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Feito durante o confinamento, "In My Room" nos mergulha na história comovente de uma mulher no crepúsculo de sua vida, por meio de gravações da falecida avó da diretora. As salas de estar se tornam palcos onde a vida é realizada. A janela se torna um portal para a vida de outras pessoas.
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Não curti
lindo
passaram voando os minutos
Quando nos vemos isolados, o que temos são janelas e duas possibilidades: olhar o exterior (e aí vai de cada um perceber se o esquadro limita ou amplia horizontes) ou para o interior; se perceber como parte de um social, mas também atravessado (e construído) por/ a partir do anterior. Do meu ver, essa dualidade/ ambiguidade está perfeitamente retratada no curta.
Certa vez, Andrey Tarkovsky comentou que o artista nunca trabalha em condições ideais, pelo contrário, o artista existe porque o mundo não é perfeito. A arte seria desnecessária se o mundo fosse perfeito, assim como o homem não procuraria por harmonia, apenas viveria nela.
O confinamento imposto por uma doença impiedosa é, portanto, evidência de um mundo imperfeito em que o artista extrapolaria o eu para buscar o próximo e encontrar sentido e paz nas próprias memórias. É o que muitos artistas fizeram na série de curtas da Netflix, Feito em Casa, e a francesa Mati Diop, de Atlantique, realiza no curta encomendado pela marca italiana Miu Miu.
Para isto, através de áudios gravados, estabelece o laço entre a falecida avó, sobrevivente da segunda guerra e confinada dentro de casa por duas décadas como consequência dos tramas deste período, e si mesma, uma diretora em ascensão. E com a vida dos outros que investiga da janela do apartamento, como se fosse uma versão de James Stewart em Janela Indiscreta, tentando encontrar razão no mundo lá fora que não o mero voyeurismo.
O curta-metragem, lançado há 2 dias no Festival de Veneza, não é nada senão inteligente em transformar a proposta original de apenas exibir as roupas da grife Miu Miu, em um estudo do agora, do presente. Mesmo que a diretora traga ao primeiro plano cortes belos e marcantes, a moda termina em quinto plano, afinal, quem está pensando nela quando muitos lutam pela vida? Mati sabe que as condições do curta não são ideias e não vive em sonhos de que seja, pelo contrário, transforma a contingência momentânea - diferente da vivida por sua avó - em algo poético e tocante.
Belíssimo! O que a diretora faz a partir do projeto inicial - uma exposição filmada de Moda - é brilhante, ressignifica o luto temporão. Fotograficamente esplêndido - mais uma vez, a diretora demonstra afinidade emocional com os efeitos 'neon'! - e sobrepujado de um inevitável aspecto classista - ópera, cotidiano francês, etc. -, é também um documentário poético sobre a relação da diretora com a sua falecida avó, em termos de influências artísticas e descobertas eminentemente femininas. Muito emocionante, por mais que as contradições não sejam apagadas. Aliás, elas são expostas - principalmente, quando a diretora desfila com as roupas que lhe foram impostas para divulgação audiovisual. Ao longe, relampeja. Lindo! (WPC>)