias e práticas científicas racistas exclusivamente com o nazismo e o fascismo de meados do século XX. As concepções extremadas adotadas pelos regimes nacionalistas e totalitários já vinham sendo amadurecidas e experimentadas em diferentes países, como fica evidente pela recorrência de temas da eugenia em discursos e plataformas de liberais, reformadores sociais e alguns setores de esquerda, bem nas ideias de amplos setores das classes médias desde fins do século XIX. As controvérsias sobre o significado da hereditariedade biológica produzidas no século XIX – e que tiveram como consequência o surgimento da ciência genética propriamente dita – um impacto significativo nas ideias políticas e científicas do século XX. Cohen está certo ao apontar que hoje, no início do século XXI, quando experimentamos certo declínio de utopias, há um contexto propício para que o ideal de manipulação da vida humana pelas ferramentas biológicas (genética) adquirir nova vida. Desse modo o filme aproveita ao registro histórico e, de alguma maneira, lança luz sobre essas teorias excludentes; veja que o quadro parece, ou quer me parecer propício: super população planetária; crise ambiental inarredável, fome, agora pandemia da COVID-19 e grandes movimentos migratórios globais...não há como não identificar um certo alarmismo controlado, ainda que sejam poucos, muitos poucos quem de fato esteja propenso a resolver a questão...
Documentário de altíssimo nível que explora a historicidade e as especificidades da eugenia e teorias raciais do século 19. Tal relato põe incisivamente pensar a modernidade através da barbárie também, barbárie alicerçada pelos conceitos de raça e pureza.
É um ótimo documentário pra entender o racismo propagado por uma parte da comunidade científica. Fazendo uma conexão histórica você percebe que a Eugenia foi difundida poucos anos antes da escravidão terminar em alguns países, como o Brasil por exemplo, me parece um projeto para tirar qualquer possibilidade de igualdade racial projetado já pensando no pós escravidão. E foi aceito por vários países, de uma forma trágica a Eugenia acaba perdendo sua força com Hitler, infelizmente foi necessário mais uma grande tragédia humanitária para cair por terra. E quando buscamos a Eugenia no Brasil nos deparamos como Monteiro Lobato, bem triste.
Incrível compilação histórica sobre a trajetória do movimento eugênico no mundo e, principalmente, na Europa. Algumas considerações pessoais sobre o material dirigido por Peter Cohen:
- Ponto positivo para a narrativa, que limitou-se a trechos sutis e interpretações nas entrelinhas para julgar o valor ético / moral da eugenia. Porém, ao contrário do que alguns criticaram por aqui, achei perfeita a harmonia entre o texto, a trilha sonora fúnebre e a divisão de períodos sob o vazio do som e tela preenchida em preta - a combinação deu a real alma e significância ao tema abordado.
- A preocupação em traçar a origem do movimento derrubou o mito proferido pelo senso comum de que a questão nasceu junto com a ascensão nazista. Aliás, fica bem claro que trata-se de uma falácia associar a utopia eugênica a grupos de extrema-direita - ambos os extremos do espectro político dão margem para a aceitação da prática. A própria Alemanha de Hitler entende que, para que o plano dê certo, o bem comum da sociedade precisa ser colocado em soberania em relação ao indivíduo, inclusive com uma ostensiva política de combate aos valores cristãos da família tradicional.
- O fato de Peter Cohen ser sueco provavelmente o motivou e também o deu maiores condições de detalhar a relação da eugenia com a Suécia progressiva do início do século XX. Mas tudo leva a crer que outras nações que compõem a Europa Setentrional eram coniventes com a ideia, já que o estereotipo nórdico era exaltado como sinônimo de supremacia racial.
- Foi bacana ver a rivalidade entre mendelianos e lamarckistas contextualizada: quase uma "guerra fria" no ambiente da eugenia. De certa forma, a bipolarização pode ser notada nas diferenças de abordagem do tema entre nazistas alemãs e bolcheviques soviéticos.
- Depois de assistir ao documentário, duas perguntas me vieram à cabeça, que não necessariamente são consequências diretas do conteúdo exposto por Cohen:
1. Até que ponto a mistura generalizada entre diferentes etnias pode ser benéfica para a raça humana? Nota-se que a identidade de um povo correlaciona-se não apenas com seu "biotipo padrão", mas também com a conservação de sua cultura, o que foge de qualquer possibilidade de controle por meio de manipulações genéticas.
2. É verdadeiro afirmar que a euforia eugênica se cessou? Por que costumamos reduzir a questão do aborto quase que apenas ao "direito da mulher" e ao "direito da vida"? Será mesmo que não existe nenhuma ideia de supremacia racial ou classista por trás deste ativismo? Pelo que tenho pesquisado, há indícios fortes que sim.
Enfim, recomendo o documentário a todos!
Nota: 9,5
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