Nobuchi é um homem de atitudes estranhas, não trabalha, não quer ter filhos, é pouco sociável e mantém uma relação fria com a esposa. Suas perspectivas mudam um pouco quando faz um novo amigo, um jovem estudante universitário que se interessa muito em compreender o motivo da sua melancolia, que é um mistério até mesmo para a esposa.
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Em termos de cinematografia é muito bem realizado, remetendo ao cinema clássico japonês de Ozu, Naruse e Mizoguchi especialmente no que concerne ao posicionamento da câmera e fotografia. Acabei me dispersando um pouco do conto até pela minha dificuldade atual com legendas em inglês , logo confesso que perdi boa parte do dilemas das personagens que não me geraram lá muito interesse.
Não aguentei e resolvi assistir antes de terminar o livro: não me decepcionei. Realmente, o cinema oriental é capaz de relacionar o espectador aos anseios, dúvidas e medos dos personagens, com uma sensibilidade única. Quanto aos aspectos técnicos, nunca tinha visto algo parecido no que se refere a fotografia. Ângulos e enquadramentos de ficar de queixo caído, como a cena na água, ou um dos primeiros takes filmando a rua de cima das casas. Já vi outros filmes do diretor, mas Kokoro ganha de longe. Se pudesse daria seis estrelas. Sem dúvida um dos melhores filmes que já vi.
Esboço uma tese de que este filme é embrionário de uma matéria existencial que Ichikawa consolidará nos filmes seguintes, "Harpa da Birmânia" e "O Templo do Pavilhão Dourado", filmes que giram em torno da existência, solidão e morte. Eu fiquei muito impressionado com este filme e principalmente por ele apresentar dois personagens extremamente peculiares: Nobuchi (sensei), um homem cerrado em si, incapaz de relacionar-se com o mundo a sua volta, um homem que carrega profunda tristeza do ser, que aos poucos vai sendo revelada; e Kaji, que nos é apresentado no plano da memória de Nobuchi, personagem que é o símbolo e inspiração do sensei.
Kaji é um personagem que escolhe seguir a vida ascética e tal como o Buda histórico fez aos seus 29 anos, abandonar as doçuras da vida, liberar-se, desprender-se, e seguir o caminho da iluminação, até o momento em que se vê apaixonado pela jovem Shizu. Interessante nesta narrativa é ver como Kaji e Nobuchi caminham para uma mesma direção,
que é a morte como resultado; aliás, solidão e morte,tão bem operados neste filme, será uma operação presente tanto em "Harpa da Birmânia" quanto em "Pavilhão Dourado"
Outro fato interessante é que tanto Nobuchi quanto o harpista de "Harpa da Birmânia" irão deixar seu testemunho, veja-se como Ichikawa toma gosto por operar o recurso da memória. Por isso vejo esse filme como embrionário. uma anotação. uma passagem para... Só tenho a agradecer ao camarada Daniel que, com generosidade, me apresentou diretor e filme. Filme p/ ficar na memória.
Coração (Kokoro), baseado em um clássico da literatura de Natsume Soseki, é um grande filme. Aliás, ainda não tive a oportunidade de assistir a algum filme ruim dirigido pelo grande diretor japonês Kon Ichikawa.
O destaque do filme, como não poderia deixar de ser, é o Masayuki Mori, ator de muito talento que deveria ser mais reconhecido. Ele tinha um olhar melancólico, vago e longe como poucos outros eram capazes de reproduzir. Caso clássico de O Idiota, de Kurosawa, em que ele também dá show.
Outro detalhe digno de nota é a fotografia, e o recurso de close-up muito bem empregado para reforçar o estado de espírito dos personagens, uma sublime tristeza, uma letargia deprimente. Excelente.