Dirigido por
O jornalista Pierre chama seu amigo, o escritor Paul, para lhe ajudar a escrever um roteiro encomendado por um canal de TV, no qual dramatiza o caso real de um homem que levou um tiro de rifle e acusou sua sobrinha, Rosemonde (Bulle Ogier). Ela alegou que o tio se feriu sozinho ao limpar a arma. Ambos manteram suas versões, e por falta de provas, o caso foi arquivado.
Pierre busca seguir um caminho investigativo para construir o roteiro, enquanto Paul prefere criar a história a partir de sua imaginação.
Os acontecimentos do maio de 1968 estavam vivos na mente das pessoas quando o filme foi feito.
Tanner mostra, neste seu segundo longa-metragem, por vezes de forma satírica, o conformismo e conservadorismo na sociedade suíça, onde a rebeldia de Rosemonde não é muito bem-vinda.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
e toda hora eu associando a personagem rosemonde a helena ignez
“Beat é uma revolução cultural ... O fato de não termos satisfação é totalmente culpa daqueles que querem nos dizer que a vida consiste em nada além de submissão e progresso pessoal, respeito e carreira, aprendizado e notas, trabalho e dia de pagamento, diligência e poupança, paz e ordem, lei e decência...”
Uma frase tipicamente rebelde, libertadora. Essa efervescência é um dos pontos-chave na direção de Alain Tanner, mas longe do discurso, ele gosta mesmo é de questionar, e o faz de maneira bastante perspicaz, uma construção bastante compacta de seus personagens, entregando sua direção que passa por três noções muito bem desenvolvidas e que tem tudo a ver com a frase acima: Liberdade, questionamento e conservadorismo.
A primeira noção se mostra primordial se for pegar o filme como um todo. Personagens libertos, em linguajar e movimentação, isso por si (sem precisar saber o que estão dizendo) já levanta a condição de liberdade a altos níveis, transmitindo com grande frescor e leveza uma situação que tem tudo pra ser burocrática, que é escrever o tal roteiro, procurar os envolvidos, fazer perguntas etc. O questionamento vem de forma sutil, em pequenas e satíricas passagens, se aproveitando deliciosamente dos excelentes Jean-Luc Bideau, Jacques Denis e Bulle Ogier. Por último, mas não menos importante, o conservadorismo, por ser talvez o grande impulsionador na filmografia de Tanner, ao menos o motivo de A Salamandra e O Útimo a Rir (os que pude ver até aqui).
Agora me sinto amargurado de ter dado só 4 estrelas pra este filme rs.
O início do filme parece apontar para uma daquelas histórias de investigação policial que já foram feitas aos montes. Mas “A Salamandra”, ainda que contenha seu mistério, envereda por uma exposição de (ótimos) personagens, seguros por um elenco que sabe o que faz. E o ator Jean-Luc Bideau foi, na minha opinião, aquele com mais domínio e espontaneidade em sua interpretação. A história parece andar a passos de tartaruga, mas isso é o que menos importa nesse filme de tintas naturalistas, um filme “preguiçoso”, malandro e zombeteiro, “prisioneiramente livre” assim como sua bela protagonista.
E aquela cena na sapataria, no final do filme, é bem hilária.
Que filme gostoso de assistir! Impossível não simpatizar com Rosemonde, admirar as aleatoridades de Paul e entender a rabugice de Pierre.
O rosto incontrolável, selvagem, insano e belo de Rosemonde no final do filme vai ficar marcado para sempre na minha memória. Que obra estupenda!
"A maioria silenciosa é composta por pessoas como nós, com braços e pernas, que, de tempos em tempos, isoladas pelo sigilo das urnas alinhadas como mictórios, votam em parasitas e canalhas".