O comportamento autodestrutivo de Remo ofusca seu talento. Abril, uma futura amazona, está grávida de Remo e precisa decidir entre ter um filho ou continuar competindo. Os dois competem pelo Sirena.
Em um período em que vejo muitos filmes, é comum que algum deles não receba a devida reflexão e, portanto, talvez o devido reconhecimento.
Embora ainda não o ache um graaande filme, "Às vezes quero sumir" quase me passa assim. Ler alguns comentários e pensar um pouco mais antes de partir para o próximo me fez mudar de ideia sobre ele, que me parece competente na maior parte do que se propos a fazer. Um filme semelhante mas que, um pouco por em minha opinião ser bem melhor mesmo, um pouco por ter visto em condições mais favoráveis, foi Aloners, que me impactou de primeira.
Digo isso tudo porque ao começar a ver Matem o Jóquei! esperava uma coisa. Enquanto ele foi mudando fui me incomodando e pensando se é o caso de não ter mais paciência para filmes mais amalucados como esse. Ao final e depois de pensar um pouco, fica claro que é um filme bastante inusitado, com muita personalidade, que entrega cenas, diálogos e um enredo mesmo bastante interessante. Em alguns momentos parece algo como Lynch encontra Almodóvar.
No fim acho que vale bastante a assistida e me parece bem menos comentado do que mereceria, gostando ou não.
Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
O diretor argentino Luis Ortega, de ‘O anjo’ (2018), lança mais um filme policial inusitado e dessa vez com tom surrealista. Aqui, um jóquei, entregue ao vício, deixa de ganhar as últimas competições por estar sempre bêbado. A máfia está no encalço dele e dá uma última cartada – ou ganha ou morre. Na hora da corrida, o jóquei se envolve num terrível acidente e perde; mas sua vida se transforma quando assume uma identidade feminina para fugir dos mafiosos. O protagonista é um barato, interpretado pelo ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, que despertou atenção no polêmico e trágico ‘120 batimentos por minuto’ (2017). Exibido no Festival de Veneza, é original na forma, tem um humor diferente e uma fotografia extremamente autoral. Exibido no Festival do Rio desse ano. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA NA WEB
Filme com muitos momentos cômicos, especialmente após o acidente. No entanto, acho que aquelas dancinhas foram um pouco exageradas.
Em um período em que vejo muitos filmes, é comum que algum deles não receba a devida reflexão e, portanto, talvez o devido reconhecimento.
Embora ainda não o ache um graaande filme, "Às vezes quero sumir" quase me passa assim. Ler alguns comentários e pensar um pouco mais antes de partir para o próximo me fez mudar de ideia sobre ele, que me parece competente na maior parte do que se propos a fazer. Um filme semelhante mas que, um pouco por em minha opinião ser bem melhor mesmo, um pouco por ter visto em condições mais favoráveis, foi Aloners, que me impactou de primeira.
Digo isso tudo porque ao começar a ver Matem o Jóquei! esperava uma coisa. Enquanto ele foi mudando fui me incomodando e pensando se é o caso de não ter mais paciência para filmes mais amalucados como esse. Ao final e depois de pensar um pouco, fica claro que é um filme bastante inusitado, com muita personalidade, que entrega cenas, diálogos e um enredo mesmo bastante interessante. Em alguns momentos parece algo como Lynch encontra Almodóvar.
No fim acho que vale bastante a assistida e me parece bem menos comentado do que mereceria, gostando ou não.
Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
O diretor argentino Luis Ortega, de ‘O anjo’ (2018), lança mais um filme policial inusitado e dessa vez com tom surrealista. Aqui, um jóquei, entregue ao vício, deixa de ganhar as últimas competições por estar sempre bêbado. A máfia está no encalço dele e dá uma última cartada – ou ganha ou morre. Na hora da corrida, o jóquei se envolve num terrível acidente e perde; mas sua vida se transforma quando assume uma identidade feminina para fugir dos mafiosos. O protagonista é um barato, interpretado pelo ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, que despertou atenção no polêmico e trágico ‘120 batimentos por minuto’ (2017). Exibido no Festival de Veneza, é original na forma, tem um humor diferente e uma fotografia extremamente autoral. Exibido no Festival do Rio desse ano. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA NA WEB